DVD: The Cure – Trilogy [2003]
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Após assistir a um show de David Bowie onde o Camaleão interpretava na íntegra um de seus álbuns (rumores dizem ter sido o disco Heathen, performado ao lado de dez das onze músicas do seminal Low em uma mesma noite de data incerta), Smith teve a ideia de fazer um show executando a sua trilogia na íntegra. A cidade escolhida para tal feito foi a capital da Alemanha, Berlim, pois, segundo Smith, “o ambiente e o clima da cidade se encaixam com os dos discos da trilogia”.
Abrindo com “One Hundred Years” (e sua sintomática frase inicial: “não importa se todos nós morrermos”), o grupo inicia a apresentação tocando em sequência as oito faixas de Pornography, de 1982. Denso, pesado (não no som, mas no clima), melancólico e taciturno mesmo para os padrões do The Cure, este álbum foi lançado em uma época onde os membros da banda estavam a ponto da separação. A convivência e o ambiente interno no grupo não eram nada felizes, e o baixista Simon Gallup sairia da banda durante a subsequente turnê, deixando para a dupla remanescente (o eterno líder Robert Smith e o tecladista e baterista Laurence ‘Lol’ Tolhurst) a então nada agradável tarefa de continuar a saga do The Cure.
A iluminação do palco é primorosa, sempre em tons escuros e sombrios, combinando com as músicas. Já em “Cold”, a iluminação é em tons de azul, dando um ar gélido ao ambiente, mesma sensação que a canção provoca.
Lançado em 1989, Disintegration foi gravado em condições totalmente diferentes das de Pornography. O então quinteto (Smith, Gallup, O’Donnell, Porl Thompson – guitarras e teclados – e Boris Williams na bateria e percussão – Lol Tolhurst, apesar de citado no encarte, não participou das gravações) vinha de dois discos muito bem sucedidos (The Head on the Door, de 1985, e Kiss Me Kiss Me Kiss Me, de 1987) onde havia flertado com um até então desconhecido lado pop e alegre do The Cure, porém sem abandonar totalmente sua veia mais melancólica e sombria, que retornava com força nas composições do então novo disco.
Apesar de todas as suas doze músicas (eram dez no vinil, com duas extras no CD) terem sido apresentadas ao vivo quando da sua turnê de divulgação, na época do lançamento de Trilogy nem todas tinham sua versão on stage conhecidas do grande público (Entreat Plus, álbum contendo Disintegration na íntegra em versões gravadas em 1989 na Wembley Arena, em Londres, só seria lançado em 2010, quando saiu a edição tripla remasterizada comemorativa dos 21 anos do disco de 1989). Assim, o DVD foi uma grande oportunidade para muitos fãs saberem como soam no palco algumas de suas faixas favoritas. E o resultado é muito satisfatório.
Como a refletir o clima menos denso do disco, a própria iluminação é diferente em relação ao primeiro set, sendo mais leve, mais clara, e menos obscura e sombria.
Quanto às músicas, também não há grandes mudanças nos arranjos em relação às versões de estúdio, mas a possibilidade de conferir a íntegra deste grande disco em uma atmosfera live compensa com sobras eventuais faltas de arroubo criativo por parte do grupo.
“Untitled” encerra um set memorável, e a banda novamente deixa o palco, com Robert Smith se despedindo do público com a frase “outros onze anos”, tempo que levou entre o lançamento de Disintegration e o do próximo disco da trilogia.
Entre suas nove faixas, Bloodflowers rendeu mais algumas canções nas rádios mundiais, como as citadas “Maybe Someday” e “The Last Day of Summer”, além de fornecer aos fãs músicas excelentes como a abertura com “Out of This World”, a épica “Watching Me Fall”, a bela “The Loudest Sound” e a própria faixa título.
