Discografias Comentadas: Jethro Tull (Parte I)

19 de julho, 2015 | por maironmachado
Discografias Comentadas
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Martin Barre, Clive Bunker, Glenn Cornick, John Evan e Ian Anderson

Por Mairon Machado

Uma das maiores bandas da história é responsável por ser também uma das bandas mais complicadas de se classificar. Com uma vasta carreira, alguns consideram o Jethro Tull como um grupo de rock progressivo. Porém, seus mais de vinte álbuns lançados passeiam por blues, folk, hard rock e até o pop eletrônico com naturalidade, com um estilo muito eclético marcado pela flauta imponente de Ian Anderson.

Hoje e nas próximas duas semanas, traremos aqui a discografia dessa grande banda, a qual tenho a alegria de compartilhar os trabalhos com o meu colega André Kaminski, que assumirá o bastão nos álbuns a partir de 1974, e graciosamente, cedeu-me a honra de poder mostrar um pouco da história e das canções dos primeiros sete álbuns do grupo.


This Was [1968]

A estreia dos britânicos apresenta um material de altíssima qualidade. Caprichando na mistura do hard rock com o blues, as canções apóiam-se na guitarra de Mick Abrahans e na harmônica de Ian Anderson. O quarteto, completado por Glenn Cornick (baixo) e Clive Bunker (bateria), traz o estilo fortemente enraizado em “Some Day The Sun Won’t Shine For You”, um bluezaço levado pela guitarra e pela harmônica, e na alucinante “It’s Breaking Me Up”, joia rara que certamente deve ter sido achada na lata de lixo dos estúdios do Cream, já que a semelhança com a banda de Jack Bruce, Eric Clapton e Ginger Baker é altíssima. Vale chamar a atenção que Anderson ainda não era o manda-chuva, tanto é que Abrahans é responsável pela composição, voz e arranjos de metais da jazzística “Move On Alone”, uma ovelha negra na discografia do Jethro Tull, já que é uma peça rara por não contar com a participação de Ian Anderson em nenhum instrumento. Outra que Anderson não dá as caras é a pancada instrumental “Cat’s Squirrel”, um solo ácido de Abrahans levado pela pegada de Cornick e Bunker, e que só entrou no álbum por que era uma das mais pedidas pelos fãs nos shows. Pancadaria também come solta em “Dharma for One”, trazendo uma participação impecável de Clive Bunker, através de uma série de solos no decorrer da canção, Anderson ao saxofone e o primeiro grande riff de flauta das músicas do Jethro Tull, flauta essa que ainda não era um instrumento de grande destaque, mas aparece com força nas clássicas “My Sunday Feeling” e “A Song for Jeffrey”, a última em homenagem a um amigo de Anderson, Jeffrey Hammond-Hammond, que será de importância vital para o grupo mais adiante, na psicodélica “Beggar’s Farm” e na versão bluesy e maravilhosa da instrumental “Serenade To a Cuckoo” (original de Roland Kirk), com um show a parte de Abrahans. Completando, ainda temos a breve vinheta “Round”. Fácil  um dos melhores discos de estreia de uma banda na história, mas divergências musicais com Anderson fizeram com que Abrahans pulasse da barca.

Em um breve período, ele foi substituído pelo jovem Tony Iommi. O novo guitarrista fez apenas algumas apresentações, sendo a mais conhecida a registrada no documentário Rock ‘n’ Roll Circus, mas também teve problemas de musicalidade, e acabou dando sequência a outro projeto, chamado Black Sabbath. Iommi é então substituído por Martin Barre, e assim, começa uma nova fase na carreira do Jethro Tull.


Stand Up [1969]

