Maravilhas do Mundo Prog: Pink Floyd – Atom Heart Mother [1970]

14 de março, 2013 | por maironmachado
Maravilhas do Mundo Prog
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Por Mairon Machado

Esse ano, o Maravilhas do Mundo Prog irá homenagear os considerados cinco grandes grupos do rock progressivo britânico: Pink Floyd; Genesis; Yes; King Crimson e Emerson Lake & Palmer. Apesar de tantos outros grupos britânicos do gênero terem se destacado com relevância no cenário progressivo mundial, esses cinco foram os que conquistaram mais seguidores, e até hoje, são os que mais venderam LPs dentro do estilo.

Sendo assim, entre os meses de março e novembro, dedicaremos quinzenalmente este espaço para esses que foram verdadeiros geradores de Maravilhas Prog durante suas carreiras.

Começamos então com aquele que seja o mais reconhecido dentre eles. Afinal, qualquer ser humano que tenha um pequeno contato com a música já ouviu falar de Pink Floyd.

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Roger Waters, Nick Mason, Rick Wright (acima); David Gilmour (abaixo)

O grupo já teve uma Maravilha Prog apresentada aqui há algum tempo, mas ela com certeza não é a única. Desde o início do grupo, em 1967, aonde a psicodelia lisérgica dos pubs londrinos incendiava as composições do quarteto formado por Syd Barrett (guitarra, vocais), Roger Waters (baixo, vocais), Rick Wright (órgão, piano, vocais) e Nick Mason (bateria), canções como “Interstellar Overdrive” e “Astronomy Domine” (lançadas no essencial The Piper at the Gates of Dawn) já mostravam pinceladas do caminho prog que os ingleses percorreriam anos depois.

Com A Saucerful of Secrets (1968), veio David Gilmour para o lugar de Barrett, e o Pink Floyd fincava de vez um dos pés no progressivo, com a espetacular suíte-título. A trilha para o filme More (1969), de Barbet Schroeder, bem como a pequena participação na trilha do filme Zabriskie Point (1970, de Michelangelo Antonioni), foram uma fuga eficiente para o novo quarteto passar a experimentar com novos instrumentos, como o moog, mellotron e gravações. Essa mudança pôde ser ouvida no álbum duplo Ummagumma (1969), no qual cada um dos músicos teve seu espaço para fazer o que bem entender, ocupando um disco inteiro de Ummagumma (deixando o outro para gravações ao vivo, repletas de experimentação).

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Contra-capa de Atom Heart Mother

Mas foi com o quinto álbum oficial que o Pink Floyd finalmente lançava sua primeira e verdadeira Maravilha Prog, e para construir a mesma, a tarefa foi árdua. “Atom Heart Mother” é uma incrível suíte de pouco mais de vinte e três minutos, dividida em seis partes, e que causa um espanto inicial ao fã do Pink Floyd, seja ele aquele que apenas conhece “Another Brick in the Wall Part 2″, seja aquele que já tenha um contato maior com álbuns clássicos, como Dark Side of the Moon (1973) e Wish You Were Here (1975), ou até mesmo o mais cavernoso dos fãs, que vive na sua louvação para Barrett.

Com a colaboração de Alan Parsons como engenheiro de som, Ron Geesin como compositor auxiliar, o Coral John Aldiss e a Abbey Road Session Pops Orchestra, o quinteto trancou-se nos estúdios da Abbey Road entre fevereiro e agosto de 1970, para sair de lá com um dos grandes álbuns do rock progressivo, que acabou levando o nome de nossa Maravilha Prog.

A ideia inicial foi tentar aproveitar o material que o grupo havia composto para Ummagumma e Zabriskie Point, e principalmente, inserir cordas ao som do Pink Floyd, o que era algo atraente para os ouvidos principalmente de Waters, Wright e Gilmour. O guitarrista, por exemplo, criou a sessão inicial da canção, originalmente chamada “Theme from an Imaginary Western”, e que posteriormente virou “Father’s Shout”.

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Ron Geesin

Mas, por incrível que pareça, “Atom Heart Mother” ganhou forma em cima do palco. O grupo começou a apresentar versões iniciais da suíte em 17 de janeiro de 1970, no Hull University, de Kingston (Inglaterra), e desde ali, manusearam as diferentes partes apresentadas, até chegarem em uma versão final dois meses depois. Tendo as melodias concluídas, foi a vez da participação de Geesin, responsável por inserir as cordas dentro das linhas musicas do quarteto. O trabalho de Geesin foi estafante, até por que nenhum dos músicos do Pink Floyd sabia ler música. Por outro lado, a gravadora EMI cedeu sua Orquestra para acompanhar as gravações, o que facilitou na questão de preparação para a gravação. por fim, o coral de John Alldis, contando com dezesseis membros, foi chamado para fazer as partes vocais, com o regente sendo o próprio Alldis.

