Matérias mais acessadas da história do Consultoria do Rock: Novembro de 2011

5 de fevereiro, 2013 | por micaelmachado
Artigos Especiais
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Durante os meses de janeiro e fevereiro, o blog estará de férias, por isto estaremos publicando novamente as matérias mais acessadas a cada mês nestes dois anos de Consultoria do Rock, sempre às terças, quintas e sábados. Chegamos ao mês de novembro de 2011.

Em novembro de 2011 foram publicadas trinta e uma matérias, sendo a mais acessada até o final de 2012 esta, por Mairon Machado (a qual, aliás, é a terceira matéria mais acessada da história do Consultoria do Rock):

Datas Especiais: 20 anos sem Freddie Mercury

Por Mairon Machado
Há momentos na vida da gente que marcam para sempre, e que jamais serão esquecidos. Grande parte desses momentos são fatos relacionados à família, como um aniversário, uma viagem de férias, o primeiro filho, a primeira namorada, etc etc. Porém, existem momentos que acontecem e simplesmente, ficam na memória da gente sem se quer ter ligação com a vida pessoal do cidadão. Um bom exemplo disso é a data de 11 de setembro de 2001. Todo mundo que viveu aquele dia se lembra o que estava fazendo no horário em que as Torres Gêmeas foram atingidas por um suposto ataque terrorista, e o que fizeram depois que as mesmas Torres Gêmeas caíram.
O bebê Bulsara
No dia 25 de novembro de 1991, eu estava jogando bola dentro de casa, sozinho, enquanto minha mãe esperava meu pai para jantar vendo o Jornal Nacional. Foi quando o apresentador William Bonner anunciou que, um dia antes, havia ocorrido a morte do maior vocalista do Rock a pisar na Terra: Freddie Mercury.
Farrokh Bulsara veio ao mundo no dia 05 de setembro de 1946, na cidade de Zanzibar, capital da Tanzânia. Muito cedo, mudou-se com os pais para a Índia, onde começou a viver uma vida voltada para a arte. Entre os indianos, o pequeno Farrokh começou a ter aulas de piano, até que aos oito anos de idade, passou a estudar na St. Peter’s School, na cidade de Mubai. Nessa escola, Farrokh teve contato com obras de arte de artistas como Da Vinci e Picasso, e como a escola pertencia à uma classe de professores ingleses, veio o primeiro contato com o rock americano e da Grã-Bretanha, levando-o a formar o grupo The Hectics, o qual tinha como maior referência Little Richard. Foi nessa escola que Farrokh acabou conhecido como Freddie.
Farrokh Bulsara
Aos 17 anos, o agora Freddie Mercury foi com a família para a Inglaterra, fugindo da revolução de Zanzibar e indo morar em Middlesex, Inglaterra. Lá, Freddie passou a estudar arte na Isleworth Polytechnic, vindo a graduar-se em Arte e Deign Gráfico posteriormente na Ealing Art College, quando completou 20 anos. Esse período foi crucial para formar a mente brilhante de Freddie, que iria aparecer para o mundo anos depois.
Ao mesmo tempo que cursava arte, Freddie passou por diversas bandas, ora como vocalista, ora como pianista, até que em 1969, ingressou no grupo Ibex. A partir do Ibex, Mercury passou a frequentar as casas de shows da região de Middlesex. Então, passou a trocar de banda como de roupa, até que em abril de 1970, assistiu a uma apresentação de um grupo chamado Smile.
Faziam parte do Smile Brian May (guitarra, vocais), Roger Taylor (bateria) e Tim Staffel (baixo, vocais). Mercury passou a se aproximar mais e mais do Smile, dando sugestões de roupas, canções a serem tocadas e principalmente, letras. Foi então que May e Taylor decidiram convidar Freddie a participar da banda. Com a saída de Staffel e a entrada de John Deacon, surgia assim o grupo Queen.
Brian May, Freddie Mercury, John Deacon e Roger Taylor,
uma das maiores formações do rock: Queen em 1973
O Queen (nome dado por Mercury) foi o sucessor britânico do Led Zeppelin. Nascido exatamente no auge da carreira do Zeppelin de Chumbo, em 1971, em 1975 conquistou o sucesso. Depois de três álbuns (Queen – 1973, Queen II – 1974 e Sheer Heart Attack – 1974), onde o hard rock pesado predominava, aproximando-se por vezes do progressivo, como podemos conferir em pedras como “Liar“, “Great King Rat”, “Ogre Battle“, “March of the Black Queen”, “Brighton Rock” e “Stone Cold Crazy“, em 1975 o grupo lançou A Night at the Opera, e fez estardalhaços com um dos maiores clássicos da música, “Bohemian Rhapsody“.
Freddie Mercury e Mary Austin (1973)
A mistura de ópera com rock pesado, narrando a letra de um jovem que decide revelar-se ao mundo como homossexual, conquistou o planeta, e levou o nome Queen, conhecido apenas na Grã Bretanha até então, a tornar-se referência em termos de música, inovação, e acima de tudo, arte.
A partir desse álbum, o nome Queen não parou de crescer, e junto dele, o nome de Freedie Mercury. Com performances cada vez mais chamativas, no álbum seguinte a A Night at the Opera, veio outro sucesso, dessa vez “Somebody to Love“, registrado em A Day at the Races (1976). Com News of the World (1977), os poucos que ainda resistiam a curvar-se para a Rainha não aguentaram, e dobraram os joelhos diante de pérolas como “We Will Rock You” e “We are the Champions“, essa um hino entoado em todos os gramados de futebol, quadras de ginásios e qualquer final de evento esportivo que se tem conhecimento.
O sucesso não parou, e em Jazz (1978), o auge das polêmicas envolvendo o nome de Mercury (e do Queen), com a escandalosa pedalada dentro do Wembley Stadium, contando com a participação de mais de 65 garotas totalmente nuas para a gravação de “Bicycle Race“. O clipe foi proibido, mas o single da canção tornou-se um dos mais vendidos da história.
O polêmico poster de Jazz
Porém, pouco depois da turnê de promoção de Jazz, que culminou com o lançamento do fundamental ao vivo Live Killers (1979), Mercury chocou o mundo. Apesar das suspeitas, até então ele vivia com Mary Austin, a qual ele dizia ser a maior inspiração de sua vida. Porém, no final da década de 70, Mercury e Austin já não estavam juntos há cinco anos, e, então, o cantor anunciou publicamente sua homossexualidade.
A partir de então, a música do Queen tornou-se diferente. O primeiro álbum pós-saída do armário de Mercury fugia totalmente das pesadas canções da década de 70. The Game (1980) veio anteceder o pop oitentista, misturando rockabilly (“Crazy Little Thing Called Love”), funk (“Another One Bites the Dust” e “Dragon Attack”), e uma das mais belas canções da carreira do grupo, a linda “Save Me“.

