AC/DC – A Biografia [2013]

3 de dezembro, 2015 | por Fernando Bueno
Resenha de Livro
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AC DC a biografia

Por Fernando Bueno

As biografias de bandas e artistas estão pipocando no mercado brasileiro nesses últimos anos. Antes disso apenas os que tinham uma maior afinidade com o idioma dos súditos da rainha Elizabeth estavam aptos a obter detalhes da vida de vários de seus ídolos. Hoje temos opções para todos os gostos. Quando vou nas livrarias a vontade que tenho é de sair de lá cheio de livros. Muitas vezes os artistas em questão possuem mais de um com sua história. Sobre o AC/DC, por exemplo, temos pelo menos quatro deles disponíveis para os fãs.

AC DC Início

Logo no início do livro, Mick Wall, um jornalista que já escreveu dezenas de biografias, comenta o fato de que ninguém da banda ou da equipe quis gravar entrevistas. Sendo Wall um habitué no mundo das bandas e gravadoras é algo que me pareceu estranho. Porém com o decorrer do livro podemos entender como funcionam as coisas dentro do AC/DC desde quando o grupo foi formado lá no início da década de 70. A cultura de clã que os irmãos Young empregavam para liderar todos que estavam em volta é bastante forte e qualquer pessoa que não fosse do meio, ou que ainda não tinha sido aceita como um membro, era praticamente ignorada, claro que com exceção das groupies, que sempre rondaram a banda com facilidade.

O livro conta, bastante detalhadamente, todos os passos da banda australiana, que brigou bastante, inclusive literalmente, para conseguir a atenção do público de seu país e chegar em um patamar de aceitação e apoio dentro de casa para alçar vôos fora de seu país de origem. Se estabeleceram na Inglaterra, onde foram diversas vezes apresentados como uma banda punk, estilo que estava surgindo e em alta na época, mas sofreram bastante para conseguir sucesso do outro lado do Atlântico. Foram tantas as tentativas frustradas em conseguir um lugar ao sol nos Estados Unidos, inclusive com contratos quebrados, que só a menção do nome do país deixava o irritadiço Malcon Young transtornado.

acdc com Bon

Sobre o guitarrista menos festejado pelo público, me impressionou a comprovação dele ter sido o real líder interno do grupo. Durante toda a história do AC/DC é clara a utilização da imagem de Angus como uma espécie de embaixador da banda. Por ser o mais novo, e no início a cara de moleque era evidente, era tratado como algo peculiar, que sempre trouxe atenção, tanto que no decorrer dos anos sua imagem foi utilizada em várias capas de discos, seu solo durante o show é sempre o mais esperado e seus maneirismos são repetidos noite a noite e todos esperam isso. Porém o líder real da banda foi sem dúvida nenhuma Malcon Young. Ele ditava as regras de convivência, colocava e tirava membros da banda, inclusive empresários, ao seu bel prazer e qualquer decisão que não tivesse seu aval não era válida. Sabendo de tudo isso e após a descoberta da sua doença antes da gravação de Rock or Bust (2014), fazendo com que ele fosse substituído por seu sobrinho Stevie Young, é fácil de entender o motivo deles terem tido tanto receio em continuar. O livro acaba pouco antes de ser divulgada oficialmente que Malcon estava doente, mas já levantava uma suspeita.

AC DC com Brian

O fato do irmão mais velho de Malcon e Angus – George Young – ter sido membro de um grupo de bastante sucesso na década de 60, The Easybeats, ajudou demais a preparação para que o AC/DC se tornasse uma banda de reconhecimento mundial. Com a ajuda de Harry Vanda, outro ex-membro do Easybeats, George direcionou os caminhos a serem seguidos inclusive contatando velhos conhecidos de sua época para facilitar as coisas nos meandros dos interesses coorporativos. Pelo fato de George ser um irmão mais velho voltamos para a citada cultura de clã. Fosse outra pessoa que tentasse direcionar o desenvolvimento do grupo, possivelmente suas opiniões não seriam aceitas. Como era de um irmão mais velho as palavras era quase ordem.

