Discografias Comentadas: Halestorm

2 de abril, 2017 | por Ulisses Macedo
Discografias Comentadas
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Halestorm

Por Ulisses Macedo

Em uma época em que a mulherada na música pesada sofre do estereótipo da cantora operática, com “voz de fada” e longos vestidos, o Halestorm toma a cena de assalto com seu hard rock coeso e muito bem feito, seguindo os passos de Lita Ford, Vixen, L7 e similares. Embora à primeira vista pareça uma banda nova, Elizabeth “Lzzy” Hale (guitarra e vocais) e seu irmão Arejay Hale (bateria) começaram a compôr e tocar com seus onze, doze anos e em ’99 já haviam lançado um EP independente, o (Don’t Mess With the) Time Man, com Lzzy nos teclados, seu irmão na bateria, e o pai Roger Hale no baixo, tendo a presença do guitarrista Leo Nessinger para os concertos. Dois anos depois, Lzzy conhece o jovem guitarrista Nate Myotte através de seu professor de guitarra e o efetiva na banda; o quarteto se aventura em mais um EP, intitulado Breaking the Silence, mais AOR do que qualquer outra coisa.

Só a partir dos anos 2003, quando os irmãos Hale reformularam a banda com a presença do guitarrista Joe Hottinger e do baixista Josh Smith é que o Halestorm finalmente começou a dar seus primeiros passos de banda grande, conseguindo a atenção do produtor David Ivory e da Atlantic Records, que apostaram no lançamento do EP ao vivo One and Done (2006). Assim, foram saindo da Pensilvânia para ganhar, pouco a pouco, o mundo inteiro.


maxresdefault (1)Halestorm 2009

Um disco que começa com o single “It’s Not You” não pode ser ruim. Nunca me sai da cabeça aquele verso em que ela canta ‘You’ve probably never been shut down before’ e o vocal sai dobrado logo em seguida! Essa canção já havia sido mostrada quatro anos antes no One and Done, e apresenta algumas poucas melhorias aqui. O outro single, mais lento, vem logo em seguida: é a safada “I Get Off”, e serve para introduzir à característica desinibição de Lzzy, e cujo solo de guitarra aumenta a empatia com a música. As outras baladas do disco fazem uma fileira, começando com “Bet U Wish U Had Me Back” até “I’m Not an Angel” – um exagero colocar tantas músicas assim juntas, mas há quem goste; confesso que esta última é sem dúvidas a melhor do pacote, graças à ótima interpretação da banda. A pancadaria tem sua fileira também, começando pela ótima “What Were You Expecting?“, que faz um ótimo trabalho em nos mostrar o gogó abençoado de Lzzy, e a boa levada de bateria de “Dirty Work”. “Nothing to Do With Love” puxa “Tell Me Where it Hurts”, que por sua vez puxa “Conversation Over” e aí, quando estamos gostando do peso, “Dirty Mind” acaba. Embora a parte instrumental não seja particularmente técnica ou digna de uma nota acima da média (mas vale destacar as peripécias de Arejay, um baterista divertidíssimo ao vivo), os refrões bem encaixados e o bom senso melódico levaram o Halestorm à 40ª posição do Top 200 da Billboard, liderados pelos singles, e ano seguinte já havia um DVD ao vivo, o Live in Philly 2010, mostrando o que o grupo é capaz de fazer em cima do palco – como se as constantes turnês com monstrinhos da atualidade como Disturbed, Avenged Sevenfold e Stone Sour já não desse uma boa ideia.


