Melhores de Todos os Tempos – Aqueles que Faltaram: por Bernardo Brum

11 de março, 2017 | por Diogo Bizotto
Melhores de Todos Os Tempos
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O jovem Caetano Veloso

É novo por aqui e quer saber como funciona essa extensão da série “Melhores de Todos os Tempos”? Confira a primeira edição clicando neste link.

Por Bernardo Brum

Edição de Diogo Bizotto

Com Alexandre Teixeira Pontes, André Kaminski, Christiano Almeida, Davi Pascale, Fernando Bueno, Flavio Pontes, Mairon Machado, Ronaldo Rodrigues e Ulisses Macedo

Não deixe esta seleção te enganar: ela passa longe de ser definitiva. Ela é o resumo de um apanhado de mais de 30 discos cuja ausência senti. Quando havia passado dos 20, o coração já tinha começado a pesar. Mas amo com força cada um desses dez discos – muitos deles foram primeiros ou segundos lugares em listas minhas, e vê-los de fora foi tipo ver o time perder um gol, com o perdão da metáfora cretina. Ainda que esses “acertos” e “erros” sejam altamente subjetivos, foi uma dádiva que os editores da Consultoria tivessem essa ideia para que façamos nossa própria justiça ao invés de reclamar. Então, pois bem, em ordem cronológica, aí vão meus dez escolhidos e os respectivos comentários.


The Stooges – Fun House (1970)

Bernardo: Se The Stooges (1969), gravado em Nova York e produzido por John Cale (Velvet Undergroud), privilegiava a experimentação, a atmosfera de microfonia, a repetição estilística e a postura vanguardista tentando parecer meio The Doors e meio Velvet Undeground, Fun House foi gravado em Los Angeles e produzido por Don Gallucci, tecladista da banda de garage rock Kingsmen (do clássico “Louie, Louie”), e com a adição na banda do saxofonista de jazz Steve MacKay. O resultado da “californização” dos Patetas é a banda no volume máximo, mais livre do que nunca em um disco de fúria demencial que ainda soa completamente despirocado. Canções como “Down on the Street”, “T.V. Eye” e “1970” mostram a banda completamente imersa em atonalidade, improvisação e distorção. Um dos discos mais excessivos da mais excessiva das épocas.

Alexandre: Guitarras mal gravadas, com efeito de “delay curto” irritante, vocal (mal) gritado, baixo e bateria que qualquer iniciante com pouquíssimos meses de instrumento e um mínimo de talento poderia reproduzir. Quando Iggy Pop não está berrando, parece Jim Morrison, e isso não é um elogio. Há de se discernir energia e atitude de barulheira. Energia e atitude podem conter musicalidade, o que eu não encontrei aqui. E ao pesquisar a história do álbum e até o seu legado, entendi que o errado era eu. “Dez milhões” de artistas citam este disco como um de seus preferidos. Nenhum desses artistas (entre eles Joey Ramone e Jack White) tem alguma relevância fundamental para mim. As harmonias de guitarras (não o solo propriamente) no fim de “Dirt” salvam a monotonia que permeia o álbum todo. E é só. O que é aquele saxofone em “1970 (I Feel Alright)”? O que é aquele final do disco? O lado B é literalmente intragável. Se o errado era eu, continuo sendo.

André: Vai ser um pouco difícil comentar os discos do Bernardo pelo fato de termos gostos completamente diferentes (e acredito que ele sentirá a mesma coisa quando ouvir os meus). Felizmente, ele recomendou o Stooges, banda que, apesar de não ter ouvido muita coisa, possui o meu respeito devido à sua influência e inspiração para tantas outras. Fun House é um disco curto, tem uma pegada garageira bacana e uma levada jazzística bem legal. A canção da qual mais gostei foi a título, “Fun House”, em que o naipe de metais se destaca junto àquela pegada rock ‘n’ roll típica dos anos 1960. Pena que o vocal de Iggy Pop não ajuda muito a eu apreciar mais a obra.

Christiano: Mesmo não tendo muita familiaridade com o punk rock, tenho que admitir que estamos diante de um clássico. Um disco seminal para o desenvolvimento do estilo. Lançado em 1970, Fun House é mais uma prova do grande ecletismo que caracterizava as bandas daquela época, sendo até meio difícil encontrar um rótulo para o som dos Stooges. Ao mesmo tempo em que percebemos elementos de hard rock e rock ‘n’ roll, um certo clima de psicodelia dá as caras em algumas músicas. Um bom exemplo disso é “Dirt”. Por outro lado, a sujeira de faixas como “Loose” e “1970” mostra que algo até então inclassificável estava sendo apresentado por esses jovens rapazes de Michigan. Ótima escolha.

Davi: Confesso que o debut do Stooges é o meu preferido deles, mas Fun House é um disco bacana. Pesado, com bastante atitude e inovador. O arranjo mais cadenciado e viajado de “Dirt” é muito bacana. A ideia de adicionar sax ao som da banda, que pode ser conferido em faixas como “1970”, é genial, já a bagunça sonora de “L.A. Blues” poderia ter sido limada. Destaque para o trabalho vocal do sempre endiabrado Iggy Pop e para o trabalho de guitarra de Ron Asheton. Faixa preferida: “Down on the Street”.

Diogo: Não soubesse antecipadamente, mesmo assim não seria difícil adivinhar que os Stooges são crias de Detroit e suas vizinhanças. Por mais que cada grupo tivesse suas diferenças, a crueza e o peso de suas composições, além de uma atmosfera evidentemente urbana, eram ponto de intersecção entre grupos como MC5, Grand Funk Railroad, Alice Cooper (egressos do Arizona, bem sei disso) e Stooges. Com um som muito baseado em riffs de guitarra, a banda desenvolve suas músicas ao redor do trabalho de Ron Asheton, algo bem evidente na maior parte do tracklist, especialmente em “Down on the Street”, grande destaque. Quando resolve dar uma “viajada”, o grupo também se sai bem, vide a ótima “Dirt”, que traduz a psicodelia para um mundo cinza de chaminés de indústrias e laranja e vermelho vivo das caldeiras (tal qual sua capa) que derretiam o metal que dava vida a toda essa cena, distante do bucolismo idealista californiano. Fun House é um produto de sua época e de sua região, mas fez e continua fazendo sentido para muita gente ao redor do mundo.

Fernando: Em algum período no meio da faculdade eu conheci Syd Barret e fiquei maluco. O interesse por Iggy Pop e Lou Reed veio nessa época também. Porém, por mais que eu os achasse divertidos, não conseguia curtir tanto esses dois últimos. Assim, o interesse pelas carreiras regressas dos músicos quase nunca passou pelos meus ouvidos. Ouvir Stooges agora me parece algo legal para animar um bar, um pub inglês ou uma reunião de amigos, mas não creio que seria o ideal para ouvir em casa sozinho. Algumas coisas remetem aos Rolling Stones, como em “Loose”, por exemplo, mas, no geral, é o tal garage rock em sua essência.

Flavio: O disco começa de forma interessante com “Down in the Street”, um rock básico bem marcado, privilegiando o vocal rasgado de Iggy Pop.  No momento do solo a coisa dá uma complicada, quando já se percebe que a guitarra não vai ajudar muito. Daí pra frente não vejo muita novidade: apesar de relevar a qualidade do som gravado, limitado em função do ano de lançamento, o grupo soa muitas vezes com uma banda de garagem, em um ensaio despretensioso. Alguns berros exagerados aqui e ali, a bateria apenas na base da animação. O baixo cumprindo o papel mais básico possivel e as guitarras por vezes dando até “tiro pra fora”. A melhor música talvez seja a quarta, “Dirt”, um pouco mais psicodélica e só. Não há dúvidas de que em 1970 tivemos coisas bem melhores que isso.

Mairon: Os Stooges foram precursores do punk rock e revelaram ao mundo a identidade maluca de Iggy Pop. O segundo álbum não é tão bom quanto o primeiro (que poderia ter sido lembrado para a edição dedicada a 1969), mas ainda assim é uma bela de uma pancadinha nos joelhos. Sempre é legal ouvir e sacudir a cabeleira (hoje não mais existente) durante “Loose” e a faixa-título, bem como os chapantes solos de guitarra em “Down on the Street” e o andamento arrastado de “Dirt”. Fico pensando o que se passava na mente dessas quatro criaturas quando criaram este disco. Para eles, viva a existência de insanidades do porte de “T.V. Eye”, “1970 (I Feel Alright)” e “L.A. Blues”, sendo que, nas duas últimas, o saxofone de Steve Mackay e os gritos de Iggy são muito doentios. Poderia ter entrado pelo menos no lugar de Déjà Vu (Crosby, Stills, Nash & Young). Baita lembrança, Bernardo.

Ronaldo: Quase todas as bandas de proto-punk são melhores que as bandas punk propriamente ditas. E o motivo é que, na época, ainda era necessário tocar razoavelmente bem para convencer a plateia. É o caso do Stooges. Todos os elementos do rock raivoso que infestaria a segunda metade dos anos 1970 estavam já ali cristalizados e mais bem acabados do que a obra de todos os discípulos dos Stooges juntos. Rock possante e rasgante, visceral e louco, como o bom rock praticado em 1970.

Ulisses: Uma cacetada caótica na forma de um blues rock garageiro contorcido e de variada intensidade, em que Iggy Pop se resume a balbuciar e gritar redundantemente. É mais divertido do que parece, ainda mais por causa da guitarra faiscante de Ron Asheton e da bizarra presença do saxofone. O disco tem um clima de loucura que abarca o ouvinte de primeira e funciona muito bem.


The Kinks – Lola Versus Powerman and the Moneygoround, Part One (1970)

Bernardo: É com este álbum conceitual carregado do melhor senso de sátira inglês que os Kinks e particularmente Ray Davies conseguiram unir toda sua proficiência melódica e toda sua ambição conceitual em um disco que tem algumas das melhores linhas melódicas já compostas pelo grupo (como nas baladas “Strangers, “Get Back in the Line” e “This Time Tomorrow”), mas o grande destaque é, obviamente, o peso cadenciado de “Lola”, uma música romântica de um homem que se vê apaixonado por uma mulher transexual. Começando leve e bem humorada, a música vai ganhando power chords e vocalizações emocionais com uma evolução natural e um cuidado tão esmerado que o resultado não poderia ser diferente: um clássico instantâneo e hino do rock setentista.

Alexandre: É evidente que os estilos musicais de preferência do Bernardo e o meu são bem díspares. Desta maneira, antes de tudo é um grande aprendizado passear por esta lista, talvez mais do que de vários outros consultores. Assim, optei por não fazer considerações acerca de que este ou outro determinado disco poderia ou não estar na lista final, pois provavelmente seriam pouquíssimos os citados. Melhor fazer uma análise pura e simples. Nesse propósito, gostei do que ouvi, em especial do uso de instrumentos como violões do tipo National Steel, banjos, timbres de teclados mais tradicionais e pianos. A sonoridade e a atmosfera do rock dos do fim dos anos 1960 e primeira metade dos anos 1970 está latente e é bem vinda. E é até surpreendente, pois associava a banda a um estilo mais antigo, já que o pouquíssimo que conhecia deles vinha de regravações cover (em especial “You Really Got Me”, em versão matadora do Van Halen). Bons vocais, backings, bom instrumental, nada fora do lugar. Um álbum que hoje em dia pode soar um tanto genérico, apesar do cuidado em ter letras voltadas a um mesmo conceito (críticas à indústria fonográfica), mas é agradável. Destaco as faixas “Get Back in Line”, “Powerman” e, especialmente, “Got to Be Free”.