A vida de Bon Scott, desde o início de sua carreira musical em várias bandas de pouco sucesso, é detalhada de uma maneira incrível que certamente agradará qualquer fã. A fase de Bon no grupo é a preferida de quatro dentre cinco fã do grupo, isso até explica o fato de que dois terços do livro conter pouco mais de dez anos de história, deixando mais de trinta anos com o terço restante da obra, e muito disso se deve ao cuidado de Mick Wall em descrever todos os passos de Scott, seus problemas pessoais com a polícia, álcool, drogas, relacionamentos amorosos e diversas escolhas erradas, como se a intenção fosse tentar explicar de alguma forma o ocorrido na noite de 19 de fevereiro de 1980.

A entrada de Brian Johnson é descrita como se fosse a história de um filme. Ele foi chamado para um teste sem saber qual era a banda, chegou ao local e ficou jogando bilhar com os roadies e ninguém sabia que ele tinha ido ali para uma audição. A banda esperava o músico também sem saber que ele já estava no local e quase que isso bota tudo a perder. Coisas que parecem ser do acaso, mas que deu certo. No fim das contas depois de um primeiro bom ensaio e um curtíssimo segundo ele foi contratado e praticamente saiu dali para o estúdio para gravar o mega clássico Back in Black (1980).

AC DC irmaosA partir disso é contada a história de uma banda que tentou de todas as formas nos anos seguintes repetir a fórmula de seu disco de maior sucesso, mas em nenhuma das situações conseguindo algo próximo do parecido. Algumas das tentativas, inclusive, foram desastrosas, fato reconhecido pelo grupo sem o menor pudor, como é o caso de Flick of the Switch (1983) e Fly on the Wall (1985). A retomada do sucesso, quase que despropositalmente, com o álbum The Razors Edge (1990), principalmente por conta de “Thunderstruck” e seu álbum ao vivo Live (1992) fez com que a banda se firmasse como uma das grandes da época. Uma curiosidade é que logo após a queda do Muro de Berlim e a abertura da Alemanha Oriental para a cultura do Ocidente, o AC/DC foi a banda que mais vendeu discos e tocou nas rádios na região naqueles primeiros anos. O AC/DC foi colocado no patamar daquelas poucas bandas que conseguem encher estádios noite após noite e essa fama dura até hoje. Basta dizermos que toda vez que aqui no Brasil temos uma discussão de quem poderia ser um headliner do Rock in Rio, por exemplo, o AC/DC ser a primeira ou segunda a ser lembrada. Por falar no festival do Medina sua presença no ano de 1985 na lendária primeira edição foi clamorosamente ignorada.

Não faltam histórias de encontros com outros músicos famosíssimos que sempre são legais de saber. O livro como um todo é de fácil leitura e muito indicado para qualquer fã da banda ou fã de música em geral.



16 Comentarios

  1. Marco Gaspari disse:

    Muito bom, Fernando. Comecei bem o dia lendo sua resenha.

  2. Eudes Baima disse:

    Lendo agora com atraso…bacanérrimo.

  3. Igor Maxwel disse:

    Vale lembrar que o estilo musical do AC/DC foi inspirado (e copiado) pelos alemães do Accept, a melhor banda daquele país pra mim, não os Scorpions. Comparem as vozes de Bon Scott e Brian Johnson com a do baixinho Udo “sei lá o que” e tirem suas conclusões.

    • Fernando Bueno disse:

      Acho a palavra “copiado” muito forte. Eu acho que influenciou de alguma forma sim, mas os instrumentos do Accept são mais pro Judas Priest do que pro AC/DC.

      • Igor Maxwel disse:

        Então foi essa mistura louca de AC/DC com Judas Priest que fez do Accept uma das minhas muitas bandas favoritas de todos os tempos. Lembrando que o disco que eu mais venero deles é Metal Heart (1985) que foi o meu primeiro contato com o som deles há uns anos atrás. Daí por diante, gostei e passei a me identificar com vários outros discos da fase clássica do Accept: Restless and Wild (1982), Russian Roulette (1986) e claro, o clássico dos clássicos: Balls to the Wall (1984). Só não gostei muito do Breaker (1981) por causa da capa da mulher assustada e da música “Son of a Bitch” que é simplesmente HORRÍVEL!

