King Crimson – Larks’ Tongues in Aspic [1973]
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Por Adriano KCarão
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Formação que gravou o disco |
Não fosse o notável histórico de experimentações no som do King Crimson, eu diria que esse álbum já começa de uma forma nada convencional, pois a primeira faixa, “Larks’ Tongues in Aspic, Part One” não inicia com um riff ou uma melodia introdutória ou mesmo uma sequência de acordes. O que se passa nos primeiros minutos da música são notas diversas tocadas por Jamie Muir em instrumentos de percussão diferentes, produzindo uma cama sonora que mal prende sua atenção. Isso talvez tenha o objetivo de gerar o contraste com o momento posterior, quando o tema minimalista de David Cross faz a música ganhar corpo e, sendo acompanhado pelo rufado da bateria de Bill Bruford, chega a um estado de tensão que estoura na parte mais pesada da música, com o riff tocado por John Wetton no baixo e acompanhado em um contraponto nada barroco pela guitarra endiabrada de Robert Fripp. Vale dizer que esses dois temas, o do violino e o tema pesado de baixo e guitarra, parecem servir de base para os dois temas que compõem a última faixa do disco, “Larks Tongues in Aspic, Part Two”, sendo estes também um mais leve e outro mais pesado. Voltando à parte um, após a repetição desses dois temas, a música entra em seu momento mais anárquico, também com duas partes distintas e com destaque especial ao monstro das baquetas Bill Bruford! Depois disso, a música acalma e David Cross é deixado praticamente só para conduzir o momento da música que mais se aproxima de sua inspiração original, a peça erudita “The Lark Ascending”, do compositor britânico Ralph Vaughan Williams. Em seguida, retorna o tema minimalista de Cross, que agora conduz ao tenso encerramento da música, com o baixo em evidência.
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O maestro: Robert Fripp |
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David Cross, John Wettton, Bill Bruford e Robert Fripp |
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Jamie Muir |
Chegamos então ao segundo melhor momento do álbum, uma faixa tão perfeita quanto “Exiles”, mas bem menos convencional. “The Talking Drum” talvez não faça a bateria falar, mas quando a música termina, você vai estar se lixando pro título! E também para qualquer coisa que não seja o estado de êxtase em que ela vai lhe deixar! A música inicia com um barulho semelhante a zumbidos de inseto e uma percussão aparentemente sem grandes objetivos, até que o baixo entra com o riff que irá repetir durante boa parte da música, sempre acompanhado da bateria. A percussão então passa a caminhar ao lado dos dois, e o violino ensaia sua entrada. À medida que o violino vai ganhando destaque, Bruford adiciona mais firmeza à sua batida, demonstrando que sabe ser genial mesmo quando a música parece exigir apenas o feijão-com-arroz do seu instrumento. Tendo ascendido à posição maior dentro da música, o violino, como novo führer, inicia seu reinado bárbaro e destrutivo, querendo sempre ampliar seu “espaço vital” com escalas belíssimas e angustiantes, e pra isso conta com o ambíguo auxílio da guitarra de Fripp. Esta, tão bárbara quanto o violino, executa um riff esquisito e repetitivo, até ganhar total destaque, parecendo se rebelar contra o jugo de Cross e dando início à parte mais tensa e arrebatadora da música. Fripp pode não dar uma aula de feeling com sua guitarra, mas o que ele cria ao duelar com o violino soa como a tentativa mais bem-sucedida de fazer uma máquina sentir dor. Guitarra e violino parecem então negociar um acordo, o que não significa que a música se torne harmoniosa. Muito pelo contrário! Os dois instrumentos injetam cada vez mais doses de loucura e desespero à música. O violino, tendo domado a guitarra rebelde de Fripp, reina absoluto e, novamente auxiliado por ela, conduz a música ao seu ápice, quando Bruford espanca os pratos, fazendo não sua bateria falar, mas gritar de dor. Retornam os estranhos zumbidos de inseto, e o violino transpira notas cada vez mais agonizantes, até atingir um estágio de tensão tão grande que a música termina liberando tudo em um verdadeiro orgasmo de notas estridentes, orgasmo esse que, no entanto, não parece ter fim.
