Maravilhas do Mundo Prog: King Crimson – Lark’s Tongues in Aspic (Part I & II) [1973]

Maravilhas do Mundo Prog: King Crimson – Lark’s Tongues in Aspic (Part I & II) [1973]

Por Mairon Machado

O Maravilhas do Mundo Prog essa semana avança dois anos na carreira do King Crimson, e chega no seu quinto álbum de estúdio, talvez o melhor deles, Lark’s Tongues in Aspic. Lançado no dia 23 de março de 1973, esse álbum é uma incrível amostra de como um grupo, com cinco diferentes formações em cinco LPs, conseguiu manter uma incrível qualidade em todos os seus álbuns, agregando diferentes músicos e talentos com a finalidade exclusiva de fazer música de alto nível.

Dois anos antes, o grupo havia lançado o lindo Islands, talvez o mais belo álbum da carreira do grupo, detentor da Maravilhosa faixa-título, e no ano seguinte, com uma formação estável tendo Robert Fripp (guitarra, mellotron), Boz Burrell (baixo, vocais), Mel Collins (safonone, flautas, mellotron) e Ian Wallace (bateria), o primeiro álbum ao vivo, Earthbound.

tumblr_mnw1l1X4Bj1roxfcuo1_500
Robert Fripp, Peter Sinfield, Mel Collins, Boz Burrell e Ian Wallace; a formação que gravou Islands

Porém, como tudo na vida de Mr. Fripp não era um mar de rosas, o inesperado aconteceu. Fripp despediu aquele que havia sido seu principal colega, o letrista Peter Sinfield, alegando divergências musicais. Sinfield acabou unindo-se ao Emerson Lake & Palmer, escrevendo as letras para o fantástico álbum Brain Salad Surgery, enquanto mais mudanças ocorreram na formação do Rei Escarlate.

Para piorar, uma briga interna ocorreu durante a turnê de divulgação de Islands (registrada no citado Earthbound), já que Fripp recusava-se a ensaiar canções que não fossem de sua autoria. A turnê progrediu devido as causas contratuais que exigiam o lançamento de um mais um LP, mas logo depois, o trio Burrell, Wallace e Collins decidiu não mais seguir com Fripp. Porém, o guitarrista tinha mais uma carta na manga. Tratava-se de um novo direcionamento musical para seu grupo, e assim, novos membros precisariam ser agregados. Apesar disso, o relacionamento de Fripp com o trio Collins, Wallace e Burrell (principalmente) nunca mais foi o mesmo.

tumblr_mil4djEX0R1r6ffrko1_500
Robert Fripp, Jamie Muir, David Cross e Bill Bruford (sentado)

 

O primeiro passo na reformulação foi a retirada dos instrumentos de sopro. Agora, a bola da vez seria a percussão e ritmos descompassados. Indo direto ao seu objetivo maior, Fripp convenceu o percussionista Jamie Muir a fazer parte do novo projeto. Muir havia trabalhado antes com o grupo Sunship and Derek Bailey, além de ter participado de diversos álbuns como músico de estúdio, e convenceu Fripp de que para melhorar seu projeto, o baterista Bill Bruford deveria fazer parte do mesmo.

Bruford estava vivendo o auge da sua carreira. Liderando as baquetas do Yes, o baterista havia acabado de gravar Close to the Edge, e durante a turnê de promoção do mesmo, foi persuadido por Fripp pouco depois de uma apresentação do grupo. Muitos não entenderam como Bruford teve a coragem de sair de um grupo que estava vendendo como água, lotando shows como nunca antes na história do rock progressivo, para fazer parte de uma barca afundada como o Crimson. A resposta veio anos depois pelo próprio Bruford, que sentiu, nas palavras de Fripp, a capacidade de ter liberdade para inovar com sons diferentes, além de aplicar novos ritmos e improvisações que não cabiam no perfeccionismo do Yes (além de o estilo vegetariano que Jon Anderson e cia. viviam na época ser totalmente o avesso do estilo de vida de Bruford).

tumblr_mhkyak4Ozg1rp9gluo1_500
Jamie Muir, Robert Fripp. David Cross e Bill Bruford, em um dos primeiros ensaios da nova formação do King Crimson

Por fim, o andarilho John Wetton, que havia saído do Family, e tinha gravado no álbum solo do ex-vocalista do Crimson Gordon Haskell, It Is and It Isn’t (1971), foi chamado para fazer as linhas de baixo e os vocais, enquanto o desconhecido violinista (e eventual tecladista) David Cross surgia do nada para completar a terceira e mais importante formação do King Crimson, que foi complementada com um novo letrista, Richard Palmer-James (guitarrista que havia fundado o Supertramp).

