Blazing Dog – Age of the Beast [2015]

31 de dezembro, 2015 | por Fernando Bueno
Resenha de Álbum
7

Por Fernando Bueno

Há alguns anos, mais ou menos depois do fiasco do Metal Open Air, surgiu uma discussão, que por vários motivos acabou sendo focada em Edu Falashi, discutindo o metal nacional. No cerne das discussões estava o suposto desinteresse dos brasileiros pelas bandas nacionais com três vertentes que explicavam isso tudo: (1) o eterno complexo de “vira-lata”; (2) uma duvidosa baixa qualidade das bandas e; (3) a hipotética cultura brasileira de só buscar os clássicos. Não sei qual seria a explicação dada pelo leitor sobre esse assunto, mas utilizarei estes temas para avaliar o Blazing Dog.

Banda formada em 2004 no coração do Brasil, no Distrito Federal, um lugar que ouvimos falar diariamente nos telejornais com quase a totalidade das vezes noticiando alguma coisa ruim do cenário politico/econômico brasileiro. A formação que está presente em Age Of The Beast tem Renan Guimarães no baixo, Carlos Souza no vocal, Julio Rasec e Raziel Reaver nas guitarras e o baterista Kayo John que apenas participou da gravação do DVD, mas o titular das baquetas e que gravou o CD é Léo Cavalcanti.

Álbum de estréia Metalic Beast

Primeiramente tenho que situar o leitor sobre do que se trata Age of the Beast. Não é exatamente um álbum, já que dez das treze músicas presentes já tinham aparecido em Metallic Beast (2009), primeiro álbum dos brasileiros. As outras tês faixas são as inéditas “Deus Ex Machina”, Rock N’ Roll God” e “The Shadow”. Todas as músicas antigas foram regravadas para esse trabalho. Não consegui ouvir Metallic Beast para pode comparar o resultado ou entender a motivação para isso. Muito provavelmente os integrantes não estava satisfeitos com algo do resultado final. Porém o que realmente traz um diferencial para Age of the Beast é o DVD que acompanha o CD. Apesar que alguns podem dizer que na verdade o CD que acompanha o DVD e se formos ver pelo contexto de lançamento talvez essa seja mesmo a definição mais correta. O DVD consiste em um filme da banda fazendo um show sem platéia, mais ou menos no modo que o Pink Floyd fez em Live At Pompeii. Apesar que o local das instalações do Blazing Dog serem bem mais modestos que a planejada para Gilmour, Waters e Cia. Pelo que entendi seria um porão de alguma fábrica, de um estacionamento abandonado, que em algumas momentos se parece até com uma cadeia. Porém para cada faixa há um ângulo de câmeras diferente, iluminação, trocas de figurinos e até algumas imagens extras no contexto da música, fazendo com que cada música tenha uma identidade e possam ser vídeo clips separados. Aí já podemos rebater o critério da baixa qualidade das bandas. Um trabalho desse tipo, com esse esmero, nunca poderá ser relacionado com baixa qualidade. Somente uma banda com total confiança sobre o material que tem em mãos poderia lançar um pacote desse nessa época de streaming e torrents, principalmente para uma banda com tão pouco material lançado e sem o respaldo de uma legião de fãs.

Imagem de Age of the Beast

Para finalizar os comentários técnicos acho importante citar a qualidade gráfica do material como um todo e também o fato da opção de legendas no DVD ter as letras das músicas não só no inglês, mas também em português para que as pessoas captem melhor o contexto das músicas da banda. Eu só senti falta das letras também no encarte.

O som do Blazing Dog varia bastante do hard rock, passando para o heavy metal tradicional e com algumas passagens que beiram o thrash metal. Tudo isso empacotado com uma excelente gravação que destaca todos os instrumentos. Está claro que eles buscam as fontes que todo fã de metal aqui do Brasil adora, o que faria qualquer um se familiarizar rapidamente com seu som contrapondo com cultos aos clássicos do brasileiros. Se alguém está disposto a ouvir um disco que nunca ouviu do Raven, do Grave Digger, do Riot e de centenas de outras bandas oitentistas, por que não ouvir o Blazing Dog, já que suas influências e estilo são muito próximos?

A rápida “Easy Rider” abre o set list com uma bateria de dois bumbos e um riff de guitarra nos remetendo a uma banda de power metal. Porém o som característico do Blazing Dog, heavy metal tradicional com refrão marcante, aparece na faixa que dá nome à banda. “Deus Ex Machina” é a faixa que recebeu maior destaque na mídia por ser a homenagem ao eterno Airton Senna. Tendo seu vídeo sendo divulgado pelo Instituto Airton Senna e com uma boa repercussão. A icônica Lotus preta e a tecnológica Williams vermelha e preta, além do eterno rival Alain Prost são todos citados. Uma homenagem muito merecida.