Difícil acrescentar algo sobre o Larks’ Tongues in Aspic depois desta análise soberba do Adriano. Trata-se, inclusive, de um disco já dissecado de todas as formas, poucas delas, é verdade, com o brilhantismo das palavras que acabei de ler.
Vou então falar do Adriano, um rapaz que devia escrever muito mais por aqui, pois cada texto seu é um presente para quem gosta de música e é um crime ele nos presentear tão pouco. Não li metáforas forçadas, exageros de fã apaixonado ou viagens inconseqüentes. O que transpira o texto é a emoção de quem foi tocado pela música e soube expressar seus sentimentos, com riqueza de detalhes, inteligência e muita honestidade. Difícil crer que o escriba tenha pouco mais de 20 anos e começou a orelhar o prog praticamente ontem.
Esta comunidade pode se sentir orgulhosa de ter colaboradores tão ecléticos nos assuntos que escrevem e tão refinados e sérios na abordagem dos textos. O KC de KCarão, agora respeito ainda mais, não é à toa. Adriano no teclado do computador, em alguns momentos, me lembrou a sofisticação do mestre Fripp em sua guitarra.
Parabéns, meu amigo!
Eu tiro com a cara desse fdp, mas no fundo acho que tenho inveja de sua capacidade de descrição, fugindo do racional e apelando para os sentimentos que a música pode suscitar. Certamente nesse caso, o artigo fez jus à grandeza do fantástico album que aborda. Meus favoritos podem ser "In the Court of the Crimson King" e "Red", mas "Larks'" está logo atrás.
Salve KCarão!
Apesar da crítica "especializada" considerar o álbum: "Int The Court Of The Crimson King" o melhor da banda, aprecio bastante "Larks’ Tongues in Aspic" tmb.
E, depois de ler sua resenha, o ouvirei com "outros olhos" (rsrsrs).
Muuito bom!
Abrçs.
"Red" pode ser o meu disco favorito do Rei Escarlate, mas é inegável a qualidade e a grandeza de Larks'! Ô disquinho bom pacas! É de se imaginar o que a colaboração de Jamie Muir não teria trazido ao KC em anos vindouros se ele não tivesse desistido do mundo para virar monge na Espanha! E o quarteto restante pode não ter atingido a mesma qualidade do Larks' no "Starless And Bible Black", mas no palco era um monstro que devorava qualquer um que se arriscasse a enfrentá-los!
Belíssimo texto, Adriano! Que mais venham da mesma fonte, e com a mesma qualidade!
Baita texto para um baita disco. Não considero este o melhor do KC por que antes eles fizeram duas obras primas: Lizard e Islands, mas a descrição está perfeita sobre todas as faixas. Apenas uma dúvida, não estou certo dessa ter sido a terceira formação do King crimson, já que eles alteraram bastante a formação nos primeiros discos, mas enfim, o texto está ótimo. Parabéns!
Digamos que foi a terceira encarnação.
Hmmm,entendi agora. Vlw Diogo
Ótimo texto. QUanto ao disco é uma obra prima.
Gosto de todas as fases do KC, principalmente a primeira e a da trilogia colorida.
Cês tão exagerando, gente, na boa. xD
No mais, se eu escrevo relativamente bem, é justamente pelo fato de escrever pouco.
Mas então, legal vcs terem curtido! Agradeço pelos comentários. Valeu!
Gaspari, não conta minha idade, senão eu perco o moral! Brincando.. Valeu pela força!
Diogo, se for assim, então sigamos assim: vc inveja meus textos de "expressionismo alemão" e eu invejo sua prolixidade em escrita e revisão impecável!
