Discos que Parece que só eu Gosto: Van der Graaf Generator – Aerosol Grey Machine [1969]

2 de setembro, 2015 | por Ronaldo Rodrigues
Discos que Parece que Só Eu Gosto
15

aerosol_mercury_front

Por Ronaldo Rodrigues

Dizer que só eu gosto desse disco já começa sendo uma grande sacanagem, porque aposto que o primeiro comentário que surgir sobre essa postagem vai ser elogiando a banda. O que venho aqui questionar é o porquê esse disco não ser mais devidamente celebrado. Não digo que o deva ser dentro do compartimento do gerador de Van der Graaf, mas sob o panorama do rock psicodélico britânico dos anos 1960. Acho que é justamente aí em que o disco cresce e que não desfruta da devida consideração.

Aerosol contracapa

Contracapa do CD

O começo do Van der Graaf Generator foi turbulento. Entre 1967 e 1968 a banda começou, mudou de formação e acabou. Peter Hammil, vocalista, letrista e instrumentista de ocasião, decidiu então gravar um disco como artista solo sob um contrato com o selo Mercury. Só que para tal empreitada, chamou seus então “ex-companheiros” (que o acompanhariam em muitos outros momentos gloriosos) de Van der Graaf Generator – o baterista Guy Evans e o tecladista Hugh Banton, junto com o baixista Keith Ian Ellis.

Dado o desenrolar das atividades no estúdio e outras questões burocráticas solucionadas, o trabalho foi batizado com o nome do grupo. E é um equívoco freqüente dos fãs considerar que o disco soa como trabalho solo de Peter Hammil, por dois motivos – o primeiro é que em nenhum momento Peter Hammil, com sua voz e violão, trata o conjunto da banda como coadjuvante na obra (um anacronismo rotineiro em trabalhos solo); o segundo é que a essência do som com o qual o VdGG se tornaria relativamente famoso já se encontra, ainda que desfocadamente, em Aerosol Grey Machine.

Particularmente, cativo um curioso gosto por trabalhos que soam como uma construção ainda semi-acabada. Quando garoto, muitas vezes achava que rascunhos de desenhos eram mais bonitos e interessantes do que os desenhos finalizados. Talvez essa seja melhor analogia que encontro para sintetizar a resenha do disco de estréia do Van der Graaf Generator.

11938251_453337474850368_867029944_nO disco pode até ser um pouco irregular, mas uma canção como “Afterwards” logo como abertura já é o carimbo do passaporte para outra dimensão. Uma frase de baixo pontuada pelo órgão Vox acoplado a um pedal wah-wah, salteado por um cristalino som de violão e a voz marcante de Hammil compõe uma paisagem sonora onírica indescritível. Em um mundo com ouvidos justos, o pessoal prestaria menos atenção em coisas como Their Satanic Majesties Request e se renderia de joelhos a isso.

“Orthentian St.” já demonstra levemente o gosto do VdGG por combinações funestas de acordes e harmonias tenebrosas, uma característica que seria explorada até as últimas instâncias em Pawn Hearts, de 1971. O próximo grande destaque vem com o folk chapado “Running Back”, que escancara a interpretação primorosa do vocalista Peter Hammil e as reverberações de flauta ao longo de toda a faixa. Esta faixa também relembra aos ouvintes que, em fins dos anos 1960, dar uma lambiscada em escalas orientais era praticamente um cliché entre os grupos que buscavam um som mais freak do que o pop da época. “Into a Game” está mais alinhada ao som de outros grupos da seara proto-prog do que com o próprio VdGG, mas tem lá sua graça.

Quando já se está com a língua pra fora, lá pelo fim do lado B surgem três faixas que fazem a melhor ponte com a direção a ser seguida a partir de The Least We Can Do is a Weave to Each Other, no ano seguinte. Você vai ouvir alguns quilos de sons entrelaçados de órgão e violão, batidas tribais, muitas variações e alternâncias entre climas densos e leves sempre envoltos em um ar de mistério a cargo das faixas “Aquarian”, “Necromancer” e “Octopus”.

11949812_453337478183701_89311828_n

Não há como dissacioar estas faixas do restante da obra do grupo, pois são onde se encontram o maior alinhamento entre o VdGG primitivo e o VdGG devidamente reconhecido, amado e odiado. Fato que o grupo não nasceu maduro, mas sua genética, como de esperado, se encontra desde seu nascimento. E na beleza de um caminho ainda a desenvolver desenrola-se o lençol da sensualidade de sua música. A rusticidade da produção (que foi mais ou menos uma constante na discografia do grupo), a ausência de guitarras elétricas e eventualmente até também do baixo, a presença de instrumentos de sopro e teclados como elementos principais foram a tônica da música psicodelizante do Van der Graaf Generator, do berço até os 7 palmos abaixo do chão.

Track List

01. Afterwards
02. Orthenthian St. (Part I)
03. Orthenthian St. (Part II)
04. Running Back
05. Into a Game
06. Aerosol Grey Machine
07. Black Smoke Yen
08. Aquarian
09. Necromancer
10. Octopus



15 Comentarios

  1. Marco Gaspari disse:

    Que sacanagem! Como assim, dizer que parece que só você gosta? Depois de Pawn Hearts, esse é o meu disco preferido do VdGG. Acho ele melhor do que qualquer disco da segunda encarnação. Não vou ficar aqui enfiando informações e mais informações a respeito. Sei que é o que se espera de quem comenta, mas tenho uma reverência doentia por essa banda e logo, logo o que eu escrevesse entraria no quesito “comentários que parece que só eu gosto”. Mas vou destacar uma faceta que vai exacerbar o orgulho tupiniquim, tão escondido nestes tempos de lava jato: o disco foi lançado aqui em 1975 e antes só tivera edições americanas e alemã, e são de 1974 as edições holandesa e italiana. Na primeiríssima prensagem americana, não existia a música Necromancer, mas sim Giant Squid.

