Discografia Comentada: Alcatrazz

19 de março, 2017 | por Fernando Bueno
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Yngwie Malmsteen, Jan Uvena, Gary Shea, Grahan Bonnet e Jimmy Waldo

Por Fernando Bueno

Todos que viveram os anos 80 e início dos anos 90 lembra da dificuldade de se conhecer bandas e discos. As alternativas para se conhecer uma banda era se ela tocasse na rádio, se tivesse seus discos em alguma loja, se você ou algum outro amigo pudesse comprar ou até mesmo se algum conhecido conhecesse alguém que tivesse um disco ou mesmo uma gravação. No caso do Alcatrazz some todas essas dificuldades o fato de que, como era uma banda que já tinha encerrado sua carreira, ela já não aparecia mais nas revistas. Ou seja, não era fácil.

Todo mundo conhecia o Malmsteen, ou pelo menos sua fama como guitarrista. Mesmo assim pouca gente tinha algum disco dele e quando tinha era sempre algum dos três primeiros. Nessa época, na minha cidade, existia uma lenda: o Malmsteen tinha saído de uma banda chamada Alcatraz (ninguém sabia que o correto era com dois Z) e nessa banda o músico menos técnico era o próprio sueco. Conhecendo a história e os envolvidos hoje sabemos que essa história é uma bobagem e fico me perguntando quem gerou um boato desses. Mas a verdade era que nós tínhamos uma fissura por ouvir algo desse grupo e um disco deles nos parecia alguma relíquia religiosa da Idade Média. Algo como a lança de São Jorge ou a falange de um dedo de algum apóstolo que podia fazer milagres. Hoje sei que, tal qual essas relíquias religiosas, um disco do Alcatrazz não faz milagres e nem nos elevará aos céus, mas o que Graham Bonnet e os músicos que passaram por ela fizeram em poucos anos pode sim ser algo para se reverenciar.

Grahan Bonnet tinha uma carreira musical um pouco irregular. Gravou e fez um sucesso restrito com alguns singles do The Marbles no fim dos anos 60, foi músico especializado em jingles, gravou alguns discos solo que ninguém deve ter ouvido e até participou de um filme atuando como um cantor fictício em uma comédia chamada Three for All. No fim da década de 70 ele estava sendo cotado para entrar na banda Sweet no lugar de Brian Connolly, mas tudo mudou quando Richie Blackmore o escolheu para substituir Ronnie James Dio no Rainbow. Blackmore queria dar uma guinada sonora na banda e todos conhecem o que aconteceu. Bonnet gravou apenas um álbum com o Rainbow, o ótimo Down to Earth (1979) e saiu de uma maneira bastante conturbada. Logo depois de sua saída, gravou um disco interessante chamado Line-Up (1981) e no fim de 1982 registrou Assault Attack, terceiro disco do The Michael Schenker Group, mas deixou o grupo logo depois dos primeiros shows por conta de problemas relacionados ao alcoolismo.

Com o objetivo de ter uma banda própria e com a ideia de fazer um som um pouco mais pesado que o Rainbow, o Alcatrazz foi arquitetado. A princípio ele teria Clive Burr para a bateria, mas o músico desistiu quando soube que a banda não ficaria na Inglaterra, mas teria os EUA, não só como alvo mercadológico, mas também como residência. Assim ele buscou ótimos músicos de bandas de pouca expressão como Gary Shea para o baixo, Jan Uvena para a bateria, Jimmy Waldo para os teclados e um sueco que morava nos EUA de apenas 20 anos para a guitarra. Malmsteen estava no Steeler, grupo que também tinha Ron Keel, que depois formaria a banda Keel. Foi trazido da Suécia aos Estados Unidos depois que um executivo de uma gravadora ouviu uma demo que o então garoto de 17 anos tinha gravado. Bonnet, depois de ter trabalhado com Blackmore e Michael Schenker, sabia reconhecer bons guitarristas e Malmsteen, um fã declarado de Blackmore, ficou muito feliz em trabalhar com o ex-vocalista do Rainbow.


No Parole from Rock ‘n’ Roll (1983)

