Jo Ann Kelly

9 de novembro, 2015 | por Marco Gaspari
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Por Marco Gaspari

Ser coroada rainha em um país que preza tanto a monarquia já dá uma boa dimensão da importância de Jo Ann Kelly para o blues britânico. Mas sua fama há muito deixou de estar cercada de água por todos os lados para extrapolar a Grã-Bretanha e conquistar os aficionados do blues no mundo inteiro.

Nascida em Streatham, no sul de Londres, em 5 de janeiro de 1944, a pequena Jo Ann foi o raio que caiu pela segunda vez no mesmo lugar: seu irmão mais velho, Dave Kelly, também se tornaria um grande nome do blues inglês, tocando na John Dummer Blues Band e na sua Dave Kelly Band.

Adolescentes ainda, e já apaixonados pelo blues acústico, os irmãos Kelly conheceram Tony McPhee, outro tarado pelo gênero e que mais tarde formaria o Groundhogs. Foi Tony quem introduziu Jo Ann ao som de Memphis Minnie, a grande cantora de blues americana, que seria sua maior inspiração na carreira.

kelly 2Por volta de 1962 Jo Ann Kelly já começava a impressionar a audiência dos nightclubs londrinos, adaptando os clássicos de Memphis Minnie, Bessie Smith e outras grandes cantoras ao seu próprio estilo. Sua marca registrada, já bem definida nessa época, era a voz poderosa e penetrante e sua exímia habilidade com a guitarra acústica.

Quem ouve a voz e o violão de Jo Ann Kelly imagina imediatamente uma negra sofrida, descendente de escravos, cantando suas mazelas em um campo de algodão perdido no interior dos EUA em plena depressão. Mas sua voz vem de um rosto delicado e branco, de cabelos loiros, com toda pinta de uma bibliotecária londrina. O contraste é impressionante, tanto que surpreendeu os americanos nas suas primeiras apresentações no país.

kelly 3No ano de 1969, Kelly lançou seu primeiro álbum solo (já havia lançado um EP em 64 numa prensagem limitada e dois discos com Tony McPhee) e começou a ganhar o mundo. Suas apresentações em festivais de blues foram sempre marcantes. Em um deles, o segundo National Blues Convention, fez uma jam com o Canned Heat e imediatamente foi convidada para fazer parte da banda em bases permanentes, coisa que declinou simplesmente por não querer ter uma banda eletrificada às suas costas. Outro que se apaixonou pela sua voz foi Johnny Winter, que também não teve sucesso ao convidá-la para seu grupo.

Ficamos então imaginando o que teria sido a cantora Jo Ann Kelly se tivesse trocado sua paixão pelo Delta Blues por um som pesado e mais roqueiro. Provavelmente teria eclipsado todas as cantoras de rock e chegado a um patamar que só Janis Joplin atingiu.

kelly 4Ao longo dos anos 70 e 80, Jo Ann trabalhou muito, seja em discos solos, seja em projetos e bandas de amigos. No Brasil, infelizmente, seu trabalho nunca teve repercussão (só conheço duas faixas suas numa coletânea do selo Immediate chamada Blues Anytime). Em 1989 começou a sentir dores de cabeça e um tumor foi diagnosticado e operado aparentemente com sucesso. Em agosto de 1990 fez sua última apresentação em um festival em Lancashire, onde ganhou o prêmio de melhor cantora de blues do ano. Em outubro veio a notícia: the queen of the british blues is dead.

Algumas músicas

Jo Ann Kelly e Tony McPhee – Oh Death  

Jo Ann Kelly e Tony McPhee – Rollin’ and Tumblin’ 

Jo Ann Kelly – I Feel So Good , Ain’t Seen No Whisky  

Tramp (1969) – Baby What You Want Me To Do 

Jo Ann Kelly –  Me And My Chauffeur Blues  



13 Comentarios

  1. Sou maluco por blues acústico (não tão maluco quanto sou por jazz) e não conhecia essa Jo Ann. Boa dica, Marco, valeu.

  2. José Leonardo G. Aronna disse:

    Confesso que tenho muito poucos discos de blues em minha coleção, e desses discos a grande maioria são de artistas britânicos. Um amigo me mostrou o som de Jo Ann alguns anos atrás e achei excelente. Grande resgate! Excelente!

  3. maironmachado disse:

    Mais uma celebridade obscura que acabo de conhecer. Muito Obrigado Mr. Siri!

  4. José Leonardo G. Aronna disse:

    Marco: Sabias que um disco solo do Dave Kelly deveria ter saído pelo magnífico selo Vertigo em 1971?

  5. Francisco Campos disse:

    Mais uma vez, Marco Gaspari me apresenta uma pérola escondida da música… Grande voz!
    Um pouco dentro dessa linha, espero que, nas próximas pautas, estejam outras pérolas escondidas, como Gary Farr, Roger Rodier, Crash Coffin, Emily Bindiger, Karen Dalton, Anne Briggs, Vashti Bunyan, Mick Softley, Ralph McTell etc etc etc…

  6. Ronaldo disse:

    Lindo texto…muito bom!
    “com toda pinta de uma bibliotecária londrina”
    Tony Mcphee é um cara que merece textos nossos por aqui.

  7. Eudes Baima disse:

    Ótima matéria que me fez correr atrás da cantora que ñ conhecia.

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