Os ensaios para o novo álbum começaram no inverno de 1972, marcados por longas improvisações e por um ser iluminado que se sobressaía sobre os demais, a figura de Jamir Muir. O homem simplesmente assombrava, e incrementava a parte percussiva com instrumentos bizarros, como panelas, cornetas de bicicleta, carrilhões, chocalhos, abanadores ou qualquer outro objeto que reproduzisse um som através de batidas. Além disso, sua performance durante os ensaios (e que veio a se repetir nos palcos) era endiabrada, saltando no meio do seu kit como um doido, batendo em vários objetos ao mesmo tempo e gerando uma barulheira muito estranha.

tumblr_lpfl2yNAGg1r0dj31o1_500
Jamie Muir, Bill Bruford, Robert Fripp, David Cross e John Wetton

Pouco a pouco, o novo King Crimson começou a aparecer em shows e a chamar a atenção da mídia especializada. Nada de instrumentos de sopro, passagens de piano ou melodias trabalhadas. O que se via e ouvia eram performances selvagens, com o peso comendo solto e uma guerra de egos jamais vista em cima dos palcos, cada um tentando superar o outro em termos de barulho, apesar de ficarem quase estáticos (com exceção de Muir, que perambulava batendo por tudo, seja no seu próprio kit, seja no kit de Bruford ou até mesmo no microfone de Wetton).

Assim, começaram as gravações do quinto álbum do grupo, mas pouco antes do lançamento do mesmo, quando já estava o álbum concluído e mixado, quando tudo parecia que Fripp poderia tranquilamente dizer: “Agora vai!”, Muir anunciou que estava saindo do grupo. Influenciado pelas palavras de Paramahansa Yogananda (as quais Muir apresentou para Jon Anderson, que inspirou-se nas mesmas para cômpor o essencial Tales from Topographic Oceans, lançado pelo Yes no mesmo ano), Muir foi viver a vida como um monge budista, vivendo durante um bom tempo em um mosteiro na Escócia, saindo posteriormente, nos anos 80, para participar de raras gravações e dedicando-se a pintura.

A saída de Muir atrapalhou temporariamente a vida do Crimson, mas, como o álbum já havia sido gravado, era hora de lançá-lo. Lark’s Tongues in Aspic é um caso raro de como a insanidade musical pode soar Maravilhosa. São apenas seis faixas, três instrumentais e três com vocais. Na parte vocal, Wetton exibe-se com graciosidade na linda pela jazzística “Book of Saturday”, acompanhado apenas pela guitarra de Fripp, solta a garganta na pesada (e complicada) “Easy Money” e simplesmente estraçalha na arrepiante “Exiles”, rememorando os tempos dos dois primeiros álbuns do grupo e cuja introdução é um verdadeiro teste de sanidade mental para o ouvinte.

R-1634869-1261246376
As letras no encarte de Lark’s Tongues in Aspic

A parte instrumental revela o talento de Muir ao lado de Bruford no duelo “The Talking Drum”, que apesar de não fazer a bateria falar, liquida com qualquer pretensão que o nome possa sugerir, com Cross e Fripp mostrando em estúdio toda a violência egocêntrica que aparecia nos palcos, e Wetton pisoteando o wah-wah, extraindo sons enigmáticos de seu baixo.

Mas são nas duas partes da faixa-título, também instrumentais, que curiosamente abrem e encerram o LP, que estão os minutos capazes de serem chamados de Maravilhosos. Não que as demais canções de Lark’s Tongues in Aspic não sejam capazes de merecer esse título, só que “Lark’s Tongues in Aspic (Part One)” e “Lark’s Tongues in Aspic (Part Two)” são tao cavalares que ainda hoje, as estruturas dos recintos nos quais ela é tocada permanecem balançando.

A canção surge com os barulhos percussivos, repetindo um tema por diversas vezes entre diversos barulhos indecifráveis, com o volume praticamente inaudível, que vai aumentando a medida que uma marcação no prato surge, a la Soft Machine de Third. Os pratos ficam sozinhos, fazendo um barulho ensurdecedor, e dele, surge o violino de Cross e a guitarra estridente de Fripp.

O violino faz acordes que são uma espécie de marcação, muito tensa, enquanto mais barulhos percussivos preenchem o vazio da canção junto com a delirante guitarra, explodindo no pesadíssimo riff central com uma violência demolidora, na qual a guitarra uiva como uma gata no cio. A marcação do violino retorna, seguida por mais barulhos percussivos, e Wetton fazendo notas pesadas, com o baixo carregado de distorçãoe wah-wah. O riff pesado retorna, com a guitarra dando mais uivos, e então, Fripp começa a saltitar seus dedos em uma escala impossível de ser reproduzida, enquanto ao fundo, o Crimson abusa dos barulhos percussivos através de Muir e Bruford, destacando também uma performance muito interessante de Wetton.