        • Apesar do papo aqui ser na verdade o AC/DC pergunto: E esses discos com o Mark Tornillo? Curte algum? Acho os três ótimos sendo o Blood of the Nations o melhor.

          • Igor Maxwel disse:

            Sem ofender, não gosto muito do Accept com Tornillo no lugar do Udo, já que o baixinho é insubstituível! Volta Udo!

  4. José Leonardo G. Aronna disse:

    Boa matéria! Esse livro eu não tenho, mas possuo outro chamado “A História da Banda AC/DC – Let There Be Rock”, de Susan Masino. Alguém conhece?
    Abs

  5. Erick Cordeiro disse:

    Nunca gostei do som e da parte lírica do AC/DC.Mas admiro-os,pois eles são um exemplo de musicalidade,principalmente em relação a entrosamento.Também foi através desta banda que eu aprendi a ser um CIDADÃO e aprender que o RESPEITO é o principal alicerce de um ser.
    Contextualizando-os,o motivo do AC/DC ter me guiada para um auto-avaliação do meu ‘eu’ é o seguinte.Bom,na época em que eu usava o whatsapp,tinha mais ou menos uns 11/12 anos,eu participava de um fã clube do The Killers,e,lá,eu conheci muita gente bacana,principalmente uma garota que eu não irei falar o nome da mesma por questão de ética.No entanto,esta garota tinha um gosto musica ‘hardcore’,ela gostava bastante de bandas com teor “satânico” – naquela época eu era babaca a ponto de achar que a merdinha da palavra “diabo” em música fazia da mesma satânica..quanto eu era imbecil…Bem,então ela gosta bastante de falar sobre seus gostos musicais e,principalmente,do AC/DC e,na época em questão,eu era um árduo critico deste tipo de música,aí eu comecei a criticar com meras bobices em forma de palavras…CLARO,eu não critiquei no objetivo de fazer ela ficar com raiva.Mas ela passou a me odiar a partir daquele dia………….
    Demorei bastante para reconhecer a merda que eu tinha dito,na verdade o orgulho que eu laureava fez-me afastar de quase todos meus colegas,amigos……Mas quando eu reconheci o que realmente era BEM e Mal,passei a ter um olhar mais inteligente,reflexivo e,principalmente,introspectivo em relação as coisas,desde o sentimento existente em cada um de nós ao mínimo passo de uma longa jornada.
    Infelizmente,perdi contado com a garota supracitada,mas é melhor assim.Vocês que leram até aqui,não ache que eu estou dando uma de vítima,pois NEM UM SER HUMANO É VÍTIMA DE SUA IGNORÂNCIA/ARROGÂNCIA,SOMENTE UM AUTOR,SEJA CONSCIENTE OU NÃO…..No mais,nunca se esqueçam de pensar,repensar,analisar e,principalmente,refletir ante as coisas que acontecem na vida de vocês.E,claro,desculpe-me se me alonguei demais,só queria mesmo desabafar,pois é muito bom se auto-reavaliar como ser humano,pois no máximo somos um mínimo do universo…Achamos ser o Ser,mas somos apenas seres errantes,por essa razão tento a cada dia melhorar,sei que é difícil,uma vez que vivemos em um mundo ante uma evolução decrescente,porém também sei que se tentarmos alcançar algo,alcançaremos,mesmo que para isso seja possível passar por mil mares de torturas,solidão e depressão…Mas alcançaremos o despertar do nosso próprio ‘eu’ superior,um dia,quem sabe.

