Discografias Comentadas: Quaterna Requiém

23 de dezembro, 2012 | por maironmachado
Discografias Comentadas
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Por Mairon Machado

Fundado em 1987, o Quaterna Réquiem é um dos nomes mais importantes do rock progressivo nacional pós-geração anos 70. Em seus três discos solos, todos instrumentais, prevalecem composições dignas de estarem no topo mais alto das melhores do estilo. Tanto que o grupo foi eleito um dos melhores grupos do rock progressivo na década de 90 por diversas revistas mundo afora.

Liderados pela tecladista Elisa Wiermann e pelo violino de Kleber Vogel, o quinteto carioca mistura barroco, rock pesado, passagens extremamente complicadas em canções/suítes geniais. 


Velha Gravura [1990]

A estreia dessa maravilhosa banda foi há exatos vinte e dois anos. Uma sensacional estreia de Elisa, Kleber, Jones Junior (guitarras), Marco Lauria (baixo) e Claudio Dantas (bateria). A abertura com o violão clássico de “Ramoniana”, tendo um belíssimo solo de flauta duelando singelamente com o violino, é a única em que os teclados de Elisa não aparecem com destaque, até por ser a única canção do álbum que não é sua.

Nas demais cinco composições (todas de Elisa), o melhor do progressivo está presente, desde as peças marcadas dos instrumentos em “Aquartha“, com guitarra e teclados unidos em solos intrincados, a delicadeza no órgão de igreja e nos timbres sutis da guitarra na faixa-título, com mais de doze minutos delirantes, repleto de variações, a majestosa “Tempestade”, trazendo um belíssimo solo de violino e diversas variações de andamento, e a rápida “Tocatta“, com os teclados imitando o som de um cravo, e a quebração comendo solta.

Em todas as canções, o acompanhamento preciso de Dantas é um dos momentos centrais do Quaterna Réquiem, além da perfeita técnica de Elisa, uma das maiores tecladistas do planeta. Destaque maior para a maravilha progMadrugada“, que, apenas com piano e violino, retrata em seus dez minutos de duração com perfeição uma madrugada onde praticamente nada acontece, somente o segundos passam enquanto os seres dormem, em um arranjo emocionante. A versão em CD veio com duas canções inéditas: “Cárceres” e “Elegia”. Um achado na paupérrima discografia prog nacional da década de 90. 


Quasímodo [1994]

Um projeto audacioso. Assim podemos definir Quasímodo. Desde a imponente abertura de “Fanfarra” (uma homenagem as tradicionais “Fanfare” da música clássica), percebemos que a trupê de Elisa veio com gana para outro álbum espetacular. Apesar da saída de Kleber, a identidade do Quaterna é mantida, e dificilmente você irá sentir falta do violino nas cinco composições de Elisa, que caprichou na implementação de elementos clássicos, bem como o fiel acompanhamento de Claudio está presente.

Outras mudanças foram as entradas de Fábio Fernandez e José Roberto Crivano (baixo e guitarra respectivamente). Sergio Dias (não o dos Mutantes) participa no álbum, tocando flauta doce. “Aquintha” virou uma das preferidas dos fãs, recheada de sintetizadores e efeitos que lembram muito a fase progressiva do Rush, mas o que predomina são canções longas, muito mais trabalhadas.

Os Reis Malditos” certamente saiu do fundo das criptas de uma Igreja Medieval, tamanha sua profundidade e principalmente pelo seu andamento, além de um solo arrebatador de Crivano na slide guitar, enquanto “Irmãos Grimm” mistura com perfeição a modernidade do baixo e da guitarra com a crueza do cravo e da percussão. E o que dizer dos trinta e nove minutos da faixa-título? Inspirada no romance “Nossa Senhora de Paris” (Victor Hugo), ela é dividida em sete partes, com direito inclusive a cantos gregorianos, que nos remetem à grandiosas bandas do progressivo mundial, como Yes, Camel, PFM entre outros. Uma obra genial, que assim como seu antecessor, está no hall dos melhores lançamentos do prog nacional.

Vieram os lançamentos do ao vivo Livre (1999), gravado ao vivo no Teatro Scala, no Rio de Janeiro, e o grupo deu uma longa pausa posteriormente, na qual Elisa e Kleber gravaram o ótimo A Mão Livre (2003), esse com a participação d Crivano, Dantas e do baixista Marco Lauria (participante do Quaterna Réquiem na primeira formação), além de outros músicos convidados. Em 2004, um show no Rio de Janeiro foi registrado no DVD Live (2006), comemorando os quinze anos do grupo, e no início de 2012, foi anunciado o novo lançamento do grupo, e não qualquer lançamento, simplesmente o melhor de sua discografia.


O Arquiteto [2012]

O melhor disco do ano de 2012, e como dito acima, o melhor da discografia do Quaterna. Elisa e Kleber voltam a fazer uma dupla afiada, e superam-se em um álbum que certamente, em poucos anos, aparecerá nas listas de melhores de todos os tempos dentro do rock progressivo nacional encabeçando a primeira posição.

Nele, temos a entrada de Jorge Mathias no lugar de Fábio Fernandez, única mudança na formação. São apenas quatro canções, sendo uma única com menos de dez minutos (no caso, a singela e bela “Mosaicos”, apenas com sintetizadores, piano e violão).

As demais, suítes longas e enlouquecedoramente fantásticas, sendo elas a pesadíssima e intrincada “Preludium“, com guitarra , violino e sintetizadores duelando para ver quem é o centro principal de atenção do ouvinte, “Fantasia Urbana“, na qual o órgão de igreja de Elisa está imponente, enquanto Crivano e Vogel travam batalhas medievais com seus instrumentos, na qual Crivano faz a guitarra chorar, e possuidora de um tema que nos remete a “Ave Maria” (Bach).

O encerramento é soberano: com  quase cincoenta minutos de duração, a faixa-título é uma homenagem para diversos arquitetos do mundo. Dividida em cinco partes, cada uma das partes representa uma época e um autor dessa época, saindo desde a Itália Renascentista (“Bramante“) até o Modernismo/Contemporâneo do brasileiro Oscar Niemeyer. Uma suíte incrível, elaborada por uma das maiores gênias da música mundial, Elisa Wiermann, que acompanhada de Cláudio Dantas, Kleber Vogel, Roberto Crivano e Fábio Fernandez, mantém a chama do rock progressivo acesa.

Jorge Mathias, Kleber Vogel, Elisa Wiermann, Roberto Crivano e Claudio Dantas



4 Comentarios

  1. Filipe Mencari disse:

    Tive o privilégio de Assisti-los ao vivo e eles são sensacionais. Além de muito simpáticos.

  2. Velha Gravura é um puta disco! Preciso retornar às minhas audições do Quasímodo, que não considero suficientes, e passar depois pro restante. Será que vc não tá exagerando quanto a'O Arquiteto, Mairon?

  3. Acho q não Groucho. Eu ouvi o Arquiteto inumeras vezes nesses ultimos meses. Discaço com D maiúsculo. E olha que sou fã do Velha Gravura.

  4. Elardenberg disse:

    Mais uma bela indicação do site. Ótima banda. Valeu, Mairon!

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