A Trilogia das Cores do King Crimson

Por Fernando Bueno
O King Crimson causou uma revolução musical com seu álbum de estreia e praticamente fundou um novo estilo musical. Com o passar dos anos empilhou discos que ajudou a moldar esse estilo e trouxe também uma constante necessidade de evolução. As inúmeras mudanças de formação atrapalharam bastante o desenvolvimento da carreira da banda de Robert Fripp, mas também ajudaram, ou obrigaram, a moldar essa constante transformação de seu som. Em 1974, reduzido como um trio, lançam Red, um novo marco para o progressivo e o fim da banda foi decretado. Fripp sempre se incomodou com o mercado musical e os problemas de manter um grupo na ativa e o anúncio foi que a decisão seria em definitivo. A formação que gravou Red nunca chegou a tocar ao vivo.
Bill Bruford participou do Gong e saiu em turnê com o Genesis, John Wetton foi para o Uriah Heep e os dois se juntaram algum tempo depois no UK. Já Fripp colaborou com diversos artistas como David Bowie, Talking Heads, Blondie Peter Gabriel e Brian Eno. Durante esse período ele desenvolveu o que chamou de frippertronics que é um processo de tocar sobre looping de bases em que ele grava no processo gerando linhas de guitarras sobrepostas. Gravou dois álbuns solos ainda nos anos setenta e tocou com uma banda new wave chamada The League of Gentleman.
Ainda influenciado pela new wave ele decidiu criar um grupo chamado Discipline que trouxesse influências globais de ritmos somados à elementos do rock e do pop. Chamou seu velho companheiro Bill Bruford para a empreitada e para ter um contraste com seu estilo de tocar guitarra convidou o guitarrista do Talking Heads Adrian Belew, que também cantava. Para o baixo, Tony Levin que tinha um jeito próprio de tocar o instrumento, já que com técnicas de tapping ele consegue não só reproduzir simultaneamente as linhas de baixos como também acordes. A new wave ou o pós-punk era conhecido por sua abordagem experimental e sua disposição para quebrar as normas do rock tradicional. Isso se refletiu na música do King Crimson dessa época.
Porém, antes de lançar o material produzido pelo grupo, decidiu-se que o nome da banda seria mesmo King Crimson. Eles entenderam que o modo de improvisação, as linhas intrincadas de suas músicas e os ritmos não usuais, sincopados, e texturas experimentais combinava muito com o espírito musical desbravador de sua antiga banda. Assim resolveram dar o nome do álbum de Discipline.
Então sete anos depois de Red um novo álbum do King Crimson era lançado. Após esse longo hiato e apresentando uma nova formação a sonoridade ia para um lado bem diferentes dos medalhões do rock progressivo que estavam na ativa naquele ano de 1981. O som que ainda tinha o rock progressivo como base, trazia influências da new wave e o art rock. Discipline é conhecido por suas complexas composições e ritmos em tempos incomuns. Faixas como “Elephant Talk” e “Frame by Frame” destacam a habilidade técnica dos músicos, especialmente as guitarras de Robert Fripp e Adrian Belew.
Já Beat dá continuidade ao som explorado em Discipline, o álbum apresenta uma abordagem claramente mais acessível, entretanto é o acessível que o King Crimson poderia entregar, acessível, mas ainda assim complexo. O álbum aborda temas como a arte e a criatividade, muito influenciado pelo escritor beatnick Jack Kerouak é caracterizado por uma mistura de rock e elementos de jazz. Faixas como “Heartbeat” e “Neurotica” são particularmente memoráveis, mostrando a evolução da banda e sua capacidade de experimentar dentro de sua própria sonoridade.
Dois anos depois sai Three of a Perfect Pair, que fecha a trilogia e continua a exploração musical iniciada nos álbuns anteriores, mantendo a mistura de estilos e a complexidade nas composições. A faixa título, a de abertura e “Model Man” fazem parte de um dos lados do disco que é mais acessível, sendo que o lado B contém faixas mais desafiadoras refletindo a dinâmica e a química entre os membros da banda. Isso ajudou a dar o nome ao álbum já que cada lado desse disco é como um terceiro lado de cada um dos discos anteriores, por isso ‘três de um par perfeito’.
Os mais atentos já entenderam o motivo do título da matéria e os fãs já sabem que esses discos são chamados assim. Eles foram realmente criados como uma trilogia e até mesmo a explicação sobre o título do último deles demonstram isso. Uma curiosidade que escapa um pouco é que a banda tinha tido um disco anterior com nome de uma cor e ele não faz parte da trilogia das cores. Outra curiosidade é que a cor dele, no caso vermelho, é também a cor predominante da capa do primeiro desses três discos. Uma capa toda vermelha com um círculo de nós. O segundo tinha o azul como cor predominante e o símbolo musical chamado de colcheia na cor rosa. Beat, além de ser o movimento artístico dos beatnick é também a palavra que significa batida. Nada mais significativo. Para encerrar o amarelo predomina em Three Of A Perfect Pair com um símbolo em azul. Um símbolo que apresenta duas formas que, juntas, se tornam uma terceira.

E tão rápido quanto o anúncio do retorno foi a nova debandada. Essa encarnação do King Crimson durou pouco mais de três anos. Fripp deu a entender que o grupo faria mais uma pausa sem previsão de retorno. Suas palavras foram “quando o objetivo foi alcançado ou o compromisso cumprido, qualquer grupo digno desse nome se desfaz”. Apesar de pouco tempo juntos essa formação foi a que mais durou na história da banda. Cada um dos músicos foi para um lado e Fripp se dedicou a estudar música e também à uma gravadora que seria a responsável por lançar material de sua própria banda. Muitos lançamentos ao vivo foram disponibilizados depois dessa iniciativa. Em 1994 o King Crimson retorna novamente. Agora com um conceito de dois trio dentro da própria banda, mas essa história vai ficar para um próximo texto.
Prefiro o King Crimson dos anos 70 ao dos 80 – como acho que é o mais comum – e gosto da double trio formation dos anos 90. Mas ficando no KC dessa matéria, acho que a trilogia das cores é um pouco subestimada, pois há material muito criativo, especialmente nos dois primeiros discos, e ao vivo eles eram muito bons. Muitas pessoas que conheço se queixam dos vocais do Adrian Belew, mas não me incomodam muito (mas, em minha opinião, Belew não está à altura dos outros vocalistas do grupo). Dos três discos, o que menos me chama a atenção é o terceiro; Fripp deve ter percebido que essa formação do KC já tinha rendido o que podia, e acabou com o grupo. Legal recuperar o Crimson oitentista, acho que vou botar para rolar!
Essa preferência pelo KC dos anos 70 acho até obrigatória. Até pq, como disse no texto, os anos 80 foram mais experimentais.
Um dia, prometo, dedicar-me-ei ao King Crimson… Eu até tenho o LP original de lançamento deles, mas não me encantam… Mas, um dia, chegarei neles, prometo.
Nem o primeiro disco deles vc se interessou? Eu acho ele tão bom, mas tão bom que, para mim, é impossível não gostar…