Com o novo guitarrista, o grupo ganhou mais força na parte instrumental, e afugentou o blues que foi predominante na sua estreia, aproximando-se do folk. Em Stand Up, o estilo surge timidamente em “A New Day Yesterday”, mas só, já que temos o hard de “Back to the Family”, “For a Thousand Mothers” e “Nothing is Easy”, com mais um show particular de Bunker, e o clima leve de “We Used To Know”, tendo um belo arranjo de violões e Barre pisoteando o wah-wah sem dó, e “Look into the Sun”, essa com Anderson ao piano. A segunda homenagem para Jeffrey Hammond-Hammond está registrada na acústica “Jeffrey Goes to Leicester Square”, trazendo instrumentos diferentes, como mandolim, congas, balalaika e Barre na flauta, que também tocou esse instrumento em “Reasons for Waiting”, a qual traz um arranjo de cordas por David Palmer, em uma das baladas mais lindas da carreira da banda. Instrumentos diferentes também abrilhantam a viajante “Fat Man”, os quais são os mesmos de “Jeffrey Goes to Leicester Square”, mas com um clima indiano inédito no som dos britânicos. Sem dúvida, a flauta ganhou mais espaço em Stand Up, e dentre as várias canções na qual ela é o centro das atenções, é inevitável citar a versão bluesy de “Boureé”, peça clássica de Johann Sebastian Bach que tornou-se uma primazia de audição, ainda mais com o competentíssimo e entusiasmante solo de baixo feito por Cornick. Para mim, um dos melhores discos da banda, e acredito que injustamente ele é muito menosprezado perto dos gigantes Aqualung e Thick as a Brick.

Esse álbum foi apresentado pelo colega José Leonardo nesse link, o qual incentivo o leitor a ler, e contava, na sua versão original, com um interessante pop-up na sua capa dupla interna, onde bonecos personalizados dos quatro integrantes levantam-se quando abrimos a capa, versão essa bastante cobiçada por colecionadores, e que recebeu o prêmio de Melhor Capa pela revista New Musical Express em 1969. O grupo dava os primeiros passos para se tornar uma banda mundialmente conhecida, já que o disco alcançou a primeira posição nas vendas no Reino Unido, e entrou nos vinte mais da Billboard americana, mas ainda viria mais, muito carregado pelo lançamento do single “Living in the Past”, que chegou às lojas pouco antes do segundo disco do grupo, e foi o terceiro single mais vendido daquele ano, apesar de não estar presente no vinil.


Benefit [1970]

O último disco de Glenn Cornick com o Jethro Tull foi o álbum que consegui fazer com que o quarteto cria-se um som próprio. A flauta de Anderson une-se com a guitarra de Barre, criando canções com forte estrutura hard, mas mesclando pinceladas progressivas e folk de maneira singular, graças a participação especial do pianista John Evan, o qual é o responsável por incrementar o som da banda. Há faixas que podiam estar em Stand Up, como a folk “Sossity: You’re a Woman”, ou as trabalhadas “Alive and Well and Living In”, destacando a participação do piano de Evan, “Inside” e “Play in Time”, essa com boas pitadas de psicodelia. A faixa de abertura, “With You There To Help Me”, é a peça que traz todos os adjetivos que tornaram os britânicos famosos, como a alterações de ritmos, solos de guitarra carregados de distorção e as inconfundíveis voz e flauta de Anderson, agora sim assumindo o posto de personagem central e líder da banda, sendo responsável pela composição das dez canções de Benefit, mas se fosse para escolher só uma, pegaria o riffzão da pancada “To Cry You A Song”, uma das melhores músicas que já ouvi na minha vida. Um álbum bastante coeso, privilegiando canções mais suaves, porém com temperos de distorção, como “Nothing to Say”, “A Time for Everything?” . Por outro lado, a distorção come frouxa em “Son”A última homenagem à Jeffrey aparece na balada hippie “For Michael Collins, Jeffrey and Me”. Nos Estados Unidos, Benefit saiu com “Teacher” no lugar de “Alive and Well and Living In”. O fato é que “Teacher” tornou-se um grande sucesso, inclusive sendo a responsável por apresentar o grupo em terras brasileiras, e pela primeira vez, o Jethro Tull ultrapassou a marca de um milhão de cópias vendidas, chegando na terceira posição no Reino Unido e décimo primeiro na América. Um divisor de águas na carreira da banda, pois a partir daqui, não havia mais espaço para o blues, e sim, uma profunda migração para o progressivo e o reconhecimento mundial.

Cornick foi despedido (ou convidado a sair da banda) após uma série de apresentações bem sucedidas, com destaque para a participação no Isle of Wight Festival de 1970, dando lugar ao eterno homenageado Jeffrey Hammond-Hammond, enquanto Evan foi promovido para membro oficial. Como um quinteto, o Jethro Tull deu um novo passo, lançando então seu principal álbum.


