Renaissance – Uma Sinfonia Progressiva (Parte III)

29 de julho, 2015 | por joseleonardo
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Por Jose Leonardo Aronna

Encerramos hoje nossa sinfonia progressiva narrando a história do Renaissance, um dos maiores nomes  do rock progressivo britânico.

Final dos anos 70: crepúsculo

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Azure D’or, um trabalho mais acessível para o mercado do final da década de 80

Corria o fatídico ano de 1978. A cena punk inglesa, apesar do alarde de ter vindo para desbancar a onda progressiva, mostrou pouco fôlego quando foi absorvida pelo mercado. Acabou gerando no início dos anos 80 o movimento new wave. O que acabou abalando o interesse pelo rock progressivo nos dois lados do atlântico foi a disco music, pois as gravadoras passaram a jogar todas as fichas de divulgação no emergente estilo dançante, que prometia ganhos astronômicos, justamente por ser música de fácil assimilação e vida curta. O efeito disso no rock progressivo foram devastadores. O importante é entender o momento histórico por que atravessava o Renaissance quando realizou Azure D’Or, lançado em 1979.

Era preciso fazer algo de acordo com a realidade do mercado que estava virando as costas para as antigas bandas. A saída seria realizar um trabalho mais acessível, mas sem abandonar os antigos ideais. Analisando hoje, vemos que Azure D’Or é um bom disco, que cumpriu magistralmente sua proposta. O problema é que, na época, nada do que fosse feito fora da onda disco, dava certo. Como eles ficaram em cima do muro, acabou acontecendo o que se previa: não atraiam novos fãs e decepcionaram, em parte, alguns antigos. Acima de tudo, a fórmula deste disco mostra uma honrosa saída para o que poderíamos chamar de progressivo popular.

Com relação ao álbum podemos destacar os seguintes fatos:

– Não se utiliza orquestra, abrindo espaço para que John Tout se estabeleça como o grande músico do Renaissance

– Jon Camp é o responsável por várias composições, incluindo a surpreendente instrumental “The Discovery” e a bela “Kalinda”

– O baterista Terence Sullivan divide uma composição com Thatcher, “Forever Changing”

– Pela primeira vez a banda lista os instrumentos utilizados, destacando-se os teclados de Tout e as guitarras de Dunford.

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John Tout e Michael Dunford (acima); Jon Camp, Annie Haslam e Terry Sullivan (abaixo)

A pouca repercussão de Azure D’Or detonou uma série de acontecimentos que comentaremos mais tarde. Por enquanto retrocedemos um pouco e vamos dar uma olhada na trajetória dos membros originais.

Em busca de um caminho

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O único e excelente disco do Armaggedon

Durante os anos 70, os membros originais do Renaissance continuaram trabalhando com música. Jim McCarty realizou um disco solo, John Hawken foi para o Spooky Tooth e esteve também com o Vinegar Joe. Louis Cenammo se envolveu com o Colosseum e com o Steamhammer, antes de formar o ótimo Armageddon com Keith Relf. Jane Relf colaborou com outros artistas e cantou em comerciais de TV. A ideia de retornar o trabalho interrompido em 1970 foi de Keith (em 1975), após a realização do único disco do Armaggedon. Ele e Louis estavam juntos e resolveram falar com McCarty e Hawken, uma vez que Jane estava interessada em participar.

John Hawken, Jane Relf, Jim McCarty, Louis Cennamo, John Knightsbridge e Eddie McNeil

John Hawken, Jane Relf, Jim McCarty, Louis Cennamo, John Knightsbridge e Eddie McNeil

Todos acharam a ideia ótima e começaram a ensaiar, até que um fato trágico aconteceu em maio de 1976. Keith Relf faleceu vítima de um choque elétrico quando estava tocando guitarra em sua casa. Com isso, os membros remanescentes, profundamente consternados desistiram do retorno. Mas os meses se passaram e após suplantarem a fase mais difícil, resolveram seguir adiante o projeto. Para isso McCarty abandonou a bateria ficando mais livre para dividir os vocais com Jane. São convidados John Knightsbridge para a guitarra e Eddie McNeil para a bateria. Após algum tempo, resolvem batizar o grupo de Illusion em alusão ao segundo disco da banda, já que não podiam usar o nome Renaissance.