Durante o festival de Bath (27 de junho de 1970), uma versão quase completa de “Atom Heart Mother” foi apresentada ao grande público, com o nome de “Epic”, sendo que originalmente, ela era para ser chamada “The Amazing Pudding”. Somente em 16 de julho de 1970, durante uma apresentação no BBC Radio 1, Geesin sugeriu o título “Atom Heart Mother”, inspirado em uma manchete do jornal Evening Standard, a qual narrava a história de uma mulher possuindo um marca-passo controlado por energia nuclear.

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Nick Mason

Nossa Maravilha surge nos sulcos do vinil através de “Father’s Shout”, com os metais fazendo uma espécie de apresentação dos principais temas da suíte, destacando as trompas e a sobreposição dos instrumentos. Um tema marcado e somos apresentados ao tema central da canção, feito pelas trompas e com o acompanhamento de guitarra, baixo, órgão e bateria. O tal “Theme from an Imaginary Western” aparece, com relinchos de cavalos e galopes, entre as marcações das trompas, e após uma moto cruzar diante dos instrumentos, o tema central é repetido.

Entramos na linda “Breast Milky”, na qual um violoncelo faz o belíssimo solo da canção, enquanto Wright dedilha o órgão, acompanhado pela marcação do baixo. Mason surge fazendo intervenções que acompanham o ritmo das notas do baixo, e o violoncelo dá espaço para Gilmour solar com a slide guitar, acompanhado pelo leve andamento dos demais integrantes do Floyd. “Breast Milky” então ganha um lindo crescendo com a entrada dos metais e do piano, que fazem a base para o solo rasgado e emocionante da guitarra, um dos melhores da carreira de Gilmour. No final dessa sessão, o coral surge fazendo pequenas intervenções, que levam para “Mother Fore”.

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David Gilmour

Nela, o coral predomina. Acompanhado apenas pelo órgão de Wright, o coral surge primeiro com vozes feminininas fazendo um duelo em particular,o qual vai crescendo, trazendo as demais vozes do coral que entoam mais um tema emocionante. A explosão ocorre com a entrada da percussão, com o coral repetindo o tema principal dessa terceira parte em uníssono, destacando a marcação dos barítonos, além de Wright ser um atraente a mais com o seu órgão.

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Rick Wright

É o órgão que nos leva para “Funky Dung” aonde ouvimos apenas uma bluesística jam session, com Gilmour solando sem parar, melódicamente, acompanhado pelo leve andamento do órgão, baixo e bateria. O coral surge, fazendo diversas vocalizações, enquanto Wright delira no piano, levando-nos então ao tema central de “Father’s Shout”, agora com mais pegada pela parte da orquestra.

A repetição deste tema abre “Mind Your Throats, Please”, a mais viajante das partes de “Atom Heart Mother”, abrindo primeiro com os sintetizadores fazendo sons muito estranhos, enquanto ouvimos colagens instrumentais e vocais, além de efeitos diversos. Essa parte era a única que não era apresentada ao vivo, justamente pela alta quantidade de efeitos de estúdio. Os barulhos aumentam o volume, variando entre sirenes, gotas de água e outros efeitos do sintetizador, encerrando a sequência com uma grande explosão.

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Roger Waters

Por fim, “Remergence” abre a parte final da suíte, resgatando diversos trechos da canção, como partes do solo melódico de Gilmour em “Breast Milky”, a sessão inicial de “Father’s Shout” e trechos de “Mind Your Throats, Please”, todos sobrepostos. Os metais ganham força, e assim, a melodia de “Father’s Shout” aparece, após ouvirmos um “Silent in the Studio”, mas de forma um pouco diferente. O violoncelo de “Breast Milky” também retorna, trazendo o derradeiro solo de guitarra, encerrando a suíte magnificamente, com o coral fazendo as vozes finais imitando o tema central de “Father’s Shout”, em um incrível e único arranjo, tanto vocal como instrumental, acabando simplesmente com um longo trecho vocal e os metais sendo soberanos. De arrepiar!