Aqualung [1971]

Para muitos, é o melhor disco da banda. Apesar de discordar, não tem como negar as qualidades de Aqualung, o primeiro disco realmente a ser um disco do Jethro Tull. Afinal, apesar de Benefit ter apresentado as características que consolidaram o grupo para a eternidade, foi com esse LP que o Jethro Tull cravou seus primeiros clássicos indiscutíveis, no caso a maravilhosa faixa-título, uma daquelas obras seminais na qual Deus aponta para o sujeito e diz: “Faça um Clássico, com C maiúsculo”, através de toda sua alternância de andamentos e o solo belíssimo de Martin Barre, e a ícônica “Locomotive Breath”, peça seminal criada por Anderson, que tornou-se obrigatória nos shows a partir de então, e com uma participação fundamental de John Evan. Além disso, Aqualung apresenta as pesadíssimas “Cross Eyed Mary”, uma das raras músicas do hard rock onde flauta e órgão destacam-se mais que a guitarra, e “Hymn 43”, essa uma pancada dominada pelo piano de Evan (sempre imagino uma roda punk sendo fechada com essa pedrada). É aqui que aparecem as primeiras vinhetas acústicas, faixas curtas comandadas pelo violão de Anderson, e que se tornariam frequentes em quase todos os álbuns da banda na década de 70, no caso o blues “Cheap Day Return”, a balada “Wond’ring Aloud”, com arranjos orquestrais de David Palmer, e a singela “Slipstream”, que também traz arranjos de cordas por David Palmer. Falando em acústico, o que o grupo faz com a folk “Mother Goose” é de chorar de tão belo. Impossível não imaginar uma festa celta com pessoas dançando ao redor de uma fogueira ao ouvir essa pérola. Outra que apresenta muitas conotações acústicas é “Up To Me”, levada pela percussão e com um único momento elétrico no solo de Barre. Agora, independente dos clássicos citados, para mim os dois grandes momentos do álbum são canções praticamente desconhecidas dos fãs do grupo, no caso a fantástica “My God”, obra seminal que poderia facilmente ser citada como uma Maravilha do Mundo Prog, graças as suas alternâncias entre momentos acústicos nos quais o piano de Evan brilha, e outros extremamente pesados, com a guitarra de Barre fazendo as caixas de som vibrarem de euforia, além de um trecho central onde vocais em coro fazem um duelo arrepiante com a flauta, que só por isso já vale o LP, e ainda “Wind Up”, balada épica que transforma-se brutalmente numa canção pegada através da guitarra, e depois, o piano de Evan apresenta a sensação de leveza após o orgasmo criado pela distorção de Barre. Resumindo, fica o legado de que John Evan e Martin Barre são os homens que criaram o som do que hoje convenciona-se chamar de Jethro Tull, fortemente ligado à Ian Anderson com certa justiça, mas talvez faça-se pouco caso para essas duas personalidades tão importante e talentosas na história do rock. Com mais de sete milhões de discos vendidos ao redor do mundo, tenho certeza que esse é o álbum para apresentar o grupo a alguém, pois se não conseguir gostar dos clássicos citados, não irá admirar o resto dessa grandiosa obra.

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John Evan e Martin Barre (acima); Barriemore Barlow, Ian Anderson e Jeffrey Hammond-Hammond (abaixo)

Bunker saiu da banda e deu lugar ao novato Barriemore Barlow. Nascia então aquela que considero a formação clássica do Jethro Tull, responsável pelos álbuns mais progressivos que o grupo lançou.


Thick as a Brick [1972]

