Notorious Prophet – Passando a Ficha de Depeche Mode

1 de agosto, 2016 | por maironmachado
Notorious Prophet
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Andrew Fletcher, David Gahan, Alan Wilder e Martin Gore, a formação clássica do Depeche Mode

Por Mairon Machado

Mais uma banda inglesa surge na série Notorious Prophet. Dessa feita, os ícones maiores do Depeche Mode. Formados pelo trio de Essex, Reino Unido, composto pelo guitarrista e tecladista Martin Gore (23 de julho de 1961), o baixista Andrew Flechter (8 de julho de 1961) e o tecladista Vince Clarke (3 de julho de 1961), o Depeche Mode logo virou um quarteto, com a adição do vocalista David Gahan (9 de maio de 1962). O quarteto passa a fazer shows pela efervescente cena inglesa do início dos anos 80, chamando a atenção da gravadora Mute, com a qual assinam um contrato para a gravação de uma canção, lançada na coletânea Some Bizarre Album (1981), sem grandes repercussões.

Depois de dois compactos de baixa vendagem, o grupo estoura em 1981 com “Just Can’t Get Enough”, um dos maiores sucessos do tecnopop, com o qual atingem o Top 10 no Reino Unido. O sucesso possibiltou a gravação do primeiro LP, Speak & Spell (1981), trazendo a clássica “Just Can’t Get Enough”, além das também marcantes “New Life” e “Tora! Tora! Tora!”, que levaram o grupo para o Top 10 das paradas britânicas, exatamente na décima posição.

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Depeche Mode em 1981: Andrew Fletcher, Vince Clarke, Martin Gore e David Gahan

Clarke acaba saindo da banda, para montar outro grande nome do estilo, o Yazoo, e como um trio, os ingleses lançam A Broken Frame, disco que apesar de não ter o impacto de “Just Can’t Get Enough”, trouxe mais três hits: “The Meaning of Love”, “Leaving in Silence” e “See You”, bem como elevou o status da banda no chart britânico, indo parar na oitava posição. É a partir de 1983 que o Depeche Mode ganha uma formação fixa, adicionando um quarto membro novamente, agora com Alan Wilder (1 de junho de 1963) nos teclados e programação. A entrada de Wilder tornou a banda ainda mais próxima dos eletrônicos, influenciados também pelo rock industrial e com um grande número de samplers, como comprova o terceiro disco da banda, Construction Time Again (1983), de onde saíram as pérolas “Everything Counts” e “Love, in Itself”, e que levou o grupo para a sexta posição em vendas no Reino Unido.

Some Great Reward (1984) veio na sequência, chegando na quinta posição nas paradas do Reino Unido, fato inédito para a banda. Os destaques desse álbum ficaram para “People are People” e “Somebody”, que certamente conquistaram seus espaços nos corações dos fãs do estilo. Outras grandes faixas de Some Great Reward são “Master and Servant” e “Blasphemous Rumours”. As influências do industrial e também de um som mais sombrio são refletidas ainda mais no quinto disco da banda, Black Celebration, quarto colocado no Reino Unido e primeiro na Suíça, e que conta com diversos clássicos, dentre eles “A Question of Time”, “A Question of Lust”, “Stripped” e “Black Celebration”. No ano seguinte, Wilder monta o projeto Recoil, que em paralelo com o Depeche Mode, contou com lançamentos regulares até 2007.

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O grupo na contracapa do compacto de “Personal Jesus”

Até então, o grupo já havia dominado o mercado europeu, mas ainda era um mero desconhecido no mercado americano. Somente com Music for the Masses (1987) que finalmente os americanos se renderam ao som do quarteto. O álbum é uma pequena coleção de hits, como “Never Let Me Down Again”, “Strangelove”, “Behind the Wheel” e “Little 15”, e entrou nas 40 mais da Billboard americana, atingindo a 35a posição, deixando marcado para a posteridade um som sombrio e impactante, diferente dos álbuns anteriores, que levou o grupo para uma imensa turnê pelos Estados Unidos, registrada no filme/LP 101 (1988). O sucesso de Music for the Masses motivou o grupo a seguir na mesma linhagem, e com isso, nasce a obra-prima Violator (1990). O álbum foi platina tripla nos Estados Unidos, onde atingiu a sétima posição em vendas, e conquistou o segundo lugar no Reino Unido, levado por clássicos do calibre de “Enjoy the Silence”, “Personal Jesus” e “World in My Eyes”. É aqui que a banda finalmente estoura no mercado americano, lotando arenas e vendendo ingressos como água, deixando como recorde a venda de 42 mil ingressos em menos de quatro horas para o Giants Stadium, e 48 mil vendidos em apenas meia-hora para um show no Dodger Stadium. Estima-se que mais de um milhão e duzentas mil pessoas assistiram a World Violation Tour, tida até hoje como uma das mais rentáveis envolvendo grupos do technopop.