Alguns fatos curiosos envolvendo a gravação de nossa Maravilha Prog são também importantes para entendermos o acabamento final dessa obra. Pela primeira vez, a EMI utilizou o sistema de oito-faixas para registrar um álbum, além de uma mesa de mixagem TG12345, capaz de mixar ao mesmo tempo as oito faixas e vinte microfones. Por conta disso, a EMI exigiu que não ocorresse nenhuma edição na gravação, já que os custos poderiam ser altos, além de poucos saberem manusear o equipamento muito bem na época. Consequentemente, Waters e Mason tocaram as partes de baixo e bateria ao vivo, sendo essa a primeira gravação, que foi mixada posteriormente com os demais instrumentos, que também foram gravados ao vivo.

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“Atom Heart Mother”, apresentada ao vivo na Alemanha

“Atom Heart Mother” foi o encerramento de uma sequência de canções instrumentais que o Floyd fazia no final da década de sessenta, começando com “Interstellar Overdrive” e passando por “A Saucerful of Secrets”. Além do fato de trazer a primeira Maravilha Prog feita pelo Pink Floyd, Atom Heart Mother também foi o primeiro álbum do grupo a conquistar a primeira posição em vendas nas paradas britânicas, sendo fundamental para a consolidação do rock progressivo como estilo favorito dos roqueiros durante o início da década de 70.

Daqui há quinze dias, apresentaremos a segunda Maravilha Prog feita pelo Pink Floyd, a qual é uma das mais belas suítes que o progressivo pariu, e que encerrava os shows do grupo no início da década de 70: “Echoes”.

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1 Comentario

  1. maironmachado disse:

    Micael
    De todas as suítes do Floyd, esta foi sempre a que menos gostei. Não consigo me identificar com ela, e a considero abaixo de Echoes, Shine On, Interstellar ou mesmo Saucerful, outra que não curto tanto assim. O próprio “disco da vaca” não é muito do meu agrado, embora tenha “Summer ’68″, uma das minhas preferidas da banda, e a linda “Fat Old Sun”. “If” acho fraquinha, e “Alan’s Psychedelic Brekfast” não tem como ser levada a sério.

    Mas o Mairon sempre idolatrou este disco, e esta faixa em especial, como bem relatou acima. Eu é que não sei por quê.

    RESPONDER14 de março de 2013 às 9:44

    Fernando Bueno
    Essa faixa é fantástica!!! Mas concordo com o Micael que a Alan’s…. não é uma faixa séria…rs
    Porém fiquei com uma curiosidade imensa para ler sobre Echoes. A minha música preferida da banda. Eu sempre disse que meu sonho é ter um Pink Floyd cover e abrir os shows com Echoes…

    RESPONDER14 de março de 2013 às 10:43

    Mairon Machado
    Blasfêmias estão faceis de serem ditas. Alan’s Psychedelic é linda, principalmente os trechos de violão e piano, uma conclusão fantástica para um período sem igual de experimentação que o Pink Floyd começou no inacabado projeto The Man and The Journey, e aperfeiço-ou em Ummagumma. E Atom Heart Mother é minha suíte preferida do Pink Floyd, mas confesso que Echoes e Shine On estão lado a lado.

    RESPONDER14 de março de 2013 às 11:14

    Adriano Karam
    Não tem como levar a sério é alguém falando mal de “Alan’s Psychedelic Breakfest”.. Que loucura, Deus! Só consigo pensar que a pessoa levou a sério demais o TÍTULO da faixa e ficou prestando atenção às falas e aos ovos fritando, em vez de ouvir as belíssimas melodias de violão, ao piano ESPETACULAR de Wright, ao encerramento glorioso, enfim.. Só lamento. Quanto a “Atom Heart Mother”, é também minha suíte favorita – tanto que não resisti e já coloquei aqui na playlist, hehe -, ficando lado a lado de “Shine On, You Crazy Diamond”, ambas acima de “Echoes”, que não é ruim, mas não alcança toda essa glória. Pelo que sei, quem fez a “montagem” dessa suite foram o Waters e o Mason. O Mason até reclama em uma entrevista que teve uns errinhos de timing. Detalhe: os “errinhos de timing” são justamente o que dá um toque especialíssimo a essa peça; nem parece erro, parece proposital. Por exemplo: no início de “Remergence” os metais do início da suíte não ficam com o tempo forte simultâneo ao tempo forte da marcação – baixo e bateria -, dando um efeito de contratempo LIMDO. haha Valeu por essa, Maicon! =p

    RESPONDER19 de março de 2013 às 10:06

    André Coelho
    Parabéns Mairon. AHM é meu álbum favorito do Floyd. Quatro em cada cinco pessoas que dizem gostar da banda (é verdade que tem muito empolgado), só se referem aos álbuns a partir de Dark Side… Eu já prefiro os anteriores a este.

