Notorious Prophet: Passando a Ficha da Björk

30 de junho, 2016 | por Alisson Caetano
Notorious Prophet
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Por Alisson Caetano

Nascida na capital islandesa, Reykjavík, em uma época onde o país era unicamente conhecido por ser uma ilha que sofria com suas temperaturas polares, Björk Guðmundsdóttir começou a estudar música ainda criança, aos 11 anos de idade. Seus aprendizados de piano e música clássica ajudaram muito a moldar seu estilo musical e seu ecletismo, mas ainda vamos chegar lá.

Sua primeira investida musical também deu-se de maneira extremamente precoce. Já aos doze anos e bancada por seu pai, lançou um disco apenas no mercado nacional, Björk, em 1977. Não que o disco possua algum peso relevante ou alguma qualidade a se destacar. Vale mais para fãs de carteirinha da moça e para pessoas extremamente curiosas. Porém, já aos 12 anos, seu talento como cantora já era notável, mesmo em músicas comuns de pop e folk tradicional.

Sua carreira artística começou a esquentar quando, em 1985, formou o The Sugarcubes. Além de qualidades inquestionáveis, os Sugarcubes tiveram importância semelhante ao que o AC/DC teve para a Austrália, colocando a Islândia como um possível novo produtor musical. Isso ajudou muito à futuras bandas dali que, indiretamente, pegaram carona com essa abertura de portas proporcionado por Björk e seus amigos — dentre eles, Sigur Rós –.

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O destaque imediato dos Sugarcubes era seu visual colorido e “cool”, o avesso do apelo monocromático das bandas post-punk do período.

A banda trazia em suas composições uma mistura rítmica riquíssima, que englobava pop, glam rock, punk rock e post-punk da escola inglesa — em especial o The Smiths –, tudo agraciado pela já destacável voz particular de Björk. Timbres doces, potência vocal impressionantes e que não se assemelhavam a absolutamente nada que estivesse em voga no momento. Todas essas qualidades ajudaram a vender o primeiro disco do grupo, Life’s Too Good, de 1988, e seu primeiro single de sucesso, “Ammæli”, provavelmente a primeira música islandesa a fazer sucesso mundo afora.

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Björk em turnê do disco Biophilia.

Para o bem ou para o mal, o sucesso comercial dos Sugarcubes, parou por ali. Seguiram-se os apenas bons Here Today, Tomorrow Next Week! [1989] e Stick Around for Joy [1992], até que, no ano seguinte, devido a conflitos internos, o grupo veio ao seu fim. Esse período nos Sugarcubes serviu muito bem como uma grande fábrica de ideias e uma verdadeira escola para que Björk se preparasse para sua vindoura carreira solo.

Com o carinho da crítica, experiência e canções frescas na bagagem, não foi difícil correr para o sucesso. Seu primeiro disco de estúdio, convenientemente batizado de Debut, foi lançado em 1993. Juntamente com ele, vieram elogios de crítica e público, encantados pela versatilidade da cantora em produzir um material tão versátil e que se desprendia quase que por completo do que havia feito junto de sua banda anterior. Mesmo que boa parte das qualidades do disco sejam por conta de sua produção esmerada — contribuição certeira de Graham Massey, do essencial 808 State, e de Nelle Hooper, do também essencial Massive Attack –, o destaque óbvio é a voz da moça.

É até difícil descrever com palavras o que Björk faz. Parte de sua técnica advém das cantoras sopranos de música clássica, mas com uma delicadeza e sensibilidade que fazem com que sua voz passe de agudos profundos para lamentos dramáticos à sussurros infantis, sempre prendendo a atenção de quem se dispõe a ouvir suas canções.

Dali em diante, foram sucessos atrás de sucessos, sempre seguidos de discos onde a moça foi cada vez mais aprimorando sua técnica vocal, além de ir adicionando elementos musicais em suas composições e, o mais bacana de tudo, complementando sua música com elementos visuais. Chegou também a compôr trilha sonora para filmes e estrelou o delicado Dancer in the Dark, dirigido pelo polêmico Lars Von Trier. Esse projeto lhe rendeu reconhecimento como uma boa intérprete e prestígio pelo belo trabalho com a trilha sonora, mesmo que tenha lhe custado a sanidade durante as gravações — sugiro que assistam ao filme em um momento que estejam de bem com a vida –.

