Discografias Comentadas: Anekdoten

3 de julho, 2011 | por micaelmachado
Discografias Comentadas
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Jan Erik, Niklas, Anna Sofi e Peter
Por Micael Machado
As origens do Anekdoten remetem a 1990, quando três garotos suecos decidiram se juntar e montar uma banda de covers, tocando principalmente músicas do King Crimson. Chamada de “King Edward”, o grupo tinha Nicklas Berg nas guitarras e mellotron, Jan Erik Liljeström no baixo e na voz, e Peter Nordin na bateria e percussão. Com a chegada, em agosto de 1991, da bela Anna Sofi Dahlberg, para tocar mellotron e violoncelo, o grupo intensificou a composição de músicas próprias, e esta mudança “pediu” um novo nome para o quarteto, sendo escolhido então “Anekdoten” (“anedota”, em sueco).
Com o lançamento do primeiro disco, em 1993, o grupo tornou-se um dos principais nomes do rock progressivo do final do século XX, mantendo o status com os discos posteriores. Conheça agora a nada hilária, porém excelente, obra desta pouco conhecida anedota.
Vemod [1993]
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Vemod (‘melancolia’ em sueco) é uma obra prima. Para mim, é o melhor disco de progressivo lançado nos últimos vinte e oito anos (ou seja, desde Script for a Jester’s Tear, do Marillion). A sonoridade do grupo em sua estreia é totalmente baseada na “trilogia elétrica” do King Crimson (que compreende os discos Lark’s Tongues in Aspic, Starless and Bible Black e Red), porém sem soar como uma mera cópia destes, podendo ser considerado como se fosse a sequência não gravada de Red. “Karelia”, “The Old Man & The Sea” e “Where Solitude Remains”, a trinca que abre o disco, já serviriam para elevá-lo ao patamar de clássico, mas ainda há mais. Se “Thoughts In Absence” soa como uma prima-irmã de “Book Of Saturday” (do Rei Escarlate), “The Flow” flerta com o “Rock In opposition”, estillo do qual o King Crimson nunca se aproximou, mas que também rendeu belos frutos ao progressivo mundial. A única canção que foge do “contexto” é a última, “Wheel”, que parece uma sobra de estúdio de “Lizard” ou de “Island”, discos da fase anterior da maior influência do Anekdoten, o que não é nenhum problema. Se há algo a se reclamar (além da curta duração, pouco menos de 47 minutos), é do vocal de Jan Erik, com um forte sotaque que denuncia que o inglês não é a língua mãe do quarteto. Mas isso é apenas um detalhe menor em um álbum obrigatório a qualquer fã de rock progressivo, seja de qual vertente for.
Nucleus [1995]

Neste segundo disco, temos como diferencial a estreia de Nicklas Berg nos vocais (com o sobrenome curiosamente grafado como Barker no encarte), dividindo o posto com Jan Erik na pesada faixa-título, ou assumindo de vez o vocal principal, como em “Harvest
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Outra mudança que chama a atenção é a reduzida presença do violoncelo de Anna Sofi, que só aparece na melancólica “Here”, na esquizofrênica “This Far from the Sky” e na calma “In Freedom”, que traz novamente Jan Erik e Anna dividindo os vocais, assim como “Wheel”, do disco anterior. Já a instrumental “Rubankh” mistura com maestria o lado “King Crimson” com a faceta mais melódica do som Anekdoten. Nucleus não traz uma grande mudança no estilo da banda, mas mesmo assim percebe-se um afastamento daquela sensação de “cópia do King Crimson” que Vemod transmite, com o grupo procurando um som próprio, distinto daquele executado por sua maior influência. Ainda não foi desta vez, mas nem por isso o quarteto deixou de acertar no alvo mais uma vez.
From Within [1999]

O terceiro registro de estúdio (lançado após um EP ao vivo, originalmente intitulado Live EP, de 1997) é um disco com um tom mais melancólico que os anteriores, afastando de vez a sombra do King Crimson do som da banda. A guitarra de Niklas não se destaca tanto, perdendo espaço para o mellotron, que domina a maioria das composições e causa uma sensação mais de tristeza do que de euforia à sonoridade geral, como comprovam a faixa-título, “Groundbound” e a instrumental “The Sun Absolute”. “Kiss of Life” e “Slow Fire” são um pouco mais agitadas, mas ainda mantém o clima “depressivo” do álbum, que se encerra com a balada acústica “For Someone” (com Niklas ao violão). Particularmente, considero este o disco mais fraco do Anekdoten, mas mesmo assim, é melhor que muita coisa lançada sob o rótulo de progressivo até aqui neste século XXI.
Gravity [2003]