O disco que concorre diretamente com Aqualung ao posto de melhor do grupo, e para mim, um nível acima. Afinal, a única canção do álbum, a Maravilhosa “Thick as a Brick”, é um momento de genialidade de cinco músicos que viviam uma fase onde tudo o que tocassem virava ouro, principalmente Anderson, que indignado com as críticas que recebia da imprensa, criou uma história ímpar, na qual um menino chamado Gerald Bostock começa a se deparar com diversos fatos que o levam a pensar sobre como é envelhecer, passando das brincadeiras de infância – como pinturas e liga-pontos -, à adolescência – girando em torno da escola, namoro e prática de esportes -, à fase adulta – com casamento, questões de trabalho e viagens – até chegar à velhice e, finalmente, à morte. A história, com suas pitadas de humor negro britânico, desenrola-se em mais de quarenta minutos na qual a letra está apoiada em um instrumental fantástico, onde os cinco músicos unem-se para fazer uma construção densa, dividida apenas pelos lados do LP (o lado 1 e o lado 2). A história é desenvolvida através de uma canção muito compĺexa, com grandes mudanças de andamento, caracterizando essencialmente o melhor que o rock progressivo pode oferecer, através de pequenos e marcantes temas, bem como as várias partes da faixa. Além disso, Anderson investiu em novos instrumentos, como o cravo, xilofone, tímpano, violinos, alaúde, trompete e saxofone, além de arranjos de cordas. Detalhes envolvendo o álbum podem ser conferidos aqui, em um texto alusivo aos quarenta anos dessa obra-prima, nos links adicionados em “lado 1” e “lado 2”, os quais tratam especificamente sobre a música “Thick as a Brick” e para complementar, vale citar a belíssima arte da capa original, em formato de jornal (inclusive em papel jornal, conforme ilustrado acima), contando com 12 páginas nas quais observamos tudo o que está presente em um noticiário tradicional, desde a seção de esportes e classificados até a seção de óbitos e nascimentos, passando inclusive pelo próprio poema. A leitura de todo o jornal (sim, todo) acaba revelando fatos que passam desapercebidos no poema. Basicamente, cada página contém exatamente um ponto que está na música, tratando exatamente dessa evolução criança-adulto, mostrando praticamente todos os fatos que nos cercam desde o nascimento até a morte, que assombraram a cabeça do garoto. A turnê de “Thick as a Brick” também foi grandiosa, modificando a forma como as bandas do rock progressivo enxergavam seu público, e levando aos palcos praticamente na íntegra toda essa Maravilha musical. Disco seminal, que só não é o melhor do Tull na minha opinião por que no ano seguinte, eles conseguiram se superar.


living_in_the_pastLiving in the Past [1972]

Essa coletânea dupla merece estar por aqui principalmente por que apresenta muito material inédito, principalmente para o mercado americano. Das vinte e uma canções, apenas cinco já haviam sido lançadas em álbuns anteriores, no caso “A Song for Jeffrey”, “Boureé”, “Inside”, “Teacher” – essa só no mercado americano” – e “Locomotive Breath”. Temos ainda sete canções lançadas apenas como singles, que são a pesada “Love Story”, com seus floreios celtas e ainda com Mick Abrahans nas guitarras, a orquestrada “Christmas Song”, levada pelos arranjos de David Palmer e o mandolin de Ian Anderson, o bluesão “Driving Song”, já com Barre nas guitarras, a épica “Sweet Dreamer”, com um arranjo orquestral destruidor feito por David Palmer, destacando o naipe de metais, e a bonita balada hippie “Witch’s Promise”, que muitos fãs do grupo aqui no Brasil acabaram conhecendo por conta da apresentação do grupo no famoso programa Top of the Pops da BBC. Na terra do Tio Sam, “Alive and Well and Living In” – que ficou de fora de Benefit para a entrada de “Teacher” – está no lugar de “Inside”, assim como “Hymn 43” está no lugar de “Locomotive Breath”. Ainda temos as inéditas “Singing All Day”, outro belo blues composto pelo ainda quarteto Jethro Tull, a balada “Just Trying to Be”, apenas com Anderson no violão e voz, acompanhado por John Evan na Celesta, “Wond’ring Again”, em sua versão original, da qual apenas parte aparece em Aqualung, e duas pérolas Maravilhosas gravadas ao vivo no Carnegie Hall de Nova Iorque, em 1970, o solo instrumental ao piano “By Kind Permission Of”, da qual novamente eu cito como John Evan é um grandioso, talentoso e menosprezado pianista, pois o que ele faz nessa canção, seja em duelos com a flauta de Anderson, ou apenas sozinho em passagens clássicas, é de tirar o chapéu, e a pancada “Dharma for One”, com Evan, Barre, Cornick e Anderson simplesmente destruindo, além de um gigantesco solo de bateria feito por Bunker. Fecha o álbum as cinco canções do EP Life is a Long Song, lançado em 1970 apenas no Reino Unido: as baladas acústicas “Life is a Long Song”, “Up the ‘Pool”,  o hard experimental de “Dr. Bogenbroom”, o ótimo jazz fusion instrumental de “From Later”, uma quebradeira infernal de raríssima presença entre as canções do grupo, e “Nursie”. Sem dúvidas o principal sucesso do álbum ficou para a faixa-título, uma canção na qual o riff de flauta e os arranjos orquestrais fizeram da mesma mais um clássico na vasta discografia da banda, e que indica um pouco os caminhos que o grupo iria tomar na segunda metade da década de 70, soando pop e sem nada blues ou progressivo. Aos colecionadores, vale ressaltar que Living in the Past contém quase todos os singles lançados pelo Jethro Tull até 1971, com exceção de “Aeroplane”, “Sunshine Day”, “One for John Gee”, “17” e a versão original de “Teacher”, que saiu apenas no Reino Unido. A versão original em LP apresenta a capa no formato hard cover, como uma espécie de um álbum de fotos, trazendo um belíssimo encarte com vinte e duas páginas que passeiam pela história da banda através de muitas imagens dos integrantes em momentos de laser ou caugh in the act, e é bastante cobiçada pelos colecionadores. Por último, esse foi o primeiro disco do grupo a contar apenas com a imagem de Ian Anderson na capa, algo que se tornaria uma constante a partir de então.