    RESPONDER19 de março de 2013 às 21:03

    Mairon
    Valeu André. Eu tb prefiro os antenteriores. Abraço

    RESPONDER12 de julho de 2013 às 16:50

    Maravilhas do Mundo Prog: Pink Floyd – Shine On You Crazy Diamond [1975] | Consultoria do Rock
    […] seguidos, vieram pérolas que elucidam o que há de melhor dentro do estilo, ou seja, “Atom Heart Mother” (do álbum de mesmo nome, em 1970), “Echoes” (de Meddle, 1971) e “The […]

    RESPONDER11 de abril de 2013 às 9:14

    Maravilhas do Mundo Prog: Pink Floyd – Dogs [1977] | Consultoria do Rock
    […] canções de estúdio solos individuais de cada membro do grupo, gravou com uma orquestra (“Atom Heart Mother“, em 1970), passou a flertar com sintetizadores (Meddle, de 1971) e lançou o disco mais […]

    RESPONDER25 de abril de 2013 às 8:02

    Igor Maxwel
    Eu como fã do Pink Floyd, considero “Atom Heart Mother” um dos discos mais fracos deles, e um dos piores discos que eu já ouvi na vida (do mesmo modo que eu considero o “21″ da Adele – por sua excessiva repercussão). E olha que eu só ouvi “AHM” apenas uma vez!

    RESPONDER3 de agosto de 2013 às 13:32

    Mairon Machado
    Caro Igor, creio que você deveria ouvir esse álbum novamente, pois ele está muito longe de ser o mais fraco do Floyd (quanto a Adele, concordo FORTEMENTE). Abraços

    RESPONDER3 de agosto de 2013 às 14:36

    Igor Maxwel
    Não adianta Mairon, em relação ao “Atom Heart Mother”, apesar de ter ouvido apenas uma vez, estou seguindo os conselhos que Waters e Gilmour falaram a respeito dele: “compre-o e guarde-o para nunca mais ouví-lo” por Waters e “um monte de besteira” por Gilmour. Concordo com eles.

    RESPONDER5 de agosto de 2013 às 14:29

    Mairon
    aaehoeoaehoiaihoaoihea. que absurdo, aeihahieaoeohae :v

    RESPONDER5 de agosto de 2013 às 16:13

    Elardenberg
    Igor, faça um favor aos seus ouvidos: Escute, se não quiser ouvir o álbum todo, ao menos “Summer 68″ e “Fat Old Sun”. Se não mudar de opinião com os teclados de Wright na primeira e o solo de Gilmour na segunda, é porque esse álbum realmente não é pro seu gosto, e nem precisa ouvir essa maravilha prog aí descrita
    Só uma coisa: não confie muito nos comentários dos artistas, o Wakeman, por exemplo, não gosta do Tales…

    RESPONDER27 de fevereiro de 2014 às 20:20

    Igor Maxwel
    O Rick Wakeman não gosta de “Tales from Topographic Oceans”, mas eu gosto dele mais do que qualquer coisa que existe neste mundo. Agora sobre o caso “Atom Heart Mother”, realmente não dá pra engolir!

    Agora eu faço um desafio ao pessoal da Consultoria do Rock. Quero que cada um dê sua opinião: qual celebridade a vaca de “Atom Heart Mother” simboliza para você? Meu voto vai para a Anitta, aquela ridícula cantora de funk que eu particularmente detesto. Não é a toa que o Pink Floyd na capa de AHM fez uma homenagem á ela, mesmo 23 anos antes da Anitta nascer!

    RESPONDER28 de fevereiro de 2014 às 14:25

    Mairon Machado
    aheuaheuaheuae. Esse Igor, hauehauehauea

    Para mim, a vaquinha é uma justa homenagem a Claudia Leitte. Eita “lôra” antipática

    RESPONDER28 de fevereiro de 2014 às 18:10

    Igor Maxwel
    Espera aí Mairon Machado, pra mim a Claudinha Leitte e a Hellen Caroline são as duas melhores cantoras do Brasil, o que não é o caso da ridícula da Anitta e também da imbecil da Paula Fernandes.

    28 de fevereiro de 2014 às 18:18

    Silvio Guerra
    AHM é a melhor coisa que já ouvi na vida juntamente com echoes.
    Faz exatamente um ano que só ouço essas duas suítes e também o restante do disco em vinil, é claro.

    RESPONDER20 de fevereiro de 2014 às 18:15

    Mairon Machado
    EU fiquei um bom tempo entre as duas tb Silvio. E ainda hj, as vezes é só o que rola durante dias

    RESPONDER20 de fevereiro de 2014 às 18:28

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