Direto do Forno: Maestrick – The Trick Side Of Some Songs [2016]

1 de março, 2017 | por micaelmachado
Direto do Forno
4

Por Micael Machado

O trio paulista Maestrick surgiu para o grande público em 2011, com a edição de Unpuzzle!, disco de estreia que chegou a ser chamado de “uma verdadeira obra de arte” em resenha publicada no site Whiplash quando de seu relançamento em 2013. Durante o processo de composição e gravação de seu segundo registro, o grupo viu que o trabalho seria um pouco mais demorado que o previsto, e, para tentar acalmar um pouco a ansiedade de seus fãs, resolveu gravar um disco de covers em homenagem às bandas que serviram como principais influências para Fábio Caldeira (vocal e piano), Renato “Montanha” Somera (baixo e vocal) e Heitor Matos (bateria e percussão) – Rubinho Silva registrou as guitarras na condição de “músico convidado”. Assim, o primeiro semestre de 2016 viu o lançamento de The Trick Side Of Some Songs, EP que, com oito faixas e quarenta minutos de duração, teria músicas e duração suficientes para ser considerado um LP completo na época em que as bandas escolhidas lançavam seus melhores registros!

O disco se deixa ouvir com bastante facilidade, mas traz um problema sério em sua concepção: ao invés de escolher músicas mais desconhecidas, e, portanto, menos sujeitas a comparação, o grupo ousou e selecionou verdadeiros clássicos do rock mundial para colocar sob seu olhar. Canções como “Aqualung” (Jethro Tull), “While My Guitar Gently Weeps” (The Beatles) e faixas como “Soon”, “Close To The Edge” e “Roundabout” (unidas em um medley da banda Yes, que ainda conta com trechos de “Chances” e “Give Love Each Day”) certamente já foram ouvidas e cantadas muitas vezes por qualquer um que tenho o mínimo de interesse no estilo prog metal, gênero ao qual o trio se dedica em suas composições. Mesmo “Ogre Battle” e “The Fairy Fellers Master Stroke”, adaptações de faixas que nunca atingiram uma grande exposição na mídia, não chegam a ser total desconhecidas aos conhecedores da discografia do Queen, especialmente dos fãs do segundo registro da banda inglesa, de onde as duas são provenientes. Desta forma, por mais que o Maestrick insira seus talentos individuais nas faixas, e mude aqui e ali os arranjos para trazer as faixas para o seu próprio estilo (Aqualung“, por exemplo, ganhou uma interessantíssima parte com um violoncelo – ou um violino, não sei ao certo -, além do piano se destacar bem mais que na versão original, e o medley do Yes conseguiu juntar as várias partes com uma unidade invejável, a ponto de parecer que sempre foram feitas assim), é impossível ouvir as novas versões sem compará-las às antigas. E aí, por mais que o trio de São José do Rio Preto acerte em suas escolhas, não dá para dizer que conseguiram superar os clássicos que estamos acostumados a ouvir há tantos anos.

O trio paulista Maestrick: Heitor Matos, Renato “Montanha” Somera e Fábio Caldeira

Outro problema é que, mesmo sendo um excelente cantor e tendo uma voz que consegue se adaptar às nuances de estilo de cada faixa, Fábio Caldeira não é George Harrison, nem Ian Anderson, e muito menos Freddie Mercury ou Jon Anderson. Assim, a diferença entre a voz do Maestrick e as das versões originais certamente pesa contra o grupo paulista, pois é quase impossível “ganhar” uma comparação com mestres como os citados (especialmente os dois últimos), e, insisto mais uma vez, sendo as faixas originais tão conhecidas e adoradas por quase todos nós, não dá para “esquecer” dos registros originais na hora de ouvir este EP. Deixo claro que a culpa não é de Fábio, que faz seu trabalho com competência e dedicação, só que é muito difícil jogar contra uma seleção de “craques” e querer sair vencedor com facilidade.

O EP (cujo download pode ser feito gratuitamente no site oficial da banda) ainda conta com duas vinhetas baseadas em “Brain Damage, do Pink Floyd (banda que também inspirou o conceito da capa), onde o grupo executa, com o uso de vários vocais em uníssono, uma letra bastante diferente da original, além de uma bela versão para “Rainbow Eyes”, do terceiro registro do Rainbow (e onde, mais uma vez, Fábio “ousa” desafiar uma lenda, desta vez o saudoso Ronnie James Dio), a qual foi inserida como “bonus track” neste registro. Ressalto que as observações que fiz acima não impedem de forma alguma que The Trick Side Of Some Songs soe agradável aos fãs do grupo, especialmente se eles não conhecerem as versões originais (algo que, sinceramente, acho muito difícil que ocorra com alguém interessado neste estilo musical que todos amamos tanto), mas, para mim, fã tanto das bandas como das músicas escolhidas (ok, dos Beatles nem tanto, mas deve-se reconhecer que “While My Guitar… ” é, certamente, uma das melhores composições dos fab four), o EP soou apenas como “interessante”, um leve “aperitivo” antes do “prato principal” que será o segundo registro dos paulistas. Se o “tempero” usado aqui for mantido, tenho certeza que valerá a pena esperar pela “refeição completa”!

Track List:

01. Near – Brain Damage (Pink Floyd)

02. Yes, It’s A Medley! (Yes)

03. The Ogre Fellers Master March – Part I: The Battle (Queen)

04. The Ogre Fellers Master March – Part II: The Fairy And The Black Queen (Queen)

05. Aqualung (Jethro Tull)

06. While My Guitar Gently Weeps (The Beatles)

07. Near – Brain Damage (Reprise) (Pink Floyd)

08. Rainbow Eyes (Bonus Track, Rainbow)



4 Comentarios

  1. António Marcos disse:

    A banda demonstrou coragem e quando não há comparações, o registro é agradável e evidencia o potencial dos músicos. Valeu pela resenha MM, que honra seu padrão de qualidade.

  2. maironmachado disse:

    Parabéns Micael. Coragem em fazer uma resenha desse porte especificamente para um álbum tão complicado de se resenhar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *