Datas Especiais: 35 anos de “Heroes”

Datas Especiais: 35 anos de “Heroes”

Por Mairon Machado

O ano é 1977. David Bowie, símbolo sexual, ídolo de milhares de fãs ao redor do mundo, acabou de lançar seu décimo primeiro LP, o sensacional Low, que chegou às lojas uma semana após o músico britânico completar 30 anos. 30 anos que mais pareceram 60, tamanha a quantidade de mudanças na vida de Bowie desde que ainda era um garoto de 15 anos, liderando o grupo The Konrads e tocando em festas de casamento.

As canções beat de outrora foram substancialmente trocadas pelo folk-político de seus dois primeiros álbuns, originaram o Glam Rock a partir do terceiro (parindo também o primeiro personagem importante criado por Bowie, Ziggy Stardust), mergulharam no rock de Alladin Sane (o segundo personagem do camaleão), flertaram com o progressivo em Diamond Dogs e afundou-se na cocaína e nas pastilhas alucinógenas com o The Thin White Duck, isso em apenas seis anos de carreira.

As várias faces de Bowie em “Heroes”

Bowie precisava mudar, se não iria morrer. Essa mudança começou a ser formatada em 1976, pouco depois do lançamento de Station to Station, um dos melhores trabalhos do músico.

Afundado em drogas, Bowie decidiu migrar para a Alemanha, com a finalidade única e exclusiva de livrar-se delas, e na terra do chucrute, deparou-se com um ambiente totalmente diferente daquele que ele havia encontrado na América, aonde gravou Young Americans e o já citado Station to Station.

A Alemanha pós-guerra era um país totalmente diferente do que vemos hoje. Reconstruída com muito esforço, ela passou por diversos problemas até se estabilizar como uma potência econômica mundial, e durante a década de 70, os jovens eram praticamente isolados na sociedade, com difícil acesso ao material que vinha por exemplo, dos Estados Unidos, e consumindo muitas drogas, como é o caso da menina Christiane Felscherinow, imortalizada no filme Christiane F. (e não por acaso, uma grande fã de Bowie).

Foi lá que Bowie, com a ajuda do produtor Brian Eno, e com a companhia (conjugal?) de Iggy Pop, começou a se remodelar, e fazer a limpeza de suas veias e sangue, tornando-se o que ele veio posteriormente a chamar de “Careta Consciente”. No início de 1977, abalou as estruturas dos fãs e das casas que adoravam Ziggy Stardust ou The Thin White Duck com o álbum Low, um dos melhores discos de todos os tempos, influenciado pelo krautrock e apresentando canções eletrônicas, densas, tristes, quase que em sua maioria instrumentais. Era o início da fase Berlin!

O lado B inteiro de Low é praticamente destruidor da imagem do Bowie bissexual que o mundo conhecera até então. “Warszawa”, “Art Decade”, “Weeping Wall” e “Subterraneans” machucam aqueles que pretendem ouvir apenas um disco de rock e sair dançando, principalmente pela sua complexidade quase progressivo, e demoraram a cair no gosto da imprensa, que dividiu-se em elogios e críticas pesadas.

Os fãs receberam o álbum com extrema adoração, carregando as canções do lado A (destacando “Be My Wife” e “Sound And Vision”) nos ombros, e fazendo das mesmas novos clássicos ao lado de “Young Americans”, “Space Oddity” ou “Starman”, colocando Low imediatamente na segunda posição em vendas no Reino Unido. Mais uma vez, Bowie abria espaço para novos sons, e mudava de armadura. Mas a limpeza que ele havia projetado apenas havia começado.

Semanas após o lançamento de Low, Bowie surge com um super-grupo, formado por Robert Fripp (guitarras), Brian Eno (teclados, sintetizadores, guitarras), George Murray (baixo), Dennis Davis (bateria) e Carlos Alomar (guitarras), e com ele, entra nos estúdios da RCA para, adaptar as linhas melancólicas de Low para algo um pouco mais alegre, ao mesmo tempo que arrepiava pela profunda agonia exalada nas suas linhas vocais. No dia 14 de outubro de 1977, chegava às lojas “Heroes“.

