Cinco Discos para Conhecer: o Heavy Metal francês, em francês

19 de fevereiro, 2016 | por Fernando Bueno
Cinco Discos Para Conhecer
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Sortilege

Sortilege: Jean-Philippe “Bob Snake” Dumont (bateria), Stéphane Dumont (guitarra), Christian “Zouille” Augustin (vocal), Daniel Lapp (baixo) e Didier Demajean (guitarra)

Por Fernando Bueno

Em 2011 fiz uma matéria chamada “Uma introdução ao rock progressivo italiano”. Nela eu comento que a primeira impressão de todos que ouvem algo do estilo pela primeira vez é focada na língua natal das bandas. Comento que “todos os fãs de rock estão habituados ao inglês e muitos não escutam música em outras línguas”. Durante muito tempo me encaixava nessa definição e dificilmente ouvia qualquer coisa em outros idiomas. No rock progressivo italiano talvez seja mais fácil se acostumar com o idioma porque de alguma forma os fãs estão mais acostumados com sonoridades não convencionais e a língua realmente combina com a música, mas e se fosse no heavy metal? Todos sabemos o quanto os fãs de metal são conservadores.

Ultimamente tenho focado minhas audições em bandas do terceiro e quarto escalão do heavy metal dos anos 80. Muitas delas acabei ouvindo por pura curiosidade sem se preocupar com indicações de ninguém, bastando ver um nome desconhecido. Aí encontrei algumas bandas francesas e descobri que aqueles discos que estava ouvindo também tinham suas versões no idioma natal dos músicos. Comecei a ouvir e não parei mais.

Uma grande característica do metal francês eram as letras muitas vezes mais politizadas que as do metal de outros países que preferiam falar da vida do rock and roll, ocultismo e fantasia. Em termos sonoros eles muito alinhados com as bandas da NWOBHM e outros grupos de fora da Inglaterra que também tocavam do mesmo jeito.

Então, só para deixar claro, antes de dizer que estão faltando algumas bandas como o Gojira tenha em mente que apenas bandas cantando em francês foram selecionadas aqui. Caso você busque esses discos e não conseguir se adaptar peço que tente a versão em inglês quando isso existir. Não será pelo idioma que você vai deixar de gostar dessas ótimas bandas e garanto que depois de alguns minutos isso não será mais um empecilho.


Trust – Répression [1980]

O Trust é muito lembrando por ter sido a banda que trocou de bateristas com o Iron Maiden em 1982. Nicko McBrain foi para a banda inglesa e Clive Burr se juntou aos franceses. Eles possuem uma carreira bastante longa e abrangente em termos de estilos musicais. Bastante influenciados pelo punk, principalmente pelas letras contestadoras, também são relacionados com o AC/DC da época de Bon Scott, apesar de não concordar muito. “Antisocial”, provavelmente o maior clássico do metal francês, faixa de abertura do disco que inicia lentamente e vai crescendo até entrar Bernie entrar com sua forte voz despejando raiva. Os fãs de Anthrax vão se lembrar dela já que os americanos a regravaram em State of Euphoria em 1988. A versão em inglês do disco, Repression, teve ajuda de um membro de uma banda punk, Sham 69, o que demonstra que o teor lírico, bastante político, dos franceses estava mais alinhado com o punk inglês do que o próprio metal. A faixa “Mr Comédie” é uma crítica ao Aiatolá Khomeini que estava em exílio na França na época. “Saumur” é um blues rock bastante cadenciado e mostra um dos motivos de Krief ter tanto reconhecimento quanto a sua técnica. O Trust foi encerrado na metade da década de 80 e só voltou de vez no início dos anos 2000, já que durante esse tempo eles tiveram alguns lançamentos esporádicos e faziam alguns shows.
Outro disco interessante: Trust (1979)

Formação: Bernie Bonvoisin (vocal), Norbert “Nono” Krief (guitarra), Yves “Vivi” Brusco (baixo), Mohamed “Moho” Achemleck (guitarra) e Kevin Moris (bateria)


Vulcain – Rock ‘n Roll Secours [1984]

A banda, formada pelos irmãos Puzio, Daniel e Vincent, é mais pesada dessa lista e liricamente abrangente, deixando a política um pouco de lado para cantar fantasia e história. O pedal duplo de “Ebony” é uma constante em praticamente todo o disco. Poucas bandas usavam desse expediente na época. O timbre e o bom trabalho de baixo também são características fazendo com que no todo o som do grupo lembra bastante o Motörhead, inclusive com a crueza dos vocais. “Pile ou Face” é um ótimo exemplo disso. Os riffs no geral são simples, mas funcionam muito bem na massa sonora da banda como na faixa título. Muitas influências do punk são acrescentadas ao som da mesma forma que a banda de Lemmy fazia, a faixa título começa com um metal tradicional e descamba para a pancadaria. O clima de divertido de taberna da faixa “La Digue du Cull”, uma canção tradicional nas bebedeiras do franceses, fechava o lado A do LP, tendo na sequência a maideniana e talvez a melhor do disco, “Les Fils de Lucifer”.
Outro disco interessante: Vulcain (1994)

Formação: Daniel Puzio (vocal e guitarra), Vincent Puzio (baixo), Franck Vilatte (bateria) e Didier Lohezic (guitarra).


Sortilège – Larmes De Héros [1986]

Esse disco aqui é o responsável por eu ter feito essa matéria. Depois que o ouvi não consegui mais parar. Das bandas citadas aqui é a que teve um menor tempo de carreira, porém é constantemente considerada a principal banda de metal francesa. Larmes de Héros – ou Hero´s Tears, em sua versão em inglês – é o segundo álbum lançado pelos franceses que já tinha também em seu catálogo um EP autointitulado bastante indicado pelos fãs. O que mais me chamou atenção é o senso melódico da banda e principalmente os refrãos que ficam na cabeça e nos obriga a ler as letras em francês para cantarmos da maneira certa. A técnica dos músicos também é destaque oferecendo ótimos solos e duetos de guitarra, além da potente voz de Christian Augustin, em muitos textos sendo comparado à Halford, apesar de eu não concordar no todo. Em “La Hargne Des Tordues” a banda mostra que tem refrãos fortes e pegajosos. Já em “Chasse Le Dragon” eles cadenciam um pouco no refrão, mas são nas estrofes que a banda brilha. Augustin dá um show na linda power balada “Quand Um Aveugle Reve”. O ponto alto do disco é sem dúvidas “Mourrir Pour Une Princesse”, em ambas as versões essa música é fantástica. Se tiver que escolher só um álbum ou uma banda dessa lista escolha Larmes De Héros.
Outro disco interessante: Sortilège EP (1973)

Formação: Jean-Philippe “Bob Snake” Dumont (bateria), Stéphane Dumont (guitarra), Didier Demajean (guitarra), Daniel Lapp (baixo) e Christian “Zouille” Augustin (vocal)


Killers – Résistances [1989]

Muito confundidos com uma daquelas diversas bandas que Paul Di Anno montou depois que saiu do Iron Maiden, o Killers francês aposta na velocidade mas sem se esquecer da melodia. Lá no início disse que as bandas francesas tinham muitas características das inglesas, mas podemos considerar essa a exceção que confirma a regra, já que eles se assemelham mais aos seus vizinhos alemães. Não acharia estranho eles citarem Grave Digger ou alguma banda do tipo como influência e eu citaria “Vengeance” como um exemplo. Pode ter sido o fato do grupo possuir uma gama maior de influências já que foi lançado já no finalzinho da década. O solo de “Prisonnier” é excelente e a rápida “Reves Secrets” é quase thrash. A produção chama atenção positivamente, já que os outros já citados nessa lista até então não eram lá muito bem gravados. Prestem atenção na bateria “final dos anos 80” que temos nesse disco. “Résitances” dimimui um pouco a velocidade e acrescenta uma bem vinda harmonia de guitarras. Porém a mais anos 80 do disco é justamente a faixa mais pop, e a mais incomum se comparada com as outras, do álbum, o hino de louvor ao metal “Longue Vie Au Metal”.
Outro disco interessante: Cités Interdites (1992)

Formação: Bruno Dolheguy (guitarra), François Merle (guitarra), Serge Pujos (vocal), Philippe Borda (bateria) e René Chavin (baixo)


Blasphème – Briser Le Silence [2010]

Os que já conhecem as bandas de metal francesas podem dizer que o disco do Blasphème que deveria ter sido indicado aqui é outro. Porém quis mencionar algo mais recente para mostrar que os descendentes de Napoleão não ficaram parados nos anos 80. E mesmo assim, não estou forçando nada já que este é um ótimo disco e eu diria bastante equivalente ao clássico Désir De Vampyr. Das bandas aqui citadas o Sortilège não teve uma carreira com certa longevidade e parou nos anos 80. O Blasphème também encerrou a carreira depois de Désir De Vampyr, mas voltou em 2010 com Briser Le Silence. A cavalgada de baixo na faixa de abertura entrega logo de cara as influências da banda, apesar de serem um pouco mais hard que o Iron Maiden, ouçam “Carpe Diem”. Marc Fery é um vocalista quase tão bom quando Christian Augustin do Sortilège e mais versátil como dá para perceber na faixa título. A melodia criada pela voz e guitarra em “Coer D´Enfant” é de uma elegância ímpar. “Homme D´Eternel” é rápida e mostra que apesar das claras influencias eles não estavam desconectados do metal praticado no início dos anos 2000.
Outro disco interessante: Désir De Vampyr (1985)

Formação: Philippe Guadagnino (baixo), Marc Fery (vocal), Pierre Holzhaeuser (guitarra) e Aldrick Guadagnino (bateria)

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25 Comentarios

  1. Alisson Caetano disse:

    Três ducas pra esse tema aí: Deathspell Omega, Peste Noire e Gojira, acho que as três melhores bandas francesas dos últimos anos.

    • Fernando Bueno disse:

      O Gojira foi eliminado pelo critério de seleção. As outras duas vou verificar agora.

