Joe Satriani – Shockwave Supernova [2015]

5 de novembro, 2015 | por Alisson Caetano
Resenha de Álbum
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Por Alisson Caetano.

Acredito que, para fãs de guitarra, tornou-se uma tarefa quase hercúlea garimpar novos artistas e discos que consigam fugir da velha fórmula de rock instrumental virtuoso, tão em prática atualmente em discos que vivem infernizando nosso cotidiano.

Com “fórmula de rock instrumental virtuoso”, refiro-me às longas composições com solos abarrotados de alavancas, tremolos e arpeggios tocados impecavelmente, mas sem um pingo de autenticidade e feeling. Para os verdadeiros fãs das seis cordas — como eu — é realmente triste vê-las sendo tão castigadas por guitarristas robóticos e suas demonstrações gratuitas de escalas pentatônicas e velocidades nas palhetadas. Os fãs de Michael Angelo Batio e Yngwie Malmsteen que me desculpem, mas o que sobra em técnica para ambos, falta em senso de ridículo na mesma proporção.

Obviamente, exitem as exceções, senão este texto não teria propósito de existência, e o norte-americano Joe Satriani é uma delas. Com um currículo onde constam passagens por bandas consagradas e várias participações especiais em tantas outras, Satriani continua entregando, em cada um de seus discos, verdadeiras lições de guitarra formatadas da melhor forma imaginável. Carregados de senso melódico e critério na hora de dosar técnica e “feeling”, discos como Surfing With the Alien [1987] e The Extremist [1992], por exemplo, são prato cheio para amantes de uma guitarra bem tratada pelas mãos de quem sabe a importância e envergadura do instrumento que está empunhando.

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Shockwave Supernova, décimo quinto disco em carreira solo, é mais um capítulo de destaque em sua trajetória. Apoiado em estúdio por uma verdadeira constelação de instrumentistas — Marco Minnemann (Steven Wilson) e Vinnie Colaiuta (Frank Zappa) se revezando nas baquetas, Bryan Beller (Dethklok) e Chris Chaney (Jane’s Additcion) se revesando no baixo, e Mike Keneally comandando os teclados — Satriani volta a presentear seus fãs com mais 15 faixas daquilo que sabe fazer de melhor.

Por se tratar de um disco instrumental, o foco obviamente recai para as seis cordas, mas isso não ocorre de maneira afetada. O disco percorre o caminho da música instrumental tendo com fio condutor o hard rock e o progressivo: o hard rock pela fácil assimilação das canções, o progressivo nos fraseados de guitarra e a experimentação com música erudita.

O estilo musical do disco consegue seguir um padrão melódico (muito auxiliado pela produção caprichada), apesar de cada música possuir destaques suficientes para se sobressaírem. “Shockwave Supernova” e “Lost in a Memory”, dobradinha de abertura, andam por melodias sci-fi sem tirar os pés do hard rock. “Crasy Joey”, por sua vez, soa de certa forma vintage em ritmos cheios de balanço e riffs extremamente pegajosos. “Cataclysmic”, por sua vez, enaltece a habilidade de Satriani como solista em uma faixa de pegada épica e com um certo tempero árabe, uma das melhores do disco todo.

A parte final do disco também reserva boas surpresas. Dentre elas, “Scarborough Stomp”, facilmente assimilável pelas melodias simples, quase pops, e pelos solos harmoniosos. O disco sofre uma leve queda de qualidade já próximo de seu encerramento. “San Francisco Blues” poderia facilmente ter ficado de fora. Blues genérico e mal construído, passa batido sem dizer nada de relevante ao ouvinte. “A Phase I’m Going Trought” e “Stars Race Across the Sky”, por sua vez, são facilmente esquecíveis por suas melodias insípidas. Por fim, “If There Is No Heaven” apresenta uma pegada que, guardada as devidas proporções, se assemelha a uma música post-punk, mas que se desprende rapidamente deste rótulo e demonstra mais linhas inventivas de guitarras em uma música de clima sombrio, talvez a que mais destoe do conteúdo apresentado anteriormente.

Com poucos ponto fracos, mas nenhum que chegue a comprometer o saldo geral do trabalho, Shockwave Supernova, além de um dos discos mais bacanas do ano e mais um belo acerto de Joe Satriani em sua longa carreira, mostra que há vida dentro do rock instrumental.


