Review Exclusivo: Arnaldo Baptista (Porto Alegre, 21 de outubro de 2012)

23 de outubro, 2012 | por micaelmachado
Resenha de Show
5

Por Micael Machado

Imagine um sujeito que, antes de chegar à adolescência, já desenvolveu um talento natural para a música, tanto ao piano quanto ao baixo e ao violão. Junto ao irmão e à namorada, ele cria um dos melhores, mais importantes e influentes grupos musicais que o Brasil já conheceu, seja em que estilo de música for. Ele se casa com a namorada, e a banda faz um enorme sucesso, mas as drogas, as brigas e a fama fazem o casamento terminar e ela abandonar o grupo. Arrasado pela separação, também ele sai em carreira solo, gravando logo de cara um dos melhores, mais importantes e influentes discos do rock nacional. Decide então montar um novo grupo, que abandona depois de dois álbuns (não lançados à época), e que se transforma em um dos melhores, mais importantes e influentes grupos de hard rock cantado em português do país. Após outro registro solo, e cheio de problemas de saúde, é internado em um hospital, de onde tenta “ir embora” pulando pela janela do terceiro andar. O tombo não acaba com sua vida, mas o deixa em coma por um bom tempo, com sequelas que durarão o resto da vida, além de por pouco não o transformar em um vegetal. Com muita fisioterapia e apoio da nova companheira, ele vai se recuperando, grava um novo registro musical (que reflete com exatidão o estado de sua saúde à época), mais outro disco muito tempo depois, e embarca em um retorno do seu grupo original ao lado do irmão (a ex-namorada e esposa não quis participar), sendo aclamado por plateias da Europa e da América do Norte. Exausto pela rotina de viagens, e ainda não totalmente recuperado, abandona mais uma vez o grupo para se dedicar à pintura, mas decide mais uma vez rodar o Brasil com um espetáculo onde interpreta, sem a companhia de uma banda, canções de toda a sua carreira, músicas escritas por outras pessoas, mas que sempre gostou de ouvir, e outras inéditas que compôs ao longo dos últimos anos.

