Ghost – Meliora [2015]

7 de abril, 2016 | por micaelmachado
Resenha de Álbum
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Por Micael Machado

Meliora, o terceiro registro completo do grupo sueco Ghost, era aguardado não só por mim, mas também por uma imensa legião de fãs conquistados pela banda desde sua estreia em 2010, com o álbum Opus Eponymous. Você pode até não gostar deste sexteto sueco, mas tem de reconhecer que poucos grupos nesta segunda década do século XXI conseguiram um reconhecimento tão grande e tão rápido quanto estes mascarados satanistas. Desta forma, foi com ansiedade que escutei o disco pela internet pouco depois de seu lançamento, em outubro do ano passado. O resultado, devo confessar, não me agradou muito de início, embora eu tenha percebido que havia algo ali a ser explorado mais à frente.

Uma das principais características que levaram o Ghost ao reconhecimento foi, queira-se ou não, o aspecto estético dos músicos tocaram com os rostos escondidos por máscaras, além de serem liderados por um sujeito vestido como um “Papa do mal”. Pois a mudança desta identidade visual tão marcante foi um dos primeiros fatores anunciados pelo grupo antes do lançamento de Meliora (título que, em latim, significa “melhor”). Os instrumentistas, todos igualmente denominados como Nameless Ghouls (algo como “Espíritos Sem Nome”), abandonaram suas vestes que lembravam os monges beneditinos e adotaram elegantes ternos e calças sociais, substituindo os capuzes e as máscaras de médicos medievais que cobriam seus rostos por uma máscara que lembra os faunos mitológicos. Além disso, o vocalista Papa Emeritus II foi “aposentado”, sendo substituído por seu “irmão mais moço”, devidamente nomeado Papa Emeritus III. OK, todos nós sabemos que os três vocalistas que passaram pela banda são a mesma pessoa (alegadamente Tobias Forge, vocalista das bandas Subvision e Repugnant), mas este novo sujeito, em suas apresentações ao vivo, em certo ponto abandonava a tradicional vestimenta de Papa, trajando ele também elegantes ternos e calças sociais, que, junto ao fato de não ser careca como seus antecessores, e a uma máscara bastante diferente das usadas antes (além de parecer mais ágil e magro em cena), realmente nos faz crer se tratar de uma pessoa diferente. Particularmente, acho muito legais estas “brincadeiras” que a banda faz, as quais se tornam uma eficiente e interessante ferramenta de marketing em tempos onde a indústria musical enfrenta uma crise sem precedentes em sua história.

O novo visual adotado pelo Ghost para a divulgação de Meliora

Voltando ao aspecto musical, a sonoridade desta renovação feita pela banda foi primeiro revelada no vídeo da canção “Cirice“, onde uma “versão mirim” do grupo aparece em uma espécie de paródia ao filme “Carrie – A Estranha” (embora tão sinistra quanto sua fonte de inspiração). A canção me agradou, mas, por ser mais cadenciada, já dava mostras de que algo estava diferente na sonoridade do sexteto. Um segundo clipe, para a faixa “From the Pinnacle to the Pit“, foi veiculado já depois do disco ter sido lançado, mas eu o conheci antes de escutar a obra completa, e o peso do baixo junto ao atrativo refrão levaram minhas expectativas lá para cima. Então eu ouvi o disco por inteiro, e algo não bateu. A sonoridade estava diferente dos registros anteriores, as músicas pareciam mais lentas, os riffs mais repetitivos, e aquela variação de estilos apresentada no segundo disco, Infestissumam (e no próprio EP de covers If You Have Ghost, ambos de 2013), pareciam ter sido deixados de lado. Eu fiquei com uma boa impressão do álbum, mas nada mais.

Aí a banda saiu em uma excursão acústica (intitulada “The Unholy/Unplugged Tour”), apresentando-se apenas com os vocais de Papa Emeritus III e os violões do baixista e de um dos guitarristas. Alguns vídeos (inclusive aparições em TVs dos EUA e Europa) foram divulgados no youtube, e depois os suecos iniciaram a parte “elétrica” da divulgação do álbum, com outros registros (inclusive de apresentações completas) surgindo na rede mundial da internet. E foi assistindo a vídeos como os registrados nas Deezer Sessions do site de mesmo nome, ou no programa Album De La Semaine, do Canal +, que minha ficha finalmente caiu: Meliora é, sim, um grande álbum!

