As histórias e o encontro da vaca Henrique com o bobo alegre.

20 de novembro, 2012 | por Marco Gaspari
Artigos Especiais
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Por Marco Gaspari
(Matéria publicada originalmente na poeira Zine nº 29)
HENRY COW
Esqueça Tolkien, estamos falando de Marx. Esqueça Ravel, estamos falando de Varese e Sun Ra. Esqueça tudo o que você aprendeu sobre a indústria musical, pois o que temos aqui é o anticomercial assumido. Nada de forma e conteúdo, mas o conteúdo da forma. Não apenas arte, mas também a política da arte.
Difícil encontrar um clichê para definir o Henry Cow, uma banda formada pelos multi-instrumentistas Fred Frith e Tom Hodgkinson, colegas na Universidade de Cambridge, em maio de 1968. Nem mesmo suas influências eram óbvias: Cage, Elizabeth Lutyens, Coltrane, Zappa, Syd Barrett.
Talvez o único lugar comum na sua história seja dizer que a alcunha da banda surgiu da contração do nome de um compositor americano do começo do século XX chamado Henry Cowell, fato negado por todos os músicos que já passaram por suas diversas formações.
O som da dupla em seus primórdios não diferia muito do que se poderia encontrar na cena londrina, ou seja, um tipo de blues mais solto, mas onde já se podia perceber um certo senso de humor dadaísta ao estilo Bonzo Dog Band. Logo em junho de 68 o Cow fazia sua primeira apresentação, abrindo para o Pink Floyd no Homerton College em Cambridge.
Com a entrada de Joss Graham, Dave Attwood, Rob Brooks e Andy Powell, a dupla se tornou um sexteto e manteve essa formação até o final do ano. Powell, um baixista que também dava suas marretadas na bateria, começou a ter uma certa influência sobre Frith e Hodington e acabou por convencer os dois a dispensar o resto da banda e a seguir como trio, coisa que durou até abril de 69 quando o próprio Powell resolveu tirar o time (mais tarde foi arranjador de orquestra para o Alan Parsons Project).
A vaga de baixista no Cow foi preenchida em definitivo com a entrada de John Greves em outubro de 1969. Quanto ao baterista, depois de vários candidatos entrando e saindo, Sean Jenkins acaba tendo a sorte de ter sua presença na formação da banda que venceu o “Rochortunity Knocks” no começo de 1971, uma competição entre bandas patrocinada pelo DJ John Peel.
O que se ouve na gravação da apresentação do Henry Cow nessa competição já tem um pé na futura sonoridade do grupo, mas o que predomina são as fortes influências do Canterbury Sound, provavelmente devido à admiração que os músicos nutriam por Robert Wyatt e seu Soft Machine.
Fred Frith – “…quando eu era estudante, costumava telefonar para ele (Wyatt). Eu estudava com uma pessoa que era seu vizinho de porta e acabei conseguindo seu número. Ligava pra ele e dizia: “Que tal eu aparecer por aí e me juntar ao Soft Machine?” (risos). Ele era sempre muito amigável, embora um pouco cauteloso. Então a gente se conhecia…
O próximo baterista a ter sua foto no álbum de família do Henry Cow foi Martin Ditchan (que mais tarde tocaria no Núcleus e no Embryo). Com ele nas baquetas a banda saiu para várias apresentações ao vivo, uma delas com o Gong no Glastombury Fair. Mas o batera que acabou assumindo de vez a vaga foi Chris Cutler, contratado em setembro de 1971 após várias audições a candidatos que responderam a diversos anúncios no Melody Maker.
Com Frith, Hodgkinson, Greaves e Cutler na formação, a banda muda-se para Londres e passa a batalhar avidamente por seu espaço. Em fevereiro de 1972 gravam um John Peel Session para a BBC Radio 1 (outro seria gravado em outubro e mais 3 entre 1973 e 1975). Em março um novo integrante, o saxofonista e flautista Geoff Leigh, junta-se à formação. Cada vez mais experimentais no som, eles são convidados pelo produtor Robert Walker a compor e a executar a trilha da peça As Bacantes, de Eurípedes, cuja estréia aconteceu em abril de 1972. Foram três semanas de intenso trabalho que contribuiu de forma definitiva para o entrosamento dos músicos e uma maior definição da sonoridade desejada. Em julho, participam do Festival de Edinburgo e novamente compõem e executam uma trilha sonora, desta vez para uma apresentação do Cambridge Contemporary Dance Group junto com o artista Ray Smith (que mais tarde seria o responsável pelas três capas com as famosas meias do Henry Cow).
De volta a Londres, o quinteto organiza uma série de concertos e eventos denominados Cabaret Voltaire e Explores’ Club no Kensington Town Hall com vários artistas convidados. Foi a partir daí que eles finalmente conseguem uma maior atenção por parte da mídia e das gravadoras.
Dave Stewart (na época tecladista da banda Egg e amigo de Cutler, com quem formou a Ottawa Music Company) – Lembro-me do Henry Cow como uma banda genuinamente experimental, cujo som era bastante distinto dos outros grupos progressivos do começo dos anos 70…os elementos formais de uma composição musical eram subestimados pelos jornalistas de então, que pareciam pensar que para se fazer música bastavam atitude, roupas e cortes de cabelo.
Mas se por um lado alguns jornalistas resmungavam que a música do Cow não era rock’n’roll, Richard Branson, dono do recém criado selo Virgin, estava entre os que percebiam ali a música do futuro. E foi assim que o Henry Cow acabou se tornando um dos primeiros grupos a assinar um contrato com essa famosa gravadora, isso em maio de 1973. A Virgin, como uma pequena gravadora independente na época, procurava patrocinar um movimento musical que fosse ao mesmo tempo pequeno, barato e disponível, e acabou apostando suas fichas em bandas e artistas que tivessem alguma conexão com o Soft Machine e o “Canterbury Scene”.
