Discografias Comentadas: Morphine

30 de dezembro, 2012 | por micaelmachado
Discografias Comentadas
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Por Micael Machado

Se a guitarra é um dos principais elementos de um grupo de rock and roll, como caracterizar um trio que não usa o instrumento em suas composições? Surgido em 1989 na cidade de Michigan, na região metropolitana de Boston, nos EUA, o Morphine usava em suas músicas basicamente a voz e o baixo (com apenas duas cordas, e tocado com slide) de Mark Sandman (ex membro do Treat Her Right), os saxofones (barítono e tenor, por vezes tocados simultaneamente) de Dana Colley (ex-Three Colors) e a bateria econômica mas precisa de Jerome Deupree (depois substituído por Billy Conway).

Ao longo de cinco álbuns e uma coletânea de sobras, o trio alcançou reconhecimento mundial, em uma trajetória tragicamente interrompida pela morte de Sandman em 1999. 

Com vocês, como Sandman anunciava nos shows do grupo, “Ladies and Gentlemen, from Boston, Massachusetts, we are Morphine, at your service“!


 Good [1992]

A estreia do Morphine é um belo disco, indicando que o futuro da banda seria brilhante. Composições mais rápidas como “Claire”, “Have A Lucky Day“, “Test-Tube Baby/Shoot’m Down”, “You Speak My Language” e “Do Not Go Quietly Unto Your Grave” contrastam com faixas mais jazzísticas, como “The Only One”, “The Other Side”, a balada “You Look Like Rain” e as duas partes de “I Know You”. Dana Colley tem seu “momento solo” na vinheta “Lisa”, e “The Saddest Song” aparece em uma versão bem diferente daquela interpretada ao vivo ao longo da carreira da banda, bem mais lenta e tendo a participação do saxofone em sua parte intermediária. A sensual faixa título completa o track list daquele que pode não ser o melhor disco da banda, mas já mostrava os caminhos que levariam ao topo. Cabe citar que o baterista Jerome Deupree teve de se afastar do grupo por um tempo devido a problemas de saúde, sendo substituído temporariamente por Billy Conway, que chegou a participar do disco nas faixas “You Speak My Language” e You Look Like Rain”. Jerome voltaria a tempo da turnê, e participaria do segundo disco do Morphine.


Cure For Pain [1993] 

O último álbum com Jerome Deupree é considerado quase unanimemente como o melhor momento da banda, e com toda a razão.

Após a calma (e curta) intro “Dawna”, o CD já começa com aquela que talvez seja a música mais conhecida da carreira do Morphine, a sensacional “Buena”, com seu envolvente ritmo de baixo e bateria, complementado pelo saxofone de Dana, e que ganhou um vídeo clipe, assim como a agitada “Thursday” e sua divertida letra.

Billy Conway, que havia feito uma participação especial em Good, aparece de novo aqui, tocando bateria na faixa título (outro destaque) e em “Let’s Take a Trip Together”, onde a voz de Sandman aparece cheia de efeitos. “All Wrong“, além de ser uma excelente composição, chama a atenção pelo uso do pedal wah-wah no solo de saxofone feito por Dana, e “In Spite of Me” é uma faixa diferente dentro do estilo do grupo, com um belo arranjo acústico baseado no uso de violões e do bandolim (tocado pelo músico convidado Jimmy Ryan), e sem a presença do sax.

O ritmo quebrado de músicas como “A Head With Wings” (levada pelo riff do saxofone)  e “Sheila”, junto da agitada “Mary Won’t You Call My Name?”, tornam estas composições contagiantes, contrastando com a calmaria de “I’m Free Now” e “Candy”, talvez as faixas mais jazzísticas do álbum. A triste vinheta “Miles Davis’ Funeral” (que tem o convidado Ken Winokur na percussão) encerra um excelente álbum, que deveria ser ouvido por todos os radicais que pensam que é necessário um solo distorcido de guitarra para que o rock and roll aconteça. Ledo engano!