96309The Strange Case Of…  2012

The Strange Case Of … tem muito do seu predecessor, mas também traz novidades. “Love Bites (So Do I)” rendeu à banda um grammy e abre com bastante peso, possuindo um riff matador e momentos praticamente heavy metal, ao passo em que a sequência com a faixa-título, “I Miss the Misery” e “Freak Like Me” faz o primeiro CD quase parecer coisa de criança. A banda aqui está toda afiada e muito diversificada: temos um som mais pendente para o hard setentista em “American Boys”, um pop rock acessível em “Rock Show” e eu não acredito que “Daughters of Darkness” teria saído das sessões de composição há três anos atrás. Essa variação não é fruto de uma abordagem “atire pra todos os lados e veja o que dá certo”: a sonoridade logo se identifica com a banda, que sabe utilizar muito bem o talento vocal de Lzzy e, combinando com aquelas viradas de bateria, aquele solo bem criado e aquela linha de baixo bem colocada tornam a audição muito mais prazerosa e recompensadora do que era na estréia. Há casos em que não precisam de quase nada para acertarem: “Break In” traz apenas Lzzy e um piano. A simplicidade torna-se força devido à linda interpretação dela; ponto para a banda! Outro fato que torna The Strange Case Of… marcante são as constantes referências aos fãs: a letra da abertura é resultado da interação com uma fã. “Freak Like Me” também o é (freak é como Lzzy carinhosamente apelida seus fãs), assim como “Rock Show”. Essa mania de indiretamente incorporar os fãs ao processo de composição ajuda a simpatizar com o grupo, talvez explicando muito do sucesso do álbum. As baladas aqui não trazem muitas novidades, exceto a pepita de ouro do álbum: “Here’s to Us” já nasceu clássica e profetizava visões de uma arena cheia, balançando os braços, cantando junto e celebrando o que a canção tem de melhor: os refrões, as linhas de baixo e violão, a bela letra. Ignore o fato de ter aparecido naquele seriado-musical adolescente (Glee) pois, gostando ou não, ajudou bastante a alavancar ainda mais a popularidade do grupo.


Into the Wild Life  2015

Já consagrados em seu lado roqueiro, a banda firma compromisso com o amadurecimento musical e aposta numa diversidade de estilos em seu terceiro álbum de estúdio. Embora no estúdio as partes de cada um tenham sido gravadas ao vivo, o disco não soa cru, pois tem uma produção bastante polida, talvez até demais, o que dividiu os fãs e rendeu algumas críticas. O hard rock típico da banda continua dando as caras, mas conta com uma Lzzy Hale praticamente possessa, fazendo de faixas como “I Am the Fire” (dramática, épica, cheia de garra!), “Mayhem” e “Apocalyptic” pequenos terremotos, sem deixar o gingado de lado em “Sick Individual”, por exemplo. Dentre todos os álbuns, é certamente aqui em Wild Life que sua voz se encontra em sua melhor forma. Por outro lado, os fãs ficaram positivamente surpresos com o R&B de “New Modern Love” e com a gentil balada new wave “Bad Girl’s World”. Esse lado mais calmo do quarteto sempre existiu, mas foi com a produção de Jay Joyce, que ele ganhou uma pegada pop no melhor sentido da palavra, fresca e amigável, dando mais um grande passo em relação aos discos anteriors, que ainda não dispunham de tantas camadas. Contando na maior parte do tempo somente com piano e voz, “Dear Daughter” se destaca pela letra que homenageia a mãe suportiva dos irmãos Hale, sendo uma performance bastante sincera. “Amen” funciona através de ganchos cativantes e um ótimo refrão, sendo feita para fazer todo mundo cantar junto, assim com a finaleira “I Like It Heavy“, um rock de arena danado de bom em que o quarteto proclama seu amor por ‘Sabbath old school, Zeppelin e Lemmy’, e termina com um a capella capaz de botar um sorriso na cara de qualquer um. E é assim que a banda galga cada vez mais degraus no mainstream, meus caros: evitando a repetição sonora através da exploração de uma gama de diferentes estilos que apenas não soam deslocados porque mantém o hard rock como protagonista.


Também vale a pena checar os EPs de covers ReAnimate (2011), ReAnimate 2.0 (2013) e ReAnimate 3.0 (2017), contendo tanto clássicos da música pesada, como “Dissident Agressor” (Judas Priest), “Slave to the Grind” (Skid Row) e “Ride the Lightning” (Metallica), quanto alguns hits pop da atualidade, como a “Get Lucky” do duo Daft Punk.



2 Comentarios

  1. Fernando Bueno disse:

    Tá aí mais um banda que nunca me interessei, mas a descrição do Ulisses mudou isso. Vou dar uma procurada.

  2. maironmachado disse:

    Os vi ano passado, no RIR, e foi bem surpreendente. Mas alguma coisa não me tocou muito forte. Vou buscar os discos para ver, pois as vezes, ao vivo a banda não é tudo isso.

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