No final de maio a banda entra no Manor Studios da gravadora, em Oxfordschire, para finalmente gravar seu primeiro LP. O engenheiro de som para 90% do álbum foi Tom Newman, sendo substituído apenas na primeira música, Nirvana for Mice, pelo precocemente genial Mike Oldfield.
The Leg End of Henry Cow (também conhecido como Legend), o primeiro álbum a ilustrar na capa as famosas meias criadas pelo artista Ray Smith (obviamente um trocadilho para o Leg End – final da perna – do título) é um álbum tipicamente canterburiano tanto no arranjo quanto na performance. E apesar dos músicos serem todos de primeira linha, vale a pena destacar duas presenças irresistíveis: o trabalho nos sopros de Geoff Leigh, marcante e personalíssimo em quase todo o álbum, e a incrível e variada bateria de Chris Cutler, que se impõe sobre todos os obstáculos apresentados pela complexidade sonora da banda. A última música do álbum, “Nine Funerals Of The Citizen King”, apresenta outra das futuras marcas registradas do Henry Cow: o discurso político.
Uma das características mais positivas da Virgin nesses seus primeiros tempos era promover um ambiente de camaradagem e cooperação entre os músicos das bandas do seu catálogo. Após a gravação de Legend, a gravadora organizou uma turnê na Grã Bretanha, entre setembro e outubro de 1973, para o Henry Cow e o grupo alemão Faust, outra de suas recentes contratações.
O guitarrista e o baixista originais do Faust não puderam comparecer a essa turnê e foram momentaneamente substituídos por Peter Blegvad (do Slapp Happy) e pelo baixista Ulli Trepte. Algumas apresentações incluíam canjas com as duas bandas juntas no palco ou o Faust tocando com Geoff Leigh na formação. Essa série de apresentações culminou com um show memorável no Rainbow Theatre de Londres.
Procurando novas pastagens para aprimorar seu som, o Cow se envolve em mais uma produção teatral, desta vez uma adaptação de “A Tempestade” de John Chadwick. Imediatamente após, a banda é convidada para o segundo show organizado pela Greasy Truckers, desta vez no Dingwells Dance Hall, junto com o Camel, o Global Village Trucking Co. e o Gong. O evento foi gravado para fazer parte de um futuro disco duplo ao vivo, mas atrasos no começo do show e problemas legais que obrigavam esses espetáculos a serem encerrados até as 2 horas da manhã limitaram a performance do Henry Cow, o último grupo a se apresentar, em menos de 20 minutos. Como o contrato dava a eles o direito a um lado inteiro do futuro LP, decidiram gravar sua participação nesse disco no Manor Studio da Virgin (4 de novembro).
Um ano que foi tão produtivo para o Henry Cow, infelizmente não acabou bem. Depois de uma desorganizada turnê pela Holanda, Geoff Leigh anuncia sua saída do grupo. Como o Cow naquela época estava lotado de compromissos e seu som seguia uma dedicação e disciplina muito rígidas, Geoff viu aumentar cada vez mais as diferenças entre seus interesses musicais e os do resto da banda, optando por tirar o time em dezembro.
Em janeiro de 1974 seu lugar já era ocupado por Lindsay Cooper, que vinha colaborando com a banda Comus (cujo segundo disco sairia pela Virgin) e era figurinha fácil no cenário canterburiano. Cooper tinha uma consistente formação clássica e adicionou ao Henry Cow as sonoridades do fagote e do oboé. Com a nova formação, a banda entra em estúdio em fevereiro para as gravações do seu segundo LP.
Unrest parece mais dois trabalhos de bandas diferentes em um mesmo LP, tal a diferença entre os lados 1 e 2. Mas longe de ser algo negativo, essa diferença escancara a evolução da banda para um som único, completamente distinto das demais bandas progressivas e anti-comercial por convicção. O Lado 1 mostra composições onde as influências clássicas e contemporâneas se fundem num amálgama surpreendente, com os sopros de Lindsay Cooper costurando melodias de corte perfeito. Já o Lado 2 demonstra que a banda carecia de material para um álbum inteiro e aposta no improviso, usando os recursos do estúdio como ferramentas para a montagem de composições muito mais próximas da música concreta. Uma iguaria rara preparada por chefes de cozinha sofisticados: esse é o sabor de Unrest.
Maio de 1974 encontra a banda em plena turnê pela Inglaterra junto com o Captain Beefheart. Essa turnê continua pela Europa e a monotonia de tocar noite após noite as mesmas músicas não combina em nada com a personalidade experimental do grupo. Descobrir que estavam se transformando em uma banda de rock não fez nada bem para os músicos, que decidem pela saída de Lindsay Cooper e cumprem a última parte da turnê como um quarteto. Como era Cooper a peça fundamental no som que o grupo vinha apresentando, sua saída obrigou o quarteto a trabalhar em algo novo e diferente de tudo o que já haviam feito anteriormente. No futuro LP In Praise of Learning, esse novo trabalho foi materializado na faixa “Living In The Heart Of The Beast”.
Mas vamos deixar nosso grupo descansar um pouco das atribulações de sua turnê e se deslocar no tempo e no espaço para falar de uma banda muito importante para a importante na história do Henry Cow.
SLAPP HAPPY

