Cinco Discos Para Conhecer: Noise Rock

2 de outubro, 2015 | por Alisson Caetano
Cinco Discos Para Conhecer
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Por Alisson Caetano

Transformar o que muitos consideram incômodo sonoro e ruído em música é uma tarefa deveras complicada. Fazer com que se compreenda as reais intenções de uma música encoberta por uma muralha de feedbacks, ruídos e efeitos é tarefa tão complicada quanto.

É difícil apontar quando o gênero noise rock tomou forma, muito menos quando surgiu, mas é fácil perceber que tem sido uma constante nos submundos da música underground e alternativa nos fins dos anos 80 e — principalmente — nos anos 90 em diante, quando literalmente fervilharam projetos que abraçaram com orgulho o rótulo de noise para si.

Como sempre, incontáveis discos ficaram fora da lista, mas como o intuito é citar apenas cinco, a matemática não me permitiu colocar 10 discos aqui. Por fim, vale repetir os mesmos dizeres que fiz em minha matéria sobre drone:

Os discos citados abaixo não são de audição fácil, portanto, se você:

  1. Não gosta de heavy metal;
  2. Não gosta de música experimental, ou;
  3. Acha que tudo o que vou citar abaixo nem é música de verdade, ou até;
  4. Está esperando Metal Machine Music.

Não se dê o trabalho de prosseguir com a leitura.


white-light_white-heatThe Velvet Underground – White Light / White Heat [1968]

Goste você ou não das estranhas composições de Lou Reed a frente do Velvet Underground, há de dar o braço a torcer: surtiram influência igual — ou até maior — que os Beatles nas gerações seguintes, desde o punk, o rock avant-garde, a art-rock e, neste caso, na utilização do conceito noise no rock. A estética e sonoridade do disco é completamente atípica: ruidosa, com baixo e guitarra atravessando canais e vocais hora encobertos por toneladas de fuzz e efeitos de guitarra, hora jogados em um único canal e a volume máximo, causando um efeito realmente incômodo, mas chamativo. Está aí o espírito do estilo: incomodar, mas sempre com um propósito embutido. Talvez o principal propósito da música noise, além de causar desconforto, seja incitar o ouvinte a desvendar o que há além do caos. Ecos de rockabilly, blues, spoken word e poesias profundas sobre assuntos polêmicos, mas sempre de extrema qualidade, acabaram passando batidos por quem não teve paciência ou escopo suficiente para compreender o que estavam ouvindo. Para nossa sorte, uma geração inteira conseguiu sacar o que Lou Reed quis nos mostrar — além de barulho, claro. Seminal, e nada mais.

Lou Reed (vocal, guitarra, piano); John Cale (vocal, baixo); Sterling Morrison (vocal, guitarra, baixo); Maureen Tucker (percussão).

  1. White Light / White Heat
  2. The Gift
  3. Lady Godiva’s Operation
  4. Here She Comes Now
  5. I Hear Her Call My Name
  6. Sister Ray

bigblackBig Black – Songs About Fucking [1987]

Falar em noise rock sem ao menos citar a figura de Steve Albini seria cometer deslize semelhante ao escrever sobre rock progressivo sem falar de Pink Floyd. O Big Black na verdade é uma das várias bandas noise que Albini levou a cabo em sua carreira como músico e, mesmo com uma curtíssima carreira, viriam a ser apontados como enorme influência para futuras bandas que se consagrariam anos mais tarde. Responsável pelas vozes, guitarras e letras do grupo, Albini criou para o Big Black um som frenético e intenso, muito próximo do hardcore, tanto que Albini sempre viu o Big Black como uma banda punk. O clima industrial do disco — intensificado pelo uso de bateria eletrônica e ritmos marciais — mesclado à fúria natural do punk apenas ajudam a traçar um paralelo de semelhança com outras bandas mais conhecidas do grande público, especialmente o Ministry e o Nine Inch Nails. Em resumo, Sonds About Fucking é intenso — tal como o título sugere — e, apesar da dificultosa audição habitual do estilo, cativa rapidamente o ouvinte pelo vigor de suas canções.