Mas ao meu ver o maior destaque musical de Age of the Beast é outra homenagem, dessa vez ao maior baixinho do heavy metal, Ronnie James Dio em “Rock And Roll God”. Aliás, acho que ele é o cara que mais recebeu músicas de homenagens na história. Essa é a música que fica na cabeça quando tudo acaba. A cadenciada “Assassins” é bastante melódica desde as microfonias do seu início até a mudança de andamento do meio pra frente.

blazing-dog-1

Léo Cavalcanti, Raziel Reaver, Carlos Sousa, Renan Guimarães e Julio Rasec

Mais melodia em “Supreme Wings”, que conta com a pequena introdução de “Icarus” e velocidade em “Will of Steel”. Para fechar “Dance of Skeptics” com Carlos Souza cantando sobre um dedilhado de guitarra até chegar em um clímax com um riff de guitarra que me lembrou alguma outra banda brasileira de power metal. Sei que citei bastante o estilo mas não quero que os leitores tenham a impressão que se trata somente de mais uma banda brasileira de power metal. Como disse no início a mistura de hard/heavy com o thrash metal são a tônica da banda.

A única explicação que você pode ter para não se interessar por essa ótima banda de metal brasileira é seu complexo de vira-lata. O Brasil tem sim muitas ótimas bandas – assim como tem as ruins também, como todos os países – que valem o seu esforço para conhecê-las. Fortalecer a cena brasileira não só ajuda as bandas, mas também os fãs. Com uma cena forte até mesmo a quantidade de shows internacionais será maior e não dependeremos apenas dos gigantes para ter eventos de metal por aqui.

Track List

01 – Easy Rider
02 – Blazing Dog
03 – Deus Ex Machina
04 – Rock N’ Roll God
05 – The Shadow
06 – Assassins
07 – Blattle Splendour
08 – Insane Minds
09 – Enemy of Myself
10 – Silent Grave
11 – Icarus / Supreme Wings
12 – Will of Steel
13 – Dance of Skeptics



7 Comentarios

  1. Alisson Caetano disse:

    Boa resenha. Sobre a questão que você abordou lá no começo: no caso do Edu Falashi reclamar de “falta de apoio a cena metal nacional”, é espírito de vira lata mesmo, pois nenhuma banda que o sujeito integrou merece grandes atenções, tirando ali o Angra quando gravaram o Temple of Shadows.

    Para o restante do pessoal que reclama, acredito que é preguiça de ir além do que Whiplash e similares oferecem como “boas bandas de metal”, que no fim das contas é só pastiche de Judas Priest ou cópia descarada de Iron Maiden e Helloween. O metal por aqui tem muita coisa melhor a oferecer do que essas coisas que infestam os principais sites do estilo hoje em dia.

    Agora quanto ao próprio termo “apoio a cena metal nacional”, isso é uma lorota imensa. Apoie apenas aquilo que você gostar, e não a cena inteira apenas porque veio do Brasil.

    No mais, boa resenha, vou procurar material dos caras no YouTube mais tarde pra ouvir, mesmo sabendo que há grandes chances de não gostar do som dos caras.

  2. André Kaminski disse:

    Aproveitando a deixa do Fernando e também do Alisson no comentário acima, até entendo o Falaschi achar que temos potencial para muito mais em termos nacionais, mas acontece que o heavy metal no Brasil ainda é bem pequeno e muito fragmentado. Creio que aumentou um pouco nesses últimos 5 anos comparado com o início dos anos 2000, mas ainda é um cenário pequeno. Teríamos que ter pelo menos 10 vezes mais pessoas fãs do estilo para que o próprio cenário nacional consiga sobressair.

    Porém, ainda há os cenários locais em algumas partes do Brasil que estão crescendo bem. Até gostaria de escrever uma matéria falando sobre a cena daqui de Guarapuava, que inclusive o Mairon tem uma ideia porque ele tem uns cds de bandas locais daqui.

    E quanto ao Blazing Dog, já ouvi falar deles e preciso ouvir esse disco que pelo jeito, é bem do meu gosto.

  3. Marco Gaspari disse:

    Bacana… entendo que o heavy metal nacional precisa de apoio, mas e quanto ao progressivo nacional, indie nacional, stoner nacional, nosso amigo Ronaldo e suas bandas nacionais maravilhosas… esses não precisam de apoio, né? Brasileiro gasta 800 reais pra ver o show de um velhinho qualquer que canta em inglês e não paga 15 reais pra ver a ótima banda do vizinho. A menos que ela seja de sertanejo universitário, funk sacode a bunda, pop sem gluten e que tais.

  4. vidal neto disse:

    boa resenha, curto muito a banda e torço para que alcancem o tão esperado objetivo, tenho esse material deles e recomendo, junto com Dark Avenger que tb é de Brasília śão as maiores no estilo…ouçam e compre o material dos caras…

  5. Recebi o material e é muito caprichado, extremamente bem feito. A banda tem bons instrumentistas, embora, em alguns momentos, soe repetitiva. Mas o vocalista põe boa parte do trabalho a perder, com sua interpretação e, especialmente, o idioma em que canta, que nem de longe é inglês. Esse é o grande problema das bandas nacionais que se metem a cantar na língua bretã, por isso tenho valorizado as que optam pelo bom e velho português. Ainda bem que elas vêm aumentando.

    • Júnior Lopes disse:

      Ainda bem que opinião é que nem c*, cada um com o seu.

      Curti muito o material, bem feito e do nível de muita coisa feita lá fora.

    • Sandro disse:

      Simples: excelente banda! Em todos aspectos: técnicos, personalidade, originalidade e energia do metal a ponto de deixar vontade de ouvir sempre mais! Parabéns!!

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