Discografias Comentadas: Crowbar [Parte 1]

27 de dezembro, 2015 | por Alisson Caetano
Discografias Comentadas
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Da esq. para a dir.: Tony Costanza, Jeff Okoneski, Sammy Pierre Duet e Kirk Windstein. Encarte do Sonic Excess In It’s Purest Form.

Por Alisson Caetano

Produto da cena metálica de Nova Orleans – de onde surgiram outras bandas seminais, como Acid Bath, Eyehategod e Down – o Crowbar, à sua forma, leva em suas bases devastadoras, letras pessoais e vocais ogríssimos, todas as características e a alma do som produzido nos pântanos sulistas.

Depois de passar por várias bandas em um curto período de tempo durante o final dos anos 80, sendo a mais significativa o The Slugs, que chegou a registrar uma demo e a participar do New Orleans Scene: Allow No Downfall, split com as bandas Soilent Green, S.I.K. e The Detrimentz, Kirk Windstein finalmente viria a formar a banda que basicamente dá voz a toda sua aspiração composicional, no ano de 1990. Uma das primeiras bandas a tocar o que chamamos de sludge metal, é certamente uma das mais respeitadas pelos que vieram futuramente, surtindo influência em qualquer um que ousasse fazer um som pesado, lento e inspirado por hardcore.

Atualmente formado pelo gordinho Kirk Windstein nos vocais e guitarra, Jeff Golden na guitarra, Tommy Buckley na bateria e Matthew Brunson no baixo, vem de uma sequência muito concisa de lançamentos e serão agraciados com essa discografia comentada. Nesta primeira parte, os cinco primeiro trabalhos lançados, que combrem o período de 1991 a 1998.



obedience_thru_sufferingObedience Thru Suffering
[1991]

O primeiro lançamento oficial, datado de 1991 e contando com Kevin Noonan nas guitarras, Todd Strange no baixo e Craig Nunenmacher na bateria, é um ótimo disco de sludge extremamente sujo e singular da banda. Diferente de seus conterrâneos, as letras pendem para temas como depressão, perdas e dificuldades pessoais vividas pelos integrantes, passando longe da temática cannabística e niilista da maioria das bandas da época. Os vocais de Kirk Windstein ainda não apresentam toda a potência que viria a desenvolver nos trabalhos seguintes, não sendo nem de longe os destaques. O poderio instrumental, por outro lado, faz cair o queixo dos que ainda pensam que viram bandas fazendo um som pesado. Riffs sujos, baixo estralando e bateria lenta fazem as vezes de uma mistura nada provável de Black Sabbath com o espírito hardcore do Black Flag. Alguns podem reclamar da gravação saturada, mas acredito que isso confira um ar underground que mais soma do que atrapalha na audição. Dentre os destaques: “Waiting in Silence” e os clássicos andamentos cadenciados, “Obedience Thru Suffering”, uma maravilha sludge de chorar de tão linda e, por fim, “Vacuum”, a música que mais deixa clara uma leve referência de Black Flag da fase My War.


51OJxzpEO4LCrowbar [1993]

Produzido por Phil Anselmo e contando com o ilustríssimo desconhecido Matt Thomas no lugar de Kevin Noonan, Crowbar é um passo em direção ao desenvolvimento definitivo do som da banda para a amálgama de peso e fúria com sensibilidade melódica e lírica. O som é mais encorpado, os riffs, mais “gordos” e a gravação, muito mais abafada, mas como nunca tive problema algum com gravações ruins, isso passa longe de ser um incômodo (pelo menos para mim). Há mais ênfase em andamentos lentos e influência de doom metal no som, o que deixa os riffs com muito mais impacto, talvez os mais inspirados de toda a carreira de Kirk. Visto em comparação com o disco de estreia, Crowbar é uma verdadeira evolução musical do grupo, e isso inclui os vocais de Kirk, muito mais firmes e graves, que complementam o peso dos riffs de forma soberba. Dos destaques, cito a demolidora abertura, “High Hate Extinction”, a cadenciada “Will That Never Dies”, o improvável cover de “No Quarter”, do Led Zeppelin e a quase hardcore “Self Inflicted”, ponto alto do disco e um dos clássicos do estilo.