Atualmente Björk vem promovendo seu mais recente disco de estúdio que, para variar, é mais um ponto forte em sua carreira. Vulnicura, um de seus trabalhos mais intimistas, vem rendendo apresentações mundo afora e já conta com uma versão completamente operística, batizada por Vulnicura Strings.


Discografia: The Sugarcubes.

  • Life’s Too Good [1988]
  • Here Today, Tomorrow Next Week! [1989]
  • Stick Around For Joy [1992]

Discografia: Solo.

  • Björk Guðmundsdóttir [1977]
  • Gling-Gló (Björk & Tríó Guðmundar Ingólfssonar) [1990]
  • Debut [1993]
  • Post [1995]
  • Homogenic [1997]
  • Selmasongs: Music from the Motion Picture Soundtrack ‘Dancer in the Dark’ [2000]
  • Vespertine [2001]
  • Livebox (ao vivo) [2003]
  • Medúlla [2004]
  • The Music from Drawing Restraint 9 (Trilha Sonora) [2005]
  • Volta [2007]
  • Biophilia [2011]
  • Vulnicura [2015]
  • Vulnicura Strings [2015]
  • Vulnicura Live [2015]

Disco Recomendado:

Bjork_-_Homogenic_album_coverHomogenic [1997]:

Uma hora, Björk acabaria culminando em um trabalho que reunisse o ápice de sua experimentação com o toque de midas de sua voz única. Homogenic engloba absolutamente tudo o que a moça fez de melhor em sua carreira, mantendo o senso melódico e habilidade com composições pop mais afiados do que nunca. É seu trabalho mais eletrônico até a data. São notáveis algumas referências de Massive Attack e do estilo trip hop como um todo, mas ao contrário do que se imagina, é o estilo que trabalha em favor das canções, e não o contrário. Influências folk (como evidencia a capa) mesclam-se a música clássica, que transmutam-se para sons espaciais e, no fim, resultam em seu trabalho mais inspirado, variado e mais indicado para quem quer conhecer seu trabalho artístico, mas não sabe exatamente por onde começar.



13 Comentarios

  1. maironmachado disse:

    Cantora que eu tento, mas tento mesmo, ouvir e admirar, mas não consigo. Acho a voz dela bem complicada de aguentar. Me resta apenas respeitar a cantora, e parabenizar o Alisson pela matéria. Bem vindo ao clube dos Notorious. Agora é com o Diogo …

    • Eudes Baima disse:

      Bjork é uma, mas não a única, prova da influência perene da Deusa Yoko!

      • Alisson Caetano disse:

        Caso clássico de: a cria que se saiu melhor que a influenciadora (até pq Yoko pra mim… não, obrigado)

  2. Marco Gaspari disse:

    Já eu gosto muito. Mas essa historia de passar a ficha na Bjork… fiquei excitado!

  3. Francisco disse:

    Biorque nunca me atraiu a atenção, mesmo na época em que estava, vamos dizer assim, no auge. Porém, achei interessante o artigo, por mostrar a importância dessa islandesa no cenário pop. Nessa praia, creio que outras mereciam uma “passada de ficha”: Kate Bush, Siouxsie Sioux, Patti Smith, Chrissie Hynde, Pat Benatar, Suzi Quatro… Tem muita mulher boa no rock.

  4. Eudes Baima disse:

    Não entendi a inclusão dela nessa coluna…

    • Alisson Caetano disse:

      Só quis falar dela, minha cantora favorita. Não há o que entender além disso.

      • Eudes Baima disse:

        Apenas acho que ela não se integra no perfil definido desta coluna, algo como o tecno pop oitentista, pelo que entendi.

        • Eudes Baima disse:

          Discografia da esquimó está para além deste estilo e, ao meu ver, se enquadra muito mais nas correntes noventistas do rock…mas isso é apenas o que eu acho. Desencana.

  5. António Marcos disse:

    Parabéns Alisson pela matéria. Prefiro a Bjork na época do Sugarcubes, mas é inegavel que sua carreira solo apresenta diversos momentos de brilho. Na lista de sugestões, um santo colunista poderia discorrer sobre o 10.000 Maniacs e Cowboy Junkies, que possuem uma discografia razoável (em termos de discos lançados) e de inegavel valor artístico.

    • Alisson Caetano disse:

      A carreira dela no Sugarcubes é muito boa também, apesar de achar os dois últimos discos apenas bons, nada fantástico. Obrigado pelo elogio, cara!

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