Parece que foi ontem: (Parte 6): O dia em que a Terra parou… para ouvir os Beatles (50 Anos de Love Me Do)

5 de outubro, 2012 | por maironmachado
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Por Marco Gaspari

Excepcionalmente hoje, a sessão Cinco Discos para Conhecer não entrará no ar

Faz de conta que você está lendo isto em outubro de 1964. 

Em 1951, um filme dirigido por Robert Wise e estrelado por Michael Rennie e Patricia Neal fez o mundo refletir sobre os perigos da corrida armamentista no início da chamada Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética. “O dia em que a Terra parou” ( The day the Earth stood still, no original) e sua mensagem escancaradamente pacifista foi baseado no conto Farewell to the Arms, do escritor americano Harry Bates.

Nas telas do cinema pudemos ver o alienígena Klaatu e seu robô Gort aterrissarem seu disco voador na Terra e darem um ultimato aos líderes do planeta para que freassem o desenvolvimento de armas nucleares e de veículos espaciais, pois a possibilidade de humanos explorarem o espaço levando a bordo toda a sua sanha belicista estava preocupando os habitantes de outros sistemas solares.

Depois de ser considerado inimigo e ser baleado assim que desembarcou, Klaatu foge do hospital e conhece a mocinha Helen e seu filho Bobby. Conhece também um humano honesto (um cientista) para quem pede marcar uma reunião com a comunidade científica do planeta. Para mostrar que estava falando sério, faz todos os instrumentos elétricos da Terra parar e, por causa disso, é perseguido e ferido de morte.

Seu poderoso robô Gort resolve então entrar em ação e apenas a frase “Klaatu barada nicto”, pronunciada pela mocinha Helen o impede de arrasar a cidade. Klaatu é salvo pelo robô e antes de partir diz aos cientistas que ou a Terra se alia à pacífica confederação de outros mundos habitados ou será destruída por outros robôs tão poderosos quanto Gort.

Claro que isso foi só mais um filme baseado em mais um conto de ficção científica. A possibilidade de um disco (alienígena ou não) ou mesmo uma praga de zumbis (outro assunto recorrente no cinema e na literatura fantástica) acontecerem fora do cinema ou da literatura não passa de imaginação.

Pois bem, aconteceu.

Há exatos 2 anos, no dia 5 de outubro de 1962, numa cidade chamada Londres, num país chamado Inglaterra, uma legião de artefatos provavelmente provenientes de um estranho mundo chamado Liverpool, no formato de discos achatados e medindo apenas 7 polegadas de circunferência, venceu a densa atmosfera londrina e aterrissou nas lojas de música da cidade.

Sua chegada pode não ter sido tão espalhafatosa, mas em pouco tempo sua mensagem, para muitos ingênua a até piegas, propagada graças às ondas sonoras das estações de rádio locais, começou a provocar estranhas sensações nos habitantes mais jovens de todo o país. A mensagem, convenientemente comunicada em inglês, cantada de forma estridente e apoiada por instrumentos elétricos, começava assim: “Love, love me do, you know I love you, I always be true, so please love me do”. 

Histeria…

Que diabos poderia isso significar? Uma singela declaração de amor? Ledo engano. Nos próximos meses toda a imprensa mundial já gastava tinta alertando para um novo tipo de vírus que estava contaminando adolescentes de todo o planeta. Batizado de Beatlemania, esse vírus afetava o comportamento dos jovens a ponto de levá-los à histeria coletiva.

Afetadas por ele, as garotas rompiam em lágrimas à simples audição das mensagens que começaram a se multiplicar sob a influência direta da tal Beatlemania. Os garotos, por outro lado, passaram a deixar o cabelo crescer e a usar terninhos sem gola e botinhas de salto. A indústria musical, percebendo o fenômeno, passou a explorá-lo comercialmente, procurando novos mensageiros que, inspirados na “Love Me Do” original, pudessem expressar suas próprias mensagens, criando assim um efeito cascata que já está invadindo até mesmo os Estados Unidos.

Bom, mas e a Guerra Fria e a corrida armamentista? Falamos de Klaatu e das preocupações universais quanto ao instinto belicista do ser humano no começo deste texto. Até que ponto essa Beatlemania pode mudar alguma coisa?

A princípio, isso parece não ter nada a ver. Ou será que tem? A Beatlemania é baseada em música, não em armas. Nenhum jovem que canta “P. S. I Love You”, a outra mensagem presente no artefato original, parece incentivado a atos de agressão ao seu semelhante. Será que podemos então presumir que o futuro, que pertence a esses jovens, estará mais inclinado ao amor e à paz? E que um mundo novo nasceu naquele 5 de outubro de 1962?

É possível, embora pouco provável.

Ah, já ia me esquecendo: John, Paul, George e Ringo são os agentes por trás de todo esse fenômeno. São nomes humanos, embora muitos acreditem que eles não sejam deste mundo. Sendo assim, não me surpreenderia se seus verdadeiros nomes fossem Klaatu, Barada, Nicto… e Ringo.



1 Comentario

  1. O Ronaldo disse a situação mais sensata sobre os Beatles que já ouvi. Eles vieram para preencher uma lacuna no rock, que entre 1957 e 1961 ficou órfão de ídolos. E pior que é verdade. E esse texto do Gaspari, enaltecendo que eles vieram do espaço, aumenta ainda mais a pureza e importância da frase do Ronaldo.

    Sensacional Marco, parabéns mais uma vez!

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