Manchete do jornal Estadão sobre o show do Queen em 1981
Mais sucesso, e performances arrasadoras de Mercury, levaram o grupo para criar a trilha do filme Flash Gordon, que foi lançado em 1981. Seguiu-se uma turnê mundial, onde os brasileiros puderam conferir as incríveis performances de palco do grupo, e principalmente, de Mercury. Em cima do palco, o tímido e quase não-falante Farrokh Bulsara transformava-se em um monstro chamado Freddie Mercury, capaz de arrancar lágrimas de uma estátua com interpretações fabulosas. Freddie não era apenas um cantor, era também um líder, um apresentador, um verdadeiro show-man. Um dos seus maiores prazeres era ouvir o público cantar, e no Brasil, ele emocionou-se com a arrepiante interpretação dos mais de 100 mil fãs que lotaram o Estádio Morumbi no dia 21 de março de 1981.
Em 1982, veio o conturbado Hot Space. Apesar da enorme crítica negativa sobre o disco, é nele que se encontra um dos maiores momentos da música: a união das vozes de Freddie Mercury e David Bowie na imortal “Under Pressure“. Na sequência, Works (1984) deixou como legado a interpretação de Mercury para duas canções que não foram compostas por ele, mas que marcaram época e uma geração: “Radio Ga Ga” (de Roger Taylor) e “I Want to Break Free” (John Deacon).
Freddie Mercury e Montserrat Caballet, no clipe de “How Can I Go On”
Depois de outra turnê de extremo sucesso, que voltou ao Brasil para uma apresentação arrebatadora no Rock in Rio I, Mercury dedicou-se ao seu primeiro disco solo. Mr. Bad Guy foi lançado em 1985, e deixou a marca registrada do garoto tímido de Zanzibar, que havia descoberto sua sexualidade e queria transmiti-la para o mundo da sua forma, e não pelas cobertas do Reinado do qual fazia parte. Um belo disco, com destaque para canções como “Living on My Own”, “I Was Born to Love You” e “Made in Heaven”, e com Mercury fincando o pé no pop oitentista. É nesse período que ele descobre que está com uma grave doença, mas ainda não sabe qual é a mesma.
Entra nos estúdios junto com o Queen para gravar A Kind of Magic (1986), tido por muitos como o melhor álbum da carreira da banda desde A Night at the Opera. Nele, o Queen retoma a veia pesada dos anos 70 em canções como “Gimme the Prize” e “Princess of the Universe”, mas exala emoção na balada “Who Wants to Live Forever“, mantendo-se no topo dos hits com “A Kind of Magic”, “One Vision” e “Friends Will Be Friends”.