Lou James, eu nem sabia que cê curtia King Crimson, juro que não esperava seu comentário. Valeu! xD
Micael, vc havia comentado no post do Stick Men Trio sobre o KC no meu nick e eu esqueci de responder. Vc é uma das poucas pessoas que notou de cara. Muitos até me chamam "Kacarão" ou coisa do tipo! xD
Mairon, é como o Diogo disse. Nem sei se eu já tinha escrito "encarnação" ou se foram nossos sobres editores que corrijiram, mas eu quis dizer realmente nesse sentido, de encarnação, pois formação já havia tido mais..
Valeu pelo comentário tb, Leandro!
Eu quis dizer "nossos nobres* editores". Só saiu "sobres" pq não dá pro Diogo editar os comentários, senão esse erro não teria passado pela revisão! =]
Bom texto KCarão… gostei muito! Já ouviu os trabalhos solo de David Cross? se quiser eu te mando!
Abração!
Fala, Romay. Sabia que cê ia curtir as referências expressionistas! xD
Eu vou procurar conhecer o Cross solo em breve, mas pode deixar que eu me arranjo aqui. Utilizo mais o soulseek do que links.
Valeu pelo comentário!
Aproveito pra comentar uma coisa que preferi deixar fora do texto: existe aquele papo de os melhores discos do Styx serem os pares; no caso do King Crimson eu prefiro os ímpares. Tentando fazer um Top 5 dessa fase:
1-Larks' Tongues in Aspic;
2-In the Court of the Crimson King;
3-Red
4-Lizard
5-Starless and Bible Black
E como ficaria um top 5 do KC?
Pra mim ficaria assim:
1 – In the Court of the Crimson King
2 – Discipline
3 – Lark's Tongues in Aspics
4 – Red
5 – Lizard
Complicadíssimo isso. HOJE eu diria:
1. In the Court of the Crimson King
2. Red
3. Larks' Tongues in Aspic
4. Discipline
5. In the Wake of Poseidon
Complicadíssimo esse Top 5, hein?
Como bem disse o Diogo, HOJE eu colocaria:
1 – Red
2 – In The Court Of Crimson King
3 – Larks' Tongues In Aspic
4 – The ConstruKCtion Of Light
5 – In The Wake Of Poseidon
Isso para não citar nenhum ao vivo, como a magistral caixa "The Great Deceiver", o "Nightwatch", o "Cirkus" ou o "Elektrik"…
Essa eu respondo facil
Lizard
Islands
Larks Tongues in aspic
In the Wake of poseidon
Starless and bible back
Como vcs todos têm mau gosto! HAUHAUHAHAUHAUAHUAHUAHHA
Tirando a primeira fase do KC eu só conheço basicamente o Discipline, e não incluiria em um Top 5.
Outra discussão sem sentido..
Todos sabem que o Top 5 do KC é
In the Court of Crimson King
Red
Lizard
Larks Tongues in Aspic
Three of a Perfect Pair
Muito bom texto, Adriano. Dissecou a obra com objetividade e subjetividade na medida, uma linha de escrita que gosto muito. Afinal, estamos falando de arte e arte tem que ser tratada como arte, não como notícia ou narração de jogo de futebol.
O disco é fantástico e vejam só, não sei se isso ocorre com vcs tb: eu tenho uma séria dificuldade de memorizar esse disco assim como um todo. Ele não fixa de fato na minha mente. Isso ocorre com vários outros discos que curto. Pq quando eu o ouço, entro num estado tão paralelo (somado ao jeito como ouço normalmente, com a luz apagada, deitado e sem ficar olhando pro encarte do CD), que a música me atinge num estado de muito relaxamento. Aí eu não consigo "pegar" algumas partes, me soam sempre como novidade! Isso é ótimo. Já a música ruim é ao contrário, me deixa tenso, concentrado e aí eu fico com a porcaria na cabeça!! hahuahuahuahua…doideiras do mundo prog!
Abraço!!
