Tralhas do porão: Viva Una Experiencia Psicotomimética

18 de setembro, 2015 | por Marco Gaspari
Tralhas do Porão
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Por Marco Gaspari

A qualidade do som pode não ser lá essas coisas, mas este disco vale menos pela música e mais pelo que realmente representa: um pedaço importante da própria história do rock na Venezuela. Foi a mais emblemática coletânea de grupos de rock do país, a primeira a mostrar seus jovens valores em 1968. E se não bastasse tudo isso, Viva Una Experiencia Psicotomimética ainda pode ser considerado a prova material de todo um projeto para uma série de concertos promocionais envolvendo efeitos de luz e som psicodélicos para impressionar o público e testar seus efeitos, digamos, psicotomiméticos.

O disco foi gravado em mono e produzido por Jesús Pérez Perazzo, que era não apenas o regente da Orquestra Venezuela Pop, como também o gerente contratado em 1967 pelo selo Fonograma para tirar a empresa do buraco em que se encontrava. Perazzo era ainda consultor de uma clínica psiquiátrica e participava na época de um projeto experimental na área de musicoterapia, estudando os efeitos da música no ser humano. Sua ideia foi contratar grupos jovens desconhecidos e gravá-los com acompanhamento de sua orquestra.

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A tal da “Experiência Psicotomimética” seriam os shows ao vivo dessas bandas realizados no Teatro Caracas sob os tais efeitos de luz e com audiovisuais a cargo dos artistas plásticos do coletivo Los Cérebros Elásticos. O animador que ouvimos no disco é o popular locutor Cappy Donzella, que tinha um programa de rádio dedicado exclusivamente ao rock psicodélico.

Os grupos que tivessem maior receptividade do público teriam seus discos gravados e lançados pelo selo. Vários shows foram marcados e o primeiro foi um absoluto sucesso.

Os demais, porém, foram apresentando problemas e mais problemas até que Perazzo desistiu da empreitada.

Voltando ao disco, não se trata da gravação de nenhum desses shows ao vivo, mas uma montagem feita em estúdio utilizando sons de plateia ao vivo para unir as músicas. Mas o que seria o clima do espetáculo está todo registrado, até mesmo com Cappy Donzela iniciando o disco com a seguinte locução: “…verde 68, amarelo 14, azul branco 19… testando… neste momento nos apoderamos de suas mentes… vocês vão viver uma experiência psicotomimética…“.

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Los Memphis

A única coisa a lamentar aqui é que só uma música é original, interpretada pelo grupo Los Memphis (“Tu Eres Todo El Infinito”). Em compensação existem pérolas como uma versão também de Los Memphis para “Nights In White Satin” (“Una Noche En Satín Blanco”). As outras atrações são Carlos Moreán (“Everything´s Alright” / “Since You´ve Gone”/ “I Got the Feeling”), Los Bonnevilles Fire (“Neon Rainbow”), Trino Mora (“Stog-O-Lee” / “Yesterday”), Love Depression (“Stone Free” / “Can You See Me”) e, claro, a Orquesta Venezuela Pop (“San Francisco”).

No ano seguinte o selo Fonograma lançou a Segunda Experiencia Psicotomimética e hoje em dia é possível achar os dois discos em CD venezuelano. Mas a experiência de ver o efeito do vinil com manchas coloridas girando no toca-discos, só quem tem a bolacha original pode viver.

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O disco completo aqui.



11 Comentarios

  1. Essas matérias do Marco sempre são muito interessantes por trazer a história do rock que nem fazíamos ideia de que existiam (apenas supunha que tinha rock na Venezuela nos anos 60). Bela matéria, Marco.

  2. Francisco Campos disse:

    Será que entre as tralhas do seu porão, Marco, há algum disco do power trio boliviano Climax?

    • Marco Gaspari disse:

      Não conheço o som do Climax, Francisco. Pelo que eu fui fuçar parece ser bem interessante.

      • Erick Cordeiro disse:

        Marco,você gosta da cena musical do Post-Rock?Se sim,depois faça uma matéria sobre tal cena.Desde já,agradeço.

        • Erick Cordeiro disse:

          E claro,se não conhece o Post-Rock,comece ouvindo Mogwai e Sigur Rós,as tampas do PR.

          • Marco Gaspari disse:

            Tem muito disso aqui em casa, Erick. Por conta de meu filho mais novo, que é fã de carteirinha. Eu conheço o suficiente pra saber que sou ignorante no assunto. Vou encher o saco do meu filho. Ele é jornalista, quem sabe se anima a escrever a respeito. Depois eu só assino a matéria e levo a fama, hehe… Abraço.

  3. Marco Gaspari disse:

    Olha que coincidência bacana: temos aqui um blog em castelhano, mas com endereço brasileiro. Pelo jeito, de algum venezuelano que vive por aqui e escreve para seus compatriotas. Em março de 2011 ele escreveu sobre o “Viva una Experiencia…” dizendo que só tinha visto esse disco na web uma vez (hoje existem algumas referências, além desta matéria da Consultoria), em um “blog brasileiro o português que era una delícia, de excelentes perlas como esta”. Ele lamentava, no entanto, ter perdido o endereço do tal blog. Pois bem: o blog era o “Mundo estranho de PB” e a matéria fui eu que escrevi (e usei agora com algumas novas informações). As fotos que ele usou, e é aí que está a prova de que era a minha matéria, foram as mesmas que eu usei aqui na consultoria porque foram tiradas do meu exemplar do disco. Como retribuição, roubei do blog dele essa foto do Los Memphis. Foi muito gostoso descobrir isso 4 anos depois. E, claro, fiquei me achando…

    http://garagelatino.blogspot.com.br/2011/03/va-viva-una-experiencia-psicotomimetica.html

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