Os teclados característicos de bandas AOR abrem o disco e apresentam, talvez, a faixa mais famosa do Alcatrazz, “Island in the Sun”, o único single do álbum. Bonnet canta com um leve drive para no refrão mostrar o excelente alcance que sua voz consegue chegar. Logo nessa primeira faixa também identificamos o diferencial da banda, o solo de guitarra, que apesar de curto já mostra o estilo inconfundível de Malmsteen, porém sem a exuberância (leia-se firulas e alta velocidade) que ele apresentaria a partir da sua carreira solo. Já “General Hospital” um riff cavalgado, rainbowniano, simples, leva a faixa até um ótimo solo que acaba sendo melhor que a faixa em si. O teclado aparece novamente com mais destaque em “Jet to Jet” e o que Malmsteen faz nessa faixa é mais na linha do que viria a fazer no futuro. “Hiroshima Mon Amour” foi um sucesso enorme no Japão e ajudou a banda a fazer vários shows na terra do sol nascente. E nessa quem se destaca mesmo é Graham Bonnet. Teclado e guitarra fazem um pequeno dueto na introdução de “Kree Nakoorie” uma faixa mais cadenciada com um trabalho de vozes muito interessante. Uma pequena faixa instrumental abria o lado B e servia de introdução para “Too Young to Die, Too Drunk to Live”, uma brincadeira com o nome de uma música do Jethro Tull e também uma referência aos problemas de Bonnet nos anos anteriores. Junto de “Hiroshima Mon Amour” poderia ter sido lançada como single além de “Island in the Sun”. O lado AOR volta em “Starcarr Lane” e “Suffer Me”, uma baladona, fecha o disco. No geral as faixas possuem uma linearidade em termos de qualidade, fazendo esse ser o principal disco do Alcatrazz. Malmsteen ficaria tão conhecido algum tempo depois de sua saída que No Parole from Rock ‘n’ Roll saria relançado nos anos seguintes sempre com um adesivo na capa indicando sua participação no disco. Aliás, relançamentos recentes possuem um CD bônus com todas as músicas em versões instrumentais.


Live Sentence (1984)

Não é normal colocarmos discos ao vivo aqui nessa sessão, mas decidi pelo menos fazer alguns comentários sobre esse lançamento. Gravado no Japão, onde eles tinham uma base sólida de fãs, basicamente são as melhores músicas de No Parole from Rock ‘n’ Roll em versões praticamente sem defeitos, dois covers do Rainbow, aliás, um cover do Rainbow, “All Night Long”, e outra música que continua sendo uma versão para a composição de Russ Ballard “Since You’ve Been Gone”. As partes de Blackmore são executadas por Malmsteen ao seu estilo, cheio de notas “a mais”. Tem também uma boa faixa do disco solo de Bonnet, Line-Up, chamada “Night Games” e uma música instrumental “Evil Eye” que qualquer um que ouviu o primeiro disco solo do sueco vai identificar. Durante os shows desse ano o ego do sueco começou a aparecer do modo que conhecemos hoje. As brigas dele com Bonnet e também Waldo eram frequentes e ele se mostrava insatisfeito em dividir atenção com mais quatro pessoas. Sua saída foi inevitável até porque ele dizia constantemente que queria uma banda com o nome dele. O lançamento desse álbum ao vivo foi também um motivo de atrito. Malmsteen tentou impedir seu lançamento de todas as formas, mas não conseguiu. Recentemente Live Sentence foi relançado com sete faixas bônus, além de um DVD. Lançamentos imperdíveis. E, à exemplo do debut, os relançamentos tinham o nome de Malmsteen na capa para chamar atenção. Esse disco foi o que me fez conhecer o Alcatrazz e eu me lembro que eu comprei ele por R$ 10,00 em uma festa da atlética da faculdade por volta de 1999. Tinha um cara lá vendendo CDs e estava esse lá no meio. Acabei gastando todo o dinheiro que eu tinha para a cerveja da noite, mas valeu a pena.


Em pé: Jimmy Waldo, Gary Shea e Jan Uvena. Agachados: Steve Vai e Grahan Bonnet.

Disturbing the Peace (1985)

Para substituir um músico fora de série encontraram outro do mesmo nível, Steve Vai, que na época estava na banda de apoio de Frank Zappa. Jimmy Waldo teve que insistir com Bonnet para que este aceitasse Vai e conseguiu. O som de Disturbing the Peace é um pouco diferente do anterior. Não sei se posso dizer se ele é mais moderno, afinal estamos falando de discos de 83 e 84, mas Vai trouxe uma sonoridade mais ligada aos anos 80, enquanto Malmsteen, tentando emular Blackmore, mirava o som dos anos 70. Porém essa diferença é bastante sutil e se se dá mais por conta dos timbres dos instrumentos, da gravação mais cristalina e da técnica de Vai. Exemplos são os teclados mais na cara em “God Blessed Video” e “You Be Home Tonight”, que tem um timbre que até lembra algo do Asia. As músicas eram agora no geral menos grandiosas, mais hard rock, como “Wired and Wood”, a mais pesada delas. “Desert Diamond” tem um clima pesado remetendo à “Kree Nakoorie”. Um pouco de velocidade é colocada em ‘Stripped” na faixa em que Bonnet mostra toda sua extensão vocal. Em “Lighter Shade of Green” Steve Vai abre mostrando alguns de seus predicados em uma faixa com ótimos vocais e pouco lembrada pelos fãs. Um leve efeito de voz foi usado em “Breaking the Heart of the City”, faixa mais diferente do álbum. Algo como uma mistura de Queen com Depeche Mode. No relançamento recente há um disco bônus com um show ao vivo ainda em 1984 já com Vai na guitarra gravado no… adivinhem…. Japão. Steve comenta que nessa época muita gente não sabia que Malmsteen tinha saído da banda. Ele entrava, gritavam o nome do antigo guitarrista e ele tentava agradar esses fãs noite após noite. Após o lançamento do disco isso já não era mais necessário. Vale destacar as diferentes capas que o álbum teve ao longo das várias reedições.