    • Erick Cordeiro disse:

      Só para constar a importância da garota supracitada,foi a partir dela que eu conheci o Led Zeppelin e foi através do LZP que eu conheci o Bau do Mairon,a partir do Bau eu conheci o Pet Sounds,disco de extrema importância na minha vida,pois através do mesmo conheci o Prog Rock,primeiramente conheci o ELP,depois conheci o King Crimson e,claro,depois conheci o Yes,a única banda que fez-me/faz-me subir degraus ante a espiritualidade onipresente em cada ação imposto por nós,pois conhecer Yogananda foi um prazer.Por isso,CTTE e,também,o TFTO,tanto quanto outros do Yes,tem um valor sentimental/espiritual/social/musical/histórico/humano/pessoal enorme para minha pessoa,pois refletir ante os álbuns do Yes sempre é uma atividade prazerosamente refletora.Resumindo,esta garota,que para muitos pode ser apenas uma garota,é de suma importância para o desenvolver do meu espirito.

      • Felipe disse:

        Oi. Passei pelo blog de forma aleatória e li seu comentário. Achei super bacana colega. Continue assim e parabéns pela autocrítica, algo difícil e raro de se ver nas pessoas.

        • Erick Cordeiro disse:

          Ah,valeu cara.De fato,as pessoas (ainda) acham que a vida é algo passeiro,sendo que as mesmas,muito provavelmente,não se dão conta que estamos apenas em um level,ou melhor,estágio ante vários outros,onde cada um nos eleva ou,infelizmente,nos derruba,mas levantar é possível e sempre será.Por essa e outras razões deveríamos nos autocriticarmos tanto quanto criticamos os outros,claro,devemos fazer isso com coerência.A crítica pode nos levar a uma certa negatividade,porém a autocrítica geralmente nos levam A POSITIVIDADE,pelo menos quando a mesma,como eu disse anteriormente,é aplicada com coerência e também usando o pensamente,repensamento,refletimento e,obviamente,conclusão e ação.

          No mais,obrigado novamente,Felipe.

  6. maironmachado disse:

    Terminei – finalmente – de ler esse livro. Honestamente, to começando a desconfiar do Mick Wall. No livro do Led ele meio que coloca o Plant como responsável pelo grupo não voltar. Aqui, ele literalmente chuta o balde e coloca os ônus e bônus do AC/DC tudo nas costas do Malcolm (como bem destacou o Bueno).

    Apesar de a fase Bon ser a mais importante, dedicar mais de 300 páginas (das 400 do livro) para falar dessa fase e do Back in Black é demasiado. A partir do momento de For Those About to Rock, o livro cai vertiginosamente, assim como foi a carreira dos australianos. E para piorar, é detalhe demais. Nem Dan Brown criaria algo tão complexo para explicar por que Bon Scott morreu …

    Também senti falta da citação ao Rock in Rio. Foi um dos maiores shows da banda fora do eixo EUA / Europa, além da primeira vez deles na América do Sul, e não tem uma linha sobre isso.

    Outra coisa que me deixou bem indignado é a cara de pau do Malcolm de mandar embora quem e quando ele quisesse, brigar com um monte de gente que nunca mais quis falar com ele, e ser um marrentão dentro e fora do palco. Se isso é verdade, puta que pariu, que cara mala.

    Tecer comentários enfadonhos para o Brian Johnson, como um velhinho frustrado por ainda ter que cantar Bon Scott, acho que foi o pior que o Wall fez, ao mesmo tempo que criticar a banda por fazer o mesmo repertório há anos foi algo no mínimo corajoso.

    Por fim, achei estranho que muita gente não quis participar do livro. Será que a história do AC/DC é tão conturbada assim que não se pode dar uma palavrinha para um livro que é uma biografia???

    Parabéns Bueno pela resenha, e aos fãs do grupo, vale a pena adquirir isso pelas histórias da fase Scott, mas só.

    • Valeu Mairon. Obrigado pelos elogios. Lendo seus comentários fiquei pensando sobre a questão do Mick Wall. Será que ele não tá fazendo as coisas no automático de um tempo para cá?

      • maironmachado disse:

        Pois é cara, um homem com o nome dele não conseguir entrevista de nenhum atual membro do AC/DC é no mínimo curioso.

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