Steve Albini (vocais, guitarra); Santiago Durango (guitarra); Dave Rilley (baixo)

  1. The Power of Independent Trucking
  2. The Model (cover do Kraftwerk)
  3. Bad Penny
  4. L Dopa
  5. Precious Thing
  6. Colombian Necktie
  7. Kitty Empire
  8. Ergot
  9. Kasimir S. Pulaski Day
  10. Fish Fry
  11. Pavement Saw
  12. Tiny, King of the Jews
  13. Bombastic Intro
  14. He’s a Whore (cover do Cheap Trick)

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Sonic Youth – Dirty [1992]

Quando despontaram no cenário alternativo no ano de 1983 com Confusion is Sex, já chamaram a atenção pela proposta que mesclava o universo alternativo vigente com uma pegada descaradamente experimental. 9 anos e cinco discos depois, sendo três deles audição rockeira obrigatória — os seminais EVOL [1986]Daydream Nation [1988]Goo [1990] — passamos a presenciar não apenas mais uma banda no meio de uma enxurrada, mas uma banda convicta do que estava fazendo — uma banda influente, em resumo –. Dirty chama a atenção pela evolução da forma como a guitarra é encarada em seu papel na criação de arranjos, bases e solos. Tudo é impressionantemente assimétrico, mas ao mesmo tempo cativante. Reza a lenda que inúmeros utensílios foram usados para produzir sons específicos na guitarra, como baquetas e ferramentas, algo que não é de se duvidar, pois o som obtido é realmente estupendo, mesmo sendo noise. Arranjos pop que mesclam-se a melodias sombrias e guitarras dissonantes dão o tom de um disco que pode parecer estranho à princípio, mas que cresce nas audições seguintes.

Thurston Moore (vocal, guitarra); Kim Gordon (baixo, vocal, guitarra); Lee Ranaldo (guitarra, vocal); Steve Shelley (bateria)

  1. 100%
  2. Swimsuit Issue
  3. Theresa’s Sound-World
  4. Drunken Butterfly
  5. Shoot
  6. Wish Fulfillment
  7. Sugar Kane
  8. Orange Rolls, Angel’s Spit
  9. Youth Against Fascism
  10. Nic Fit
  11. On the Strip
  12. Chapel Hill
  13. JC
  14. Purr
  15. Créme Brûlèe

a3612822745_16Today is the Day – Willpower [1994]

Em se tratando de noise, o Today is the Day, norte-americanos da cidade do Tennessee, já se tornaram referências para toda e qualquer banda do estilo que viesse a surgir futuramente. O som é completamente raivoso, dissonante, provocativo e, o mais importante, imprevisível. O trabalho vocal de Steve Austin é estupendamente doentio, com vários gritos e vocais rasgados que, juntamente das guitarras agudas produzindo riffs curtos e explosivos, criam um verdadeiro caos sonoro imprevisível. O grande charme de Willpower é conseguir unir a dissonância e andamentos de math rock com trechos onde as melodias e influência de shoegaze — My Bloody Valentine, principalmente — dominam as músicas, passando de momentos de súbito peso e raiva para momentos esmagadoramente sentimentais. E isso faz todo o sentido do mundo no contexto que o disco se enquadra. Tematicamente, Willpower também não é acessível. Basicamente é um turbilhão lírico sobre desespero, depressão, suicídio e letras confessionais, tornando o panorama geral do disco ainda mais brutal.

Steve Austin (vocal, guitarra, samplers); Mike Herrell (baixo); Brad Elrod (bateria)

  1. Willpower
  2. My First Knife
  3. Nothing To Lose
  4. Golden Calf
  5. Sidewinder
  6. Many Happy Returns
  7. Simple Touch
  8. Promised Land
  9. Amazing Grace

155394Oxbow  – The Narcotic Story [2007]

Diferente dos anteriores, The Narcotic Story não é um disco que abusa de distorções de guitarras, feedbacks e efeitos que procuram preencher todos os espaços da música. Utilizando sonoridades acústicas que mesclam-se a nuances produzidas por efeitos digitais e muitas vocalizações, é certamente um dos discos mais singulares a marcar presença aqui. As influências de blues e jazz são gritantes durante toda a audição, e a banda parece deixar claro que o disco é mais referencial do que uma complexa montagem de barulhos. Algo notável e onipresente nos pouco mais de 40 minutos de duração do disco é o clima esquizofrênico das faixas, sempre muito sombrias e com vocais e vocalizações — a cargo do performático Eugene Robinson — que mais se assemelham a um usuário de drogas agonizando em estágio de abstinência — o título do mesmo não é por acaso –. Um disco tortuoso de avant-garde sobre drogas que definitivamente não tem absolutamente nada de semelhante à apologia e felicidade dos discos psicodélicos dos anos 60.