Em pé: Jan Uvena e Danny Johnson. Sentados: Jimmy Waldo, Grahan Bonnet e Gary Shea.

Dangerous Game (1986)

Nova mudança no posto de guitarrista. Steve Vai sai para se juntar à David Lee Roth em sua banda solo pós Van Halen para gravar o clássico Eat ‘Em and Smile (1986). Seria fantástico se eles tivessem conseguido Joe Satriani para o posto não é? Mas não foi o que aconteceu. Para o lugar de Vai veio o ex-Alice Cooper, Danny Johnson. Dangerous Game infelizmente é inferior aos dois primeiros discos, apesar de ter seus bons momentos como a faixa de abertura “It´s My Life”, um cover do The Animals. O som do geral é mais polido que os dois álbuns anteriores como podemos perceber na faixa mais AOR do disco, “Undercover”, na qual Johnson tenta impressionar em alguns momentos, muito provavelmente pelo peso de substituir dois monstros. Pelo enorme sucesso da banda no Japão nos anos anteriores “Ohayo Tokyo” foi uma forma de agradar o mercado japonês. A faixa título tem um refrão que poderia ter sido gravada por alguma banda americana de hard rock da época, o que não quer dizer que é bom. Outro cover foi gravado aqui, “Only One Woman”, mas como é da banda Marbles que o próprio Bonnet foi cantor podemos chamá-lo mais de uma regravação do que propriamente de um cover. A balada “The Wicthwood” é uma das melhores faixas do disco. Infelizmente o Alcatrazz foi decaindo de qualidade ao longo dos três discos. Mas se Dangerous Game é o mais fraco da banda não significa que ele seja ruim. Vale a pena ouví-lo. A banda se separou em 1987. Em 2002 voltou a ser lembrada, e introduzida a novos ouvidos, graças ao jogo Grand Theft Auto: Vice City com a faixa “God Blessed Video”. Bonnet tentou retornar recentemente com a banda sem nenhum dos músicos que gravou os discos, mas sem muito sucesso.



12 Comentarios

  1. maironmachado disse:

    Belo resgate hein Fernando. Dos discos citados, curto o primeiro e o do Vai. O Malmsteen no início de carreira era um belo músico, mas quando começou a se achar O CARA, putz, caiu de vez…

    • Francisco disse:

      Malmsteen é um guitarrista presepeiro. Há muitos por aí. Prefiro guitarristas mais econômicos, do tipo que colocam a nota certa na hora certa…

      • Fernando Bueno disse:

        Mesmo nessa época do Alcatrazz vc o acha presepeiro?

        • Francisco disse:

          Conheci o trabalho do Malmsteen pós-Alcatrazz. Por isso, talvez, tenha ficado com essa impressão a respeito dele. Devo conferir o trabalho dele nessa banda para emitir uma opinião melhor.

          • Anônimo de volta disse:

            Mas antes um guitarrista “presepeiro” do que guitarristas limitados e medíocres como Tony Bellotto, The Edge e Johnny Ramone.

    • Fernando Bueno disse:

      Mairon…
      Eu acredito que ele foi perfeito nos anos 80. Depois ele caiu numas de se repetir se copiar. Hoje quando sai algo de novo dele nem me interesso mais.

  2. André Kaminski disse:

    Curioso que eu gosto e consequentemente ouvi mais, justamente os dois últimos discos um tanto mais leves e mais AOR. Eles são daquele período em que eram uma boa banda, mas que era difícil cavar um espaço devido a concorrência forte da época. Um belo resgate, Fernando. Irei ouvi-los amanhã para relembrar.

    • Fernando Bueno disse:

      Ouça mais o primeiro e diga se Hiroshima Mon Amour não vai ficar na sua cabeça durante dias….

      • Anônimo de volta disse:

        Essa música é espetacular! O Graham Bonnet consegue cantar em um tom altíssimo. E tanto a introdução da música quanto o solo são sensacionais.

  3. Marcel disse:

    Muito bom! O primeiro é um dos meus discos preferidos.

  4. Anônimo de volta disse:

    O Malmsteen é tão fã do Ritchie Blackmore que o riff de “Jet to Jet” é quase igual ao de “Spotlight Kid” do Rainbow lançada dois anos antes em 1981 no álbum “Difficult to Cure”.

  5. Anônimo de volta disse:

    Não é por nada não mas a impressão que eu tenho mas posso estar errado é de que a Rock Hard Ride Free do Judas Priest lembra muito a “Starcarr Lane” do primeiro disco do Alcatrazz. At[e a introdução dessa música do Judas é muito semelhante.

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