Este é um breve resumo da história de Arnaldo Dias Baptista, verdadeira lenda viva do rock nacional que veio a Porto Alegre com o seu “Sarau o Benedito?” neste domingo, 21 de outubro. Tocando no agradabilíssimo Teatro da UFRGS, o músico levou um grande público ao seu show (os 1500 lugares do local estavam praticamente tomados), não apenas pela beleza de suas composições, mas pelo privilégio de estar tão próximo a um dos maiores músicos que este país já produziu.
Mapa do palco, desenhado pelo próprio Arnaldo
Com vinte minutos de atraso em relação ao horário marcado, Arnaldo entrou no palco para, sozinho ao piano, abrir o show com “Cê Tá Pensando que Eu Sou Lóki?“, do disco Lóki?, de 1974 (sua estreia solo). E sozinho ao piano ele continuou durante todo o show, como já havia sido amplamente divulgado que seria, e em uma situação que não é nada nova para ele (consta que Arnaldo já fazia isso durante a época progressiva dos Mutantes, quando não fazia mais parte do grupo – para quem não sabe, aquele do irmão e da namorada -, mas subia ao palco vestido de cowboy para dar uma “palhinha” no meio dos shows de seu irmão e dos colegas dele).
O fato de estar acompanhado apenas de seu instrumento revela a genialidade e as deficiências do artista Arnaldo Baptista. Genialidade pois, mesmo com todas as sequelas que ainda lhe restam de tudo o que viveu e sofreu, ainda consegue emocionar a plateia (que muitas vezes se dirigia a ele berrando “Gênio” com todo o pulmão) com seu talento ao piano, por vezes executando melodias bastante complicadas (como trechos de compositores clássicos), em outras sequências de canções infantis. Já as deficiências aparecem quando, por vezes, Arnaldo parece esquecer qual a próxima nota a tocar, segurando a melodia com uma mão enquanto a outra permanece suspensa no ar como que tentando adivinhar em que tecla deve cair. Mas isso acontece raras vezes, e é mais uma observação de um chato que parece apenas querer achar algo para criticar do que um problema real para quem assistia ao show.
Arnaldo Baptista
Sem se prender a estilos, Arnaldo intercalou rocks (“Blowin’ In The Wind“, de Bob Dylan, “Rocket Man“, de Elton John, “Yesterday“, dos Beatles, “Honky Tonk Women“, dos Rolling Stones), gospels americanos (“Down by the Riverside”), música infantil (“Gatinho Cetim“), o tema do filme “A Pantera Cor-de-Rosa”, boleros (“Perfidia”), clássicos da dor de cotovelo (“A Casinha Pequenina“, de Sílvio Caldas, de quem seu antigo grupo gravou “Chão de Estrelas”) e da música regional brasileira (“Lampião de Gás”, gravada originalmente em 1958, por Inezita Barroso), músicas do cancioneiro francês, britânico (“My Bonnie”), e italiano (“Santa Lucia”), e apenas duas canções de sua época com o Mutantes (“Balada do Louco” e “Posso Perder Minha Mulher, Minha Mãe, Desde que Eu Tenha o Rock and Roll“, ambas de Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets, de 1972). 
De sua carreira solo, Arnaldo também escolheu poucas canções, com ênfase no citado Lóki? (“Uma Pessoa Só”, “Não Estou nem Aí” e um trecho de “Será que Eu Vou Virar Bolor?” com letra alterada) e em Elo Perdido (de 1988, mas gravado em 1977 ao lado da Patrulha do Espaço, o tal “novo grupo que depois abandonou”, e do qual tocou “Sunshine”, “Trem” e “Sentado ao lado da Estrada”). Ainda houve espaço para “Jesus Volte Até a Terra” (versão em português para a sua “Jesus Come Back To Earth”, e que foi lançada em Disco Voador, de 1987, gravado enquanto Arnaldo se recuperava de seu “acidente”), “Sanguinho Novo” (outra versão em português para uma música originalmente cantada em inglês, desta vez “Young Blood”, de seu segundo disco, Singin’ Alone, de 1982, assim como a interpretação original de “Jesus…”), e pelo menos duas de Let It Bed, de 2004 (“Woody Woodpecker-Everybody Thinks I’m Crazy” e “Nobody Knows”), além das inéditas “I Don’t Care” e “Walking in the Sky” (que deverão estar em seu próximo disco, já batizado de Esphera), tudo isso acompanhado por projeções de suas obras no enorme telão localizado atrás do musico, criando uma apresentação mutante (não resisti ao trocadilho) a cada música interpretada. 
Uma das projeções do telão
Apesar de ter um repertório e partituras apoiados em seu piano, a escolha das músicas parecia decidida por Arnaldo ali, na hora, de acordo com sua vontade. As curtas canções (muitas com menos de dois minutos, algumas não chegando sequer a sessenta segundos), iam se sucedendo com breves intervalos (nos quais o músico agradecia à plateia de um jeito tímido e envergonhado, chegando a dizer que “não merecia tanto”, quando na verdade merece muito mais), o que fez com que, seguramente, perto de quarenta músicas (ou trechos) tenham sido interpretados nos sessenta minutos de espetáculo, e que tornou apurar um set list exato uma tarefa quase impossível.
Após uma senhora da produção entrar no palco e falar qualquer coisa ao pé do ouvido de Arnaldo, tudo se encerrou com “Corta Jaca” (presente em Singin’ Alone e Elo Perdido), mas o pessoal não arredou pé do local até o músico voltar, interpretando novamente “Cê Tá Pensando que Eu Sou Lóki?”, para então deixar o palco de vez, de certa forma frustrando quem queria mais um pouco de sua genialidade.
A bela iluminação do palco de Arnaldo baptista
Pode não ter sido tecnicamente perfeito (e não foi), mas foi uma celebração a um dos maiores artistas que este país já viu surgir, e que, miraculosamente, para nossa sorte ainda é capaz de atos belos e emocionantes como este show. Neste sentido, como qualquer um que esteve presente há de concordar, foi maravilhoso!
“Eu não tô nem aí prá morte, eu quero mais é decolar toda manhã…”

Nota: se por acaso você tiver o set list apresentado, deixe para nós nos comentários! Agradecemos!



5 Comentarios

  1. Tive a honra de ver Arnaldo Baptista em 2007, durante a turnê da volta do grupo. Foi algo anormal. O Teatro lotado estava lá para venerar esse Deus do rock mundial! Uma pena que hoje a imagem dele seja muito associada a sua doença, e que no palco, a sua voz não seja das mais agradáveis. O fato de ele continuar fazendo shows e lançando discos é extremamente positivo, mas por outro lado, é triste saber que o artista não consegue mais executar uma canção por mais de três minutos, e que dificilmente uma banda irá conseguir acompanhá-lo no palco, principalmente pelas deficiências retratadas pelo Micael.
    Arnaldo está em constante processo de renovação. Acompanho seu facebook diariamente e é visível que ele está muito melhor do que em 2007, mas mesmo assim, longe de ser um músico virtuoso como já foi.
    É esperar o novo CD para verificar se essa recuperação realmente está dando frutos ou se vamos receber uma obra um tanto quanto sem sal como foi Let it Bleed, apesar de, novamente, ser invejável em qualquer sentido olhar e ouvir Arnaldo Baptista, mesmo que por uma hora e tocando mais de 40 canções.
    Gênio Maior do rock nacional, e um dos cinco maiores no mundo!!