Eugene Robinson (vocais); Niko Wenner (guitarra); Greg Davis (bateria, percussão); Dan Adams (baixo). Para line-up completo, consulte o All Music.

  1. Mr. Johnson
  2. The Geometry of Business
  3. Time, Gentlemen, Time
  4. Down a Stair Backward
  5. She’s a Find
  6. Frankly Frank
  7. A Winner Every Time
  8. Frank’s Frolic
  9. It’s the Givin, Not the Taking



26 Comentarios

  1. Antonio Marcos disse:

    Parabéns pela matéria Alisson, os discos selecionados são bem representativos do noise, além de reconhecer a importância de Lou Reed e Sonic Youth, que geralmente são solenemente ignorados ou esnobados por alguns consultores. Outra excelente lembrança foi a de Steve Albini, que, além de produtor, tem uma obra musical bastante interessante.

  2. CLEIBSOM CARLOS disse:

    Cara, você não acha que faltou o Psychocandy nesta lista, não?

    • Não. kkk. É um puta disco importante também, mas são só cinco privilegiados, obviamente alguma coisa ia ficar fora. Privilegiei o Sonic Youth no lugar do Jesus and Mary Chain pra ilustrar o noise pro lado do alternativo. Pode reparar, cada um dos discos que eu citei não se enquadram objetivamente em um mesmo estilo (quis ser abrangente no fim das contas).

      • CLEIBSOM CARLOS disse:

        Entendo o seu ponto de vista, só não entendo porque do Sonic Youth você pegou justamente o disco que tem menos noise…

        • Digamos que o noise é um estilo difícil por natureza, indiquei o Dirty por ser mais “acessível”. Eu na verdade iria indicar o EVOL, mas fui por essa lógica mesmo.

  3. Marco Gaspari disse:

    Muito bom Alisson. Matéria super bem-vinda. Faça mais.

  4. André Kaminski disse:

    É curioso que o noise rock é um dos estilos que menos gosto do rock, mas sempre há uma coisinha ou outra que escapa. Por exemplo, não gosto do Velvet Underground (na realidade, qualquer trabalho que tenha a assinatura de Lou Reed nos créditos) e nem de Sonic Youth, mas Today is the Day eu já escutei e até gostei do disco Kiss the Pig, que eu ouvi há algum tempo e achei interessante. De curioso, botei para ouvir o Willpower aqui no youtube e ele me lembra de uma certa maneira o funeral doom metal que eu gosto de ouvir. Não pela velocidade, mas pelo fato de ambos os estilos darem uma sensação de agonia e desespero no ouvinte. O funeral doom metal daquela maneira lenta e pesada e o Today is the Day de maneira mais raivosa.

    Gostei dessa banda, usa o noise de uma maneira bem melhor do que a maioria que já ouvi.

  5. Giovanni Cabral disse:

    Alguns poderão reclamar da falta de Shellac, Jesus Lizard ou Boris, outros reclamaram da presença do Oxbow, mas eu achei que a lista ficou muito boa.

  6. Erick Cordeiro disse:

    Belíssima matéria,Alisson!!Porém é um crime se esquecer de falar,pelo menos um pouquinho de um pouquinho de um pouco,do VERDADEIRO E ETERNAMENTE GENIOSO GÊNIO DO VELVET,o nome deste gênio é John Cale!!Ok,as letras de Lou são transcendentais a nível olimpiano,porém se hoje o VU é conhecido por ser um dos maiores grupos de rock vanguarda,e art rock,de todos os tempos é porque o gênio de Cale se fez presente!Indico ouvirem um dos melhores,senão o melhor,disco de 1974,o nome deste disco é ‘Fear’,Cale mostra neste disco o por quê de ser o porque!

    • A menção à obra prima White Light/White Heat já consagra cada um dos envolvidos em sua concepção no mesmo patamar de importância. Intensifiquei a menção ao Reed pelo impacto que sua obra surtiu nas gerações seguintes e muitos ainda se negarem a reconhecer isso. Mas concordo contigo, John Cale foi peça chave na formatação do som VU.

      • Marco Gaspari disse:

        John Cale é um monstro sagrado, mas isso não diminui em nada a figura de Lou Reed. A química só existe quando se juntam dois elementos. O que Cale fez na carreira solo, e ajudando ou produzindo a carreira dos outros, ou o que Reed fez em sua carreira solo também, não servem de comparação para a capacidade que eles tinham de fazer coisas ainda mais incríveis juntos. A Coca Cola surgiu da união de noz de cola e folha de coca. Coca é uma coisa e cola é outra. Só que juntas representam nada menos que a Coca Cola.