Papa Emeritus III e dois dos Nameless Ghouls durante a “Unholy/Unplugged Tour”

Foi preciso que eu ouvisse as versões “on stage” de faixas como “Mummy Dust”, “Majesty” (que “baita” refrão) ou “Spirit” (uma excelente escolha para abrir o disco, explicando o “conceito lírico” escolhido para este registro, que é o fato da humanidade estar enfrentando a “ausência de Deus e suas consequências”, segundo declaração de um dos Nameless Ghouls) para perceber que elas podem, sim, ser mais lentas, repetitivas e “simples” perto de suas antecessoras, mas nem por isso possuem uma qualidade inferior àquelas (talvez seja até o contrário). Foi necessário um lyric video da faixa “He Is” para que eu sacasse a ironia de sua letra, e a beleza quase sacra de sua melodia, uma “trollada” genial quando sabemos a qual tipo de ser espiritual os textos do Ghost são direcionados. Foi através destes vídeos (muitos deles registrados de forma amadora pelos fãs nos shows pelo hemisfério norte) que eu me dei conta que “Absolution” é uma das melhores músicas já registradas pelos suecos, e que mesmo as vinhetas “Spöksonat” e “Devil Church” possuíam algo de sombrio e sinistro que eu não havia notado na audição do registro de estúdio. E, como “Deus in Absentia”, faixa que encerra o álbum, não entrou nos set lists das apresentações do Ghost, deve ser por isso que ainda não consegui ter apreço por ela (apesar de seu refrão ser excelente – aliás, o Ghost é um dos melhores compositores de refrões que conheço, pois praticamente todas as suas músicas são bastante atrativas neste quesito).

Enfim, demorou algum tempo, mas, depois que eu consegui finalmente assimilar Meliora por completo (lembrando ainda que a edição especial em vinil conta com uma faixa extra, intitulada “Zenith”, um pouco mais “pop” que suas colegas de track list, embora também soe sombria), pude finalmente entender porque ele foi apontado por tantos como um dos maiores destaques dentre os lançamentos de 2015, chegando inclusive a ganhar o grammy de melhor álbum de Hard Rock/Metal na edição daquele ano. Um prêmio merecidíssimo, agora eu compreendo, assim como o significado do título do álbum em relação à carreira deste sexteto sueco!

Contracapa da edição regular em vinil de Meliora

“You’ll be down on your knees and you’ll cry / Cry for absolution”

Track List:

1. Spirit
2. From the Pinnacle to the Pit
3. Cirice
4. Spöksonat
5. He Is
6. Mummy Dust
7. Majesty
8. Devil Church
9. Absolution
10. Deus in Absentia



26 Comentarios

  1. Fernando Bueno disse:

    Tive exatamente a mesma impressão que vc Micael. Nas primeiras duas audições eu não encontrei nada demais e até pensei que a fonte tinha secado, mas com o tempo fui “entendendo” melhor o disco e hj o acho equivalente aos dois primeiros…

  2. Alisson Caetano disse:

    Comparado ao anterior, achei um disco mais comedido na megalomania (gosto, mas nao tanto, do anterior). Provavelmente é o disco mais acessível e agradável que os caras lançaram, e jaaé meu favorito da banda.

    • Micael disse:

      Eu tenho muito carinho pelo primeiro, mas este vem subindo na minha preferência de forma escalonal!

  3. Marco Gaspari disse:

    Vou ouvir, mas tenho medo. Vou deixar as luzes bem acesas.

    • Micael disse:

      Não se assuste Marco, é tudo teatrinho para espantar criancinhas! Mas o som é bom, pode conferir!

  4. Eudes Baima disse:

    Só digo uma coisa: ai, ai…

  5. Eudes Baima disse:

    Uma dúvida: o nome do disco é uma espécie de apelo?

  6. Marcel de Souza disse:

    Eu ainda continuo achando o disco mais simples e os anteriores me agradam mais. Até mesmo o visual mais simples não me pegou, acho que dessa vez eles deram um passo em falso. Quem sabe o que virá por aí no próximo?

    • Micael disse:

      Como escrevi, demorei muito a curtir este álbum! Dê mais umas chances a ele, Marcel, e talvez ele lhe cative também!

  7. Christiano disse:

    Achei o melhor trabalho do Ghost até agora, e o melhor disco de “Metal” de 2015.

  8. Diogo Maia de Carvalho disse:

    Tenho o primeiro deles e o escuto regularmente. Um dos sons mais cativantes que eu já conheci. Acho que tanto o álbum anterior quanto este aqui são bem inferiores ao trabalho de estreia.

  9. José Leonardo G. Aronna disse:

    Uma das pouquíssimas bandas novas que consigo curtir. Gosto de todos os discos. valeu!

  10. alberto rossi disse:

    Eudes, confio em você para dar uma chance à banda. São composições muito bem feitas. Esqueça o visual.

  11. Andrea Domequis disse:

    Micael Machado e sabe me informar o nome do filme que aparece no clipe “From the Pinnacle to the Pit”? Gostaria muito de saber. E esse álbum é fascinante! Parabéns por sua postagem!

    • Micael Machado disse:

      Oi, Andrea! Obrigado pela participação aqui no site!

      Do que pude pesquisar, e conforme esta página do site Loudwire (http://loudwire.com/ghost-from-the-pinnacle-to-the-pit-video/), o filme é específico para o vídeo, estilizado para parecer antigo, “com aspectos dos filmes de Dario Argento como Suspiria, e remetendo a filmes como The Cabinet of Dr. Caligari ou Metropolis”, como o site cita.

      Então, segundo o site (e a wikipedia, que não é lá das mais confiáveis), apesar de parecer algo antigo, o filme é novo, e específico do vídeo!

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