Assim como Low, o álbum apresenta dois lados bastante distintos. O lado A abre com “Beauty and the Beast”, tendo a voz de Bowie carregada de efeitos, e em um embalo suingado que mistura o ritmo da fase soul com música eletrônica, destacando o solo de sintetizador feito por Eno, seguida por “Joe The Lion”, um tributo ao artista Chris Burden, famoso por crucificar-se em um fusca no ano de 1974, e que Bowie canta sofreguidão, além do riff melódico de Fripp grudando na cabeça.

Chegamos na faixa-título, seis minutos e sete segundos de genialidade pura, exalada dos poros de David Bowie, Brian Eno e Robert Fripp. Criada em homenagem ao grupo de krautrock Neu!, que gravou uma canção chamada “Hero”, temos no seu riff inconfundível, o qual vaga até os dias de hoje como um dos mais importantes da história do rock, a eternização de mais um clássico para a já premiada carreira de Bowie, além de uma letra de forte apelo emocional. Não a toa, essa canção recebeu versões em alemão e em francês, e virou  figurinha carimbada nos shows do camaleão a partir de então. Somente “”Heroes”” já basta para deixar o álbum que leva seu nome no hall de imortal, mas ainda vem mais.

O saxofone na introdução de “Sons of Silent Age” foge de qualquer comparação com as canções de Low, parecendo ter saído de Diamond Dogs, ainda mais pelos teclados viajantes de Eno, em uma belíssima canção que foi resgatada por Bowie na turnê The Glass Spider, durante a década de 80, com um fantástico cerimonial de danças apresentado no palco.O lado A é concluído com a sensacional (e esquecida) “Blackout”, tendo a guitarra sintetizada de Fripp e o mesmo embalo de “Joe The Lion”, porém com o baixão trovejante dando muito mais swingue, sendo impossível permanecer parado durante a audição dessa pérola na carreira de Bowie.

Já o lado B retorna aos instrumentais de Low, porém mais alegre. “V-2 Schneider” apresenta um andamento grudento dos sintetizadores, baixo e bateria, destacando Bowie no saxofone e vocalizações muito bonitas que cantam o nome da canção, além da guitarra de Fripp carregada de distorção ao final, trazendo “Sense of Doubt”, somente com Bowie no sintetizador, e que é uma obra-prima da continuação do lado B de Low, com as suas assustadoras quatro notas, antecipando as variações de acordes do instrumento, que é explorado por Bowie como um adolescente que está descobrindo sua sexualidade.

A linda “Moss Garden” surge com as notas orientais do Koto, também tocado por Bowie, entre mudanças de acordes do sintetizador, levando essa agonia para “Neuköln”, um duelo agonizante entre os solos de saxofone com os sintetizadores de Bowie com as distorções de Fripp, que reproduzem sempre as mesmas notas entre camadas de sintetizadores.

Heroes” encerra-se com a dançante “The Secret Life of Arabia”, a mais animada deste lado, e a única com uma letra, que levanta a moral do ouvinte após a viagem instrumental ouvida nas quatro canções anteriores, antecipando a sonoridade que Bowie iria a seguir no álbum seguinte, o também fundamental Lodger, que encerrou a trilogia Berlin em 1979.

Poderia falar sobre os singles, a turnê, o quanto vendeu, mas prefiro encerrar por aqui. “Heroes” é um disco auto-explicativo, e não precisa ser dito mais do que uma simples palavra: ESSENCIAL!Obrigado Bowie, Eno e Fripp, gênios da música em geral, por terem parido mais esse grande trabalho em vossas carreiras.

Três gênios reunidos: Robert Fripp, David Bowie e Brian Eno

Track list

  1. Beauty and the Beast
  2. Joe The Lion
  3. “Heroes”
  4. Sons of Silent Age
  5. Blackout
  6. V-2 Schneider
  7. Sense of Doubt
  8. Moss Garden
  9. Neukoln
  10. The Secret Life of Arabia

 

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