Ronaldo
Ronaldo, comigo isso não acontece, até pq cada um de nós tem sua forma própria de ouvir música. Eu geralmente ouço música fazendo alguma otra coisa, mas quando é um disco assim que eu curto eu costumo apenas ouvi-lo, mas não é deitado nem nada disso, é batendo cabeça! Um amigo meu achava sem noção o fato de eu ouvir Rossini dançando, batendo cabeça.. HAUHAUHAUHA Doideiras do mundo prog cearense! Que bom que vc gostou, agradeço o comentário.
Bueno, esse seu Top 5 aí é Top 5 de mocinha.. Tô só esperando o Top 5 do Daniel!
"Tirando a primeira fase do KC eu só conheço basicamente o Discipline, e não incluiria em um Top 5."
Adriano, estás perdendo grandes discos ao não conhecer aqueles gravados depois da "volta" com o Thrak. Este, o ConstruKCtion , o Level Five e o Power To Believe mostram um KC mais elétrico, mais técnico, mais quebrado, mais inventivo do que a trilogia colorida (que eu gosto também), e que merecem ser ouvidos e apreciados.
Pode ir sem medo de se arrepender!
Micael, a verdade é que eu já ouvi, sim, alguma coisa dessa fase mais recente. Já vi um DVD, que esqueci como se chama, e um otro que o amigo Bueno me passou. E já ouvi alguma coisa que eu acho que é um EP – tô com preguiça de ir no Google xD – e acho que se chama "Vrooom Vrooom", com 4 ótimas músicas, anarquia total! Um Rage Against the Machine de vanguarda! lol
Já que o Adriano (como ele admite) arrumou um jeito de encher de comentários o tópico dele, aqui vai meu TOP (six) do King Crimson:
Formentera Lady
Sailor's Tale
The Letters
Ladies of the Road
Prelude: Song of the Gulls
Islands
Já que o Adriano (como ele admite) arrumou um jeito de encher de comentários o tópico dele
Seu fofoqueiro, era segredo! xD
Não entendo como podem preferir o Islands ao Larks', mas faz parte da vida, né?..
queria encontrar com pessoas para falar de king crimsom e rock prog em geral, mas quase ñ se acha alguém fã desse sublime genero da música.Cara, não tenho nem palavras para descrever sua resenha sobre "larks tongues".Tá pra lá de magistral, magnifíco, maravilhoso.
meu top 5 KC:
In the court of the crimson king
Larks tongues in aspic
red
in the wake of poseidon
islands
Poxa, Danilo! Sei que tô respondendo bem atrasado, mas valeu pelo comentário! Encontrar fãs de prog pessoalmente é realmente algo meio raro, mas pela internet circulam muitos desses freaks e sites como a last.fm são ideais pra esse tipo de conversa sobre gostos musicais em comum! Continue acompanhando a Consultoria que certamente vai encontrar muitas matérias interessantes de prog ou de outros estilos.
Olha só, legal relembrar esse tópico. Deparei-me com o Top 5 do King Crimson que fiz há alguns meses, e chego cada vez mais à conclusão que a constante variação em se tratando de álbuns favoritos é característica das ótimas bandas: Hoje minha lista teria uma mudanças de posição:
1. In the Court of the Crimson King
2. Red
3. Larks' Tongues in Aspic
4. Lizard
5. In the Wake of Poseidon
A minha tb mudou. Esqueci de inseri-la no comentário de resposta ao Danilo e não quis "floodar" o post com 2 comentários seguidos. Ei- la:
1-Larks' Tongues in Aspic
2-In the Court of the Crimson King
3-Lizard
4-Red
5-In the Wake of Poseidon
Amigo, bela "consultoria", realmente a genialidade desse grupo é fantástica. Parabéns pela resenha. Abraços!
Ricardo SG.
Um rispidez vanguarda sem limites de contenção, obra de arte absoluta, nada será igual. King me apresentou a música mais extraordinária que já ouvi, fazendo rock com jazz.