Estamos agora em 1968 e a cidade é Hamburgo, na Alemanha. A cantora alemã de 17 anos Dagmar Krause acaba de se juntar ao The City Preachers, uma banda folk calcada nos modelos americanos de então, que já tinha no vocal principal ninguém menos do que Inga Rumpf (mais tarde front woman dos grupos Atlantis e Frumpy). Com o Preachers ela grava um LP chamado Der Kürbis, das Transportproblem und die Traumtänzer (The Pumpkin, the Problem of Transport and the Dream-dancers) e no ano seguinte a banda acaba. A seguir, Krause e Rumpf se envolvem em um projeto de estúdio chamado I. D. Company que resulta em um LP lançado em 1970. Cada cantora é responsável por um dos lados do LP e o de Krause já apontava sua futura queda para a música de vanguarda.
O clima tenso e competitivo que imperava na cena musical alemã da época, porém, não combinava em nada com o biotipo frágil e sensível de Dagmar. A coisa chegou a tal ponto que ela acaba por sofrer um colapso nervoso e perde a voz, jurando nunca mais cantar profissionalmente.
Lá por 1972, depois de trocar o angustiante meio musical pela atmosfera criativa dos cineastas alemães de vanguarda, Dagmar conhece Anthony Moore, um músico inglês que havia se mudado para a Alemanha atraído pelo efervescente cenário da música experimental no país. A aproximação se deu após o convite feito a Dagmar para ouvir uma trilha que Moore estava compondo para um desses filmes maluquinhos. Os dois se apaixonam e logo se casam.
Moore já havia gravado dois álbuns bem radicais para a Polydor alemã, ambos produzidos por Uwe Nettleback, o mesmo produtor do Faust. Quando chegou na gravadora com um terceiro álbum embaixo do braço, este foi recusado sob a alegação de que a Polydor não tinha mais interesse naquele tipo de som que não vendia nada. Propuseram então que Moore fizesse algo mais pop e comercial e, sem saída, ele topou a empreitada, convidando um amigo americano, o músico, letrista e cartunista Peter Blegvad, para juntar-se a ele e a Dagmar na formação de uma banda, o Slapp Happy.
Nessa época, Blegvad estava muito longe de ser o cantor que se revelou em sua carreira solo anos depois. Ao ouví-lo cantar no estúdio, Dagmar achou melhor deixar suas aflições de lado e soltou sua maravilhosa voz. O resultado, Sort Of, foi lançado ainda naquele ano pela Polydor.
Produzido pelo mesmo Uwe Nettleback, Sort Of contou com a colaboração de alguns membros do Faust. E apesar de lotado de músicos com um pé na vanguarda, o álbum se revelou uma pequena gema pop, de canções simples e primitivas embaladas principalmente pela voz indescritível de Dagmar. A música título é um instrumental bem inusitado, com uma guitarra que soa como se nela tivesse baixado o caboclo The Ventures. Como bem definiu o próprio Blegvad, estamos diante de um perfeito exemplo de “naive rock”.
Mesmo tendo, como prometido, um álbum comercial nas mãos, a Polydor não obteve sucesso de vendas com Sort Of simplesmente porque os músicos da banda se recusavam a fazer shows para promover o álbum. Ao invés disso, assim que o LP foi lançado, os três se mandaram para o interior da Irlanda procurando isolamento para a criação do próximo álbum. Foram 6 meses longe de tudo e de todos, um grande martírio para Dagmar que, ao contrário do marido e do colega, ambos compositores, gostava de viver rodeada de pessoas. Para complicar a coisa, Dagmar engravidou nesse período e ainda teve que enfrentar isolada todas as mudanças hormonais e inseguranças provenientes da gravidez. O saldo positivo foi a qualidade do material composto pela banda .
Novamente reunidos em Hamburgo com Uwe Nettleback e o pessoal do Faust, o segundo álbum gravado pelo Slapp Happy, batizado de Casablanca Moon, revelou-se muito superior ao primeiro, aprimorando ao extremo a veia art rock da banda. Nada disso, no entanto, convenceu a Polydor a lançar o álbum, uma vez que estava totalmente decepcionada com o fracasso comercial de Sort Of. À banda nada mais restou do que enfiar as fitas de gravação embaixo do braço e afogar as mágoas.