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O retorno da formação original, agora sob o nome de Illusion

O disco de retorno saiu em 1977 e teve o nome de Out Of The Mist. Na capa, uma bela e misteriosa foto de Jane. Belas composições retomam o ponto em que haviam parado. Após o lançamento deste trabalho, o Illusion sai em tour pela Europa. O disco estava tendo boa aceitação nos EUA e era ideia da banda tomar o mesmo caminho do Renaissance segunda fase: se mudar para lá. Para isso precisavam gravar rapidamente um segundo disco. Foi realizado então, a toque de caixa, o disco Illusion, lançado em 1978. As sete músicas registradas, embora não sejam obras-primas, mostram que a banda tinha fôlego para encarar de cabeça erguida, as tendências pop que começavam a infestar o mundo progressivo como meio de sobrevivência. As leis de mercado já haviam se modificado e a sorte do progressivo, enquanto produto de consumo, já estava selada.

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A linda capa do segundo e derradeiro disco do Illusion

A gravadora Island achou que seria perda de tempo e dinheiro lançar o segundo trabalho nos Estados Unidos. Com isso os planos da banda foram por água a baixo e eles rescindiram o contrato. Chegaram a produzir algumas músicas para apresentar a outras gravadoras, mas nada aconteceu e eles encerraram as atividades. Essas últimas canções posteriormente seriam editadas em disco chamado Enchanted Caress. Cada um seguiu o seu caminho, mas se reuniram nos anos 80 no grupo Stairway, que lançou o álbum Moonstone em 1988. E em 2001 McCarty, Cennamo, Hawken e Jane Relf, mais músicos convidados, lançaram o álbum Through The Fire sob a alcunha de Renaissance Illusion!

De volta ao Renaissance: Anos 80 e 90

Com a pouca aceitação de Azure D’Or, mais uma vez o impasse estava criado. Quando as coisas não vão bem, certos problemas que estavam hibernando, despertam. Assim, as velhas incompatibilidades vêm à tona e provocam o que parecia óbvio: o fim da banda. O primeiro a sair foi John Tout, seguido de Terry Sullivan. Jon Camp entrou para o grupo de Roy Wood, o Helicopters. Os remanescentes Annie e Dunford formam o duo Nevada, que chega a realizar algumas gravações, editadas em single. Apesar desses acontecimentos, a chama do Renaissance ainda estava viva.

Os decepcionantes Camera Camera (esquerda) e Time Line (direita)

Os decepcionantes Camera Camera (esquerda) e Time Line (direita)

Em 1981 e 1983, após assinarem contrato para dois discos com a IRS, são editados os álbuns Camera Camera e Time Line, contando com Dunford, Camp e Haslam. Para os teclados é convidado Peter Gosling e, para a bateria, Peter Barron. O público progressivo não poderia esperar muito desses trabalhos. A banda tentava voltar às listas dos mais vendidos, mas sem se sair bem, pois não conseguia captar a idéia de música descartável. Os puristas ficavam indignados e a contrapartida não ocorria, pois as vendagens para o público pop não eram grandes. Mesmo assim, os shows lotavam, pois os fãs queriam ver a banda de qualquer jeito. Apesar de muito inferiores às antigas músicas, as novas canções tinham qualidade acima da média e soavam bem ao vivo, com arranjos mais complexos.

Contudo, isso não foi o suficiente para manter as atividades e em 1987, após alguns concertos esporádicos realizados a partir de 1984 e a saída de Jon Camp, o barco foi abandonado de vez. O último concerto foi realizado em 6 de junho de 1987 em New Jersey.

A chama que não se apaga!

The Other Woman, o retorno do Renaissance

The Other Woman, o retorno do Renaissance

Mas a lenda não estava morta. Os relançamentos, compilações de material inédito e ao vivo, e edições especiais vem aumentando a fama da banda. Em 1994, Dunford revive o nome com o lançamento do disco The Other Woman, com a cantora americana Stephanie Adlington. Também são lançados Ocean Gypsy e a coletânea Trip To The Fair. E após um longo hiato, em 2001, Annie Haslam, Michael Dunford, Terence Sullivan e John Tout, mais alguns músicos convidados, retornam com o Renaissance lançando o disco Tuscany, que é seguido pelo trabalho gravado ao vivo no Japão, chamado In The Land Of The Rising Sun.

Terry Sullivan gravou um disco chamado South of Winter com um grupo chamado Renaissant. Nesse trabalho temos a colaboração da poetisa Betty Thatcher e os teclados de John Tout. Em setembro de 2008, John Tout apareceu pela primeira vez em público, depois de mais de 25 anos, com Annie Haslam e a Jann Klose Band na Pennsylvania. O mesmo John Tout sofreu um ataque cardíaco, em 2009, e, felizmente, conseguiu se recuperar bem.

Ainda em 2009 Annie anunciou que ela e Michael Dunford estariam comemorando os 40 anos do Renaissance, com uma nova formação da banda e que voltariam a excursionar.  Também foi lançado um EP com três músicas chamado The Mystic And The Muse. Entre as excursões a banda grava material para um futuro disco, mas infelizmente em 20 de novembro de 2012 Michael Dunford morre em sua casa, vítima de hemorragia cerebral.