André: Vejo muita gente louvando este disco, mas confesso que o considero apenas um bom álbum do Kinks. Sim, eu sinto saudades dessa época, mas acho que o Kinks já tinha dado o seu melhor entre três e cinco anos antes deste disco ser lançado. Tem lá boas sacadas de teclado, como em “Top of the Pops”, mas já me soa como um disco de banda veterana fazendo apenas álbuns sem aquela gana do iniciante. Ou fazendo músicas mais piadinhas, como “The Moneygoround”. Sim, eu sei que alguns podem me malhar nos comentários, mas me perdoem e pensem “ele não sabe o que faz”.

Christiano: Mais um grande disco lançado em 1970. Para o ouvinte desavisado, Lola Versus Powerman… pode parecer uma colcha de retalhos, tamanha a variedade de estilos explorados pela banda. Na verdade, este álbum é um ótimo exemplo da passagem dos anos 1960 para a década posterior. “Get Back In Line”, por exemplo, traz um clima que pode lembrar nomes como The Beach Boys. “Rats”, por sua vez, tem uma pegada mais próxima do hard rock setentista. Como o The Kinks era uma banda muito acima da média, esse ecletismo tem como resultado um álbum musicalmente muito rico, que cresce a cada nova audição. Definitivamente, indispensável.

Davi: Ótima lembrança. Gosto muito do Kinks e este LP é realmente um clássico. Em termos de sonoridade, ele mistura as guitarras do hard rock com o violão do folk. A faixa de abertura, “The Contenders”, mostra bem essa mistura. Quem gostava daquela sonoridade mais suja dos britânicos, como em “You Really Got Me” ou “All Day and All of the Night“, se identificará com “Top of the Pops”, “Rats” e “Poweman”. Entre os momentos mais “calmos”, também temos ótimas faixas como “Get Back in Line”, “This Time Tomorrow” e o clássico “Lola”.

Diogo: Os Kinks pertencem àquele grupo de bandas britânicas que não morreram (criativamente ou encerraram atividades) no fim dos anos 1960, fazendo uma boa transição para a década seguinte, mostrando crescimento, perspicácia e ambição, sem abrir mão do típico senso de humor. A banda escreve a sério sem se levar tão a sério, resultando em muito boas canções, como “Lola” e “Top of the Pops”, que brincam na temática e na interpretação, mas mostram esmero instrumental e conquistam pelo ouvido. Dave Davies tem a chance de brilhar com sua voz na pesada “Rats” (hard setentista pra ninguém botar defeito) e em “Strangers”, balada que encontra par em “Get Back in Line” e mostra a variedade do álbum, que ainda assim soa homogêneo em sonoridade e qualidade. Destaco ainda as duas canções que encerram o disco, “Powerman” e “Got to Be Free”. Não posso dizer que morro de amores pelos Kinks, mas a banda acertou a mão em Lola… e fez por merecer o espaço.

Fernando: Não conheço o Kinks da forma que eles merecem. Sei que a partir de Face to Face (1966) até este aqui está o crème de la crème do grupo, mas eu sempre fiquei mesmo no disco de 1969, Arthur (Or the Decline and Fall of the British Empire). Toda vez que me dá vontade de ouvir a banda, é nele que eu vou. Sei que é um pouco de comodismo da minha parte, mas é a verdade. Tentarei me redimir. Aos mais sabidos aí, me respondam: não encontrei uma segunda parte: ela existe ou não? Deve haver alguma história por trás disso.

Flavio: Ao ouvir outro disco do mesmo ano, mesmo entendendo que a proposta é totalmente diferente, vejo uma produção um pouco melhor que a de Fun House. Há presença de banjos, pianos, vocais dobrados em um western rock ‘n’ roll que agrada em boa parte da bolacha. O vocal cumpre bem o papel antenado com o estilo. Gostei de “Denmark Street”, “Got to Be Free” e quase todas desceram bem. A apontar como negativo, um momento ou outro um pouco mais lento, como em “Strangers”, soando enfadonho. Apesar de não surpreender, Lola… é um disco agradável sem ser um destaque do ano e merecer aparecer por aqui.

Mairon: Conheço pouco de Kinks e sempre ouvi falar bem deste álbum conceitual. Foi-me surpreendente o que ouvi, principalmente pelas melhores faixas, com a harmônica e o piano destacando-se em “The Contenders”, as guitarras hardonas e os vocais gritados de “Rats”, “Powerman” e “Top of the Pops” (as melhores do disco), a linda “A Long Way From Home”, que poderia estar facilmente em Beggars Banquet (The Rolling Stones, 1968) e aquele delicioso órgão de “Get Back in Line”. Ainda temos a sutil “Strangers”, o bom arranjo vocal da veloz “This Time Tomorrow”, também com uma ótima participação do órgão, e a clássica “Lola”, faixa que com certeza você já deve ter ouvido alguma vez na vida, bem como as inspirações country de “Got to Be Free” e “Denmark Street”. Esqueça as piadas “Apeman” e “The Moneygoround”, nada acrescentam ao disco. O ano de 1970 foi bem concorrido, mas apesar de a lista ter permitido a entrada de dois discos que não aprecio tanto assim (Déjà Vu e All Things Must Pass, este último de George Harrison), não sei se Lola conseguiria um lugar.

Ronaldo: Creio que os Kinks foram uma espécie de The Who do segundo escalão, pois fizeram a mesma migração do som mod adolescente para uma maturidade musical construída em cima de histórias conceituais. E também com o mesmo senso aguçado para criar músicas grudentas e com poucas firulas. Neste caso, as batidas de violão e os acompanhamentos de piano dão um tom mid-tempo a todo o trabalho, que não é eloquente por esbanjar decibéis, mas sim por se gastar em melodias detalhadamente esculpidas.

Ulisses: Bem tocado, bem produzido, com boa variação de sonoridade e que flerta com vários outros gêneros, sendo bastante sólido e consistente do começo ao fim. Não é lá uma audição impressionante, mas a predileção da banda por arranjos espertos e agradáveis a faz descer suficientemente bem.


Caetano Veloso – Transa (1972)

Bernardo: Cercado por alguns dos melhores músicos do Brasil à época – Jards Macalé, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque e Auréo de Sousa – o Caetano de Transa faz, segundo ele mesmo, seu primeiro disco de grupo, gravado durante seu exílio em Londres e apresentando o auge da sua maturidade artística. A Tropicália aqui recebe os habituais banhos de rock psicodélico e samba, mas dessa vez de maneira bem mais introspectiva, como reparamos no confessional reggae “Nine Out of Ten”, nos nove minutos de “Triste Bahia”, que vai do lamento acapella ao delírio percussivo, e na abertura provocante, “You Don’t Know Me”. Em um álbum no qual inglês e português competem espaço, a regravação do samba “Mora na Filosofia” faz uma ponte entre gerações e transforma o samba de desilusão romântica de Monsueto Menezes em um semi-rock que provoca todo o establishment político-social brasileiro sem mudar uma letra da música. Ainda soa tremendamente rebelde. Transa é o verdadeiro disco rock and roll de Caetano, através do qual ele perdeu os próprios limites e virou artista do mundo, artista de música, sem bandeira, sem gênero.

Alexandre: Em minha opinião, e eu realmente não sei se o considero o melhor álbum de Caetano, apesar de ser praticamente uma unanimidade entre a crítica, mas dentro desta lista ele sobra, e fácil. Gosto bastante das faixas conhecidas dos álbuns da volta de Veloso ao Brasil, nos anos 1970, mas tenho certa dificuldade de ouvir seus discos na íntegra. O que mais me chamou atenção neste trabalho, e não sei se isso é algo subjetivo e muito da minha interpretação, mas me pareceu que a saudade do Brasil (e da Bahia, talvez mais especificamente em “Triste Bahia”) transbordou dos sentimentos do cantor para o vinil. A mistura entre os idiomas inglês e português durante várias faixas e a citação explícita aos elementos de suas raízes brasileiras corroboram essa interpretação. O disco vai muito bem até a quinta faixa, “Mora na Filosofia”, que aparece em uma regravação emocionante e com belo arranjo por Caetano e banda. As primeiras faixas compostas majoritariamente em inglês (“You Don’t Know Me”, “Nine out of Ten” e “It’s a Long Way”) também me agradaram. O final neolítico do álbum passou um pouco do ponto pra mim.

André: Sempre acharei Caetano Veloso um porre. E agora é um porre cantando em inglês. Mas como metaleiro acéfalo, aceito que me enviem o link dele lá me chamando de burro.

Christiano: Escutar este disco foi um exercício curioso. Não suporto Caetano Veloso, mas tive boa vontade para tentar esquecer minha resistência. Musicalmente, é interessante. Tem uma banda muito boa e composições bem inventivas. O grande problema, pra mim, é a voz de Caetano, que azeda as músicas em dois idiomas, mostrando que o cara é chato por essência. Mesmo assim, não tem como ignorar faixas como “It’s A Long Way” e “You Don’t Know Me”, dois dos melhores momentos do disco.

Davi: Caetano é, sem dúvida, um dos melhores letristas/compositores do Brasil. Apesar de não concordar com algumas de suas posições, sou um admirador de sua obra. São poucos os erros (tudo bem que alguns graves, como o torturante Araçá Azul, de 1973) e muitos acertos. Transa é um belo álbum, criado no período em que o músico ainda vivia seu exilio em Londres. Ele mistura inglês com português, sonoridade inglesa com brasileira, citações de Beatles e Edu Lobo. Não esperava vê-lo nesta série e fiquei feliz com sua menção. Faixas preferidas: “You Don’t Know Me”, “Triste Bahia” e “It’s a Long Way”.

Diogo: Mais que um cantor, músico e compositor, Caetano tornou-se um personagem da cultura nacional. É difícil ignorá-lo, seja em sua música, suas declarações e posições políticas. Talvez esse primeiro item seja, atualmente, o menos comentado pelo grande público. Da minha parte, nunca me dei ao trabalho de explorar sua carreira (esta é a primeira vez que escuto um álbum seu na íntegra), mas o que ouvi até hoje não me causa rejeição, algo que poderia ocorrer considerando meu background. Minha simpatia por sua valorização da norma culta já era um bom começo, que ficou ainda melhor ao dar play na canção que abre Transa, “You Don’t Know Me”, mesclando português e inglês de uma maneira que eu gostaria de ver mais gente fazendo (com qualidade, por favor) e soando difícil de rotular. Além dela, “Triste Bahia”, “It’s a Long Way” e “Mora na Filosofia” mostram não apenas Caetano, mas uma banda no caminho certo rumo a uma música brasileira de compreensão universal.

Fernando: O início do disco, com Caetano cantando em tons mais baixos, nem parece o baiano, mas quando ele eleva os tons vem aquele timbre de sua voz com o qual estamos acostumados. Acredito que tenha sido gravado durante ou logo após seu exílio na Inglaterra, explicando as letras se revezando do português para o inglês. Algo que nunca li foi sobre esse período que ele esteve na Inglaterra. A única coisa que me lembro dessa fase é “London London” porque eu a conheci pelo RPM. O que tenho curiosidade é saber se ele teve uma carreira real lá, se chegou a tocar, qual a recepção que teve dos ingleses, etc. Sobre o disco: ouvi sem problemas, mas não é para mim.