A Passion Play [1973]

Sei que muitos irão me chamar de louco, mas para mim, A Passion Play é o melhor disco do Jethro Tull. O que Martin Barre, Barriemore Barlow, Jeffrey Hammond-Hammond e John Evan fazem no instrumental desse álbum é magnífico, complementados por um inspiradíssimo Ian Anderson, que praticamente abandona a flauta para dedicar-se ao saxofone, o que acaba culminando com a imprensa apelidando o grupo de Van der Tull Generator, em uma alusão ao grupo britânico Van der Graaf Generator, cujo saxofone é um dos principais instrumentos. Constituído por uma única faixa, a própria “A Passion Play”, este LP marca o auge das experimentações progressivas nos álbuns do grupo. A história conceitual fala sobre a os caminhos de Ronnie Pilgrim após sua morte, narrada em uma faixa magnífica, recheada de variações e duelos entre saxofone, órgão, piano e guitarra, além de uma cozinha que manda muito naquela que considero a melhor performance da dupla Barlow / Hammond. Muitos criticam o álbum por conta da inclusão da história “The Story of the Hare Who Lost His Spectacles”, um trecho que mostra um pouco da viagem de Pilgrim pelo além, e que foi inspirado na clássica história Pedro e o Lobo, de Prokofiev. Porém, esse pequeno trecho, com orquestrações de David Palmer, em nada prejudica a canção, pelo contrário, causa uma sensação de expectativa deliciosa, que com o retorno para o andamento cavalgante do baixo de Hammond e a quebradeira infernal que aparece logo em seguida, enaltece ainda mais a grandiosidade dessa obra-prima. Vale a pena citar que originalmente, A Passion Play foi concebido para ser um álbum duplo, mas o resultado acabou não agrando à todos, e foi abandonado, sendo parte lançada anos depois no álbum Nightcap (1993), e também diluído nos discos seguintes a A Passion Play. Outros destaques vão para a maravilhosa turnê de promoção do disco, que o apresentava quase na íntegra, seguido de “Thick as a Brick” também quase na íntegra, e com um grandioso palco, repleto de novidades para a época, como vídeos e jogos de luzes, e também a belíssima capa original, que trazia um encarte no formato de folheto de ópera, apresentando os músicos da banda como atores da peça “A Passion Play” e um resumo da história. Disco seminal, injustamente criticado, e que somente ouvindo e lendo para compreendê-lo, e mais uma vez, lamento que não deem o valor que John Evan merece.

Em quinze dias, meu amigo André Kaminski irá seguir com os discos da banda, agora com os álbuns lançados no decorrer da década de 70, após essa exuberante e criativa fase progressiva, e quando o grupo mergulhou no folk e na música celta.

 



18 Comentarios

  1. José Leonardo G. Aronna disse:

    Simplesmente excelente! Uma das melhores bandas que surgiram no Reino Unido! Com certeza está no meu top 5 de bandas! Valeu!

    Permita me alguns comentários: o EP Life Is A Long Song é de 1971 e esse lançamento é a estreia oficial de Barriemore Barlow. As versão inglesa de Teacher pode ser encontrada na edição deluxe de Benefit, lançada alguns anos atrás. Essa versão ate então só tinha sido lançada no box 20 Years Of Jethro Tull.

  2. Marco Gaspari disse:

    Muito bom. E ouso dizer que se a banda parasse por aí, seria Mitológica. Com “M” de maroto maiúsculo.

  3. Vou ter que discordar do meu amigo Mairon sobre A Passion Play. Apesar de ter muitas das qualidades descritas pelo Mairon, acho um pouco maçante. A própria Thick As A Brick, que também é uma música só, é mais “fácil” de ouvir.
    Para mim os dois principais são Aqualung e Thick As A Brick, seguidos de perto por Stand Up…

  4. Igor Maxwel disse:

    Bela resenha do JT, porém eu acho que “Aqualung” é muito mediano e o “A Passion Play” é uma idiotice, conforme eu disse na minha lista pessoal dos melhores discos de 1972, dos quais “Thick as a Brick” (o melhor disco deles na minha opinião e o que eu mais indico aos que não conhecem esta banda) ocupa o segundo lugar da minha lista, sendo o primeiro ocupado sempre pelo “Foxtrot” do Genesis, que infelizmente não foi citado na lista final (assim como o “Trilogy” do ELP), resultando como a maior ausência da lista de 1972 aqui da Consultoria, onde “Close to the Edge” do Yes (segundo melhor disco deles do meu top 5) ganhou o primeiro lugar como o melhor disco daquele ano.

    • José Leonardo G. Aronna disse:

      Top 5 Jethro: Stand Up – Aqualung – Thick As A Brick – Minstrel In The Gallery – Songs From The Wood, em ordem de lançamento

  5. Eudes Baimas disse:

    Meu amigo Igor parece usar os comentários sobre a matéria para ajustar contas com a lista de melhores de 72.

    • Igor Maxwel disse:

      Não só com a lista de 1972 (devido a ausência de Foxtrot) mas também com a lista de 1984, com a inclusão de “Love at First Sting”, a pior coisa que os alemães dos Scorpions fizeram em toda sua trajetória. O motivo, óbvio, é por causa daquela música que não vou falar qual, e que virou o sinônimo da chamada MDC (Música Dor de Cabeça).

      • Igor Maxwel disse:

        Queria ver mesmo naquela lista “Defenders of the Faith” o disco que eu mais venero do Judas Priest.

  6. Eudes Baimas disse:

    Stand Up me parece uma abertura tanto para o folk, como diz o Mairon, como para o hard rock.

  7. André Kaminski disse:

    Mairon como sempre descrevendo tudo de maneira apaixonada. Vai ser difícil eu conseguir manter o nível (altíssimo) dele nas minhas partes. Responsabilidade enorme.

    Dessa primeira parte, fico mesmo com Aqualung e Stand Up que são obras excepcionais.

  8. Marco Gaspari disse:

    Não entendo como é que ninguém ainda reservou umas letrinhas para se manifestar sobre o Living In The Past. Aquilo ali não é uma coletânea, mas um jantar refinado no melhor restaurante cinco estrelas que o dinheiro pode pagar. Só tem pérolas da gastronomia audiófila. Da entrada no Lado 1 até a sobremesa no Lado 4. E tudo escolhido a dedo no maravilhoso cardápio ilustrado de 22 páginas. Quando esse disco saiu no Brasil, completinho, apesar da pobresa da capa se comparada à original inglesa acamurçada, ninguém tinhas mais dúvidas de que Aqualung não foi um acaso, mas o cartão de visitas (no Brasil) de uma Instituição. Uma das mais talentosas e sólidas do rock de sangue azul. Parabéns ao Mairon por essa primeira parte e, como gosto de muito pouca coisa do que fizeram daí pra frente, tenho certeza de que o texto sempre ótimo André fará a diferença.

  9. José Leonardo G. Aronna disse:

    Minha edição do Living In The Past é inglesa com capa dura, mas não é “acamurçada”… Deve ser uma outra tiragem! Grrrr!

  10. Marco Gaspari disse:

    Eu tive essa acamurçada. Siri da Gaita deu cabo dela.

  11. Marcus disse:

    Cara, como eu esperava isso. Em se tratando de Prog rock não tem pra ninguém, Aqualung e o fenomenal Thick as a Brick estão cravados na minha mente para sempre. O que esses caras fazem nesses álbuns não ta escrito. Ao lado do Emerson, lake & palmer o Jethro tull é tão importante para o Prog rock quanto o P.F. em minha opinião claro. Bom trabalho, a resenha ficou muito boa.

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