Moore e Krause foram para a Inglaterra onde nasceu o filho do casal e Blegvad retirou-se para Paris. Sem contrato e com a grana curta, o que animou a dupla foi um inesperado convite do cineasta David Larcher. Ele estava se preparando para as filmagens de “Monkey’s Birthday”, onde pretendia usar 5 caminhões para percorrer o Oriente, e queria que a banda participasse. Segundo Dagmar foi uma época maravilhosa, vivendo a bordo de um enorme caminhão Mercedes viajando por países exóticos. Nessa viagem ela finalmente chegou à conclusão de que era uma cantora e o que queria fazer da sua vida dali para frente era cantar. Como ela não pretendia mais perder uma única oportunidade de exercer seus dotes vocais, isso foi determinante para a banda desistir das filmagens na Turquia e voltar para a Inglaterra.
A primeira reunião que eles conseguiram agendar em Londres foi com a Island Records. Trancados numa sala com um figurão da gravadora, eles ouviram as fitas com o material inédito e a única observação feita pelo ocupado big boss foi que ele via alguma possibilidade em uma música. Frustrados por serem julgados unicamente pelo aspecto comercial do seu trabalho, continuaram tentando outras gravadoras até que finalmente chegaram à Virgin.
Dagmar (entrevista de 1976) – Você está tão profundamente envolvida com o seu trabalho e é tão frustrante as pessoas olharem apenas os aspectos comerciais e nada mais. E então nós conhecemos a Virgin e eu fui arrebatada por eles. Tudo aconteceu de forma gentil, fácil e amigável. Penso que a Virgin é uma das mais agradáveis gravadoras que existem porque eles ainda têm sensibilidade para coisas que podem se desenvolver e progredir.
A Virgin naquela época tinha uma veia Canterbury Sound e estava abrindo possibilidades para grupos mais experimentais. Eles haviam acabado de contratar o Faust que, junto com o produtor Uwe Nettleback, também foi chutado da Polydor germânica. E mesmo o Henry Cow, que havia iniciado com um som mais canterburiano, já extrapolava as características dessa escola, tornando-se cada vez mais radical.
Mas apesar do pessoal da nova gravadora ter aprovado as músicas do Casablanca Moon, sugeriram que elas fossem regravadas com produção e arranjos totalmente novos, talvez para se resguardar de algum aspecto legal que pudesse ser levantado no futuro pela gravadora alemã. Pela primeira vez no Manor Studios e agora produzidos por Steve Morse, o Slapp Happy se viu cercado de vários músicos de estúdio e até de uma orquestra para alguns arranjos. O resultado é deslumbrante e o álbum é lançado em 1974 apenas com o nome da banda.
Com relação ao Casablanca Moon original, ele só chegou ao mercado em 1980 sob auspícios do selo Recommended Records, de propriedade do músico Chris Cutler. Rebatizado de Acnalbasac Noom, revelou-se uma irresistível mistura de tango, bossa nova , valsas e canções francesas com roupagens pop rock e uma deliciosa irreverência. Os arranjos inesperados, as letras beirando o bizarro e o chame cativante da voz de Dagmar nos fazem duvidar que algum dia esse material tenha sido ao menos ouvido pelo pessoal da Polydor alemã. E se foi, estamos diante de um dos maiores atestados de estupidez da história do rock.
Saber qual é a melhor versão, se a da Virgin ou a original, é irrelevante, pois ambas são primorosas. Mas fãs apaixonados e antagônicos até hoje defendem as virtudes de uma e de outra. De prático mesmo, vale comentar que a faixa “Charlie n’ Charlie” da versão original (que era uma releitura com vocais da música “Sort Off”, do primeiro LP) foi substituída na versão da Virgin pela faixa “Haiku”.
HENRY COW MAIS SLAPP HAPPY
No final de 74 o Slapp Happy já fazia planos para seu segundo álbum pela Virgin. Como eles estavam acostumados a usar bandas de apoio, convidaram o Henry Cow para participar. Em Junho, Robert Wyatt, Fred Frith, Chris Cutler e Lindsay Cooper já haviam participado de uma apresentação do Slappy Happ no John Peel Sessions (que apareceria depois numa coleção de raridades do Robert Wyatt chamada “Flotsam & Jetsom”).