 Yes [1995]

Seria difícil manter o nível do álbum anterior, mas o Morphine conseguiu! O riff de saxofone que abre o álbum na faixa “Honey White” já é prova de que o grupo não iria deixar a peteca cair, e a música é uma paulada para rocker nenhum colocar defeito, tendo ganho um vídeo clipe.

O álbum marcou a oficialização de Billy Conway como baterista da banda, e sua participação é bastante segura ao longo do álbum. “Radar” e “Sharks” se tornaram obrigatórias no repertório ao vivo da banda, e se destacam ao lado da lenta “Free Love” (com velocidade próxima da usada por bandas de doom metal) e da bela “All Your Way”.

“Whisper” traz o lado jazzístico do grupo para primeiro plano, sendo uma composição bastante sensual, assim como a faixa título e “Super Sex”, em muito graças às linhas de sax e baixo. A tristonha “I Had My Chance”, a bela e calma “Scratch” (e seu fantástico solo de sax) e a estranha “The Jury” fecham o track list do álbum, que se completa com a bela “Gone for Good”, com sua triste letra e que, a exemplo de “In Spite of Me”, do disco anterior, tem o uso de violão e a ausência do saxofone. Outro belo álbum!


 
Like Swimming [1997] 

 Este disco é um pouco diferente de seus antecessores. Algumas músicas (como a faixa título, as jazzísticas “Empty Box” e “Hanging On A Curtain”, ou as rápidas “Murder For The Money” e “Wishing Well“) ainda guardam características dos primeiros registros, mas faixas como “Potion” e “Early To Bed” dão destaque a teclados em seu arranjo (estes a cargo de Sandman).

Já a vinheta “Lilah” possui algumas melodias do oriente médio nas linhas do baixo, e a marcante “Eleven O’Clock” tem algumas passagens de guitarra elétrica e um clima meio psicodélico, características que não apareciam nos outros discos da banda.

A terceira parte de “I Know You” é menos jazzística que as duas primeiras (presentes em Good), mas é bastante interessante também, e o desejo de Mark na jazzística “French Fries With Pepper” (“em nove de nove de noventa e nove eu espero estar sentado na varanda bebendo vinho tinto e cantando ‘Oh, batatas fritas com pimenta'”) infelizmente não se realizou.

O disco encerra com “Swing It Low”, que destaca a percussão de Billy e alguns arranjos de teclado, em uma melodia bastante sensual e agradável. Like Swimming é menos interessante em relação aos três primeiros, mas ainda assim bastante apreciável.


 B-Sides and Otherwise [1997]

Os “otherwise” (“de outro modo”, em português) do título desta compilação referem-se a faixas gravadas para trilhas sonoras de filmes como “Get Shorty” (“O Nome do Jogo” no Brasil, de onde veio a agitada “Bo’s Veranda”) ou “Coisas para fazer em Denver quando você está morto” (“Things To Do In Denver When You’re Dead”, no original, para a qual o Morphine gravou a instrumental “Mile High”, com toques de flamenco no violão, além do uso de um naipe de metais), além de participações nos tributos aos escritores Jack Kerouac (a própria “Kerouac”, com letra recitada por Sandman) e Ernest Noyes Brookings (“Mail”, outra com letra recitada), além de faixas extras lançadas apenas no Japão (a divertida “Pulled Over The Car“, bônus do CD Yes) ou Austrália (a calma e jazzística “Virgin Bride”, bônus de Like Swimming).

Três dos lados B são ao vivo (“Have A Lucky Day”, “All Wrong” e “I Know You-Part Two”), e nos demais os destaques ficam com a percussiva “My Brain” (e sua letra interessante) e a agitada “Shame“. A instrumental “Sundayafternoonweightlessness” (uma das coisas mais próximas do jazz que o Morphine já registrou, e que lembra a fase inicial do King Crimson em certos momentos) e a experimental “Down Love’s Tributaries” completam o track list de um disco que serve mais como curiosidade para os iniciados do que um CD essencial em sua coleção.