  2. José Leonardo G. Aronna disse:

    Também gosto, e muito, desse disco! Ótima resenha! E u tinha o Lp nacional!! Abraços

  3. Ronaldo disse:

    Marco, vc tem um gosto muito sui generis…rs! daí não conta!
    mas na media do fãs de rock progressivo, os primeiros discos de alguns grupos não são lá tão reverenciados, como é o caso de Gentle Giant, Yes, Genesis e VdGG. O nome da coluna é meio ingrato, mas na verdade, assim como o outro que eu resenhei, são discos que ficam nebulosos na discografia dos grupos, por não refletirem ainda sua maturidade ou o som com o quais ficaram realmente conhecidos. Acho que são discos que deveriam ser ouvidos numa perspectiva absoluta, sem relativizar com o restante da discografia…isso poderia lhes dar outra dimensão no gosto do público. Obrigado pelos comentários!

    • Marco Gaspari disse:

      Por mais que pareça difícil assinar um contrato de gravação, a prova de fogo de qualquer banda é o segundo disco. Ou ela acusa evolução ou prova que não passou de fogo de palha. A maioria das bandas de prog que tiveram vida longa fizeram segundos discos melhores que a estreia (excessão foi o King Crimson). Quando o segundo disco acentua a evolução ou maturidade de uma banda, a estreia costuma não ter o merecido reconhecimento. Quando fracassa, o primeiro disco ganha status de mito, um facho de luz antes da obscuridade. O que eu gosto no Aerosol e no Fool’s Mate (o primeiro disco realmente solo do PH) é a aura deixada por Chris Judge-Smith, um dos músicos mais malucos e inclassificáveis do rock inglês e que, infelizmente, o fã eventual do VdGG mal conhece ou se conhece sabe apenas que ele batizou a banda. Judge-Smith foi eminência parda em toda a carreira do VdGG e do PH. Não elogiei sua matéria, Ronaldo. E nem precisa, né?

  4. Ronaldo disse:

    O “parece que só eu gosto” deve se mais ao fato de eu não ver comentários a respeito desse disco do que por ver pessoas que o fiquem malhando por aí. Indiferença as vezes é pior do que desgosto! rs

    • maironmachado disse:

      Pior Ronaldo. É o mesmo caso do Alice Cooper – The Last Temptation, ou do Rush – Fly By Night. O fato de a gente gostar e não ver ninguém comentando nos deixa chateado mesmo.

  5. maironmachado disse:

    Eu adoro esse disco!

  6. André Kaminski disse:

    Não vou mentir que conheço pouquíssima coisa do Van der Graaf Generator e que justamente The Aerosol Grey Machine não me causou lá uma grande primeira impressão. Daí curiosamente, escutei logo o bem mais recente A Grounding in Numbers e tive uma opinião muito melhor. Eu tenho um defeito de quando a banda não me impressiona logo no primeiro disco que ouço (independente de quando foi lançado) acabo não insistindo muito mesmo quando há outros trabalhos bem mais clássicos e elogiados. Algo parecido ocorreu comigo com relação ao King Crimson.

  7. Esse disco seria o meu terceiro ou quarto na preferencia da banda. O primeiro, é claro seria o Pawn Hearts, o segundo o H to He… o terceiro que ficaria essa dúvida entre esse e o Godbluff….
    Já escrevei sobre o VdGG aqui no site. Sobre o HORRÍVEL Alt!!!!

  8. caio disse:

    Eu amo esse disco

  9. Gabriel Costa disse:

    Pois, eu adoro o VdGG, é uma de minhas bandas preferidas, mas esse disco realmente não está entre meus favoritos (prefiro o “Satanic Majesties Request”, hehe). Para mim a melhor música em “Aerosol”, e que melhor vislumbra o trabalho posterior do grupo, é justamente “Into a Game” – não acho que se pareça com outros grupos proto-prog, acho bem a cara do VdGG mesmo. Mas a sua resenha está excelente, Ronaldo, parabéns! Gostei da observação sobre rascunhos de desenhos 🙂

  10. Diogo Bizotto disse:

    Excelentes comentários, Ronaldo. Realmente, o título da seção é ingrato, mas ela se presta a justamente fazer o resgate de obras que ficaram um pouco obscurecidas em meio a discografias extensas ou entre outros álbuns que costumam receber mais reconhecimento, que é justamente o caso do VdGG. Afinal de contas, sempre foi bem óbvio, ao menos para mim, que o reconhecimento a “Pawn Hearts”, “H to He, Who Am the Only One” e “Godbluff” é muito maior. Gosto do disco e de seu clima soturno, obviamente já indicando o caminho que seria seguido nos álbuns seguintes e não soando nem um pouco deslocado em meio à discografia da banda.

  11. O Van Der Graaf Generator ( que depois perde o Generator no fantastico disco The Quiet Zone…desprezado…acho um dos mais estrondosos experimentos deles)é uma banda orientada para teclados ,vocal ,sopro e batera com inserções raras de guitarras pelo Peter Hammill e pelo Robert Fripp.Este primeiro disco é único nesta sonoridade dark na época.Bem diferente.Adoro.
    Eu gravei os teclados na faixa Lizard Play(ver no Youtube) com a gravação ORIGINAL na qual o Hugh banton não TOCA!!.Enfim um disco pouco citado que é maravilhoso: STILL LIFE..Obra prima.
    A obra toda anos 70 é imperdível!!

    • Mairon Melo Machado disse:

      Valeu Amir. Legal vc por aqui. Saudações e bem-vindo ao site. Tem mais VDGG escondido em nossas páginas. Abraços

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *