Discografias Comentadas: Änglagård

1 de novembro, 2015 | por micaelmachado
Discografias Comentadas
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Änglagård

Por Micael Machado

Criado pelos músicos Tord Lindman (guitarras e vocais) e Johan Högberg (baixo) no verão de 1991, o grupo sueco Änglagård (termo inventado pelo guitarrista, que pode ser traduzido como “Jardim de Anjos”, ou “Lugar de Anjos”) começou a tomar forma com a chegada, ainda no mesmo ano, de Thomas Johnson (piano, mellotron e sintetizadores), Jonas Engdegård (guitarras) e Mattias Olsson (bateria e percussão). No ano seguinte, Anna Holmgren (flauta e saxofone) se uniu aos rapazes, e estava estabelecida a formação definitiva do sexteto. Uma demo tape registrada em 1992 lhes garantiu um contrato com a gravadora Mellotronen, e no mesmo ano o conjunto lançaria seu registro de estreia, o qual foi mundialmente aclamado, ajudando a reacender o interesse no rock progressivo, estilo que estava em baixa no início da década de 1990, período dominado musicalmente pelo “grunge” vindo de Seattle.

Acompanhe agora nossa análise da curta, porém muito reconhecida, discografia destes talentosos suecos.

 

Hybris [1992]

Aclamado tanto pela crítica quanto pelos fãs do estilo, Hybris é frequentemente apontado como um dos melhores discos de rock progressivo da última década do século passado. A faixa Jordrök” abre o registro com um início sombrio, que cede espaço para mais de onze minutos instrumentais de muitas variações, com todos os instrumentos (mellotron, violão, flauta, guitarra, teclados, bateria) encontrando aqui e ali um momento de destaque ante os demais, mas atingindo um grande brilho quando unidos na mesma melodia. Lá pelos cinco minutos, uma passagem ao órgão de igreja (que remete às composições de Rick Wakeman na década de 1970) abre espaço para um “duelo” entre guitarra e teclados que é um dos melhores momentos do álbum (e é interessante perceber nesta faixa como o grupo sabe mesclar trechos agitados e barulhentos com outros calmos e silenciosos de forma bastante harmoniosa). A segunda faixa, “Vandringar i Vilsenhet”, abre com um trecho de flauta que remete à primeira fase do King Crimson, mas logo assume uma tonalidade meio sombria/meio “divina”, a qual, após um pequeno trecho de agitação, nos entrega as primeiras frases cantadas do álbum, em um ritmo mais frenético do que a música possuía até então, caindo depois em uma sequência “quebrada” e complexa digna dos maiores nomes do rock progressivo setentista e que, quase doze minutos depois do início, vai desaguar em um final angustiante e com um clima “macabro”, graças ao mellotron e às flautas. Na sequência temos “Ifrån Klarhet Till Klarhet”, a mais curta de todas (pouco mais de oito minutos), mas que já começa com um trecho frenético de guitarras e teclados para tirar o fôlego do mais apaixonado fã de Yes. Essa passagem não é muito longa, e um trecho mais calmo (e com vocais) vem “baixar” um pouco a empolgação inicial. Mas uma bela passagem de flauta logo nos conduz a novas variações rítmicas, com a faixa encerrando abruptamente e nos deixando aquela característica sensação de “quero mais” típica das boas emoções. Finalmente, os mais de treze minutos de “Kung Bore” iniciam com teclados, baixo e bateria continuando a “quebradeira” do meio da faixa anterior, a qual cede lugar para uma calma e encantadora passagem de violão e flauta, que vem desaguar em mais um dos poucos trechos cantados do registro. Mas, nestas alturas, o ouvinte mais atento já sabe que uma nova virada rítmica acontecerá, e, embora não  tão brusca quanto outras guinadas anteriores, novamente a música ganha velocidade, e, após muitas outras mudanças de direção, um curto trecho de flauta encerra o álbum e nos deixa com aquela vontade de voltar e ouvir tudo de novo. Uma edição remasterizada lançada em 2000 trouxe a faixa bônus “Gånglåt Från Knapptibble”, a qual aparenta ser a versão demo de “Skogsranden”, presente no segundo disco, Epilog. Cabe ainda citar que, no site Prog Archives, Hybris já foi apontado como o décimo-sétimo melhor disco de todos os tempos, o que dá um bela ideia de seu apreço por parte dos fãs de progressivo!

 

A formação clássica do Änglagård: Anna Holmgren, Jonas EngdegårdJohan Högberg e Thomas Johnson (em pé), Mattias Olsson e Tord Lindman (abaixados)

Epilog [1994] 

Não que fosse novidade no mundo da música em geral, mas causou certa surpresa o segundo disco do Änglagård ser totalmente instrumental. Desta vez haviam apenas três longas faixas, juntamente a três vinhetas (uma calma e tranquila introdução intitulada “Prolog”, conduzida pelo mellotron; um “interlúdio” de 14 segundos de “barulhinhos” praticamente inaudíveis intitulado “Rösten”; e a plácida “outro” “Saknadens Fullhet”, conduzida pelo piano), as quais bastaram para manter o nome do grupo em evidência na comunidade progressiva mundial. “Höstsejd“, a primeira faixa “de fato”, é uma das melhores composições destes suecos, mostrando bem o lado “esquizofrênico” da banda através de suas múltiplas variações ao longo dos mais de quinze minutos de duração da música, com destaque para os longos trechos de mellotron e flauta, e para a agressividade da guitarra, que desfila solos com um estilo similar ao que Robert Fripp utiliza no seu King Crimson, além da “cozinha” se impor em certos trechos, executando “quebradeiras” quase “impossíveis” de serem reproduzidas! Ainda há espaço para um longo trecho mais calmo e contemplativo na seção central da suíte, mas o que acaba prevalecendo são as melodias “quebradas” e as mudanças de direção que tanto agradam aos fãs deste estilo musical. “Skogsranden” tem um início bem calmo, destacando a flauta e o piano, mas não demora muito para tudo ficar agitado e “esquizofrênico”, como parece reger o “manual de composição” do grupo. Interessantes passagens do mellotron (intercaladas por sintetizadores) marcam esta segunda fase da canção, e é Thomas Johnson quem guiará a melodia da composição durante quase a totalidade dos perto de onze minutos de sua duração (boa parte deles tornando-se os mais contemplativos deste registro), contando ainda com o precioso apoio do baixo de Johan Högberg, com a guitarra e a flauta obtendo algum destaque apenas mais próximo ao final, pouco antes de nova mudança de direção e de nova “agitação sonora” atingir os nossos sentidos e silenciar brusca e inesperadamente. Antes do encerramento com a “outro” citada, ainda temos “Sista Somrar“, a última faixa “de fato”, e que se tornaria um “clássico” na discografia do Änglagård. Um perfeito resumo do “modelo de composição” do sexteto, ela começa calma e sombria, embarcando depois em uma verdadeira “montanha russa” de ritmos que, por mais de treze minutos, servirão como exemplo da capacidade técnica e criativa destes músicos excepcionais (confira com especial atenção um trecho que se inicia lá pelos sete minutos e lembra uma espécie de “marcha macabra” executada em uníssono por guitarra, baixo e percussão, com o teclado dando um “molho” sombrio ao fundo – de arrepiar!). Em 2010, a própria banda lançou uma edição remasterizada deste álbum, a qual vem com um CD bônus contendo apenas uma faixa, a qual parece ser a versão “completa” da vinheta “Rösten” (visto ter o mesmo nome), embora seja completamente diferente desta.

Infelizmente, o ambiente dentro do grupo já não andava lá muito bom durante as gravações de Epilog, e, pouco depois de uma apresentação no Progfest de 1994 (ocorrido na cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos, e que seria lançado em CD sob o título Buried Alive no ano de 1996), o sexteto anunciou o final de suas atividades. Entre 2002 e 2003, o grupo (sem a presença de Tord Lindman) fez algumas apresentações pela Europa e EUA (onde participam do tradicional festival progressivo NEARfest), mas questões pessoais e familiares levam a uma nova parada nas atividades do Änglagård, as quais só seriam retomadas em 2011, quando o quinteto remanescente (Lindman novamente ficou ausente da reunião) fez algumas poucas apresentações (com destaque para o retorno ao NEARfest no ano seguinte), além de iniciar as gravações do que viria a ser seu terceiro álbum, o qual finalmente viu a luz do dia em 2012.

