A batucada fantástica de Luciano Perrone e o samba do inglês doidão.

16 de junho, 2016 | por Marco Gaspari
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Foto 1

Por Marco Gaspari

Aquele estereótipo de que o brasileiro é um “povo alegre” não passa, na realidade, de um paradoxo. Pois a menos que façamos parte de alguma equação matemática do tipo menos mais menos é igual a mais, como explicar que somos o fruto da mistura do índio, do negro e do português, as chamadas “três raças tristes”?

Claro que herdamos deles os gritos e cânticos que formaram o tão brasileiríssimo Carnaval, mas acredito que foi mesmo a partir dos anos 40 do século passado, com a batucada tomando de assalto as ruas e sacudindo a libido nacional, que os incisivos, caninos e molares desabrocharam em flor e plantaram essa imagem mundo afora.

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O baterista Luciano Perrone

Músicos geniais também contribuíram para exportar nosso jeitinho salamaleque. Quem me interessa citar aqui é Luciano Perrone, fantástico percussionista, talvez nosso primeiro baterista popular a dominar a teoria musical, aprofundada a partir dos anos 20 com ninguém menos que seu amigo Radamés Gnattali.

Em 1963, Perrone juntou os Ritmistas Brasileiros e lançou o primeiro de 3 discos chamados  Batucada Fantástica, que alguns anos mais tarde ganhariam na França o Grand Prix du Disque da Academie Charles-Cros Paris.  Podemos encarar esses 3 trabalhos como um curso superior de percussão brasileira, uma avenida antes do Sambódromo, com todos os instrumentos de uma batucada em insuperável desfile.

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O primeiro disco da série Batucada Fantástica

O surpreendente, porém, é que teve inglês que frequentou esse curso, não como aluno matriculado, mas como eventual e sorrateiro ouvinte.  Explico:

Mick Farren era um jovem e revoltado jornalista inglês, colaborador das revistas udigrudis  International Times (IT) e OZ, quando formou a banda proto-punk The Social Deviants na metade dos anos 60. Ficou amigo de John Peel e sua banda acabou escalada para tocar nas apresentações do Perfumed Garden, programa de Peel na pirata Radio London. Era 1967, e já com o nome encurtado para The Deviants, outro amigo de Farren, o filhinho de papai de 21 anos Nigel Samuel, financiou as 700 libras que a banda precisava para gravar seu primeiro LP, PTOOFF!, numa edição privada limitada, promovido através de anúncios na IT e na OZ e vendido em lojas de rua selecionadas e empórios hippies de Londres.  E assim como Luciano Perrone é tido como o pai da bateria brasileira, o PTOOFF! é considerado a mãe de todos os discos underground ingleses. Peel, inclusive, foi convidado a escrever na capa interna do disco e confessou estar pouco à vontade, já que tinha amizade com os músicos e certo receio de falar bem de uma banda que ele não achava tão boa assim. Receio esse que se desfez logo na primeira audição, pois PTOOFF! se revelou um trabalho muito à frente de seu tempo e repleto de ótimas ideias.

Foto 4

Capa do PTOOFF!

O disco era tão bom que no ano seguinte foi relançado pela Decca com toda pompa e circunstância. Não vou comentar faixa por faixa , mas apenas salientar que no geral PTOOFF! soa como nenhum outro disco lançado na época, exceção feita a Freak Out, do Mothers of Invention, confessada influência e disco de cabeceira de Mick Farren junto com a estreia dos Fugs. Se tiver que resumir o artefato em uma frase, diria que é “música para tirar a paranoia pra dançar”. O foco da minha atenção ao disco, porém,  é a última faixa do lado 1, “The Nothing Man”, creditada como de autoria de Farren com Jack Henry Moore. Esse Moore era outro amiguinho do líder dos Deviants  e pupilo de John Cage, aquele compositor de vanguarda que criava música até com uma vassoura varrendo o palco. Moore pegou algumas frases a esmo de Farren, uma espécie de poema/manifesto contra o racismo, e fez uma colagem de sons com efeitos sonoros sobre ritmos de percussão. O resultado foi sendo cultuado ao longo dos anos por gerações de críticos musicais, gente do naipe do dândi do underground inglês Julian Cope, que define a música assim: “Tímpanos, batucadas, castanholas e loops de transmissões de rádio, tudo combinado sobre um estranho groove de percussão inspirado nos Mothers e vocais fragmentados como em uma rumba furiosa, com as frequências dos tons agudos fora de controle.”