      • Alisson Caetano disse:

        Dica: não leia as letras do Peste Noire. Apenas ouça a música.

        • Fernando Bueno disse:

          Tive que ir ver do que se tratava, mas não é nada diferente do black metalzinho que estamos acostumados, não é?!?!…rs

          • Alisson Caetano disse:

            teor nacional-socialista e arianismo em algumas faixas.

          • Alisson Caetano disse:

            Black metal em geral trata de satanismo e paganismo em geral, nada demais. Nazismo já é outra história (pra quem presta atenção em letras, claro).

  2. André Kaminski disse:

    Eu ainda possuo certas dificuldades de associar o heavy metal com outras línguas latinas (que não sejam o português) por achar que soa estranho. O mesmo com o japonês.

    Porém, no progressivo curiosamente acho todas as línguas diferentes do inglês uma espécie de “charme”.

    Não tenho nada para recomendar aqui de francês mas vou dar uma escutada nessas bandas visto que muitas delas me interessaram.

  3. Marco Gaspari disse:

    Parabéns, Bueno, por tiral o HM do lugar comum. Muito bacana a matéria.

  4. Marcel de Souza disse:

    Muito bom! Que tal agora uma de 5 discos de metal em espanhol?? Rata Blanca, Baron Rojo, Angeles Del Infierno…

  5. Maurício disse:

    É impressionante como as bandas citadas, provavelmente por virem de um país sem tradição no gênero e se arriscarem a cantar em sua língua materna, são ignoradas pelo grande público e só alcançam os ouvidos dos “garimpeiros” da boa música. Ouçam o Sortilège, que em nada fica devendo a Tyger of Pan Tang, Blitzkrieg e etc. Parabéns pela matéria.

  6. maironmachado disse:

    Desconheço todas as bandas, e apesar do belo texto do Fernando, não me empolguei em ouvir nenhuma delas. O Prog francês tem muita coisa boa Fernando. Quem sabe rola um outro cinco discos com algo do país de Brigitte Bardot?

  7. Arysson Lima disse:

    Eu também citaria o Nightmare aí, apesar de cantarem em inglês. Muito boa a lista, sou estudante de Francês, já conhecia algumas dessas bandas. Considero “Metàmorphose”o melhor álbum do Sortilege, o Larmes de Heros tem uma veia mais Hard Rock, mas também é ótimo. O debut do Blasphème, de 1983 também é excelente. Eu acrescentaria outras bandas como o Demon’s Eyes, H-Bomb (incrível de tão boa) e Satan Jokers. No ramo do Death Metal, Fùria e Misanthrope também são bandas muito, mas muito interessantes!!!

    • O Demon´s Eyes eu não conheço Arysson, vou procurar, mas o H-Bomb e o Satan Jokers foram eliminados no meu critério pessoal para chegar só a cinco discos. Quem sabe no futuro não faço uma continuação.

      • Arysson Lima disse:

        Recomendo que escute o álbum Rites Of Chaos. O Demon Eyes era um tanto conhecido aqui no Brasil, na biografia do Sepultura escrita pelo Sílvio Gomes, tem algumas menções, legal ver que alguém se interessa pela cena francesa do Heavy Metal. Abraços!!

  8. Luis Ribeiro disse:

    Boas desde Portugal!

    Permitam-me que fale em duas bandas que julgo ser do melhor que existe no Metal Frances: Titan (https://www.discogs.com/Titan-Titan/master/841250) e ADX (https://www.discogs.com/ADX-La-Terreur/master/536734).

    Titan, então é brilhante!

  9. sergio luiz disse:

    bacana, ouvi o sortilege e gostei mto, o duro vai ser encontrar cd original com preço razoavel .

    • Realmente Sergio. Os preços são salgados. Comprei os três discos de uma vez (dois álbuns e o EP) e paguei 200 paus nos três. O problema é que os dois álbuns foram lançados de forma bem pocrinhas em LP, com pouquissima informação em um encarte muito meia boca.

      • Luis Ribeiro disse:

        Oi!

        Os Sortilege foram uma banda sempre muito atribulada que terminaram muito rapidamente.

        Conheci o roadie dos Trust um português de nome Manuel da Silva, conhecido por Manu e cujo nome aparece no inner de agradecimentos do álbum dos Sortilege.
        Alias, Manu viria a ser na década de oitenta roadie dos Iron Maiden tendo gerido um Bar no Algarve do Steve Harris, vindo a falecer em 2005 vitima de cancer.

        Manu era uma pessoa incrível, com conhecimento no mundo do metal impressionantes. Tive a sorte de ficar com muitos dos seus discos, que eram oferecidos pelas bandas para promoção entre os quais Sortilege de que tenho vários exemplares repetidos.

        A discografia dos Sortilege ou dos ADX, Titan é muitas vezes rudimentar porque era suportada em edições muito básicas e com poucos apoios. Os Sortilege foram vitimas disso mesmo. Mas o álbum, quiçá pelo caracter primário que tem conjugado pela sua excelência musical confere-lhe um “charme” que só o de classe excepcional transmite. Que é o caso.

        Cumprimentos

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