Foi com este disco que os suecos finalmente encontraram uma sonoridade característica. A melancolia que dominava o registro anterior foi mesclada com melodias fortes e empolgantes, muitas vezes levadas pelo violão ao lado do mellotron, deixando a guitarra quase totalmente em segundo plano. A faixa-título e as duas músicas iniciais, “Monolith” e “Ricochet“, já servem para indicar este como o legítimo sucessor de Vemod na discografia do quarteto, no que se refere à qualidade. A balada acústica “The War Is Over” rendeu o primeiro videoclipe oficial do Anekdoten, e tem o mesmo clima de “The Games We Play”, com o violão e os teclados tomando conta da melodia. “What Should But did not Die” tem um clima claustrofóbico, em contraponto com a quase alegria da instrumental “Seljak”, que encerra os trabalhos. Um grande álbum, que indicou um novo caminho para a sonoridade do grupo, sem se afastar de seu estilo original, mas alcançando finamente o “som próprio” tão procurado por tantas outras formações do rock mundial.

A Time of Day [2007]

Seguindo a fórmula de Gravity, com muitos violões ao invés de muralhas de guitarras e o mellotron como destaque nas composições, o Anekdoten mantém o estilo que encontrou naquele álbum, embora sem o mesmo brilho. A abertura com “The Great Unknown” é o melhor momento do álbum, seguida de perto pela faixa seguinte, “30 Pieces“, e pela agitada “In for a Ride“, levada em um ritmo contagiante pelo mellotron. “A Sky About to Rain” é uma bela balada, complementada pela instrumental “Every Step I Take”, que funciona como uma espécie de coda para a faixa anterior. “Stardust and Sand” e “Prince of the Ocean” são mais lentas, e “King Oblivion” mais uma vez apresenta um clima sufocante, como em vários momentos da discografia dos suecos. Um álbum não tão bom quanto o anterior, mas ainda assim acima da média.

Chapters [2009]

Bela coletânea dupla, que funciona como uma excelente porta de entrada ao universo do grupo (depois de Vemod, claro). No primeiro CD, músicas de Gravity e A Time of Day, além da faixa-título de From Within e da inédita “When I Turn“, balada levada pelo piano (tocado por Per Wiberg, do Spiritual Beggars e do Opeth, que também participa do disco de estreia do grupo), com um belo trabalho de mellotron, executado por Nicklas. No segundo CD, versões alternativas ou retiradas de demos para músicas dos três primeiros discos e de A Time of Day, com destaque para “Sad Rain”, pela primeira vez lançada oficialmente fora do Japão (em uma versão diferente da que saiu como bônus em Vemod naquele país). Uma pena não terem incluído a cover de “Lament”, do King Crimson, presente no bootleg Jurassic Demos, e as ausências de “Mars” e “Muscle Beach Benediction”, presentes na coletânea Progfest 94, e da cover de “Cirkus” (também do King Crimson) registrada na rara compilação This is an Orange, canções muito procuradas pelos fãs do grupo devido à dificuldade de se encontrar estes discos no mercado.

Jan Erik, Anna, Niklas e Peter

O catálogo do Anekdoten ainda conta com os registros ao vivo Official Bootleg: Live in Japan, de 1995, e Waking the Dead – Live in Japan, de 2005, que inclusive contam com músicas inéditas nos álbuns de estúdio. Belos complementos à discografia desta que é uma das principais (e melhores) bandas do rock progressivo atualmente.



11 Comentarios

  1. Christiano disse:

    Sou um grande fã do Anekdoten e fiquei feliz por ver essa ótima matéria aqui. Parabéns pelo excelente trabalho.

  2. micaelmachado disse:

    Obrigado, Christino. Comentários como o seu são a força que nos faz seguir em frente, escrevendo e trocando experiências sobre esta nossa paixão em comum, a música!