The Night [2000]

Era 03 de julho de 1999 e o Morphine estava no palco do festival “Nel Nome del Rock”, na cidade de Palestrina, na Itália. Após anunciar a segunda música da noite, Mark caiu no palco, e todos acharam que era parte do show.

Quando notou a preocupação e a aflição de seus colegas de banda, o público ficou preocupado, mas o vocalista já estava morto, vítima de um ataque cardíaco fulminante. The Night foi lançado como álbum póstumo em fevereiro do ano seguinte, visto que todas as mixagens finais já haviam sido aprovadas pelo falecido músico.

Bastante diferente dos anteriores, com muito uso de violão, piano e instrumentos de sopro, aponta uma nova direção para o grupo, que infelizmente não pode segui-la. Em termos de arranjos, este é, sem dúvidas, o álbum mais rico da banda, com quase todas as faixas fugindo do esquema “baixo-sax-bateria” dos discos anteriores. Há a presença de teclados, pianos, violoncelos, violões, xilofones, naipes de metais, backing vocals, enfim, muitos instrumentos que não tiveram chance de aparecer nos discos anteriores.

As composições também estão bem mais longas no geral, com algumas passando dos cinco minutos, algo raro na discografia do grupo. “Top Floor, Bottom Buzzer” (uma das que mais parece com as músicas dos primeiros discos) apresenta o consagrado John Medeski no órgão, e o clima jazzístico predomina em faixas como “So Many Ways” (que também lembra algumas das antigas composições), “Souvenir”, a percussiva “The Way We Met” ou a faixa título.

“Rope on Fire” mostra novamente algumas melodias do oriente médio em seu arranjo, algo que já havia aparecido na vinheta “Lilah”, de Like Swimming, e “I’m Yours, You’re Mine” tem alguns efeitos eletrônicos inexistentes em outros registros do grupo. A rápida “A Good Woman Is Hard to Find“, apesar do naipe de matais e da presença de algumas linhas na guitarra elétrica, poderia estar presente em um dos primeiros discos, assim como a lentona “Slow Numbers“. “Take Me With You” encerra este primeiro disco póstumo, apontando uma direção para o rock and roll que nenhuma banda ainda se atreveu a explorar desde então.

Billy Conway, Mark Sandman e Dana Colley ao vivo
 

Um CD ao vivo do grupo (chamado Bootleg Detroit) foi lançado em 2000, assim como a coletânea The Best of Morphine: 1992–1995, do mesmo ano. Em 2009, saiu o duplo At Your Service, com várias faixas inéditas, outras gravadas ao vivo, e versões alternativas de músicas já lançadas. Já a carreira de Mark Sandman (dentro e fora do Morphine) foi repassada no duplo Sandbox, lançado em 2004, que possui faixas solo, com o Hipnosonics (sua primeira banda), ao lado do Treat Her Right, e, claro, com o Morphine. A edição em formato de box set vem com um DVD e um atraente encarte.

Após a morte de Mark, Dana e Billy formaram a Orchestra Morphine (com diversos músicos amigos do falecido vocalista) e excursionaram executando basicamente as músicas de The Night em seu set list, além de alguns sucessos antigos. Os dois continuaram juntos no Twinemen, ao lado da cantora e guitarrista Laurie Sargent, e mais recentemente colocaram em prática o projeto Members of Morphine, com o baixista e vocalista Jeremy Lyons, que inclusive já tem um disco lançado. 

Orchestra Morphine, levando adiante o legado de Mark Sandman
 

O legado de Mark Sandman e do Morphine é eterno, e seu som é uma prova de que o melhor rock and roll pode dispensar o uso da guitarra elétrica. Confira você mesmo, e não fique preocupado se também acabar preso ao vício em Morphine!



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