        • Erick Cordeiro disse:

          Hehehe Gaspari sempre despejando genialidade,claro,exceto quanto critica sua banda favorita,o Supertramp.Concordo,Marco,pois realmente Cale e Reed juntos faziam coisas que até Deus ficava surpreso.Mas no mais é isso mesmo,como dizia um ser humano:”Waters e Gilmour juntos no PF era tão bom quanto sexo com amor – ou amor e sexo,depende da ocasião – em um entardecer ensolarado azulado.”

  7. Erick Cordeiro disse:

    Eu quero lançar uma desafio para os Consultores da CR,na verdade é uma proposta,que exige “esforço”,disciplina e,principalmente,atenção.A proposta é a seguinte;Fazer uma Discografia Comentada da banda que EU considero melhor do que qualquer banda do planeta Terra,o nome desta banda,que começou no Surf Music,é The Beach Boys,banda inigualável e especial.Com todo respeito aos Beatlemaníacos,mas o TBB faz dos Beatles uma poeira perdida em uma vasta vastidão empoeirada..Bom,é isso,espero que algum Consultor esteja apto a fazer essa tarefa que é mais do que prazerosa.É prazerosíssima…

    • Marco Gaspari disse:

      Bom, da minha parte, só a consideração que você tem pelos Beatles já me faz desconsiderar sua proposta, Erick.

    • Faço uso das palavras do Marco. E acrescento: quem não gosta de Beatles moço não é

      • Marco Gaspari disse:

        Até que os irmãos Machado podiam fazer. Também não gostam de Beatles e acham genial o combo que toca as músicas do Brian Wilson.

      • Erick Cordeiro disse:

        No caso,’quem não gosta dos Beatles bom moço não é’…Mas eu discordo.Pois eu admiro BASTANTE os besouros de Liverpool e considero,sim!,a banda mais influente de todos os tempos,porém nem se os Deuses do Olimpo quisesse os Beatles seria a maior banda de todos os tempos,POR QUE?Porque existiu bandas como TBB,VdGG,Yes,The Kinks,Pink Floyd,Kraftwerk etc.Não me levem a mal,eu gosto de dá umas alfinetadas nos Beatles – e em outras bandas -,porém respeito a banda tanto quanto os meus artistas preferidos.E os Beach Boys não foram só o combo do genioso Brian Wilson,o TBB também teve um período em que Carl,Bruce,Dennis e Cia comandaram o TBB com firmeza,plenitude e beleza.Tudo bem,Gaspari e Alisson,respeito a decisão de vocês.E só para acrescentar,eu não sou um bom moço,sou um ótimo moço. :]

        • Marco Gaspari disse:

          E que fique claro que eu gosto é de moça.

          • Erick Cordeiro disse:

            Já eu prefiro mulheres,pois são mais maduras e mais interessantes.Sem contar que é mais fácil elas,as mulheres,gostarem de Rock Progressivo! O/

  8. Espero que meu comentário não seja encarado como ofensa, mas pra mim drone e noise é tudo a mesma coisa… Não consegui diferenciar uma coisa da outra…

  9. Elkiaer Ribeiro disse:

    Esse disco do Big Black é foda demais, tem uma música do Queens of the Stone Age chamada Feel Good Hit of the Summer que é um plágio/homenagem á Pavement Saw, e sempre achei esse disco algo mais Hardcore Punk.. Boa lista cara, seria um boa fazer uma “Parte 2” só pra quem quer se aprofundar mais e não apenas conhecer o gênero.

    • A intenção é fazer uma parte 2 futuramente mesmo Elkiaer, muito mais pela quantidade de discos bacanas que ficaram de fora. Mas é bem futuramente mesmo, tenho outras ideias na cabeça por enquanto. Mesmo assim valeu pelo comentário, cara!

  10. Adriana disse:

    Conheço quase nada… Só não entendi isso:

    “Os discos citados abaixo não são de audição fácil, portanto, se você:

    Não gosta de heavy metal;”

    Que raios uma coisa tem a ver com a otra? rs

    • Marco Gaspari disse:

      Às vezes é só uma questão de aumentar o volume. Para mim, por exemplo, se o som está baixo, a audição não é fácil.

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