Foto 5

The Deviants

Tudo muito bonito e maluquinho, mas passados quase 50 anos do lançamento de PTOOFF!, ninguém jamais comentou que esses ritmos de percussão usados na colagem feita por Moore eram todos daquele disco Batucada Fantástica, de Luciano Perrone e os Ritmistas Brasileiros, lançado em 1963. E são trechos completos de pelo menos duas faixas, o que não caracteriza plágio, mas sim apropriação, roubo, extorsão, 171, maracutaia e bateção de carteira em geral. A música é assinada por Farren e Moore, mas toda ela é calcada na percussão criada por Perrone, o que valeria uma coautoria ou ao menos uma citação.

Imagem final

Capa e miolo pôster da edição original privada do PTOOFF!, lançada em 1967

Sempre gostei muito do Mick Farren. Ele meio que deixou a música em segundo plano a partir de 1970 e se tornou um prolífico escritor, com eventuais lançamentos de LPs solo. O restante dos Deviants se juntou ao baterista Twink e formaram uma das mais porretas bandas inglesas da primeira metade dos anos 70: o Pink Fairies. Mas fiquei triste com essa história do The Nothing Man. E olha que eu sou alegrete. Afinal, sou brasileiro.

Ouça
Batucada Fantástica vol 1 (completo)
PTOOFF! (completo)
The Nothing Man



14 Comentarios

  1. Francisco disse:

    Grande texto! Mas a verdade, sr. Marco, é que, de surrupio em surrupio, muito gigante da música construiu sua carreira… Abraços! São textos como esse que me fazem sempre visitar esta consultoria!

  2. Eudes Baima disse:

    Nosso caçador de Alienígenas do Passado ataca de novo! Grande matéria, sócio!

  3. José Leonardo G. Aronna disse:

    Dá gosto de ler esses textos do Marco! Sempre interessantes e bem escritos! Valeu!

  4. Eudes Baima disse:

    Gaspari, a apropriação de Batucada Fantástica foi pela via da imitação ou os Deviants usaram diretamente as gravações? O disco se encontra na Internet?

    • Marco Gaspari disse:

      Eu postei logo abaixo os links. Ouça a faixa 4 ou 5 do Batucada Fantástica e depois ouça The Nothing Man. É a própria música, sem nem se preocupar em disfarçar.

  5. maironmachado disse:

    Os textos do nosso presidente são sempre repletos de muita ternura e envolvimento. Introdução fantástica para um tema que só fui ligar o nome à criatura quando surgiu o Ptooof!! Esse disco está no meu MP3 frequentemente, e nunca o vi pessoalmente nem em LP nem em CD. Desconhecia essa versão original, e sou tarado por coisas especiais como essa lindíssima obra que o Marco nos trouxe aqui. O fato de estarem a frente de seu tempo é uma ótima definição para a banda. Agora o que mais surpreende é esse ACHADO do Marco. Jamais imaginaria que aquela percussão enlouquecedora de Ptooof era brazuca. Faz sentido ouvindo o mesmo novamente, e agora, me resta dar os parabéns para o Marco por ter trazido essa tese de doutorado que causará algum impacto na Europa, pois ouvir os discos que ele disponibilizou explica naturalmente isso. Tomara que leiam por lá. Sabes por que não citaram Marco? Tem referências a mais sobre isso? Agradeço se puder passar uma bibliografia para eu me aprofundar no assunto.

    • Marco Gaspari disse:

      Não existem referências que eu saiba, Mairon. Sempre relacionei os dois discos, mas nunca consegui nenhuma referência em textos de lugar nenhum. Talvez eu tenha sido o primeiro a juntar os alhos com os bugalhos. Vai saber. O disco do Perrone eu conheci primeiro, pois meu ex-cunhado tocava isso direto nos anos 60/70. Quando ouvi PTOOFF! pela primeira vez reconheci na hora, mas achava que era de conhecimento geral. Só que não, hehe…

    • Francisco disse:

      Parece que, nesse caso, não há “coincidência” musical, como na questão “What to do (Vanusa)/Sabbath bloody sabbath (Black Sabbath)”. Luciano Perrone foi chupinhado mesmo…

  6. Fernando Bueno disse:

    Marco dando um furo!!!

  7. Ronaldo disse:

    Marco nosso ídolo!
    Muito interessante o texto, a pauta e a descoberta desta situação. Gosto bastante do disco mas não imaginava tratar-se um de “sample” incorporado inapropriadamente.
    Já descobri várias músicas de estúdio com erros de execução (ao vivo tem exemplos aos borbotões). Se tiverem interesse, posso montar um texto sobre isso.

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