Crowbar_-_Time_Heals_NothingTime Heals Nothing [1995]

A principal mudança percebida em Time Heals Nothing é a melhora na gravação – talvez uma das melhores da carreira do grupo – e o desenvolvimento pleno da técnica vocal de Kirk Windstein, que se mostra em plena forma. A formação que registrou esse disco se manteve inalterada em relação ao anterior. Musicalmente falando, o disco mantém a coesão e o equilíbrio entre músicas pesadas com riffs groove e as músicas que pendem mais para a influência melódica da banda. Para aqueles que já haviam gostado dos trabalhos anteriores por conta do peso do instrumental, estes terão motivos de sobra para conferir este trabalho. Não há mudanças dignas de serem salientadas com relação à influências ou novidades sonoras. É mais um acerto dentro de uma discografia que se mostra sólida neste mais de 25 anos de estrada. Destaques ficam por conta da boa faixa de abertura, “The Only Factor”, que, apesar da linha de bateria apática demais, compensa com ótimos riffs e refrão simples, mas funcional. “Leave It Behind” é um chute na bunda, com um dos grooves mais grosseiros da banda, enquanto a faixa título é a faixa mais lenta e sentimental do trabalho — prestem atenção em sua letra –. Não entra como um dos mais memoráveis, mas é um disco que merece respeito e sua atenção.


a4258331092_10Broken Glass [1996]

Há uma mudança significativa no line-up para o registro de Broken Glass, quarto disco. Jimmy Bower, lenda viva da cena metálica de Nova Orleans, assume as baquetas aqui. Para os que pouco conhecem do estilo de Jimmy Bower como baterista, execício que praticaria com mais intensidade no Down, é uma mudança que acabará passando meio que despercebida. Porém, as linhas de bateria deste disco em relação ao anterior são muito superiores. A inspiração que Jimmy tem de Bill Ward é gritante: o sujeito toca com um primitivismo e brutalidade inigualável, deixando as viradas mais simples, porém, menos “retas” e sem graça, algo que sempre me tirou da audição do disco anterior. Musicalmente, talvez seja um dos mais sombrios já lançados. Junto da voz intensa de Kirk, foram utilizados com mais sabedoria os backing vocals além das costumeiras enfatizações dos refrões — backing vocals estes que ficaram a cargo de Phil Anselmo. Dentre os destaques, preciso fazer menção à arrasadora “Nothing More”, um monstro depressivo, com pianos em seu trecho final, apenas tornam-na uma das melhores músicas de todo o catálogo do grupo. Logo na sequência, “Burn Your World” é a mais hardcore do trabalho, junto da abertura, “Conquering”. Por fim, “You Know (I’ll Live Again)” tem certa referência de thrash metal, amparada por belas e poderosas passagens de baixo e mais backing vocals de Phil  Anselmo. Mais bem trabalhado e bem pensado, com elementos melódicos que vieram para contribuir e dar uma quebrada em todo aquele mar de peso e ódio, Broken Glass é, ainda, uma preparação para o desenvolvimento pleno para o que viria em seguida.


967Odd Fellows Rest [1998]

Para a gravação de Odd Fellows Rest, a única alteração foi a troca de guitarristas: sai Matt Thomas, entra Sammy Pierre Duet — creditado como Sammysatan Pierre Duet –, guitarrista e vocalista de outra banda muito recomendada, o Goatwhore. Das pinceladas de elementos adicionais, como teclados e backing vocals mais bem trabalhados no disco anterior, vemos aqui um Kirk Windstein convicto do que queria fazer, indo sem dó em um som mais trabalhado e, porque não, mais experimental. A produção do disco, à cargo de Keith Falgout, produtor de outros discos seminais, como Paegan Terrorism Tatics, do Acid Bath, e Holocausto de la Morte do Necrophagia, é mais lapidada, com cada instrumento bem mixado e em seu devido lugar, sem embolar e muito menos sem estar com um som demasiadamente alto. As linhas de bateria são outro destaque interessante. Mesmo ainda à cargo de Jimmy Bower — creditado como Wicked Crickett –, aparecem mais trabalhadas e menos despojadas, menos animalesca. Muitos veem Odd Fellows Rest como o auge criativo e como o melhor trabalho da carreira de Kirk. E não estão errados os que acham isso, apesar de minha preferência pessoal não ser por este trabalho em específico. Dentre os destaques imediatos: “Planets Collide”, clássico eterno da banda, uma das músicas mais lindas e pesadas já compostas. Logo na sequência, temos a pesadíssima “…And Suffer As One”. “To Carry the Load” traz efeitos nas vozes de Kirk em uma das músicas mais estranhas (no bom sentido, claro) de todas. Fechando o pacote de destaques imediatos, “It’s All the Gravity” vai sem dó no sludge lamacento e cheio de ódio, perfeito para arrebentar o pescoço nos shows.


No período de dois anos que separam Odd Fellows Rest de Equilibrium, foi lançado um “best of…” cobrindo o material lançado até a data pela banda. Trata-se de Past and Present [1997], que compila algumas músicas de todos os trabalhos lançados, mais algumas faixas registradas ao vivo. Outro material que vale mais pela curiosidade é o disco de covers Slave to the Power, um tributo ao Iron Maiden, onde o Crowbar entra com uma versão bacana de “Remember Tomorrow“. Confira, daqui 15 dias, a segunda parte da discografia comentada, que cobrirá o período de 2000 até 2014.

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1 Comentario

  1. maironmachado disse:

    A capa do Broken Glass me lembrou a capa do Sin After Sin

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