Flavio: Como quase qualquer brasileiro, conheço parte do repertório e da carreira de Caetano, e pelo período suponho que aqui esteja uma parte importante da fase internacional do cantor, pois, com o exílio, surgiram as canções londrino-brasileiras. Deixo claro que essa “mistureba” deve fazer sentido para uma “galera”, inclusive o Bernardo, pela escolha como um disco esquecido. Bom, sinto dizer que pra mim não agrada. Não gosto do efeito da mistura, nem da pronúncia de Caetano, então, apesar de curto, o disco desceu “a fórceps”. Vou salvar com muita boa vontade a brasileira “Mora na Filosofia” e olhe lá.

Mairon: Este álbum foi eleito aqui na Consultoria como um dos dez melhores discos brasileiros da década de 1970. Sofrendo do “Uol Host Incident”, o comentário que fiz naquela feita foi perdido, então vamos comentar novamente. Gravado praticamente todo em uma mistura de frases em inglês e português, é um dos últimos grandes discos de Caetano, e com uma banda afiadíssima, na qual Jards Macalé só não faz chover com a guitarra. É um disco sensacional, trazendo o embalo suingado de “Nine Out of Ten” e “It’s a Long Way”, um show de mistura de inglês e português por Caetano, a psicodelia alucinante de Araçá Azul já começando a dar o ar da graça em “Neolithic Man” e o blues sutil, curtinho, mas encantador de “Nostalgia (That’s What Rock ‘n’ Roll Is All About)”, com a participação de Gal Costa. Falando nela, destaque principalmente para a linda “You Don’t Know Me”, com participação da cantora (que também vivia uma fase sensacional) e citações a “Reza”, e a perfeita “Triste Bahia”, misturando elementos do candomblé e da capoeira com o rock e o samba em um crescendo de deixar sem fôlego, que foi eleita por Caetano a melhor música do LP, o que não é mero exagero de pai coruja. Porém, para mim, “Mora na Filosofia” é a melhor do disco, também com um crescendo fantástico, saindo de uma dolorida balada para uma empolgante levada, com aquele som peculiar da bateria brasileira dos anos 1970 e uma interpretação magnífica de Caetano. Uma baita lembrança do Bernardo, mas em uma lista que teve Yes, Sabbath, Purple, Bowie, Stones, Jethro Tull, Gentle Giant, Captain Beyond, Neil Young e Stevie Wonder, a concorrência era muito difícil. Mas caberia bem no lugar de Harvest e Talking Book, pelo menos para meu gosto.

Ronaldo: O sumo mais refinado da musicalidade e do lirismo de Caetano Veloso. Suas transições inglês-português e sua salada miscigenada de estilos são os principais charmes dessa transa.

Ulisses: Música bilíngue e multicultural que entrelaça MPB, bossa nova, rock, reggae e baião. A audição é interessante não só por trazer uma musicalidade rica e extensa, mas também porque sua execução é precisa e criativa; “Triste Bahia”, com seu jeitão de roda de capoeira, mas trazendo um instrumental cuidadoso e arrasador por trás, é o melhor exemplo disso. Boa indicação.


Bob Dylan – Blood on the Tracks (1975)

Bernardo: Quem não tem um fraco por discos confessionais? Só sei que eu tenho. Ainda que Dylan negue que os escreva e que tenha ironizado em entrevistas de rádio que pessoas gostavam do disco por “gostar desse tipo de dor”, a fase inspirada do artista – o segundo momento iluminado da sua carreira, que recuperava o momento revolucionário entre The Freewheelin’ Bob Dylan (1963) e John Wesley Harding (1967) – estava de volta, que ainda renderia a obra-prima Desire (1976). Menos bem cuidado e mais sangue nos olhos que seu sucessor, Blood on the Tracks exorciza demônios pessoais de Dylan através de música – seja no lamento de “Tangled Up in Blue”, a raiva épica e um tom acima, cheio de versos cortantes de “Idiot Wind” (“nós somos idiotas, querida/é um mistério que ainda saibamos nos alimentar”) e nas mais suaves “Shelter From the Storm” e “You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go”. Para muitos, pode soar um tanto homogêneo; para mim, é um artista no auge da sua sensibilidade nos convidando para uma jornada sem volta pelos lados mais escuros, feios e frágeis de seu coração.

Alexandre: Nunca fui um grande admirador de Bob Dylan, apesar de reconhecer seu mérito indiscutível como compositor. Ainda assim, a tendência era que eu desaprovasse o álbum. No entanto, posso atestar que Blood on the Tracks até soou bem em boa parte, embora não tenha propriamente me entusiasmado. O disco é tido como o crème de la crème, um dos “masterpieces” do compositor, mas para mim o grande mérito dele é não abusar dos tons altos e anasalados e ter poucos momentos de gaita, dos quais eu normalmente não gosto. Destaco “Idiot Wind” e “Tangled Up in Blue”. “Simple Twist of Fate” tem a mais bonita harmonia do álbum, poderia ter menos gaita. Os belos timbres de violão durante todo o disco também me agradaram bastante.

André: Este é um belo disco de Dylan. Folk delicioso, espontâneo, de uma qualidade ímpar. Vai dizer que “Tangled Up in Blue” não é uma das melhores canções que ele gravou na carreira? O cara faz chover com um violão na mão. O menino Bernardo mandou muito bem aqui.

Christiano: Sempre achei que Bob Dylan é letra demais e música de menos, mas esse não é o caso de Blood on the Tracks, um disco que traz coisas tão bonitas como “You’re a Big Girl Now”, “Tangled Up in Blue” e “Buckets of Rain”. É inegável que um ar melancólico percorre boa parte das faixas, o que, neste caso, torna o álbum ainda mais belo.

Davi: Bob Dylan é sempre genial. Acredito que este talvez seja o álbum mais confessional de sua carreira. As letras deixam claro o momento turbulento pelo qual passava a relação com sua esposa, Sara. O próprio Jakob Dylan (líder do Wallflowers e filho do cantor) já afirmou publicamente que, quando ouve este LP, a imagem que vem à sua mente é a de seus pais. As gaitas dos tempos de The Freewheelin’ Bob Dylan voltam a aparecer em faixas como “You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go” e “Lily, Rosemary and the Jack of Hearts”. Depois de ter realizado vários álbuns apoderado de sua guitarra, como o antecessor Planet Waves (1974), Dylan volta a explorar os violões nos arranjos. Faixas como “Tangled Up in Blue”, “You’re a Big Girl Now” e “Meet Me in the Morning” destacam-se durante a audição.

Diogo: Entre todos os álbuns aqui mencionados pelo Bernardo, Blood on the Tracks é o único que incluí em listas minhas. Após o quase perfeito período de 1963 a 1969, seguido por alguns discos de qualidade bem abaixo da média, ele significou uma retomada em alto estilo, desfilando composições intensas que pouco ou quase nada devem para os melhores momentos de Highway 61 Revisited (1965) e Blonde on Blonde (1966), suas obras máximas. Não me importa se ele viveu ou não as emoções representadas em suas canções, o que importa é que a autenticidade é inquestionável. A vontade que tenho é de empilhar destaque sobre destaque, pois a sequência de ótimas faixas vai quase do início ao fim do álbum, sendo “Meet Me in the Morning” a única quebra mais evidente. As quatro primeiras tiram o fôlego por completo, enquanto o country de “Lily, Rosemary and the Jack of Hearts” termina de derrubar o cidadão. Sei que Bob Dylan recebeu um bom espaço em nossa série, especialmente em suas primeiras edições, mas a citação a Blood on the Tracks é justa. Gosto um pouco mais dele do que de Desire, que também citei e deu as caras na lista dedicada a 1976.

Fernando: Bob Dylan é um daqueles artistas que me faz ter vontade de aprimorar meu inglês. Consigo me comunicar, ler e me viro bem quando viajo, mas entender poesia ou mesmo absorver literatura ainda não consigo completamente. Falo isso porque sua música é simples, basicamente voz e violão, com a adição eventual de algumas camadas de outros instrumentos, e é totalmente focada na mensagem que ele está passado. Quando a mensagem é recebida de forma truncada, acredito que perdemos muito do ato de ouvi-la.

Flavio: Vou (novamente) “ir contra a maré” aqui e me expor ao “linchamento público” ao dizer que nunca entendi essa idolatria a Bob Dylan. Tá, ele foi um grande representante do movimento da contracultura, em defesa dos mais fracos e da filosofia paz e amor da virada dos anos 1960/70, e há algumas boas composições na sua carreira, principalmente no aspecto lírico, mas pra mim é só. Não conseguiria montar um boa coletânea de 60 minutos do artista. Ao me depararar com este álbum de 1975, além de manter tudo exposto, ainda o vejo como dono de um som datado até para a época, já carente de outro panorama. Particularmente, soam bem desagradáveis as inserções de gaita e vocal, em alguns momentos até semitonando. Enfim, daqui não vou destacar nada e mantenho minha posição de afastamento em relação ao repertório do cantor. Passo!

Mairon: Cara, quando ouvi Blood on the Tracks pela primeira vez, através de um amigo meu fã de Dylan, ele me avisou: “Preste atenção nas harmonias instrumentais e nas letras”. Bom, isso é o básico para se ouvir Dylan, mas em especial aqui está o fato de que ele está despejando todo o seu sentimento por conta da separação de sua esposa Sara. Sendo assim, as letras assumem um teor pessoal tão dolorido que fica difícil pensar como ele conseguiu gravá-las sem chorar. Claro, ele sempre afirmou que o disco não tem nada a ver com sua vida pessoal, mas essa lenda irá perdurar para sempre, principalmente ao ouvirmos joias tão lindas como “Simple Twist of Fate”, “Idiot Wind” e a mais clássica do disco, “Shelter From the Storm”. Dylan solta a voz no longo country de “Lily, Rosemary and the Jack of Hearts” e ainda se dá ao luxo de voltar aos tempos de trovador solitário em “You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go”, em que a nostalgia come solta. Como não se maravilhar com “Buckets of Rain”, “Tangled Up in Blue”, as linhas bluesy de “Meet Me in the Morning” e segurar a emoção no dedilhado de violão da tocante “You’re a Big Girl Now” e na doloridíssima “If You See Her, Say Hello”. Tinha certeza que este disco entraria na edição dedicada a 1975, por isso tirei-o na última hora para que entrasse Wish You Were Here (Pink Floyd) na minha lista. E não é que Dylan ficou de fora? Entraria fácil no lugar de Bruce Springsteen e de Neil Young, quiçá até do Rainbow. Um dos melhores discos do norte-americano prêmio Nobel de literatura, essencial para qualquer pessoa que goste de música em geral.

Ronaldo: Um feliz casamento entre letra e música. As férias forçadas que Bob Dylan teve no início dos anos 1970 lhe fizeram um bem danado. Sua música voltou oxigenada com um novo lirismo e seu violão encontra-se cada vez mais particularizado e posto em um quadro sonoro caprichado. Só ouço acertos em Blood on the Tracks.

Ulisses: Musicalmente, Bob Dylan nunca me disse nada, é apenas razoavelmente agradável de se ouvir, e não é Blood on the Tracks que vai mudar isso. Liricamente, a história sempre é diferente com o bardo: a prosa é bastante pessoal e vívida, detalhando turbulências de relacionamentos e separações. Acompanhando as ótimas letras e sabendo a história por trás de seu casamento, a audição fica bem mais apreciável.


Jorge Ben – África Brasil (1976)

Bernardo: Jorge Ben é um titã da música brasileira. Do nível de Chico, Caetano, Tim Maia, você nomeie. Aprimorando seu inimitável “samba soul” disco a disco, África Brasil tem o título perfeito: une a sonoridade tradicional africana com o caldeirão brasileiro de maneira impressionante, no que a crítica chamou de um disco de “samba rock”, cheio de guitarras vigorosas mas também cheio de percussões pesadas, viradas impressionantes e de chacoalhar a alma e um baixo que ronca como um trovão. “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)” é daquelas entradas que chegam derrubando tudo e te mostra em alguns segundos a razão de ser um clássico instantâneo, os clássicos “Taj Mahal” e “Xica da Silva” embalaram gerações em sua celebração da história além-Ocidente, e ainda tem outras pérolas como “Hermes Trimegisto Escreveu”, “Meus Filhos, Meu Tesouro” e a autorregravação furiosa de “África Brasil (Zumbi)”, que já havia aparecido mais suave em A Tábua de Esmeralda (1974), encerrando o álbum com o peso de mil hard rocks e heavy metals que penam para igualar a intensidade da sessão rítmica de Jorge. Rei é rei, né, mores?

Alexandre: Os discos brasileiros desta lista estão entre os que mais me agradam. Não tenho uma (salve) simpatia absoluta pelo estilo proposto por Jorge Ben, mas o álbum passou bem durante as várias vezes que o pus pra tocar enquanto pretendia analisá-lo. O cantor está muito bem acompanhado de músicos como Marcio Montarroyos, Dadi e José Roberto Bertrami, por exemplo, que estiveram em bandas como A Cor do Som e Azymuth. É um senhor predicado, sem dúvida, pois o instrumental é de qualidade, sem qualquer questionamento. Dentro desse instrumental, Ben vai divagando acerca de suas viagens entre reinados africanos e partidas de futebol. Em alguns momentos, a viagem me parece além da compreensão, mas o álbum entrega várias faixas conhecidas até para o menos informado sobre a carreira do músico, entre elas “Xica da Silva”, “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)”, algumas regravações, como “Taj Mahal” e “O Camisa 10 da Gávea”, a minha favorita, já que sou rubro-negro confesso e feliz acompanhador da melhor fase do Flamengo e do seu maior ídolo, Zico. O disco é tido e conceituado por ser pioneiro em trazer algo da black music, do soul e, principalmente, o tal samba rock em sua essência, e pela troca do violão pela guitarra pelo próprio Jorge, trazendo mais suingue para um som recheado de elementos percussivos. A questão do uso da guitarra (sutilmente temperada com alguns efeitos, como o phaser – acredito que seja o Phase 90 da MXR) não é o que mais me chama atenção, e, apesar de perceber que isto serviu para modernizar a sonoridade à época, prefiro entender o uso do instrumento como um coadjuvante entre os demais elementos da mistura na busca do estilo pretendido.

André: É, definitivamente, este é um dos caras que realmente conseguiu misturar samba e rock e criar discos no mínimo interessantes, mesmo que não goste do estilo dele. Não me é marcante, mas dá para curtir uns grooves legais como em “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)” e a clássica e conhecida “Taj Mahal” (pena que tem cuíca, eu realmente não gosto de cuíca).

Christiano: Acho Jorge Ben um cara menosprezado. Talvez isso aconteça por conta dos rumos que sua carreira tomou já no fim dos anos 1970. África Brasil é uma amostra do quão original um artista pode ser: já nos primeiros segundos da primeira faixa, “Ponta de Lança Africano”, é possível identificar um tipo de sonoridade muito própria cunhada pelo futuro Sr. Benjor. É aquela história de assinatura musical muito particular. Ao longo do disco, o que temos é um desfile de ótimas músicas, com um clima meio despojado, brincalhão e original. Destaque para “Xica da Silva” e “Hermes Trismegisto Escreveu”, grandes momentos deste grande álbum que, ao lado de Força Bruta (1970), está entre os meus preferidos da carreira do grande Jorge.

Davi: Clássico da música brasileira e um marco na carreira de Jorge Ben. Foi a partir daqui que ele abandonou de vez os violões, assumindo a guitarra como seu principal instrumento. Fundiu a música negra brasileira com a música negra norte-americana. Ou seja, mistura seu samba rock com funk e soul, criando uma sonoridade cativante. O LP apresenta alguns hits, como “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)”, que os mais jovens vão conhecer pelo Soulfly, e “Taj Mahal”. Outros momentos marcantes ficam por conta de “Meus Filhos, Meu Tesouro” e “Xica da Silva”.

Diogo: A presença de Tábua de Esmeralda na edição dedicada a 1974 foi uma das maiores (e mais desnecessárias) polêmicas desde que a série teve início, se não a maior de todas. Pergunto-me, caso este álbum desse as caras duas edições depois, e Tábua de Esmeralda nunca houvesse aparecido, qual seria a reação. Particularmente, considero África Brasil um disco superior, mais gostoso de ouvir, com um trabalho de baixo, bateria e percussão mais envolvente. Apesar da inegável brasilidade do trabalho, Jorge promove uma fusão muito natural da música negra brasileira com a norte-americana e, não fossem instrumentos tipicamente nossos trabalhando forte na percussão, seria muito fácil encaixar suas bases em pancadões soul/funk lançados pelas gravadoras Stax e Motown. As letras são dotadas de um lirismo todo particular, que pode soar estranho a muita gente, mas que eu curto. Respeito Jorge por ter criado um estilo próprio não apenas em sua música, mas em suas letras também. Pouca gente consegue fazer isso.

Fernando: Quando as músicas ficam apenas nas partes instrumentais me lembra o funk setentista, mas basta as vozes aparecerem para me desanimar com o som. Não gosto da interpretação de Jorge Ben, essa “malandragem” que ele passa na voz não me agrada.

Flavio: Jorge Ben em talvez o seu álbum de maior sucesso, com pelo menos quatro músicas clássicas, se não me engano. Eu, que me lembro vagamente da época no Brasil, recordo-me de seu sucesso. Foi uma experiência interessante reouvir o disco, com olhar mais criterioso, anos depois. Ouvir os sucessos “Xica da Silva” e a homenagem ao craque Zico, em “Camisa 10 da Gávea”, foi agradavelmente nostálgico. Percebe-se claramente a influência soul (na época um sucesso importado dos EUA) no samba rock de Ben. O disco soa leve com os tons irônicos, folclóricos e futebolísticos das letras. Não dá para ficar alheio à importância da bolacha e encontrar boas qualidades nas composições. Boa produção, com bastante presença de elementos percussivos, como cuíca, chocalhos, surdos, apitos, além da guitarra elétrica quase sempre com função de base, e poucos solos aqui e ali, acertada para o estilo, com a procura pop que trouxe maior sucesso para a carreira de Jorge. Como não gosto de Ramones nem de Bob Dylan, o encaixaria tranquilamente na edição da série dedicada a 1976, mas vejo outros que o substituiriam tranquilamente nesse ano, inclusive o Judas Priest, com Sad Wings of Destiny, sugerido pelo Ulisses.

Mairon: Jorge Ben ter entrado na lista abordando 1974 foi um dos maiores absurdos da série. Já em 1976, com África Brasil, o brasileiro não figurou entre os dez mais, até porque, como eu disse na edição dedicada ao Ulisses, 1976 foi um baita ano. África Brasil me foi mais simpático que A Tábua de Esmeralda logo de cara, pois começa com a sensacional “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)”, uma das melhores canções da carreira de Jorge Ben, com vocalizações femininas e um embalo sensacional. As outras canções clássicas, “Taj Mahal”, “Xica da Silva” e “África Brasil (Zumbi)”, também soam muito agradáveis. Agora, o grande mérito de África Brasil é a banda que está acompanhando Jorge Ben. A metaleira em “Hermes Trismegisto Escreveu” e “A História de Jorge” (essa ainda com uma baita tecladeira) é de primeira, e a cozinha Dadi Carvalho (baixo) e Gustavo Schroeter (bateria) faz misérias nos ritmos suingados, criando um groove contagiante do que podia ser um belo disco, além de Dadi ser o centro das atenções na agitadérrima “Cavaleiro do Cavalo Imaculado”. Mas daí veio a choradeira desafinada de “O Filósofo”, “Meus Filhos, Meu Tesouro” e, putz, só a cozinha mesmo se salvou, pois isso me traz as piores lembranças de A Tábua de Esmeralda. A cuíca na simpática “O Plebeu” e na homenagem a Zico em “Camisa 10 da Gávea” também não me soou nada bem. Não entraria na edição dedicada a 1976 nem a pau, nem na lista de melhores brazucas da década de 1970.

Ronaldo: Este disco é como se fosse Jorge Ben saindo do campo de grama para o futebol de salão. Seu swing ficou ainda mais acentuado na guitarra elétrica, embalando seus contos hilários. Um discaço caricaturalmente brasileiro em tudo – no balanço, nos arranjos, na temática. Golaço com as camisas rubro-negra-tricolor-alvinegra-cruz-maltina.

Ulisses: Conheço bem pouco da música de Jorge Ben (além de África Brasil, só ouvi Tábua de Esmeralda e Samba Esquema Novo, de 1963), mas o som desse cara sempre me pareceu algo bem curioso e inventivo, e tão divertido quanto inovador. Não sei como anda o som dele atualmente, mas África Brasil segue provocando impressões positivas, ainda, quatro décadas depois, com seu samba rock que traz, de bandeja, funk e psicodelia.


Talking Heads – Remain in Light (1980)

Bernardo: Mistura de punk com afrobeat, de jazz com disco, de rap com fluxo de consciência, Remain in Light é a prova que “geração perdida” é o escambau quando se fala de década de 1980, pois é quando os Talking Heads lançaram sua obra-prima, um discos mais ambiciosos do pop e do rock em geral, desconstruindo concepções básicas de rock, dando independência a instrumentos, criando ritmos inacreditáveis, um bate-estaca tão envolvente quanto imprevisível, como dá pra ouvir nos dois hinos do disco “Born Under Punches (And the Heat Goes On…)” e “Once in a Lifetime”.

Alexandre: Bem, a New Wave me passou longe nos anos 1980, absorto que eu estava naquela catarse de grupos de hard rock e metal que invadiram e arregaçaram o Rock in Rio de 1985. Curioso a ser forçado aqui a ouvir mais do estilo New Wave, esperava algo mais calcado no gênero em si, mas foi colocar o disco pra tocar e perceber uma mistureba embrionária de world music, cheia de atabaques africanos e sons eletrônicos, com um vocal chato às vezes falado, às vezes com linhas vocais até interessantes, mas que se repetem demais. Confesso, eu estava entregando o jogo… Aí vieram dois solos de guitarra (em especial o segundo) na faixa “The Great Curve” com um timbre “animal” e muito fora da curva. Saí da letargia e fui ver quem era esse guitarrista, pois ele lembrava Adrian Belew. Triste a constatação, pois era o próprio, convidado da banda. Ou seja, do grupo em si eu não gostei de muita coisa. É como eu já citei, algumas linhas vocais, por exemplo em “Crosseyed and Painless”, mergulhadas nessa world music sem muita variação de acordes durante as canções. A banda, recheada de convidados (em especial o próprio Belew), cresce bastante durante as apresentações ao vivo da turnê subsequente, mas como a análise é sobre o álbum em si, eu vou contabilizar mais contras que prós. No entanto, a proposição por tentar entender os caminhos que o grupo percorreu até chegar a este Remain in Light me deixa em aberto a possibilidade de fazer uma pesquisa mais apurada sobre a totalidade de sua obra.

André: Uma daquelas bandas ditas como “inclassificáveis”, visto a variedade de estilos que usam. Tem quem goste (e são muitos), mas não é para mim. Mas gostei da faixa “The Great Curve”, que possui uma melodia de baixo, bateria e teclado bem carismática.

Christiano: Depois de escutar este disco, senti-me um E.T. Tanta gente elogia o Talking Heads, destacando a importância da banda, de David Byrne etc. Mas eu só achei chato. Foi uma tortura ter que escutar até o fim. Tudo bem que é um troço diferente, meio experimental, mas é chato de doer, sem pé nem cabeça, repetitivo. Não entendi.

Davi: Banda extremamente cultuada, mas na qual nunca consegui ver muita graça. O álbum com o qual sou mais familiarizado deles é Talking Heads: 77 (1977), já tive que tocar “Psycho Killer” na noite, e também tenho em casa um ao vivo chamado The Name of this Band Is Talking Heads (1982). Ouvi o disco e, mais uma vez, não foi algo que tenha me tocado profundamente. Bem produzido, bem tocado, mas as composições são bem chatinhas. “Crosseyed and Painless” é a melhor do disco, na minha opinião.

Diogo: Deste álbum, conhecia apenas o quase sucesso “Once in a Lifetime”, que é uma música inteligente, imprevisível, magnífica e curiosamente memorável. Escutei o restante do disco e nenhuma delas me soou tão bem quanto ela, mas a impressão geral foi boa. Como fã do King Crimson de Discipline, lançado dois anos depois, fica evidente a inspiração que Robert Fripp encontrou no Talking Heads, um sinal de grandeza que poucos músicos com sua bagagem se dão ao luxo de demonstrar. As canções baseiam-se bastante na repetição de determinados temas, mas isso felizmente não as torna enfadonhas, pois o grupo sabe trabalhar muito bem os arranjos e as melodias (e as não-melodias) vocais sobre esses temas. Não é o tipo de som que pretendo escutar com grande frequência, mas me estimulou a conhecer melhor a carreira do Talking Heads. Consiste, sem dúvida, em uma indicação muito superior e mais importante que outras que deram as caras na série em se tratando na nossa popular “cota alternativa”.

Fernando: Muita gente considera o Talking Heads uma daquelas bandas “one hit wonder” por conta de “Psycho Killer”, que TODAS as bandas covers de TODOS os bares tocam. Conheço algumas pessoas que gostam do grupo e sei que a música citada nem sempre é considerada entre as melhoras deles, mas quase nada além dela me agradou. Ouvi o disco todo esperando mudar de ideia, mas é isso mesmo.

Flavio: Um disco revolucionário para a época, com destaque absoluto do guitarrista Adrian Belew, que, pelo que vi, nem era da banda, sendo portanto um convidado. O uso de repetições de segmentos, frases musicais, predomina na bolacha toda, determinando o início do estilo eletrônico, que é prenchido com bastante percussão, em estilo tipicamente africano. Não sou fã do timbre de David Byrne, apesar de entender a influência do seu trabalho no Talking Heads naquilo que viria depois, como o eletrônico e todos os seus afiliados. Podem ser destacados os bons vocais dobrados e a produção, que acerta em cheio o objetivo de fazer um álbum inovador. Não destaco música em especial: em geral não é um disco que me agrada, já que o estilo não é o meu predileto. Ficou a referência do trabalho para a entrada de Adrian Belew no King Crimson, o que por si só já é um ponto positivo.

Mairon: Assim como o The Police, o Talking Heads é outra banda que não consigo curtir. David Byrne é um cara genial, disso não duvido, mas as músicas da banda são muito “experimentais” para minha cabeça. Neste caso, o grupo parece estar fazendo um embrião do que veio a ser o King Crimson meses depois, até porque a presença do malucaço Adrian Belew nas guitarras junto da loucura magnífica de Brian Eno é a união da fome com a vontade de comer. Soma-se a isso toda a capacidade criativa de Byrne e temos um disco muito diferente do usual. Instrumentos africanos perambulam aqui e acolá, batidas ritmadas para ficar na mente da criatura, mas falta algo que me dê um tesão na audição. É muita repetição de frases na mesma música, o ritmo não muda, sei lá, não consegui achar nada de bom aqui. Em um bom dia, acho que apreciaria somente “The Overload”, por conta da sua soturnice. Portanto, sem chances de entrar na lista dedicada a 1980.

Ronaldo: Uma espécie de pop irreverente que se tornou muito influente no pós-punk e New Wave, mas que, assim como quase 100% do estilo, carece de um pouco mais de imaginação. Quase todas as músicas do disco parecem apostar todas suas fichas em um único e pequeno fragmento musical, repetindo-o infinitas vezes. As canções terminam exatamente como começam e apenas a voz consegue trazer algo que te faça achar graça. Destaque para a faixa “Once in a Lifetime”; ainda que apoiada sobre a mesma premissa do restante do disco, o faz com bons ganchos.

Ulisses: Não vou negar que o som New Wave do álbum, banhado em ritmos africanos e funk, é deveras chamativo em um primeiro momento. Porém, no decorrer da audição, ficou bastante claro que, embora apresente uma boa diversidade de ritmos e climas, Remain in Light não possui quilate para ser algo mais que um registro interessante de experimentação sonora.


The Jesus and Mary Chain – Psychocandy (1985)

Bernardo: Uma muralha intransponível de ruídos. Muitos mencionarão isso como um defeito, mas, para ser sincero, minha alma sofre um novo abalo sempre que ouço “Just Like Honey”, “The Living End”, “The Hardest Walk”, “My Little Underground” e tento entender como eles fizeram essa mescla de pop onírico com atmosfera perturbadora; enquanto o melhor do noise/shoegaze cerca nossos ouvidos, Jim Reid sussurra de maneira quase sessentista, quase como se The Jesus and Mary Chain fosse a bad trip dos Beatles e dos Beach Boys, sendo românticos em uma terra de pesadelo. Disco com o peso de um sussurro e a leveza de uma bigorna.

Alexandre: Bem, como eu só conhecia a banda de nome, fui “providenciar” o álbum e achei que havia errado de arquivo, porque o que estava ouvindo era uma fita demo gravada no estúdio caseiro daqui de perto. E gravado em 1985, ou até antes, porque hoje nem o estúdio caseiro grava algo com um som tão tosco como esse. Tentei outras fontes, a barulheira continuava. Ou seja, era isso mesmo, era esse o arquivo sim… “Holy mother of reverbering vocals!!!!”, diria o menino prodígio para o homem-morcego. Mas a primeira música ainda não era o pior em qualidade de som. Quando começou a segunda faixa, com o apropriado nome “The Living End”, saíram os guitarristas, entraram um bom punhado de apiários e um sem-número de enxame de abelhas que ficaram até o fim do álbum. Como se não bastasse, o produtor declarou guerra às frequências graves e resolveu deixá-las de fora do álbum, fazendo com que o baixista, cujo nome atende por Douglas Hart, tivesse de promover uma rebelião para que pelo menos os seus timbres pudessem dar as caras por aqui. É seu o melhor (?) momento do álbum, lá pra perto dos dois minutos da faixa “The Hardest Walk”, em que as abelhas ficaram no “mute” e da bateria restou o bumbo. Pena que são apenas cerca de dez segundos. De resto, foi puro sofrimento em 39 minutos intermináveis. Pior disco da lista.

André: Sem chance, acho essa banda e esse estilo vocal de rock alternativo enfadonhos. Mais sussurro do que canto. Eles pelo menos têm o mérito de possuir um pouco mais de energia, a exemplo de “Cut Dead”, mas me dou o direito de desgostar mesmo de bandas consagradas e consideradas importantes quando se trata de um estilo que me desagrada.

Christiano: The Jesus and Mary Chain é uma banda bem esquisita e Psychocandy (1985) é indicado por muitos como um dos melhores momentos de sua carreira. Não é um tipo de som muito fácil de ser assimilado, por conta do uso excessivo de recursos como microfonia e barulhos meio caóticos, mas era uma proposta bem inovadora para a época. Além disso, as composições são boas, têm um clima interessantemente claustrofóbico. Acho que a banda é um tipo de versão suja do The Church, só para citar uma fonte de comparação, e isso é bom.

Davi: Lembro-me de ver alguns vídeos deles nos anos 1980 e também no início dos anos 1990, sem que nunca me chamassem atenção. Escutei o disco e realmente não me cativou. Influência latente de Joy Division e Velvet Underground. Dois artistas dos quais nunca gostei. Definitivamente, não é minha cara. Sem momentos de destaque para mim.

Diogo: Os caras pegaram aquilo de que menos gosto na psicodelia californiana sessentista e adicionaram um mar de microfonia e um oceano de ambiência tipicamente oitentista. Muito difícil gostar disso. Ouvir música é como degustar um prato de comida: não adianta desafiar o convencional e tentar criar algo original se o resultado não apetecer, seja ao paladar ou à audição. A mim, Psychocandy não apeteceu. Há boas melodias cá e lá, a proposta é inovadora e bem executada, mas não há nada que me faça querer ouvir o álbum novamente, pelo menos a curto e médio prazo. É uma peça importante para entender alguns rumos que a música tomaria algum tempo depois, mas, assim, como um artefato bélico em um museu, é melhor que permaneça como uma memória do que seja novamente colocado na ativa.

Fernando: Depois do grunge e de aprender as origens do movimento da cidade de Seattle, busquei conhecer os precursores do chamado rock alternativo. Encontrei Pixies, Sonic Youth, The Jesus and Mary Chain, entre outros. Porém, eu nunca consegui gostar deles como gostava de Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden etc. “Just Like Honey” tem uma sonoridade etérea que engana no começo e, a partir de “The Living End”, a barulheira causada pela distorção saturada começa e chega no seu auge em “You Trip Me Up”. Serviço de utilidade pública: não ouçam com fone de ouvidos! 

Flavio: Bom, aqui a coisa desanda: o The Jesus and Mary Chain faz um disco por vezes muito lento, com um vocal sussurante, com aquela guitarrinha limpa bem “basicona”, ou às vezes puxada para o punk, com o uso de um timbre de overdrive insuportável. O resto da banda compõe sem melhorar o panorama. O desepero foi aumentando quando vi que haveria quinze músicas, e o alívio quando acabava cada uma era maior. Não posso destacar nada aqui. Desculpe-me, Bernardo, mas esse vocal foi de matar, onde gravaram isso? Dentro de uma tubulação de gás com uma britadeira em compressão? Minha esposa perguntou que ruído é esse que entrou sem querer no disco e por que não tiraram? Para finalizar, gostei do título da última música, que reflete o meu sentimento ao ouvir o disco:  “It’s So Hard”.

Mairon: Essas bandas do pós-punk não me causam uma impressão muito forte. Claro que admiro e respeito a história de grupos como o Jesus, mas não consigo ouvir um álbum inteiro sem pensar que o que está ali é uma ampliação piorada do que o punk propôs uma década antes. Tem momentos bons (“My Little Underground”, “The Living End”, “Never Understand”, “Something’s Wrong” e “The Hardest Walk”, que me lembrou Pixies), momentos que não fedem nem cheiram (“Taste of Cindy” e “You Trip Me Up”) e momentos que poderiam nem existir (“Taste the Floor”, “Inside Me”,  “It’s So Hard” e “In a Hole”, que parece ter sido o avô do Nirvana). Ou seja, é mais sem gosto que sopa de nabo. Gostei do estilo Lou Reed de “Cut Dead”, a melhor do disco. Ah, e quando pintou “Just Like Honey” e “Sowing Seeds”, juro que ouvi a voz de Raul dizendo: “Um dia, numa rua da cidade, eu vi um velhinho sentado na calçada, com uma cuia de esmola e uma viola na mão”. É um disco legalzinho, mas mesmo com RPM em primeiro em 1985, não entraria de nenhuma maneira na lista dedicada àquele ano.

Ronaldo: Para quem conhece bem o rock psicodélico norte-americano dos anos 1960, o tipo de som do The Jesus and Mary Chain neste disco não surpreende. Nada aqui é novidade em termos de construção sonora e primitivismo musical. A roupagem, esta sim, totalmente oitentista, é que é a impressão digital do trabalho. E isso não é um predicado positivo neste caso, porque aqui se encontram em abundância os piores lugares-comum daquela década – som abafado, timbres horríveis de bateria, guitarra e teclados e vocais entendiantes, apáticos, sem um pingo de pegada.

Ulisses: Eu estava com essa banda há algum tempo no meu PC e esta lista foi o empurrão necessário para que eu a ouvisse propriamente, pois eu já havia lido vários comentários positivos em relação a ela. Trata-se de um pop rock encoberto por uma grossa camada de reverb, microfonia e distorção que, embora dê vida a um resultado inegavelmente engenhoso, não escapa de soar repetitivo e pouco refinado, dando a entender que os caras haviam desenvolvido mais o conceito sonoro do que as composições que fariam parte dele. Entretanto, logo de cara fica marcada a (óbvia) influência deste registro para bandas posteriores, que souberam trabalhar melhor esse tipo de sonoridade.


Primal Scream – Screamadelica (1991)

Bernardo: Os Stones foram pra Manchester na época do filme “A Festa Nunca Termina” (2002), trocaram a heroína por ecstasy e resolveram fazer Screamadelica. Só isso explica. Brincadeira. Na verdade não: é fruto da mente insana do ex-baterista do The Jesus and Mary Chain Bobby Gillespie. O sujeito pegou o blues rock e misturou com o batidão da nascente cena dance, pegou andamentos de dub para a cozinha e fez um dos discos mais viajados e rebeldes de sua época, com uma justa homenagem ao rebelde eterno Peter Fonda em um trecho de áudio no início de “Loaded”, no qual reproduz sua fala do filme “Os Anjos Selvagens” (1966) em que prega liberdade e chapação. Por isso, a simpática “Movin’ on Up” pode até soar atraente, mas nada te prepara para o literal “rock de rave” de “Slip Inside this House”, as duas partes de “Higher than the Sun”, na qual tudo é vertido em uma viagem digna do Funkadelic em sua obra-prima Maggot Brain (1971), entre outros momentos de puro brilhantismo. Que discão da porra. Continua tão despirocado, rebelde eanticonvencional quanto era na época. É tão característico mas não ficou datado um dia. Como diria uma das próprias canções… “Don’t Fight It… Feel It”.

Alexandre: É uma questão de estilo, provavelmente. Até que a primeira música não é de todo ruim, uma mistura de “Sympathy for the Devil” e o coral gospel de “Oh! Happy Day”. Entraram a bateria eletrônica e todos os elementos mais eletrônicos no álbum e eu invariavelmente comecei a torcer o nariz. A tal questão de estilo. A voz de Bobby Gillespie, por vezes um “fiapinho” frágil, também não contribuiu para alguma melhoria na avaliação. Uma mistura de Rolling Stones e The Black Crowes com sons mais pasteurizados. As músicas são um tanto genéricas e também não me chamaram atenção, a despeito do arranjo mais modernoso. Quanto mais eletrônico, pior, como em “Higher than the Sun”. A coisa descamba para o tal estilo “dub” de “Inner Flight” e isso é quase o fundo do poço. Entra “Freedom ’90”, eu me lembro do saudoso George Michael, mas aí descubro que não é a faixa solo do cantor inglês de ascendência grega e sim “Loaded”. Desculpe-me, Bernardo, quando eu trouxer uma boa saraivada de álbuns de hard e metal, você pode dar o troco. Este ficou difícil.

André: Mais uma banda que venera drogas e que provavelmente gravou o álbum sob o efeito das tais. Mais vocais arrastados. Mais chatice. Mais florzinha. Mais hippies. Mais… Paro por aqui.

Christiano: Outro disco bem conceituado no meio da galera mais “descolada”. Outro que me fez sentir desconfortável. Só achei chato, cheio de barulhinhos engraçadinhos e bobos, que servem para ornamentar músicas muito mais ou menos. Uma tortura.

Davi: Início dos anos 1990, as raves e os ácidos tomavam conta da noite e parecem ter feito a cabeça dos músicos do Primal Scream. Resolveram se afastar um pouco do rock e entrar de cabeça na música eletrônica que começava a ditar moda. Há quem considere este álbum um clássico, mas sempre o considerei um disco de mediano para baixo. Extremamente confuso e bastante cansativo. “Movin’ on Up”, com sua pegada Rolling Stones, é uma ótima canção e é, de longe, a melhor do disco. “Slip Inside this House”, embora já esteja na pegada da house music, ainda agrada. Outro momento interessante é a balada “Damaged”, na qual Bobby Gillespie volta a encarnar Mick Jagger. O resto do álbum é bem chatinho.

Diogo: Mudanças podem ser muito positivas. Como a que Bobby Gillespie fez ao deixar de ser baterista do supracitado The Jesus and Mary Chain para assumir a linha de frente de sua própria cria, o Primal Scream. Não que eu tenha achado Screamadelica uma maravilha (longe disso), mas se trata de uma expressão artística bem mais audível que Psychocandy. O álbum tem geografia e temporalidade bem estabelecidas – Grã-Bretanha da virada dos anos 1980 para a década seguinte –, isto é, trata-se de algo bem datado; mas quantos discos ainda mais datados idolatramos sem restrições? Não vejo problema nisso. Screamadelica parece ter sido concebido tendo em vista as pistas de dança, explorando bem alguns ganchos vocais e instrumentais e estendendo as faixas a durações mais longas que o normal (às vezes demais, como em “Come Together”). “Don’t Fight It, Feel It” é um ótimo exemplo disso, assim como “Jaded”. Na boa, eu nunca fui muito chegado em casas noturnas “alternativas” (de nenhum tipo, na realidade) e pistas de dança me são territórios hostis, mas é muito, muito melhor ouvir músicas de grupos como o Primal Scream (e EMF, The KLF…) nesses ambientes do que aquele indie rock pau molenga pós-Strokes que infesta esses ambientes há muitos anos. Há momentos que destoam disso, como a surpreendente “Inner Flight” e “Damaged”, uma totalmente diferente da outra e remetendo a épocas distintas.

Fernando: Da mesma forma que o The Jesus and Mary Chain é um precursor do grunge, podemos dizer que o Primal Scream é antecessor do britpop. Mas aqui a coisa já é diferente. Começa totalmente calcada em um som setentista, tem melodia e um trabalho vocal bastante agradável. Porém, é muito variado ao longo do tracklist. Tem uma mistureba que, se em algumas músicas vai bem, em outras não. “Come Togheter” (que poderia ter uns três minutos a menos) é daquelas músicas que todos já ouviram, mas quase a totalidade não faz ideia de quem seja o artista.

Flavio: O disco começa com a animada pop “Movin’ on Up”, obviamente influenciada pelos Stones, recheada de vocais femininos em tom gospel, acompanhada de um solo de guitarra que poderia entrar em qualquer disco da banda influenciadora.  Entretanto, esse panorama neo-Rolling Stones não prossegue no restante da bolacha. O disco traz em seu “core” elementos de pop/techno/dance/lounge/eletrônica, misturando instrumentos tradicionais com o uso extremo de sintetizadores e samplers. Apesar de não ser adepto do estilo, encontro bons elementos harmônicos em Screamadelica e entendo-o como um disco influenciador até para artistas que não se ambientavam nesses elementos citados, como Madonna em Erotica (1992) ou mesmo o U2 (muitos anos depois) em Pop (1997). O vocal de Bobby Gillespie é agradável e funciona bem no estilo. Há momentos mais interessantes, como o solo em “Damaged” e o baixo em linha simples, mas agradável, em “Higher than the Sun”, e outros nem tanto, como a chata “I’m Comin’ Down”. Enfim, um bom disco, influenciador, porém um pouco longo demais, o que cansa um pouco no fim.

Mairon: Screamadelica foi o primeiro contato que tive com o Primal Scream, há algum tempo. A versão de “Slip Inside this House” (original do The 13th Floor Elevators) já mostra que os escoceses gostavam de beber na psicodelia, adicionando samples e batidas de acid house, enquanto “Come Together” (não a dos Beatles, e em sua versão editada, porque a completa é um saco) e a clássica “Loaded”, com a levada de “Sympathy for the Devil”, tocavam direto nas rádios FM do Rio Grande do Sul, então era fácil saber quem estava ali. É interessante perceber que apesar de usar samples de muitas canções antigas, os guris estavam bem influenciados pelos nomes em voga no cenário musical, como George Michael na gospel “Movin’ On Up”, um pouco de R.E.M. em “Damaged” e até o Depeche Mode de Violator (1990) misturado com um pouco de Genesis na sensacional “Higher than the Sun”. Mérito nesse caso, claro, para a produção de The Orb, que dá um ar ainda mais nostálgico sobre a década de 1990. Cara, na época se criticava isso para quem era fã do hard setentista, mas o amadurecimento das pessoas faz perceber que, pôxa, os caras fizeram algo bem significativo para a música. Curti a psicodelia simpática de “Shine Like Stars”, a ousadia de misturar eletrônicos e sintetizadores de forma simpática na instrumental “Inner Flight”, que soa como um “bem vindo, Pet Sounds, aos anos 1990″, as percussões e o saxofone na intimista “I’m Comin’ Down”. Desnecessária mesmo só “Higher than the Sun (A Dub Symphony in Two Parts)” e a tosca “Don’t Fight It, Feel It”, com Denise Johnson nos vocais, tornando Screamadelica um disco longo demais, mas nada que destrua este álbum que marcou época e poderia realmente ter entrado por conta de sua importância no lugar do Death. Teria sido muito bem visto.

Ronaldo: Na década de 1990, houve um salutar resgate de sonoridades mais orgânicas e o Primal Scream é um expoente desse tipo de releitura. Ainda que usando francas novidades ao sabor da época, como as batidas eletrônicas, as bases usam bem pianos e violões acústicos e se valem de belos backings vocals. Suas melodias buscam reler o soul e o funk dos anos 1960/70 de forma muito autêntica, incorporando frases do reggae-pop e da disco music, em uma fusão bastante rica. Algumas faixas são desnecessariamente longas (“Come Together” é de uma chatice inacabável), mas compreensíveis no contexto de uma pista de dança.

Ulisses: Dentre os caminhos sonoros que o rock noventista explorou, o do Primal Scream é um dos mais chamativos: a sonoridade nebulosa do disco é resultado de um amalgáma de rock britânico com música eletrônica e psicodelia. Há momentos mais dançantes (“Don’t Fight It, Feel It”) e outros mais suaves (“Damaged”), garantindo que o registro entretenha o ouvinte de várias formas. Apesar da forte (e representativa) lista do ano de 1991, vejo que havia espaço para o Primal Scream no lugar do Teenage Fanclub ou do U2, por exemplo.