Lançado no começo de 75, Desperate Straights, creditado como Slapp Happy/Henry Cow, foi surpreendente em vários aspectos e o principal deles foi a perfeita harmonia entre duas bandas com propostas tão distintas. Temos aqui todo o lirismo bizarro característico das composições de Moore e Blegvad, mas agora com uma roupagem mais austera e até certo ponto vanguardista proporcionada pelo Henry Cow. O resultado é fantástico e o ponto alto do LP é sem dúvida a performance de Dagmar Krause.
Com certeza, foi em Desperate Straights que o Henry Cow pode constatar todo o poder da voz de Dagmar. Afiada e sinistra, ela seria a porta voz perfeita para o discurso anti-capitalista do grupo. Entre fevereiro e março, o Cow entra em estúdio para gravar In Praise of Learning, desta vez retribuindo ao Slapp Happy o status de convidado.
Para Anthony Moore e Peter Blagvad as sessões de estúdio, no entanto, revelaram-se nada satisfatórias. O grau de exigência e dedicação dos músicos do Henry Cow e a música mais densa, elaborada e políticamente comprometida não tinham nada a ver com as pretensões musicais da dupla. O ponto de ruptura aconteceu logo após as gravações, quando o Cow começou a planejar as apresentações ao vivo. Anthony Moore foi o primeiro a abandonar o barco e Peter Blegvad foi convidado a deixar a banda algum tempo depois. Como Dagmar esperava há muito uma oportunidade de apresentar-se ao vivo, ela resolveu aceitar o convite do Henry Cow e juntar-se definitivamente ao grupo, o que decretou o fim do Slapp Happy (a banda só voltaria a reunir-se esporadicamente a partir dos anos 80).
Dagmar (entrevista de 1976) – O Slapp Happy nunca havia se apresentado ao vivo, o que era frustrante para mim. E eu ficava apavorada com a idéia justamente por nunca ter feito nenhum show. Acho muito difícil mudar as coisas apenas gravando em estúdio e é na frente do público que as coisas acontecem, é na resposta dele que as coisas mudam. Peter e Anthony se resguardavam como compositores, mas para mim isso não bastava. Como cantora, eu sabia que precisava de performances ao vivo, me abrir para o público, e eu jamais poderia fazer isso com o Slapp Happy.
In Praise of Learning não é um disco fácil para uma primeira audição. Pianos fraturados, cacofonias instrumentais e um já evidente cacoete rock in opposition não combinam com ouvidos acomodados e julgamentos cartesianos. Uma segunda chance, no entanto, é fatal para que o vocal de opereta Kurt Weill de Dagmar e a levada épica de algumas faixas comecem a conquistar o ouvinte. É uma obra de muitas virtudes e a maior delas, com certeza, é não deixar ninguém indiferente.
HENRY COW MENOS SLAPP HAPPY
Depois de participar como convidada dos dois álbuns gravados pelo Henry Cow/Slapp Happy, Lindsay Cooper volta à banda e o sexteto Frith, Cutler, Hodgkinson, Greaves, Krause e Cooper partem para uma rápida turnê com Robert Wyatt para promover tanto o In Praise of Learning quanto o álbum Ruth is Stranger Than Richard, de Wyatt.
Mas como o Henry Cow estava cada vez mais radical em seus novos caminhos musicais, seu público na Inglaterra começou a achar sua música inacessível e isso se refletiu nas fracas vendas de seus LPs. Mesmo a Virgin já não se mostrava tão interessada no trabalho do grupo. Em resposta, o Cow foi se fechando cada vez mais em seus ideais anti-capitalistas e partiu para um longo exílio na Europa, deixando completamente de lado qualquer pretensão em relação à Inglaterra.
À bordo de um ônibus que era ao mesmo tempo estúdio e lar, a banda foi para a Itália em julho de 1975 e se aproximou do Partido Comunista Italiano e da Banda Stormy Six.
Depois de alguns concertos no país, começaram a planejar uma turnê pela Escandinávia. Neste momento, porém, John Greaves decide deixar a banda e abraçar um projeto com Peter Blegvad. Dagmar Krause também teve problemas sérios de saúde e pediu um afastamento para se tratar. Comprometidos com a nova turnê, o quarteto restante decide abandonar as composições e se apresentar apenas na base da improvisação.