Depois de uma breve e merecida pausa, onde apenas a canção “Death’s Door” apareceu na trilha do filme Until the End of the World (1991), o quarteto voltou com tudo em 1993, lançando o aclamadíssimo Songs of Faith and Devotion. O álbum chocou aos fãs que estavam acostumados com canções sombrias, principalmente pelo uso abusivo de experimentações eletrônicas, guitarras distorcidas e percussões diversas, influenciados pelo grunge e por nomes como Jane’s Addiction. Porém, esse choque resultou na primeira colocação em vendas tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos, um marco que poucos artistas conseguiram, deixando para a história uma sequência inigualável de faixas clássicas: “I Feel You”, “Walking in My Shoes”, “Condemnation”, “Mercy in You”, “Judas” e “In Your Room”, nada mais que as seis primeiras das dez canções do disco. Da turnê desse álbum, nasceu o segundo disco ao vivo dos ingleses, Songs of Faith and Devotion Live (1993).

Mas nem tudo eram flores nos bastidores da banda. O vício em heroína de Dave – que quase o levou à morte – e diversos problemas de saúde com Andy – inclusive sendo substituído temporariamente por Daryl Bamonte – levaram Andy a deixar o grupo e seguir com seu projeto Recoil. Como um trio, lançam Ultra (1997), mais um primeiro lugar no Reino Unido (quinto nos EUA), com os singles “Barrel of a Gun”, “It’s No Good”, “Home” e “Useless” sendo os grandes atrativos musicais. A Singles Tour começou em 1998, com Christian Eigner e Peter Gordeno substituindo Andy, e promovendo a coletânea The Singles 86-98 (1998).

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Depeche Mode como trio em 2001. Reconheça os integrantes …

Três anos se passaram até o lançamento de Exciter (2001), álbum que vendeu mais de cem mil cópias logo na sua primeira semana de lançamento, tornando-se o único disco dos ingleses a estrear entre os dez mais nos Estados Unidos (oitava posição). O disco apresenta um som bastante minimalista e digital, contando com os sucessos “Dream On” e “I Feel Loved”, além de “Goodnight Lovers”, canção que marcou o início dos anos 2000. O grande mérito de Exciter foi figurar na primeira posição em sete países (Alemanha, Bélgica, Finlândia, Grécia, Hungria, Polônia e Suécia), algo incomum para a época de seu lançamento. A turnê desse disco proporcionou o lançamento do DVD One Night in Paris (2002).

Quatro anos depois – apenas com um lançamento de remixes, Remixes 81-04 (2004) – e veio Playing the Angel, décimo primeiro disco dos ingleses,chegar às lojas em 2005. Além de ser o único disco da banda a alcançar a primeira posição em onze países (dentre eles o primeiro na parada eletrônica dos EUA), os destaques ficam por conta de “Suffer Well”, co-escrita por Dave, “Precious” e “Lilian”, bem como a bela sequência inicial, com “A Pain That I’m Used To” e “John the Revelator”.  A turnê desse álbum rendeu o lançamento de Touring the Angel: Live in Milan (2006), mesmo ano do lançamento da coletânea The Best Of, Volume 1, que trouxe como novidade a canção “Martyr”, um outtake de Playing the Angel.

Mais um longo hiato até o Depeche Mode voltar a cena com Sounds of the Universe (2009), que alcançou a incrível marca de ser primeiro colocado em 21 países. Os grandes destaques musicais ficam para “Wrong” e “Peace”. A turnê, batizada Tour of the Universe, gerou mais um álbum ao vivo, Tour of the Universe: Barcelona 20/21.11.09 (2010), nesta que foi considerada a maior turnê realizada no ano de 2009 por algum artista. Por fim, depois de – apenas um único lançamento, no caso a coletânea Remixes 2: 81–11 (2011), o último disco de estúdio foi lançado em 2013. Delta Machine, trazendo os singles “Heaven”, “Soothe My Soul” e “Should Be Higher”. Desde então, a banda vem excursionando e preparando novo material, o qual está prometido para ser lançado na primavera inglesa de 2017.


DiscografiaSpeak & Spell (1981); A Broken Frame (1982); Construction Time Again (1983); Some Great Reward (1984); Black Celebration (1986); Music for the Masses (1987); 101 (1989); Violator (1990); Songs of Faith and Devotion (1993); Songs of Faith and Devotion Live (1993); Ultra (1997); Exciter (2001); Playing the Angel (2005); Touring the Angel: Live in Milan (2006); Sounds of the Universe (2009); Tour of the Universe: Barcelona 20/21.11.09 (2010); Delta Machine (2013); Depeche Mode Live in Berlin (2014).