Na maioria das músicas de Bloodflowers, Bamonte assume a guitarra, soltando o seu lado instrumentista (até então meio escondido no DVD), enquanto Robert Smith fica ao violão. O’Donnel também tem uma participação mais efetiva nas melodias e no arranjo das canções, ao invés de ficar restrito às camas de teclados de Disintegration e Pornography. É neste set também que temos a maior alteração nos arranjos de uma canção, no caso “There is No If…”, que ficou mais leve e dançante do que a original de estúdio.
A faixa-título de Bloodflowers encerra com chave de ouro este espetáculo único e inesquecível, e a banda deixa o palco pela terceira vez, retornando para um bis especial, onde são tocadas duas músicas do disco Kiss Me Kiss Me Kiss Me: a claustrofóbica e angustiante “If Only Tonight We Could Sleep” e a desesperadora “The Kiss”, um dos melhores trabalhos de guitarra da história do grupo, mais uma vez conduzido por Smith, e com mais uma frase que demonstra o clima das canções: “eu nunca quis nada disso”. Talvez outras músicas da discografia da banda se encaixassem melhor no clima do show, como, por exemplo, “Faith” ou “The Top”, faixas títulos de outros discos tão depressivos quanto os da trilogia. Mas as duas escolhidas são um fechamento adequado ao DVD, mantendo o ambiente criado pelos três álbuns tocados em sequência.
Como bônus, além do bis, quase 35 minutos de interessantes entrevistas com os membros da banda sobre o conceito da trilogia, a execução das músicas, o passado e o futuro do The Cure e a importância do grupo para os músicos e para seus fãs.
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Robert Smith |
– No primeiro disco, vá até o submenu de Disintegration, vá até “Plainsong” e coloque o cursor do DVD para a esquerda. Você ganhará acesso a um vídeo gravado por Robert Smith com uma câmera de mão durante a entrada da banda no palco para executar o set de Disintegration.além de imagens do público feitas pela mesma câmera durante a execução de “Plainsong”.
Disco 1
Pornography
1. One Hundred Years
2. A Short Term Effect
3. The Hanging Garden
4. Siamese Twins
5. The Figurehead
6. A Strange Day
7. Cold
8. Pornography
9. Plainsong
10. Pictures of You
11. Closedown
12. Lovesong
13. Last Dance
14. Lullaby
15. Fascination Street
16. Prayers of Rain
17. The Same Deep Water as You
18. Disintegration
19. Homesick
20. Untitled
Disco 2
Bloodflowers
1. Out of This World
2. Watching Me Fall
3. Where the Birds Always Sing
4. Maybe Someday
5. The Last Day of Summer
6. There Is No If…
7. The Loudest Sound
8. 39
9. Bloodflowers
10. If Only Tonight We Could Sleep
11. The Kiss
Excelente descrição Micael. Mais que primar por aspectos instrumentais, passaste o essencial, que é o clima transmitido por um espetáculo desse gênero. Quisera mais grupos tivessem ideias como a que o The Cure teve, não apenas executando discos clássicos na íntegra, mas buscando um fundo temático para que eles se desvelem com propriedade. Só fico pensando se o Springsteen lançasse DVDs a cada disco que ele executa na íntegra ao vivo, seria o êxtase!
Tá aí uma banda que conheço desde pivete, mas que ainda preciso me aprofundar um bocado ainda! Já comecei, já ouvi os dois primeiros, mas ainda falta muuuuito. E me senti encorajado com essa matéria. Depressão é algo com que tenho bastante afinidade, hehe.
Excelente texto, já o conhecia de outro blog e li há muitos anos quando conhecia o Cure e a excelente e heterogênea discografia do grupo.
As músicas dessa banda de alguma forma já fazem parte da minha vida, são uma profusão de emoções, texturas, lembranças e nostalgia que evocam a cada música ouvida.
Muito bom ver que por aqui existem apreciadores da banda, uma das mais subestimadas da música pop.
Obrigado pelo comentário Jonas. Será que você não tinha visto no nosso antigo blog Consultoria do Rock? Estamos como site desde 2013, e é sempre legal ver um comentário de um apreciador de música. Saudações e bom fim de semana