Tracklist:

  1. Shockwave Supernova
  2. Lost in a Memory
  3. Crazy Joey
  4. In My Pocket
  5. On Peregrine Wings
  6. Cataclysmic
  7. San Francisco Blue
  8. Keep on Movin
  9. All of My Life
  10. A Phase I’m Going Through
  11. Scarborough Stomp
  12. Butterfly and Zebra
  13. If There Is No Heaven
  14. Stars Race Across the Sky
  15. Goodbye Supernova

Line-up:

Joe Satriani – guitarra; teclados; baixo (faixa 6); gaita

Mike Keneally – teclados; guitarra rítmica (faixa 2)

Marco Minnemann – bateria (faixas: 1, 2, 5, 6, 7, 9, 10, 13, 14, 15)

Vinnie Colaiuta – bateria (faixas: 3, 4, 8, 11)

Bryan Beller – baixo (faixas: 1, 2, 5, 7, 10, 12, 14, 15)

Chris Chaney – baixo (faixas: 3, 4, 8, 11)

Bobby Vega – baixo (faixa 9)

Tony Menjivar – percussão

John Cuniberti – percussão

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14 Comentarios

  1. Igor Maxwel disse:

    Todos os álbuns do Professor Satriani são muito bons, e este é certamente um deles.

  2. André Kaminski disse:

    Ótimo texto, Satriani é o meu favorito dentre esses discos instrumentais de guitarristas. Ainda não ouvi esse disco novo, mas se ele segue o que é costumeiro ouvir em suas composições, deve ser ótimo tal como descreveste.

  3. Marco Gaspari disse:

    Dos discos do Satriani o que eu conheço melhor é o surfista prateado. Já tinha ouvido a faixa Cataclysmic por sugestão de um amigo e gostei bastante. Esse tipo de virtuaose da guitarra não me entusiasma, embora reconheça que ele seja menos festivo que os demais. Se fossem marcas de automóvel, o Satriani seria um Volvo: tem lá suas linhas arrojadas, não enfeita muito, tem um certo apelo conservador, e um motor potente que não deve nada pra ninguém. Muito bom, Alisson

    • Francisco Campos disse:

      Também não sou chegado a guitarrista presepeiro. Prefiro Rory Gallagher, Andy Latimer, Zal Cleminson… rsrs. Prefiro Joe Bonamassa!

      • Erick Cordeiro disse:

        Hehehe De fato,Marco.Também não curto muito virtuoses a la Satriani,Francisco Campos.Prefiro virtuoses a la Howe,Hackett,Oldfield,McLaughlin etc.Mas acho interessante o acordar e dormir da guitarra satrianense.

  4. Erick Cordeiro disse:

    Boa matéria,Alisson!!Queria te fazer uma pergunta,na sua opinião qual o melhor disco instrumental tendo como centro a guitarra?

    • Pergunta difícil, mas meu encantamento pelo eterno Zappa me induz a dizer que é o Shut Up and Play Yer Guitar. O que ele mostra naquele disco é sublime.

      • Marco Gaspari disse:

        Não existe melhor disco instrumental de guitarra. Não existe melhor disco de porra nenhuma. Isso de melhores de todos os tempos é invenção da Consultoria pra premiar o RPM. Mas me gusta muito o Cristo Redentor do Harvey Mandel. E mais um monte.

        • Nao é porque sou puxa saco seu, Marco, mas tenho de concordar. No caso é opinião pessoal. Dizer que a opinião alheia é uma merda ou que uma lista de alguém ficou uma bosta me soa presunçoso demais. A opinião de ninguém vale mais que a opinião alheia.

          E é isso, Frank Zappa é meu guitarrista favorito, não tinha como citar outro disco senão um dele.

          • Marco Gaspari disse:

            Não quis ser estraga prazer e acho até divertido essas disputas de quem é o melhor. E gosto pessoal se discute sim. O duro é arrumar argumentos na hora de provar que o seu guitarrista é melhor que o meu. Como eu sou preguiçoso e ruim de argumentos, prefiro meter o pau nessas listas e posar de fodidão.

          • Erick Cordeiro disse:

            Hehehehe Esse Marco Gaspari é um figuraça hein..

          • Fernando Bueno disse:

            É verdade Erick, o Marco é uma figura, mas O salário dele não sei se vame a pena. O Marco é uma espécie de Sheik….

        • Marcello disse:

          CARAMBA!!! Acho que é a primeira menção ao sensacional “Cristo Redentor” no século XXI aqui no Brasil. Sem brincadeira, Harvey Mandel é um guitarrista fantástico e pouco conhecido. Particularmente, gosto muito da faixa título, com seus vocais etéreos, da viagem de Snake e de Wade in the Water.

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