  2. Marco Gaspari disse:

    Desculpe, Micael, mas ao ler seu texto não consegui controlar o Caboclo Piegas e ele baixou em mim. Tenho um carinho muito grande pela figura do Arnaldo e ela habita algumas de minhas memórias afetivas. Não confunda, porém, o que vou escrever daqui pra frente com pura idolatria de fã. É memória mesmo, imperfeita, falha, cheia de concessões que os anos nos permitem. Até porque chega um momento na vida em que as lembranças começam a querer abduzir a gente. No começo de 1971 eu tinha 15 anos e aos domingos costumava freqüentar uns bailinhos que aconteciam numa escola do bairro do Belém, aqui em São Paulo, aonde ia todo o pessoal da minha escola, que ficava no bairro vizinho do Brás. Havia uma garota, que viria a ser a minha primeira namoradinha mais séria, e foi em um desses bailinhos que a gente começou a namorar. Esses bailes aconteciam na quadra coberta da escola e era discotecado. Alguns deles, porém, de vez em quando, eram finalizados com o show de uma banda qualquer. No dia em que comecei a namorar aquela garotinha linda, uma banda chamada Mutantes era a atração daquela noite e tocaram exatamente no meio da arquibancada, de uns cinco ou seis degraus de cimento, enquanto a garotada dançava na quadra. A música deles que fazia sucesso na época era Top Top e a formação era aquela que lançaria o álbum Jardim Elétrico naquele mesmo ano. Imagine só: uma banda tão idolatrada hoje, tocando num bailinho de escola de bairro para uns 300 ou 400 garotos que se espremiam numa quadra de basquete a menos de três metros dos músicos. Não dá pra esquecer, né? Três anos depois, em 1974, eu tinha 18 anos e estava no primeiro ano da faculdade. Estudava à noite e já tinha um fusquinha mambembe. Nas noites de sexta feira (acho que era esse o dia da semana) costumava gazetear a faculdade e ir até uma igreja no bairro de Pinheiros chamada Igreja do Calvário, onde aconteciam os shows da Tenda do Calvário, que tinha esse nome por causa de um salãozinho mequetrefe que existia embaixo da igreja. Esse espaço era alugado para um bando de bichos-grilos que promoviam shows de rock, invariavelmente finalizados com a chegada da polícia, atraída pela alta concentração de cabeludos puxadores de fumo. Não me lembro de todos os shows que assisti na Tenda, mas me recordo de um do Som Nosso de Cada Dia e de um outro do Arnaldo em plena carreira solo (solo mesmo), ele e o piano, ele (se não me falha a dita memória) vestido com um colant preto e tocando músicas do recém lançado (ou por lançar) Loki. A sensação não deve ter sido muito diferente da sua nesse show que acabou de resenhar. A não ser pelo fato de que o Arnaldo estava em plena forma. É isso aí, meu amigo, nós tivemos o privilégio de ver o Arnaldo em ação, uma das grandes lendas do nosso querido rock. Abração e parabéns pela resenha.

  3. Bah Marco, bateu INVEJA BRANCA total aqui. Jovens dançando ao som do álbum Jardim elétrico é algo sensacional!!!! Que massa!!

  4. micaelmachado disse:

    Marco, inveja branca foi pouco para descrever o que senti ao ler teu comentário! Imagina um show de garotos na escola ao som dos Mutas tocando Jardim Elétrico… coisa maravilhosa! E o privilégio que tivesses de ver o Arnaldo na fase pré ou pós Loki (tanto faz) nem chega aos pés do que eu tive agora! Se hoje ele ainda é genial, naquela época era de outro planeta em termos de originalidade e talento! O bom é saber que sabes valorizar os momentos preciosos que tivesses!

    Obrigado pelo elogio!

  5. lucas nicolao disse:

    Micael, muito boa resenha, além de um documento histórico, obrigado e parabéns!

    em francês ele cantou "Les feuilles Mortes" – talvez mais conhecida na sua adaptação inglesa como "Autumn Leaves".

    abraço!

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