Freddie e o namorado Jim Hutton
Para promover A Kind of Magic, ocorre uma gigantesca turnê, com um super palco que influenciou bandas como Rolling Stones, Metallica e Guns N Roses anos depois, e que foi a última de Mercury. Esse super palco pode ser conferido no DVD Live at Wembley, lançado em vinil em 1992. Logo após o término da turnê, na Páscoa de 1987, Freddie é diagnosticado com AIDS, e então, o mundo entra em ruínas para ele, mas não por muito tempo. Atordoado com a notícia, contou-a apenas para sua ex-esposa, Mary Austin, e ao parceiro Jim Hutton, e começou um longo tratamento para tentar se curar.
A primeira atitude é promover uma grande festa, que durou uma semana. Depois, decidiu afastar-se dos palcos, continuando a produzir em estúdio. Assim, em 1988, Mercury gravou Barcelona, ao lado da cantora lírica Montserrat Caballet, que acabou virando uma homenagem aos jogos Olímpicos de Barcelona, que ocorreram em 1992. A dupla havia se encontrado um ano antes, e o projeto foi levado adiante, deixando registrado no mínimo duas obras-primas: “Barcelona” e “How Can I Go On“. A dupla apresentou-se no festival de Ibiza, e então, começou a série de especulações em torno da saúde do cantor, pois o mesmo apresentou manchas vermelhas em seu rosto. O último show de Freddie foi justamente com Montserrat, em 1988, no dia 08 de outubro em um festival organizado em Barcelona, ao lado da Opera House Orchestra, apesar de apenas ter interpretado um playback, pois Freddie já não conseguia mais cantar ao vivo.