Martin Gore – Counterfeit (2003); MG (2015)

Dave Gahan – Paper Monsters (2003); Hourglass (2007)

Com o Soulsavers – The Light the Dead See (2012); Angels & Ghosts (2015)

Alan Wilder (com o Recoil) – 1 + 2 (1986); Hydrology (1988); Bloodline (1992); Unsound Methods (1997); Liquid (2000); subHuman (2007)

Vince Clarke – Lucky Bastard (1993) (o artista possui várias colaborações, bem como lançamentos com os grupos Yazoo e Erasure)


Depeche-Mode-Violator-Album-CoverDisco Recomendado: Violator – Quando falamos dos grandes nomes do synthpop e do techopop, como Pet Shop Boys, Erasure e Information Society, sempre esquecemos que por detrás dos aparatos eletrônicos que revelaram os mesmos para o mundo existe um pai: Depeche Mode. Apesar de todo o sucesso de Songs of Faith and Devotion, meu escolhido para representar a banda é Violator. Aqui, Gore tomou conta de tudo, e aprofundou ainda mais o lado sombrio e obscuro que vinha surgindo no som da banda a partir de Music for the Masses, o que transformou o Depeche Mode de uma banda alegre para uma banda sinistra, dando origem ao que hoje conhecemos como Dance Music, e inspirando a criação de pelo menos dois grandes grupos da década de 90: Smashing Pumpkins e Flaming Lips. O LP apresenta faixas estranhas e conturbadas (“Sweetest Pefection”, “Blue Dress” e “Halo”), ritmos de difícil assimilação (a soturna “Waiting for the Night”, o embalo esquisito e quadrado de “Policy of Truth” e a tecladeira confusa de “Clean”) e três canções que marcaram época: a confusa “World in My Eyes”, o super-hiper-mega-colossal hit “Enjoy the Silence” (e viva os bailinhos juvenis da década de 90), que qualquer cidadão que tenha ouvido rádio um dia certamente já ouviu, e a dançante “Personal Jesus”, que assim como “Enjoy the Silence” e “Just Can’t Get Enough” (do primeiro álbum do grupo, Speak & Spell, de 1981), é uma das canções mais conhecidas do quarteto. Tudo isso é embrulhado em um pacote que quando atinge o martelo, a bigorna e o estribo, enviam automaticamente ao cérebro uma mensagem: “Faça o corpo dançar”, e você fica dançando, sem um ritmo específico, mas dançando, por dias e dias com as grudentas faixas desse ótimo álbum. Para melhorar tudo, o clipe de “Personal Jesus” foi tão polêmico na época, por conta da super-exposição feminina, quanto o de “Like a Prayer”, ou seja, não tinha como não se conhecer o Depeche Mode em 1990, mesmo não gostando da banda. Platina tripla nos states, três clássicos eternos e um dos melhores discos que o synthpop já produziu, simplesmente isso é Violator.


Vale a pena conferir: O grupo tem inúmeras coletâneas lançadas, mas se você quer mesmo mergulhar no melhor do Depeche Mode, ouça Songs of Faith and Devotion. A mistura de faixas sombrias com o peso das guitarras distorcidas e doses caprichadas de eletrônico ainda hoje é um choque para quem conhece e admira o technopop.



17 Comentarios

  1. leandro disse:

    Perfeito.
    Minha banda da paixão, escuto tudo, tenho o Violator como obra máxima da banda.;…
    Estranho um disco tão sombrio fazer tanto sucesso, o Violator pra mim é puramente conceitual….
    Não é dançante pra uma banda já famosa pela dança, um clima de depressão grande, tudo é bem obscuro, até mesmo a Enjoy the Silence no álbum é bem pra baixo…

    Grandes artistas
    🙂

  2. António Marcos disse:

    Parabéns MM. Excelente matéria. Para mim, quanto mais down a música melhor. Nesse cenário, o Depeche Mode foi se aprimorando, estabelecendo um som adequado aos depressivos. Violator é um grande classico, comparável ao disco homônimo do duo Suicide.

    • maironmachado disse:

      Valeu Antônio Marcos. Em termos de Down, você gosta do 4 (Los Hermanos)?

      • Francisco disse:

        Para quem gosta de música triste, os primeiros discos de Leonard Cohen são o que há…

      • Antonio Marcos disse:

        Olá, gosto, porém, penso ser a Tempestade, da Legião, mais down, pois Renato Russo já sabia que era sua última obra, e expôs em letra toda a sua angústia e revolta. No âmbito geral, Joy Division é uma das principais bandas. Outra música interessante é Down em mim, do Barão Vermelho, com seu título auto-explicativo e Viernes 3 a.m. do Paralamas, versão do Charly Garcia, outro clássico da melancolia.Porém, para meu velório, quero que seja “embalado” pela No Surprises, do Radiohead e Hurt, cantada por Johnny Cash, versão do Nine Inch Nails

  3. Christiano disse:

    Ótima matéria. Grande banda.
    Mas deve ter sido muito difícil escolher somente um álbum pra ser recomendado. Eu fico eternamente em dúvida entre Black Celebration, Violator e Songs of Faith and Devotion.

    • maironmachado disse:

      Obrigado Christiano. Particularmente, tenho Violator como uma obra-prima inigualável. Minha dúvida na real ficou em outra discussão, no caso, qual disco ouvir como Vale a Pena. Fiquei na dúvida se Songs of Faith and Devotion ou Music for the Masses. Mas escolhi o primeiro por que “Walking in My Shoes” e “Judas” são pérolas raríssimas no pop musical.

    • maironmachado disse:

      Ansioso para saber qual será o próximo Notorious, Christiano

  4. António Marcos disse:

    Será que OMD entrará na seção? Electrocity é um classico.

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