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O belo Grandine il Vento

Em abril de 2013 o novo álbum é lançado, Grandine il Vento, dedicado à memória de Michael Dunford. No ano seguinte o disco é relançado como Symphony of Light com três faixas bônus (a do EP mencionado acima). Nesse trabalho temos a participação de ilustres conhecidos do prog rock como John Wetton e Ian Anderson. Mesmo com a perda de Dunford, o grupo continua fazendo turnês pela Europa e Estados Unidos, mantendo viva a chama.

Infelizmente, no dia 1° de maio de 2015, John Tout falece vítima de insuficiência pulmonary no  Royal Free Hospital em Hampstead, Londres. Em sua página do Facebook, a banda prestou homenagem ao músico.

Annie Haslam: O símbolo de uma lenda

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A lenda Annie Haslam

É normal que em cada uma das grandes bandas de rock progressivo haja uma figura de destaque. No caso do Renaissance, apesar da clara liderança do Michael Dunford, foi a figura e a voz de Annie Haslam que se sobressaíram. Podemos ir mais longe e afirmar que ela é o grande arquétipo feminino do rock progressivo. Suave beleza, magnífico timbre, personalidade marcante. Não fosse sua existência, com certeza o rock progressivo seria mais pobre. Paralelo às atividades do Renaissance, a partir de 1975, ela começou a eventualmente colaborar com outros artistas.

Essas atuações acabaram por deflagrar a realização de seu primeiro álbum solo, na mesma época em que era lançado Novella. O disco foi batizado de Annie In Wonderland, e contem belas canções de características semelhantes aos trabalhos do grupo. A partir de 1984 Annie seguiria uma carreira solo de forma modesta, mas produtiva. Em 1993 ela teve um sério problema de saúde, pois foi diagnosticado câncer nos seios, mas felizmente depois de tratamentos com radio e quimioterapia, o problema foi sanado. Atualmente Annie reside na Pennsylvania, Estados Unidos.

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O disco solo de Annie Haslam

Renaissance – Discografia selecionada

Apresentamos aqui os principais álbuns relacionados ao grupo

– Renaissance – 1969

– Island/The Sea – 1969 (7”)

– Illusion – 1971

– Prologue – 1972

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– Ashes Are Burning – 1973

– Turns of The Cards – 1974

– Scheherazade And Other Stories – 1975

– Live At The Carnegie Hall – 1976 (live)

– Novella – 1977

– Back Home Once Again/The Captive Heart – 1977 (7’)

– A Song For All Seasons – 1978

– Northern Light/Opening Out – 1978 (7”)

– Azure d’Or – 1979

00046– The Winter Tree/Island Of Avalon – 1979 (7”)

– Jeckyll And Hyde/Forever Changing – 1979 (7”)

– Camera Camera – 1981

– Fairies/Remember – 1981 (7”)

– Bonjour Swansong/Ukraine Ways – 1981 (7”)

– Time Line – 1983

– Richard The IX/Flight – 1983 (7”)

– Live At The Royal Albert Hall, part 1 – 1997 (live)

– Live At The Royal Albert Hall, part 2 – 1997 (live)

00041Songs From Renaissance Days – 1997 (compilation of rare tracks)

– BBC Sessions – 1999 (live)

– Day Of The Dreamer – 2000 (live)

– Unplugged – Live at The Royal Academy Of Music – 2000 (live)

– Tuscany – 2000

– In The Land Of The Rising Sun – 2002 (live)

– Live + Direct – 2002 (live)

– British Tour ’76 – 2006 (live)

– Dreams And Omens – 2008 (live)

– The Mystic And The Muse – 2010 (EP)

00048– Live in Chicago – 2010 (live)

– Tour 2011 – 2012 (live)

– Past Orbits Of Dust – 2012 (live)

– Grandine Il Vento – 2013

– DeLane Lea Studios 1973 – 2015

– Academy Of Music 1974 – 2015 (live)

 

    Annie Haslam

 

00042– I Never Believed In Love/Inside My Life – 1977 (7”)

– Annie In Wonderland – 1977

– Going Home/Inside My Life – 1978 (7”)

– Still Life – 1985

– Annie Haslam – 1989

– Blessing In Disguise – 1994

– Lily’s In The Field/ – 1995 (cds, with Steve Howe)

– Under The Brazilian Skies – 1998 (live)

– The Dawn Of Ananda – 1999

– It Snows In Heaven Too – 2000

– One Enchanted Evening – 2002 (live)

– Woman Transcending – 2006

– Live Studio Concert Philadelphia 1997 – 2006

– Night And Day – 2006 (EP, with Magenta)

Jane Relf

 