Em maio de 1976, a banda aproveita sua estada na Noruega para lançar o álbum duplo Henry Cow Concerts pelo pequeno selo underground Compendium (com a aprovação da Virgin que também lançou o álbum mais tarde através de seu selo Caroline). Trata-se de uma compilação de apresentações da banda no Peel Session, na Noruega, num show com o Robert Wyatt e mais um lado só de improvisos. Dentro do novo espírito auto-suficiente da banda, eles cuidaram de tudo, desde a prensagem até a capa do álbum.
Como estavam órfãos de baixista, em junho contratam Georgie Born. Apesar de ser cellista clássica por formação, ela improvisa e toca o instrumento como se fosse um cello. Em 1977 eles retornam à Inglaterra e aproveitam para rever suas relações com a Virgin. Como a gravadora por essa época estava mais interessada nos anarquistas punks do que no comunista Henry Cow, depois de alguma dor de cabeça envolvendo dinheiro, de comum acordo resolvem cancelar o contrato. Junto com o Mike Westbrook Brass Band e o cantor folk Frankie Armstrong, eles formam o projeto The Orckestra e fazem dois concertos em Londres, seguindo depois para duas turnês pela Europa até 1978.
Neste meio tempo, com planos de gravar um novo álbum, as primeiras divergências sérias da história da banda começam a acontecer. Cutler e Frith eram a favor de um álbum de canções enquanto que Hodgkindon e Cooper queriam um disco instrumental. Para piorar, Dagmar resolve sair definitivamente da banda uma vez que sua saúde ainda andava debilitada. Antes disso, porém, ela decide participar das gravações que acontecem em Kirchberg, na Suiça, nos estúdios Sunrise.