Tom Waits – Bone Machine (1992)

Bernardo: Um disco para os amigos da série odiarem: o esquisitão Tom Waits em uma vibe meio rock, meio folk, meio country, meio… Industrial. Isso aí. Seja no peso absurdo e ridiculamente “machão” de “Goin’ Out West”, a apocalíptica dobradinha de abertura composta por “Earth Died Screaming” e “Dirt in the Ground”, no proto-punk resmungão de “I Don’t Wanna Grow Up” (que você já ouviu com os Ramones) e até o quase-gospel “That Feel”.  Dá até pra entender por que o sujeito fica tanto tempo sem lançar disco: o esmero, a ambição e a pretensão poética, a mentalidade anticonvencional para pegar a música tradicional e desconstruir ela do jeito mais esquisito possível… Sim, ainda é aquele Tom Waits piradaço de Rain Dogs (1985), que se afastou do jazz para tornar maluquice musical uma marca registrada, mas provando que mesmo a música moderna não estava a salvo do seu olhar acurado, outsider e singular.   

Alexandre: A segunda música até passa, mesmo a voz super bêbada de Waits se adequou ao instrumental belo de “Dirt Ground”. Há outros poucos momentos bonitos, em especial “A Little Rain (for Clyde)”, um blues com bonito piano e acentuações de pedal steel guitar. O restante do álbum, quase que inteiramente mergulhado na esquisitice que atende pelo nome de música experimental/alternativa e nos brinda com ruídos estranhos, elementos de percussão desagradáveis e vocais de gosto pra lá de duvidoso, eu passo, serve para entrar no rol de premiações sem sentido do Grammy. É melhor que Mule Variations, de 1999, além do fato de ter quase 20 minutos a menos que aquele, o que pra mim é um bônus, mas é evidente que isso não pode ser considerado um mérito.

André: Mais um disco que apenas fortalece meu desgosto pelo Tom Waits.

Christiano: Um disco complicado. Tem alguns momentos interessantes, como “A Little Rain”, “Black Wings” e “Who Are You this Time”, mas a maioria das faixas é cheia de ruídos e altamente fragmentada. Não é o tipo de coisa que me agrada.

Davi: Toda vez que escuto um disco desse cara tenho a sensação de que ele está tirando uma com a minha cara. Pelo menos, serviu para ressaltar que os Ramones eram mesmo geniais. Os caras pegaram uma brincadeira de mau gosto, nesse caso “I Don’t Wanna Grow Up” (me recuso a acreditar que ele fez aquele trabalho vocal a sério) e transformaram em uma ótima faixa punk rock em seu álbum de despedida ¡Adiós Amigos! (1995). O trabalho vocal dele soa como o de um bêbado raivoso (esse cara não canta, ele grunhe), os arranjos são piores do que os da Yoko Ono (achei alguém que conseguiu a proeza). Meu Jesus cristinho. Papai do céu, se assim me permitir, quando tiver um tempinho, por favor, me explique o culto em cima de Tom Waits. Amém!

Diogo: Há de se admirar Tom Waits em pelo menos um aspecto: o cara faz o que quer. Vai pro estúdio, convida uma penca de gente e os une em prol de sua música maluca e peculiar. Ainda por cima sustenta-se muito bem, obrigado, com sua arte e tem uma grande quantidade de admiradores, muitos dele o considerando um verdadeiro gênio musical. Da minha parte, Bone Machine não é algo que escuto ou pretendo começar a escutar em casa, mas não consigo achar seu trabalho ruim ou qualquer coisa do tipo. Tom tem estilo próprio, faz seus experimentos parecerem muito naturais e de vez em quando sai alguma coisa da qual eu até consigo gostar, como “Who Are You”, “A Little Rain”e “Whistle Down the Wind”, honestamente melancólicas.

Fernando: Toda vez que ouço Tom Waits eu fico me perguntando se existe mesmo alguém que chega em casa e pensa em ouvir alguma coisa dele. Sinceramente, eu duvido. Diz muito sobre um disco de um cantor e compositor quando as melhores partes são as que não têm voz, não é? Algumas partes me lembraram o Morphine. “Who Are You” me parece uma música cantada por alguém com uma forte dor de barriga. Fico me imaginando o cara se sentindo um gênio enquanto compunha um troço chamado “In the Colosseum”. Uma coisa que ficou na minha cabeça é que se Bruce Springsteen um dia perder a voz e gravar um disco com uns 90 anos soaria desse jeito. Sei que vai ter gente aí que vai citar um bar enfumaçado e um copo de whisky, mas, sinceramente, esse é um bar em que eu nunca iria.

Flavio: Tom Waits, reaparecendo cinco anos depois de seu disco anterior, traz em Bone Machine uma mistura forte de elementos percussivos e sons processados (vocais, guitarras) para “experimentalizar” o tradicional blues rock, modernizando-o para os anos 1990. Novamente, é uma mistura para os adeptos do rock alternativo e suas vertentes.  Para mim, ao realizar essa mistura há a perda do vocal e da base natural blues, descaracterizados pelos efeitos aplicados. Em alguns momentos, há o aparecimento de elementos de forma mais natural, como em “Who Are You” e “Jesus Gonna Be Here”, mas essa não é a tônica da bolacha.  Enfim, o restante do experimentalismo todo não ajuda a tornar o estranho vocal de Waits agradável ou o álbum em si como interessante para a edição abordando 1992.

Mairon: Tão de brincadeira. Isso aqui é música? Achei que esta nova parte da série fosse para os discos bons que faltaram aparecer, e não os álbuns que ainda bem que não apareceram. Que coisa bem horrorosa, não se aproveita nada, nem o Keith Richards cantando em “That Feel”, que tô para dizer, é uma das coisas mais terríveis que já ouvi neste ano. Tem louco para tudo…

Ronaldo: Algo capaz de estragar a semana de qualquer um.

Ulisses: Tom Waits trafega por caminhos tortuosos e indefiníveis, e em Bone Machine isso não é diferente. Acho as baladas “Who Are You” e “A Little Rain” até bem aceitáveis, porém o restante do álbum é uma espécie de blues primitivo e percussivo assombrado que causa grande estranhamento. Louvo a criatividade bizarra de Waits, mas o som é avant-garde demais (ou talvez nem isso) para meus ouvidos frescurentos. Até agora, das vezes em que a Consultoria me obrigou a ouvi-lo, ele só me agradou naquele álbum de 1985 (Rain Dogs), quando seu som era mais de boteco e menos de pesadelo monolítico.


Nick Cave and the Bad Seeds – Let Love In (1994)

Bernardo: E pra fechar, Let Love In, a magnum opus de Nick Cave lançada em uma crescente qualitativa em que combinou ambição artística com acessibilidade midiática, se tornando um ícone dos “cults” e “independentes”. O australiano alcançava a maturidade musical incorporando o mais sombrio dos blues do delta do Mississippi ao seu característico pós-punk gótico. Indo fundo em temas sombrios e desconfortáveis, pega pesado em “Jangling Jack” e “Thirsty Dog”, evoca uma atmosfera legitimamente soturna e assustadora em “Red Right Hand” (uma música para te fazer acreditar no sobrenatural), explode em intensidade em “Do You Love Me” e na ambiciosa letra e interpretação rasgada de “Loverman” e cheio de lamentos à beira da melancolia em “Nobody’s Baby Now”, “Ain’t Gonna Rain Anymore” e “Lay Me Low”. Se quer saber, este pode não ser o disco “raiz” de Nick (aí você tem que ouvir a porrada desgovernada que é Your Funeral… My Trial, de 1986), mas é o seu maior clássico para o público ao lado de Tender Prey (1988) e Henry’s Dream (1992). Quem acha que década de 1990 se resumiu a Seattle ou L.A. não sabe o que está perdendo: um dos maiores compositores do século XX, com seu universo todo próprio à volta com fé, amor, luto, sexo e violência… E às vezes tudo isso de uma vez só.

Alexandre: Bem melhor que o outro disco do projeto Cave e banda que ouvi, The Boatman’s Call, de 1997. Aquele entrou na lista final, este não. Se eu pudesse, trocava. O que não gosto são dos timbres mais bêbados de Nick. Quando ele se mantém nos registros graves e tem como aliadas boas melodias, a coisa funciona. Ao vivo é outro assunto, muito mais delicado, portanto vou me ater ao que ouvi aqui. Acho interessante o começo do álbum, com “Do You Love Me?” e “Nobody’s Baby Now”. A versão de “Loverman” é melhor no Metallica, mas não chega a comprometer e tem o mérito de ser a original. “Right Red Hand” poderia ter um solo de órgão menos óbvio ou então com menos espaço dentro da canção, mas de resto funciona. A acelerada “Thirsty Dog” também passou bem. “Ain’t Gonna Rain Anymore” talvez seja a que mais me agradou, em especial a orquestração sutil no refrão em contraponto aos timbres graves de Nick. No fim do álbum, em especial em “Lay Me Low”, o vocal passou dos níveis alcoólicos desejáveis e parece que estamos ouvindo um cantor de karaokê que “encheu o pote”. Nesta lista, Let Love In não é nenhuma maravilha, mas se salva.

André: Ufa, finalmente uma banda da qual gosto, pensei que ficaria restrito ao Kinks. Gosto dos teclados deste disco, dos ótimos arranjos e da doce voz de Nick Cave, como em “Nobody’s Babe Now”. É uma banda que sabe possuir a atmosfera de “exótica” ao mesmo tempo que produz faixas em que usa essa estranheza a favor do ouvinte, embora não seja lá fácil de digerir logo de primeira. Bem, fico aliviado que pude elogiar mais de um disco nesta edição ou eu me sentiria o mala da rodada.

Christiano: Denso, mas muito interessante. Nick Cave é uma figura soturna, e isso fica muito evidente em boa parte dos discos que lançou. De fato, Let Love In está entre os melhores que já escutei de sua longa carreira. As músicas são densas, mas possuem uma beleza melancólica. As faixas mais interessantes são justamente as mais introspectivas, que são a maioria neste bom disco. Pessoalmente, prefiro o álbum posterior, Murder Ballads (1996), mas gostei da indicação.

Davi: Lembro de ouvir a bacaninha “Red Right Hand” no filme “Débi e Lóide” (1994), estrelado pelo hilário Jim Carrey. Por algum motivo, a música acabou não entrando na trilha do filme, assim como aconteceu com a faixa do The Cowsills e a do Apache Indian. “Bacaninha” também é um termo que serve para definir o disco. Sua audição não é uma tortura, mas também não é algo emocionante e inesquecível. Além da já citada “Red Right Hand”, colocaria como destaque as simpáticas “Nobody’s Baby Now” e “I Let Love In”. Interessante, nada mais.

Diogo: Estivesse eu vivendo uma fase mal resolvida em relacionamentos amorosos, talvez gostasse muito mais de Let Love In. Como não estou, a identificação é menor e a apreciação também, mas isso não me impede de destacar o bom trabalho levado a cabo por Nick e seus asseclas. Faixas como “Do You Love Me?” (as duas partes), “Nobody’s Baby Now”, “Loverman” e “I Let Love In” são bem interessantes e interpretadas com honestidade, algo que faz muita diferença nesse tipo de canção. Assim como Tom Waits, Nick desenvolveu um estilo muito peculiar e trafega bem sobre esse terreno, oferecendo obras únicas, que não remetem a esse ou aquele artista. Isso sempre é um mérito. Talvez a médio prazo dedique um tempo a explorar melhor sua discografia.