 

O grupo em 2011: Thomas Johnson, Anna Holmgren, Johan BrandMattias Olsson e Jonas Engdegård

Viljans Öga [2012]

Assim como a estreia, o terceiro disco do Änglagård trazia apenas quatro longas faixas, as quais, mesmo soando mais calmas e contemplativas do que as registradas no passado do grupo, mantiveram a qualidade e boa parte das características presentes nos álbuns anteriores dos suecos. Os quase dezesseis minutos de “Ur Vilande” trazem em seu início esta nova característica mais calma e “controlada”, mas, depois de quatro minutos, a guitarra ganha distorção e o ritmo se intensifica, sem no entanto chegar a se tornar aquele “caos sonoro” que os registros anteriores por vezes apresentavam. Belos trechos de mellotron e flauta ainda aparecem no desenrolar da canção, a qual, surpreendentemente, consegue se manter plácida e lânguida por quase toda a sua duração (embora eu seja forçado a admitir que certos trechos soem repetitivos em demasiado). “Sorgmantel” também se inicia de forma calma (embora um pouco mais sombria), mas seus mais de doze minutos possuem vários momentos de agitação, além de alguns trechos mais “pesados” e distorcidos da guitarra de Jonas Engdegård e até um mini-solo do baixo de Johan (que passou a adotar o sobrenome Brand desde a abortada reunião da banda em 2002). “Snårdom” inicia como a mais agitada e “esquizofrênica” faixa de Viljans Öga até então, embora a “quebradeira” seja bem menor que a de discos anteriores. Mesmo assim, após mais de dezesseis minutos de uma verdadeira “montanha russa” sonora, posso indicar esta como a melhor faixa deste terceiro registro do Änglagård, possivelmente por ser a que mais lembra o “passado glorioso” do agora quinteto. Por fim, temos a instrumental “Längtans Klocka”, que inicia lembrando muito o King Crimson de Islands (devido à flauta e ao piano), mas logo ganha uma “cara” mais parecida com suas companheiras de track list, mantendo o clima “contemplativo” por aproximadamente cinco minutos, até uma guitarra rascante e barulhos “inusitados” de percussão “quebrarem” o ritmo da canção, mantendo a audição imprevisível (flauta, guitarra e piano se alternam no “comando” das ações por um bom trecho, com o baixo e a bateria dando um verdadeiro show ao fundo) entre a quebradeira e a calmaria até próximo de seu final, quando o andamento passa a lembrar uma composição circense, ou algo inspirado na década de 1920 (até pelos instrumentos utilizados), em um encerramento bastante “estranho” se comparado aos demais momentos da discografia do grupo. De todo modo, um bom álbum, apenas (por ser “calmo” e “contemplativo” demais) não seria aquele que eu indicaria para quem quiser começar a conhecer a sonoridade do Änglagård.

 

Ainda em 2012, o grupo anunciou o retorno do membro fundador Tord Lindman, mas, infelizmente, ocorreram as saídas de Thomas Johnson, Jonas Engdegård e Mattias Olsson. Johan, Tord  e Anna recrutaram Linus Kåse (teclados, saxofone) e Erik Hammarström (bateria, percussão, ex-The Flower Kings) e continuaram a excursionar, chegando até mesmo a lançar um segundo registro ao vivo, Prog På Svenska: Live in Japan, que, como o nome indica, foi gravado no Japão entre 15 e 17 de março de 2013, e chegou no mercado no ano seguinte.

Foto promocional da formação do Änglagård em 2014 (ainda como quinteto): Anna Holmgren, Johan Brand, Tord Lindman, Erik Hammarström e Linus Kåse


Em 2014, foi anunciado o retorno do guitarrista Jonas Engdegård, com o (novamente) sexteto continuando a excursionar pela Europa e América do Norte, sem previsão (ainda) de que um quarto álbum venha a ser lançado. Mesmo assim, ficamos todos na expectativa de que a saga destes suecos ainda não tenha sido encerrada, e que novas composições venham a surgir no futuro para deleite de nossos ouvidos. Que assim seja!



4 Comentarios

  1. André Kaminski disse:

    Conheço o Hybris e lembro que foi na época que eu estava descobrindo o rock progressivo há uns 7 anos, sendo um dos primeiros discos que fui atrás. A sonoridade deles é típica do progressivo noventista, com a guitarra e o mellotron bem proeminentes (e com um peso maior) e um instrumental bem complexo e intrincado. Ótima ideia em resgatá-los por aqui, Micão!

  2. Marco Gaspari disse:

    O cara tem nome de anjo e faz a discografia do Anglagard: é um predestinado. Muito bom, Micael.

  3. Marcos Aurélio disse:

    Gostei bastante do Hybris mas nunca fui além dele na breve discografia da banda, acho que depois de ler essa matéria encontrei a deixa. Outra excelente banda do revival progressivo sueco dos anos 90 é o Anekdoten que tem mais a minha preferencia.

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