– Without A Song For You/Make My Time Pass By – 1971 (7”)

– The Fisherman/ – 2002 (7”)

– Jane’s Renaissance: The Complete Jane Relf Collection 1969-1995 – 2008

 

    Illusion

– Out Of The Mist – 1977

– Illusion – 1978

– Enchanted Caress – 1990

00040Nevada (Annie Haslam & Michael Dunford)

– In The Bleak Midwinter/Pictures In The Fire – 1980 (7”)

-You Know I Like It/Once In A Lifetime – 1981 (7”)

– Pictures In The Fire – 2000 (compilation)

Michaek Dunford’s Renaissance

 

– The Other Woman – 1994

– Ocean Gypsy – 1997

– Trip To The Fair – 1998 (compilation)

Stairway (Jim McCarty & Louis Cennamo)

 

00049– Aquamarine – 1986 (mc)

– Moonstone – 1988 (mc)

– Moonstone – 1988 (compilation of the above cassettes)

– Chakra Dance – 1989

– Medicine Dance – 1992

– Raindreaming – 1995

 

Jim McCarty

– On the Frontier – 1973 (as Shoot)

– Out Of The Dark – 1994

– Searching Of The Dreamchild – 1995 (as Pilgrim)

– Gothic Dreams – 1997 (as Pilgrim)

– Weekend In Memphis – 2000

– Outside Woman Blues – 2001

– Two Steps Ahead – 2002

– Sitting On The Top Of Time – 2009

Renaissance Illusion

– Through The Fire – 2001

 

Renaissant

– South Of Winter – 2004



7 Comentarios

  1. Marco Gaspari disse:

    Tem historinhas curiosas esse primeiro disco solo da Annie Haslam, Annie in Wonderland. Na época ela vivia com o Roy Wood ( http://consultoriadorock.com/2011/09/16/pequeno-guia-para-se-aventurar-na/ ) e essa relação durou 4 anos. Roy foi o produtor do disco e tocou a maioria dos instrumentos. Annie confessa que aprendeu muito sobre sua voz ouvindo as opiniões de Roy. Por exemplo, ele queria que ela experimentasse coisas novas com a voz. No começo ela relutava, pois achava que sua voz tinha quer ser pura, da forma como ela tinha cantado até então. Um dia, porém, ela cedeu e uma das coisas que ele propôs a ela foi gravar sua voz três vezes e sobrepô-las, o que em inglês é conhecido como triple tracking. Na época em que ela estava finalizando Annie in Wonderland, o Renaissance estava às voltas com o disco Song For All Seasons (que iria suceder o álbum Novella). E na música Northern Lights eles experimentaram fazer o tal triple tracking da voz dela, algo que acabou criando um som inédito para sua voz, como se fossem três dela cantando. Coincidência ou não, Northern Light foi hit na Inglaterra e isso no fatídico ano de 1978. Ela reconhece e é grata a Roy Wood por isso. Essa música, aliás, se refere ao relacionamento de Wood e Haslam. Trip to The Fair é outra sobre o casal, sobre o primeiro encontro deles.

  2. José Leonardo G. Aronna disse:

    Valeu pelos comentários, Marco! Nunca cheguei a ver esse primeiro Lp da Annie!

  3. Marco Gaspari disse:

    É um disco que não tem lá muito a ver com o trabalho que ela fazia no Renaissance. Pelo menos essa foi a minha impressão. Talvez influenciada pelo Roy Wood que havia sido glam com o Wizzard, sinfônico de câmara com o ELO e psicodélico com o Move. Era muito mais eclético do que o Renaissance.

    • José Leonardo G. Aronna disse:

      O máximo que ouvi do disco da Annie foi uns trechos no YouTube… Mas se um dia eu ver ele “dando sopa” eu compro! A propósito, Roy Wood é ótimo! Tenho todos os discos do Move e o primeiro da ELO. Do Wizzard não tenho nada e tenho baixado o disco solo dele chamado “Boulders”.

      • Marco Gaspari disse:

        Siri da Gaita vendeu esse disco da Annie. E vendeu também o primeiro solo do Wood chamado Boulders, de 1973. Esse disco, como você deve ter notado, é ótimo, muito na linha do primeiro ELO. Do Wizzard o Siri tem umas coisinhas. É uma banda que lembrava o Roxy Music do comecinho.

        • José Leonardo G. Aronna disse:

          Então vou gostar do Wizzard, pois acho ótimos os primeiros trabalhos do Roxy Music, principalmente aqueles com o Brian Eno!

  4. Erick Cordeiro disse:

    Consultores,depois façam uma matéria com as 10 melhores músicas para ouvir no momento de projetar a alma para astralidade – Fazer uma Projeção Astral de maneira consciente.

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