Quando a sanidade retorna para as caixas de som, surge uma sequência de escalas e marcações, com Wetton solando utilizando-se de muita distorção e wah-wah, enquanto Bruford e Muir demolem ao fundo. Fãs de Cliff Burton, entendam, de onde o baixista do Metallica tirou suas inspirações para fazer petardos como a introdução de “For Whom the Bell Tolls” e “Anesthesia (Pulling Teeths)”. O barulho cresce absurdamente, como um ritmo perverso e cheio de quintas intenções, até que repentinamente, o silêncio quebra tudo.

Lá no fundo, uma tímida e angustiante marcação de guitarra acompanha notas de violino, jogadas ao vento por Cross sem sentido algum. O violino fica sozinho, solando notas lentas e preguiçosas, predominando as sobre um silêncio paradisíaco. Barulhos de guitarra aparecem novamente, enquanto o violino faz um bonito solo, com poucas notas, mas muito emocionante. Mais barulhos de guitarra, com um pouco de percussão, e Cross passa a usar escalas orientais em seu instrumento, em um trecho belíssimo, com inclusão do koto (instrumental oriental) acompanhando as notas do violino.

Alguns segundos para respirar e o violino volta, agora de forma agressiva, solando sobre vozes e uma marcação tensa, estourando em uma pancada no prato de Bruford, para Wetton fazer um tema no baixo, utilizando o pedal de wah-wah, enquanto Fripp dedilha sua guitarra e Cross desliza o arco no seu violino, concluindo a primeira parte com barulhos de sinos.

article_87
John Wetton, David Cross, Robert Fripp e Bill Bruford

A segunda parte vem depois de “The Talking Drum”, começando com uma barulheira infernal, trazendo a guitarra pesadíssima de Fripp, com Wetton e Bruford fazendo as mesmas batidas que o guitarrista executa em seu instrumento, repetindo as escalas e trazendo novamente o clima de apreensão.

Rapidamente, chegamos no riff central, o qual fica repetindo infinitamente duas notas entre o violino e a guitarra, enquanto baixo e bateria fazem a marcação. O riff é repetido por duas estrofes. A marcação de Fripp retorna, e Wetton e Bruford fazem um pequeno duelo, retornando ao riff central, agora com mais barulhos percussivos.

Fripp esbanja distorção em mais um riff, seguido por baixo e bateria através de uma marcação complicada, com Cross delirando no violino, quase arrancando as cordas do instrumento com o arco, e assim, retornamos ao riff central, com um espetáculo a parte feito pela percussão de Jamie Muir, encerrando nossa Maravilha com uma imponente sequência de batidas nos pratos, bumbos, cordas da guitarra e o baixo sendo estraçalhado, enquanto Burford faz viradas rápidas em seu kit.

king-crimson
John Wetton, David Cross, Bill Bruford e Robert Fripp

Anos depois, no álbum Three of a Perfect Pair (1984), “Lark’s Tongues in Aspic” recebeu sua terceira versão, e dezesseis anos depois, em The ConstrucKtion of Light, tivemos a quarta e última parte dessa Maravilhosa peça musical, porém sem os mesmos valores progressivos que destacaram a canção na década de 70. Depois de Lark’s Tongues in Aspic, o grupo seguiu como um quarteto, e sofrendo uma crise de identidade, lançou o disco mais fraco da primeira fase do grupo, Starless and Bible Black (1974), o qual contém bons momentos, como “The Great Deceiver”, “Fracture” e “The Night Watch” mas nada digno de fazer parte dessa seção.

Cross não aguentou a pressão interna (e principalmente o ego de Fripp) e saiu do grupo, e assim, somente como um trio, o King Crimson lançou seu sétimo disco, e com uma sétima formação diferente. Wetton, Bruford e Fripp poderiam fazer mais uma Maravilha prog? A resposta é sim, como veremos daqui um mês, fechando essa sequência Crimsoniana através de “Red”.

Um comentário em “Maravilhas do Mundo Prog: King Crimson – Lark’s Tongues in Aspic (Part I & II) [1973]

  1. Acho que “Starless and Bible Black” é o mais fraco da trilogia Fripp-Bruford-Wetton (e Cross e Muir), mas não sei se seria o mais fraco da primeira fase da banda… Verdade é que esse “Larks Tongues in Aspic” e “Red” são absurdamente bons, e o “Starless…” acaba sofrendo na comparação. De todo modo, sobre o objeto dessa seção, as duas partes de “Larks…”, trata-se de um exercício fantástico de musicalidade, com os cinco envolvidos dando mais do que o melhor deles, montando músicas difíceis de descrever e ótimas de se escutar com fone de ouvido e fantásticas na sequência (mais de vinte minutos de pura criatividade). O detalhe bizarro para mim é aquela foto em que o Jamie Muir aparece com uma serra na mão; na box set “Frame by Frame” ele está tentando “tocar” a serra com um arco de violino, provavelmente surripiado do David Cross.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.