  3. Tenho o Vemod em CD e acho um belíssimo disco, mas tb já ouvi um pouco o From Within, que gosto menos.
    Micael, concordo que o Vemod parece uma 'continuação' do Red, apesar da cara própria do som do Anekdoten. Mas preciso discordar de duas coisas: primeiro, "Wheels" não me parece influenciada pela fase anterior do KC, eu percebo uma forte semelhança entre a sonoridade dela e de "Fallen Angel" e "Starless", do Red; o vocal do Jan Erik denuncia, sim, a origem sueca do grupo, mas isso é UMA QUALIDADE, não um defeito! Não gosto do vocal do Jan Erik pq ele é muito contido, apenas isto. Poxa, quando ele canta, em "The Old Man and the Sea", "In presumption, I with my foolish pride, I challenged the storm, I CHALLENGED THE STOOOOOOORM"! Caralho, uma das melhores passagens vocais do progressivo EVER!!! xP
    Meus destaques nesse disco seriam "Karelia", "The Old Man and the Sea" e "Wheels". Preciso ouvir o restante da discografia. Parabéns pelo ótimo texto!

  4. Perdão, o nome da faixa é "Wheel" e não "Wheels". Tenho ouvido muito Flying Burrito Brothers! hahaha

  5. micaelmachado disse:

    É o que dá escrever para quem conhece o assunto ler… Vem o Groucho e escancara opiniões diferentes da nossa… mas o legal é isso mesmo, gerar o debate!

    O que me faz dizer que "Wheel" parece a fase anterior do KC é aquela corneta mais pro final… aquilo parece um sampler do "Lizard", e não tem nada como aquilo no "Red", não que eu lembre…

    E eu não falei que não gosto do vocal do Jan Erik. Mas já mostrei Anekdoten para várias pessoas que reclamaram do sotaque dele. Para mim nunca foi problema, mas tem quem não goste… a própria banda colocou o Niklas para cantar mais coisas do segundo disco em diante… algum motivo tem..

    Agora, repito e faço minhas as seguintes palavras: "Poxa, quando ele canta, em "The Old Man and the Sea", "In presumption, I with my foolish pride, I challenged the storm, I CHALLENGED THE STOOOOOOORM"! Caralho, uma das melhores passagens vocais do progressivo EVER!!" COISA LINDA DEMAIS! QUE SONZAÇO!

  6. Muito boa, né?! Que mané 'conhece o assunto', haha. Mas tem sim umas cornetas lá pelo meio de "Fallen Angel". Agora, é bem verdade que eu considero "Fallen Angel" uma seqüência mais "melosa" pra "Cirkus" do Lizard, por vários motivos, entre eles, aquela paradinha antes do segundo refrão, que lembra a paradinha antes de uma das vezes em que entra o tema do mellotron em "Cirkus". Enfim. Chega de falar de KC! haha
    Depois do Vemod, o Anekdoten parece que foi ficando mais parecido com as bandas atuais de prog, e isso não me agrada. Acho que o disco que mais me agrada do prog recente é o Kid A, do Radiohead, só pra terem uma idéia..

  7. Fábio RT disse:

    Boa banda…
    Não conhecia…
    Muito obrigado

  8. diogobizotto disse:

    Lembro bem de quando ouvi o Anekdoten pela primeira vez. Estava discutindo a respeito de algumas bandas de rock progressivo com um conhecido, em especial sobre o King Crimson. Fui questionado se conhecia o Anekdoten, ao que respondi negativamente. O cara colocou "Vemod" para tocar e fiquei de queixo caído. Apesar da clara semelhança com a fase Wetton/Bruford/Cross do King Crimson, gostei muito do que ouvi, e posteriormente procurei conhecer mais a respeito dos suecos. O sotaque não chega a ser um problema, mas também não é um ponto forte. Mas tudo bem, não é toda hora que surgem caras como Greg Lake e Justin Hayward…

  9. É vergonhoso isso, mas eu parei no Vemod e nunca mais me animei a ouvir a banda. Gostei do que ouvi, mas a sonoridade moderna ainda me afasta de pegar o resto. Quem sabe, um dia, eu aprecie isso que o Micael fez com talento aqui para nós!

  10. LUIZ HENRIQUE disse:

    Nucleus é um dos melhores albuns q escutei na vida. ele é único. pena que a banda não apostou nessa sonoridade mais complicada e introspectiva, apostando em algo mais acessivel.

    • maironmachado disse:

      Obrigado Luiz Henrique, pelo comentário. Eu particularmente acho que todos os álbuns são muito bons. Abraços

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