Freddie Mercury, Roger Taylor, John Deacon e Brian May. Queen em 1989
Debilitado pela Aids, voltou com o Queen para lançar The Miracle (1989). Um bom álbum, que se não está no nível de A Kind of Magic, deixou mais clássicos para o grupo, como “Breakthru”, “Was it all Worth is”, “The Miracle” e “I Want it All“. Nos clipes de divulgação do LP, Freddie aparece bem mais magro, e sem a mobilidade dos clipes anteriores.
Manchete no sensacionalista The Sun
A mídia sensacionalista começou a correr atrás de informações sobre a saúde de Mercury, que trancou-se em um estúdio, produzindo como nunca. Em novembro de 1990, o jornal The Sun publicou uma foto onde Mercury aparece totalmente debilitado, com a notícia: “A trágica face de Freddie Mercury”. Mercury e o Queen negavam fortemente a ideia. 
Cansado da exposição de sua imagem, Freddie mudou-se para Montreux (onde The Miracle foi gravado), e assim, sozinho e debilitado, gravou mais de 100 canções em um período de aproximadamente três meses, muitas delas apenas com algumas frases soltas.  O choque final foi quando descobriu que seu namorado, Jim Hutton, também estava com AIDS. Mercury permaneceu nos estúdios até quando não aguentou mais.
Trabalhando com o Queen, colaborou em mais três clipes: “I’m Going Slightly Mad”, “Headlong” e “These are the Days of Our Lives”, lançadas no ótimo Innuendo (1991), seu último disco oficial, onde Mercury aparece magérrimo, com pouca mobilidade, sem o tradicional bigode que o caracterizou nos anos 80, mas com muita força de vontade e alegria por ainda estar trabalhando. O álbum apresenta ainda a linda “Innuendo” (com a participação do guitarrista Steve Howe, ex-Yes, Asia, GTR), e a grande despedida de Mercury, a qual é um legado que permanece até os dias de hoje como uma emocionante fala de Adeus do vocalista: “The Show Must Go On“, lançada em 14 de outubro de 1991 como single.
Uma das últimas fotos de Mercury
Os últimos dias de Mercury foram de reclusão em sua casa. Os trabalhos encerraram-se em 30 de maio de 1991, com a gravação do clipe de “These are the Days of Our Lives”. Um de seus últimos desejos foi ver o pôr-do-sol da varanda de sua sala, antes de perder a visão totalmente. Suas duas últimas semanas foram de uma luta inútil contra a cegueira e infecções na pele e na boca, e então, decidiu não lutar mais contra a morte, abandonando a medicação. No dia 23 de novembro, o mundo recebeu a notícia de que Mercury estava com AIDS, a qual foi uma vitória para os sensacionalistas.
Novamente o The Sun, anunciando a
morte de Freddie
As sete horas da noite do dia 24 de novembro de 1991, após uma série de alucinações, Freddie faleceu em sua casa enquanto dormia. O mundo perdia a maior voz do rock, e um de seus maiores show-men.
Em abril de 1992, mais precisamente no dia 20 de abril, os ex-colegas de Mercury organizaram um show tributo, batizado de “Concert for Life”. Com um estádio Wembley lotado, May, Deacon e Taylor tocaram ao lado de celebridades como Elton John, David Bowie, Metallica, Guns N Roses, Extreme, Seal, Def Leppard, Liza Minelli, entre outros. Todo o dinheiro arrecado foi destinado a grupos de pesquisa contra a AIDS.
Em 1995, o CD Made in Heaven trouxe muito do material que Freddie havia deixado gravado, assim como, nos últimos anos, diversos lançamentos mantém o nome do vocalista na ativa.
Minha ligação a Mercury, exaltada no início do texto pelo marcante fato de sua morte há 20 anos, se deve justamente porque naquela época eu já estava meio que sabendo o que eu gostava e o que eu não gostava. Com 9 anos, estava saindo do Thrash Metal de Possessed e Slayer e descobrindo bandas como Led Zeppelin, Deep Purple, Pink Floyd, e outras setentistas. O Queen era daquelas bandas que ouvia-se naturalmente nas rádios, mas não chamava a atenção.
Parte da minha coleção do Queen em discos:
anos 70 (primeira foto), anos 80 (segunda foto),
discos solos (terceira foto) e compactos (última foto)
Até que um dia eu ouvi “The Show Must Go On”, isso semanas antes da morte de Mercury. Não sei por que, mas mesmo pequeno, aquela canção me bateu na mente. Depois que ela se associou ao cantor de “Barcelona”, uma música que eu gostava um monte por causa da alta divulgação que teve na TV, e que ele era o mesmo cara que cantava a “música bonita” da novela Que Rei Sou Eu? (a saber, a citada “How Can I Go On”), eu passei a ver aquele cara como uma pessoa muito talentosa, e foi quando eu tive a primeira sensação de TALENTO sendo mostrada para mim, que eu soube que aquele TALENTO não mais viveria para poder vê-lo ao vivo.
Mesmo o retorno do Queen com o vocalista Paul Rodgers, não teve o impacto que o grupo apresentou quando Mercury segurava o microfone, e, com o pedestal no meio das pernas, simulava tocar guitarra. A recente notícia de que Brian May e Roger Taylor gostariam de reativar o Queen com Lady GaGa nos vocais é mais uma prova da imagem que Mercury ainda tem. Afinal, sinceramente, desde a morte do vocalista, a dupla vem vivendo em cima do nome Queen de forma irresponsável, ao invés de respeitar uma lenda como Mercury, como vem fazendo o sempre discreto John Deacon.
Sobraram os discos, as revistas, os vídeos, entrevistas e uma série de material colecionável sobre o Queen, e principalmente, sobre Freddie Mercury. Mas, mais que isso, sobrou a imagem do bigodudo sorridente, tímido nas entrevistas (apesar de deboches como o famoso caso Glória Maria), chiliquento e chorão nos camarins, mas que quando abria a voz para cantar, e os braços para o público, era insuperável. Uma diva, uma rainha, qualquer adjetivo polêmico, associado a sua homossexualidade, pode estar sendo usada mundo afora para falar sobre a persona de Mercury hoje, nos 20 anos de sua morte, mas eu vou encerrar essa matéria com apenas duas palavras em letras garrafais, junto de uma belíssima imagem de sua estátua, com o punho direito erguido, localizada em Montreux, na Suíça:


UM DEUS!!



1 Comentario

  1. Anônimo disse:

    Freddie conseguia ter o público na palma das mãos. Seu carisma e presença de palco, eram únicos.

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