BADBADNOTGOOD – III [2014]

11 de agosto, 2016 | por Alisson Caetano
Resenha de Álbum
4

III_(BadBadNotGood_album)

Por Alisson Caetano

Gêneros musicais foram feitos para serem transgredidos e/ou combinados. Não fosse assim, vários estilos e subgêneros sequer existiriam, e ainda estaríamos ouvindo aqueles velhos andamentos clássicos do blues e gospel, elaborados a pelo menos 200 anos atrás.

O grupo canadense BADBADNOTGOOD vêm alimentando esta ideia de transgressão de barreiras musicais desde o início de sua curta trajetória musical, nos idos de 2011, ao unir com destreza e propriedade os universos do rap, hip-hop e soul com a sofisticação e levada sombria e elegante do jazz modal, com um toque de free improvisation para arrematar.

Em seu terceiro registro de estúdio, e o primeiro inteiramente de músicas inéditas, vemos a primeira mostra concreta do potencial desta união de dois mundos a princípio tão díspares. Enquanto que em seus primeiros dois discos — BBNG [2011] e BBNG2 [2012] — experimentávamos apenas da curiosa reinterpretação de canções diversas — que iam de improváveis My Bloody Valentine a Kanye West — em versões jazzísticas, o que temos em III é a confirmação de que esta mistura realmente possui muito potencial.

Nada parece soar forçado nem heterogêneo. Um estilo trabalha à serviço do outro, trazendo harmonias muito agradáveis à canções muito bem orquestradas. Alguns apressados podem dizer que essa história de jazz + rap já é coisa antiga, dos tempos de A Tribe Called Quest. Esta observação não é errada, tanto que é fácil notar certa influência do ATCQ aqui (inclusive já chegaram a reinterpretar canções da banda anteriormente). Porém, naquele caso, jazz e rap revesavam-se dentro das canções. Aqui a proposta e até a vibe são completamente diferentes. É como se tivéssemos uma banda executando jazz modal com ritmos mais soltos, groovados e com certa ginga norte-americana em suas entranhas.

As canções revesam-se na intensidade com que o jazz toma conta das faixas, e invariavelmente é no equilíbrio onde estão as maiores surpresas do registro, como “Can’t Leave The Night”, com clima de suspense e ares de trilha sonora dos filmes clássicos do John Carpenter. “Confessions” é outra que aposta em batidas de rap clássicas realizadas pela bateria, ritmo ditado pelo baixo e um excelente acompanhamento de sax, dando à faixa um sabor sexy irresistível. “Kaleidoscope” e “Since You Asked Kindly” são as que mais destoam no registro. A primeira é epopeica e reúne todos os melhores elementos que o disco tem a oferecer, enquanto a segunda é uma faixa de ares soul setentista de um bom gosto absurdo.

Infelizmente, a banda acaba deslizando levemente ao tentar criar composições exclusivamente focadas no jazz. Não são ruins, muito pelo contrário, mas como as canções anteriores mantinham um frescor e ritmo próprios, encaixar uma faixa de jazz modal puro no meio do registro acabou quebrando o ritmo do álbum. É o caso de “Differently, Still”. Com nada de empolgante a acrescentar, é apenas um jazz com improvisação ao piano que soa, no mínimo, deslocada.

De maneira cativante, com muita habilidade e muito feeling envolvido, esses canadenses mostram que ainda é possível mostrar serviço juntando dois universos em princípio completamente antagônicos. Como disse acima, essa ideia não é nenhuma novidade. E não precisava ser, bastava ser bem executada, e isto III prova sem muita dificuldade que é.


Tracklist:

  1. Triangle
  2. Can’t Leave the Night
  3. Confessions
  4. Kaleidoscope
  5. Eyes Closed
  6. Hedron
  7. Differently, Still
  8. Since You Asked Kindly
  9. CS60

Lineup*:

Matthew Tavares – teclado, guitarra, piano, sintetizador;

Chester Hansen – baixo acústico, baixo, guitarra, teclado, sampling, sintetizador;

Alexander Sowinski – bateria, sampler, idiofone, percussão, sampling, sintetizador;

Leland Whitty – sax, violino, viola

Tommy Paxton-Beesley – cello, violino, guitarra

*: créditos completos em allmusic.com

 badbadnotgoodfinal



4 Comentarios

  1. maironmachado disse:

    Ah, vá se catar Alisson. Por que tu foi me fazer essa resenha? Agora não vou parar de escutar esse disco. Cara, essa banda foi surpreendente. Quando tu colocas rap no meio da criação da banda, eu quase nem percebo. Talvez um pouco na linha de bateria em “Hedron” e “Kaleidoscope”, sendo que essa segunda tem uma melodia soul do baixo, repetida pelo piano, que para mim se destaca mais, junto do belo solo de baixo, nessa que é candidatíssima a melhor faixa do disco. Tá certo que ouvir “Eyes Closed” depois de “Kaleidoscope” foi meio frustrante NO INÍCIO, mas depois que o baixo acústico começou a solar, putz, caiu a casa, e aquela virada Blade Runneriana, bah, que sensacional.

    Aliás, “Can’t Leave the Night” também me deu essa sensação de uma trilha de filme de suspense dos anos 80 com um clima futurista, sendo que por vezes me senti nas viagens de Blade Runner andando pelas ruas de Los Angeles.

    O que realmente ouço nesse disco é um jazz inovador, com destaque para as linhas de piano bem Monkianas em “Triangle” e “Differently, Still”. O saxofone em “Confessions” é para arrepiar os cabelos do suvaco, que coisa linda o que esse Leland Whitty faz, meu Deus. Tá certo, não gostei muito de “Since You Asked Kindly”, principalmente por que ela não tem nada a ver com a vibe do álbum (aqueles eletrônicos não encaixaram, sinceramente), mas a faixa é curta, e facilmente superada pelo andamento contagiante de “CS60”.

    Se todo RAP fosse feito com essa qualidade, o mundo seria bem melhor. Discaço meu caro, valeu a recomendação, e obrigado pelo tapa na cara. Realmente, ainda se faz boa música hoje em dia.

    • Alisson Caetano disse:

      Na verdade o rap atual é dessa qualidade pra cima. É que tu não curte o estilo, então não tem o que fazer.

      Mas mesmo assim, valeu pelo comentário, Mairon. BBNG é uma das bandas mais bacanas de acompanhar atualmente. Sonoridade elegante, instigante e prazerosa de se acompanhar.

      • maironmachado disse:

        Cara, se isso é o Rap atual, me passa mais informações – instrumentais, por favor

        • Alisson Caetano disse:

          Cara, alguns discos de hip hop saem em versão instrumental. Mas de cabeça, alguns que acho top pra caramba:

          – Freddie Gibbs & Madlib – Piñata (tem a versão instrumental, dá uma procurada)

          – Kendrick Lamar – To Pimp a Butterfly e o untitled unmastered.

          – Kill the Vultures – Carnelian (não lembro se tem versão instrumental, mas preste atenção no instrumental do disco)

          – Lil Ugly Mane Third Side of Tape

          – Hong Kong Express (não é beem hip hop, é mais vaporwave, mas é uma viagem beem good vibes)

          Se eu lembrar de alguma coisa aqui, vou postando.

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