No melhor estilo salomônico, dessas sessões dois álbuns distintos são produzidos. Um de canções, que mais tarde sairia com o título de “Hopes and Fears”, mas em nome da banda Art Bears, que consistia de Frith, Cutler e Krause (os outros foram creditados como convidados), e um disco instrumental do Henry Cow, de nome Western Culture, que ainda necessitou de mais duas sessões de gravação, lançado pelo selo Broadcast (de propriedade da banda) em 1979.

Apesar de ser considerado por muitos a obra-prima do Henry Cow, um trabalho totalmente focado e coeso, e praticamente um estatuto sonoro em torno do qual várias bandas pelo mundo se identificariam com o rótulo Rock In Opposition, as divergências dentro da banda eram muito evidentes para serem ignoradas. Após as gravações, os músicos resolvem acabar com a banda, mas propõem ainda uma sobrevida de alguns meses para excursionar por todos os lugares que os abrigaram nos últimos anos.

HENRY COW E O ROCK IN OPPOSITION

A partir de 1974, depois de praticamente abandonar a Inglaterra e começar sua vida nômade pela Europa Ocidental, o Cow travou conhecimento e amizade com diversas bandas afins e procurou entender e absorver os problemas e as características de diferentes indústrias culturais. Foi um período de iluminação, onde se conscientizaram definitivamente sobre os danos causados pela ditadura roqueira imposta por ingleses e americanos.

Em meio a toda subserviência de mercado, no entanto, muitos grupos ainda conseguiam fazer um trabalho original, cantando em sua própria língua e mantendo-se fiéis às suas tradições. Como soldados da resistência, eles faziam da oposição ao imperialismo musical uma atitude estética e política, adquirindo no máximo alguma notoriedade local.


Em 1978, nos últimos meses de existência do Henry Cow, a banda convoca quatro grupos de países diferentes, o Stormy Six (Itália), o Samla Mammas Manna (Suécia), o Univers Zero (Bélgica) e o Etron Fou Leloublan (França) e organiza um festival em Londres com o nome de Rock In Opposition, bem como apresentações em outras cidades para cada grupo em separado.

Naquele momento, RIO era apenas um nome, mas após o festival os grupos se reuniram e formalizaram uma espécie de cooperativa com estatutos e intenções definidas. Depois de novos festivais e a adesão de mais bandas, o RIO foi enfraquecendo até se desativar como organização, mas sua presença como fenômeno cultural permaneceu forte e abrangente.



6 Comentarios

  1. fernandobueno disse:

    Dos discos citados só conheço o Legend e o In Praise of Learning. Como vc disse são discos muito difíceis de se ouvir e se acostumar. Lembro-me que os conheci numa época que fiquei muito tempo em filas de bancos e médicos. Escutava nessas salas de espera e dava para prestar bastante atenção. O rock em algumas músicas aparece de muito longe…

  2. Marco Gaspari disse:

    O Slapp Happy, Bueno, por outro lado, é bem mais pop (comparado ao Henry Cow, claro).E talvez você estranhe menos os discos do Art Bears. E grato pelo capricho na postagem.

  3. Calixto Bogê disse:

    Que golaço Gaspari!!! Texto completo para fãs e iniciantes!!! Parabéns!!!!!!

  4. Anônimo disse:

    "Industry", do álbum "WESTERN CULTURE", penso que seja a mais crimsoniana das faixas do HENRY COW. Essencial em qualquer discografia. Vc precisa escrever mais, Gaspari.Seus textos são ótimos. Um abraço do Maurício de Curitiba (cliente fiel e consumidor voraz de lp's).

  5. Diego Sousa Aragão disse:

    Documentário simplesmente sensacional!!! O Marco Gaspari tinha que escrever um livro! Um conhecedor profundo de vários movimentos dentro do Prog Rock, adorei a matéria e parabéns pelo levantamento histórico do RIO!!!

  6. Diego Sousa Aragão disse:

    Documentário simplesmente sensacional!!! O Marco Gaspari tinha que escrever um livro! Um conhecedor profundo de vários movimentos dentro do Prog Rock, adorei a matéria e parabéns pelo levantamento histórico do RIO!!! (Diego S. A. – Guarulhos, SP)

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