Fernando: O vozeirão de Nick Cave nunca me agradou muito. Mas logo de cara, com a faixa “Do You Love Me”, rompi essa premissa e achei legal. “Nobody’s Baby Now” também surpreendeu com seu piano bem evidente. Pelo que eu lembro de outros discos, achei este um pouco diferente do habitual. Não é algo pelo qual morri de amores, mas posso voltar a ouvir de novo sem problemas.

Flavio: Pra finalizar, Nick Cave and The Bad Seeds trazem em Let Love In um disco de rock básico sem muitas novidades, porém às vezes lento demais. Podemos destacar a produção simples e limpa que mantem o som básico cozinha+guitarra/piano bem ajustadinho. Encontrei músicas interessantes como “Do You Love Me” e “Nobody’s Baby Now”, mas quando Nick foge da linha vocal mais calma ou mesmo limitada e se aventura ou a abrir um falatório ou cantar de forma mais vigorosa, percebe-se que há muitas limitações no seu vocal, que começa a fugir da afinação ou trazer desagradáveis timbres, como em “Jangling Jack” e “I Let Love In”, muitas vezes cobertos com backing vocals na tentativa de salvar a evidente falha. Apesar da banda ser ajustadinha, o resultado começar a “ir para o vinagre” nesses momentos. Novamente, não vou aprovar o trabalho como uma boa escolha.

Mairon: Clássico álbum da década de 1990, regado a muita psicodelia e sonoridades envolventes na linha que vai de Bowie a Joy Division. Nick Cave é um nome que ou me agrada ou me provoca ódio, e este álbum em especial gostei de ouvir. Adorei escutar as canções acessíveis, que são a balada “Nobody’s Baby Now”, linda por sinal, a sutil “I Let Love In”, com uma bela performance vocal de Nick, o rock pegado de “Jangling Jack” e “Thirsty Dog” e a forte explosão de emoção de “Lay Me Low”. Mas foi nas faixas mais incomuns que me encontrei em Let Love In, seja na voz sofrida e explosiva durante o refrão da primeira parte de “Do You Love Me?”, o andamento arrastado de “Red Right Hand” e a pancadaria ignorante do refrão de “Loverman”. Mesmo não tendo apreciado algumas músicas, no caso a segunda parte de “Do You Love Me?” e “Ain’t Gonna Rain Anymore”, este álbum teria feito uma bela parceria com Grace (Jeff Buckley) e eliminado pelo menos uma das várias absurdices que inventaram na edição abordando 1994, mas não votaria nele de jeito nenhum.

Ronaldo: Nick Cave tem uma voz de cantor country de raiz, o que dá um tempero bem interessante para o pop rock esquentado de sua banda. Algumas passagens são climáticas e mais pesadas, outras vão ao ponto direto demais e se tornam esquecíveis. Mas há momentos em que a banda casa belas linhas vocais com arranjos espertos e o resultado fica bastante apreciável.

Ulisses: Tenho um problema com os chatérrimos momentos em que o cara dá uma de roqueirão agitado (“Jangling Jack”, “Thirsty Dog” e partes de “Loverman”) mas, tirando coisas assim, o restante do álbum revela-se banhado em arranjos lentos, sensuais e blueseiros, que demonstram efetividade em tragar o ouvinte nesse clima. É interessante o suficiente para não se tornar uma audição tão cansativa quanto parecia ser. O registro tem seus méritos e entrega sua mensagem com solidez, mas ainda não estou nem um pouco mais próximo de me interessar, em geral, pela música de Nick Cave.



32 Comentarios

  1. António Marcos disse:

    Parabens pela lista. A citação de Primal Scream e Jesus e Mary Chain fez brotar lágrimas de contentamento. Só para constar: Araca Azul é tão incompreendido como MMM de Lou Reed.

  2. Bernardo Brum disse:

    Hahahahaha, curti muito. Pegaram bem mais leve do que eu achava, mas realmente enquanto ia fazendo a lista, a partir de “Remain in Light” já tinha começado a pensar “galera vai tremer na base com algumas coisas aqui…”… hahahaha. Não esperava tantos elogios ao Jorge Ben, ao Caetano e, principalmente, ao Primal Scream e o Nick Cave. Mas para quem ficou ~famoso~ em eleger alguns discos mais malhados da série, fiquei até surpreso. Acho que só esperava essa reação mesmo do “Psychocandy” e do “Bone Machine”.

    Valeu galera! Muito bom ler os comentários e ver como gente com gosto diferente do meu reage a discos que eu gosto muito, saber seus motivos para gostar ou desgostar e, naturalmente, tirar a pessoa do seu “lugar de hábito”. Às vezes a pessoa descobre algo que gosta e não tinha tido curiosidade antes, quem sabe? Já aconteceu comigo, tanto nessa série quanto na “War Room”.

    • Diogo Bizotto disse:

      Achei que o pessoal pegaria mais leve com “Remain in Light”. Parece que há um limite bem traçado entre dois tipos distintos de experimentalismo e o Talking Heads cai pro lado não muito aceitável. Eu fiquei surpreendido positivamente.

    • Ronaldo disse:

      Isso é bem interessante mesmo e acho que é a maior riqueza desse tipo de texto colaborativo. Abraço!

  3. Igor Maxwel disse:

    Lista bem fraquinha essa… Sem ofender, claro. Pelo menos o que se salva daqui é o amado-odiado Bob Dylan com “Blood of the Tracks” de 1975. Boa lembrança, Bernadão!

  4. maironmachado disse:

    “Mas como metaleiro acéfalo, aceito que me enviem o link dele lá me chamando de burro.”

    Corrigindo

    “Mas como metaleiro E COXINHA acéfalo, aceito que me enviem o link dele lá me chamando de burro.”

  5. maironmachado disse:

    Muito curioso ver que tem gente que não curte Stooges. Achei que era uma unanimidade aqui no site

  6. maironmachado disse:

    O último grande disco do Kinks é o que está nessa lista. Depois disso é chover no molhado

  7. maironmachado disse:

    Não gostar de Bob Dylan é uma coisa, mas não conseguir pelo menos respeitar as letras dele, putz, daí é complicado. Blood on the Tracks é um daqueles discos que deveria ser colocado nos altares dos “discos para se ouvir quando quiser cortar os pulsos”

  8. maironmachado disse:

    “caso este álbum desse as caras duas edições depois, e Tábua de Esmeralda nunca houvesse aparecido, qual seria a reação”. Coloquei isso no meu comentário …

    • maironmachado disse:

      A polêmica do Tábua não foi apenas pelo álbum em si, mas pelo responsável pelo álbum ter entrado, o qual é uma pessoa que a única ligação com a Consultoria vocês bem sabem qual é, e jamais poderia ter participado dessas listas aqui no site.

      • Bernardo Brum disse:

        caraca, não sabia dessa treta. eu votei nesse disco, acho hahahaha

        • Diogo Bizotto disse:

          Quatro pessoas votaram nesse disco, Bernardo.

          • maironmachado disse:

            Se a que colocou o disco em primeiro na lista dela não fosse convidada (algo que eu e o Micael PEDIMOS para não participar caso isso ocorresse, e fomos contra desde sempre), o disco não teria entrado.

  9. Diogo Bizotto disse:

    Tinha certeza que este disco entraria na edição dedicada a 1975, por isso tirei-o na última hora para que entrasse Wish You Were Here (Pink Floyd) na minha lista. E não é que Dylan ficou de fora?

    Tsc, tsc, tsc…

  10. Diogo Bizotto disse:

    Uma coisa que ficou na minha cabeça é que se Bruce Springsteen um dia perder a voz e gravar um disco com uns 90 anos soaria desse jeito.

    Eu ri.

    Sei que vai ter gente aí que vai citar um bar enfumaçado e um copo de whisky, mas, sinceramente, esse é um bar em que eu nunca iria.

    Felizmente ninguém apelou pra esse que é um dos mais manjados clichês.

  11. maironmachado disse:

    “o que estava ouvindo era uma fita demo gravada no estúdio caseiro daqui de perto. E gravado em 1985, ou até antes, porque hoje nem o estúdio caseiro grava algo com um som tão tosco como esse. Tentei outras fontes, a barulheira continuava. Ou seja, era isso mesmo, era esse o arquivo sim… ” GENIAL!!!

  12. Diogo Bizotto disse:

    Ela é o resumo de um apanhado de mais de 30 discos cuja ausência senti. Quando havia passado dos 20, o coração já tinha começado a pesar.

    Cita quais foram os outros dez ou vinte, Bernardo…

    • maironmachado disse:

      Medo!!!

    • Bernardo Brum disse:

      procurei aqui mas não achei. quando encontrar posto. mas vocês iriam gostar de muitos, acho, tinha colocado muita coisa dos 60-70 e fiquei com medo de não ser abrangente com 80-90, me deu essa preocupação também. pode ser que alguns até apareçam aqui em futuros “aqueles que faltaram”.

  13. maironmachado disse:

    ““Come Togheter” … é daquelas músicas que todos já ouviram, mas quase a totalidade não faz ideia de quem seja o artista” CONCORDO TOTALMENTE

  14. maironmachado disse:

    “Um disco para os amigos da série odiarem”. Ainda bem que aprendi com o profe: “A Vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”. Para que isso, Bernardo?

  15. Marco disse:

    Nunca fiquei a vontade nessas listas, mas como sinto a falta do Bernardo por aqui – temos várias afinidades sonoras – resolvi dar um pitaco em, pelo menos, uma de suas ótimas escolhas. Gente, o Fun House só quem viveu na época consegue ao menos beliscar sua dimensão. A verdade é que as bandas de Detroit eram poderosas demais e foi um desperdício que apenas o Alice Cooper tenha justificado seu destino de conquistar o mundo. Fosse religioso e diria que Fun House é a prova de que Deus compõe milagres por bandas tortas. De que um veio de ouro puro surgiu em meio ao cascalho de uma mina de tolos (literalmente, se levarmos em conta o nome da banda). É a força que vem do improvável e é aí que reside a beleza dos discos dos Stooges. Ninguém, absolutamente ninguém, havia ainda tentado dominar a energia do rock como quem monta, e doma, um touro louco numa arena de rodeio e sobrevive para os louros merecidos. Bowie percebeu isso e por isso era gênio. Não dá pra explicar e é claro que sua importância foi diluída e absorvida com o passar do tempo. Mas é um disco que daqui a cem anos terá grandes chances de ilustrar a enésima lista dos melhores de todos os tempos. Coisa que uma imensidão de discos hoje muito mais badalados, com certeza, não terão essa honra.

  16. Pessoal, obrigado novamente pela oportunidade de aprender (e eventualmente sofrer, mas todos aqui, ao que parece, vão passar por esse carma uma hora ou outra) em mais uma lista. No caso dessa do Bernardo, os estilos musicais meus e deles estão muito longe, mas mesmo assim foi bem legal ouvir alguns álbuns e conhecer outros (não todos, é claro, os comentários estão aí em cima para dirimir qualquer dúvida).
    Se fui ácido demais em algum comentários, peço considerações ( apesar de que ,pelo jeito,pelo menos o Mairon gosta bastante quando a coisa fica um pouco mais pesada)
    Enfim, valeu consultoria por mais essa etapa, valeu, Bernardo !

    Alexandre

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