Discografias Comentadas: Conception

26 de junho, 2016 | por Ulisses Macedo
Discografias Comentadas
6

Conception

por Ulisses Macedo

Quando se descobre e se passa a gostar muito de um determinado artista, é comum ir além da banda que o apresentou a você, procurando outras bandas e projetos em que já tenha participado. Acredito que a maioria das pessoas, assim como eu, conheça o Conception devido a fama posterior de seu vocalista, o norueguês Roy Sætre Khantatat, mais conhecido como Roy Khan. Entretanto, mais do que simplesmente a antiga banda de Khan, o Conception é uma jóia subestimada que oferece uma curta, porém sólida discografia, tendo também revelado ao mundo o guitarrista Tore Østby (Ark, D.C. Cooper, Jorn).


The Last Sunset [1991]

O Conception é da Noruega e surgiu em 1989, fundado pelo guitarrista Tore Østby. Após duas demos e algumas trocas de formação, se estabilizou com a entrada de Roy Khan nos vocais, Arve Heimdal na bateria e Ingar Amlien no baixo – a posição de tecladista, sempre um tanto discreta na carreira do grupo, era ocupada por um convidado que variava a cada disco e turnê. The Last Sunset foi lançado de forma independente pelo selo próprio, o CSF Records, traçando os elementos característicos do grupo: um heavy metal na linha de Crimson Glory, Dio, Queensrÿche e Yngwie Malmsteen, com toques cuidadosos de rock progressivo e uma pitada de música flamenca – a marca registrada de Tore -, o que ajuda a diferenciar o Conception em relação a outros grupos similares quando unidos à voz passional de Khan. Canções como “Building a Force“, “Another World” e “Live to Survive” trazem uma sonoridade bem direta, com riffs musculosos calcados no heavy metal tradicional e uma estrutura padrão, mas com algumas nuances criativas. O quarteto também abre espaço para sutilezas e camadas mais diversas, caso da soturna “Bowed Down With Sorrow” e da faixa-título, que começa como uma balada singela e vai ganhando força, explodindo em linhas vocais memoráveis e um ótimo solo de guitarra. O grande momento do disco é o encerramento com a longa “Among the Gods“, variando o metal progressivo com música latina e flamenca, mantendo cuidadosamente a atenção do ouvinte, ziguezagueando com destreza entre passagens mais agressivas com outras até dançantes, sendo assim a melhor demonstração da musicalidade do Conception. A minha favorita é “War of Hate“, onde uma boa parte desses elementos entram em cena na segunda metade da faixa de forma compacta, mas não menos elegante. Para uma banda ainda independente, The Last Sunset se deu bem em seu país natal, assim como na Alemanha e no Japão, vendendo mais de cinco mil cópias e tendo “Fairy’s Dance” e a faixa-título nas rádios norueguesas.


Parallel Minds [1993]conception2

Por volta de 1992, o quarteto gravou “Black on Black” para uma coletânea da Vertigo sobre o rock norueguês, que saiu sob o nome Norske Riff og Tordenskrall 1967 – 1992, aproveitando também para registrá-la junto a algumas novas composições na forma de uma nova demo. Dentre os vários selos que a receberam, foi com a Noise Records que eles assinaram e com a qual permaneceriam até o fim. Durante a primeira turnê na Alemanha, gravaram um videoclipe – o único da carreira – para “Roll the Fire“, na praia de Lübeck. Parallel Minds finca os dois pés no metal oitentista, com faixas de força pura e grandes linhas vocais. A primeira metade do CD é a mais forte, com a abertura “Water Confines“, a já citada “Roll the Fire”, “And I Close My Eyes” e a poderosa faixa-título. Este é o disco em que Roy Khan melhor demonstra seu domínio de notas agudas – impactante, mas sem exageros -, em especial na densa “Silver Shine” e na cadenciada “The Promiser”. Ainda temos a doom metal “My Decision” e a retomada de pique no petardo “Wolf’s Lair”, cheia de bons riffs e ritmos. E, assim como na estréia, os caras encerram o álbum com uma composição mais recheada, neste caso a suíte em três partes “Soliloquy“: a primeira seção (“Sweet Lavender”) começa leve como uma brisa de outono e vai passeando de forma delicada através da guitarra melódica e cheia de nuances de Tore, descambando em seguida na segunda parte, “Non-Electric Redemption”, que apesar do nome é uma mid-tempo que segue a linha do metal tradicional, finalizando com os riffs cortantes da última parte, “In These Rooms”. Vale destacar que, ao contrário da estréia, em Parallel Minds Roy Khan escreveu todas as letras, formando uma dupla com o lado compositor de Tore Østby comparável àquela que faria com Thomas Youngblood no Kamelot, e a ótima letra de “Soliloquy” é o melhor exemplo do início dessa parceria. Com isso, o quarteto só crescia em popularidade na Europa, tendo realizado uma turnê que se iniciou na Inglaterra (abrindo para o Skyclad), passou por Escócia, País de Gales, Alemanha (com o Threshold), Bélgica, Holanda, Luxemburgo, e terminou na Dinamarca, ao mesmo tempo em que atingiam a 23ª posição nas paradas nipônicas.


In Your MultitudeIn Your Multitude [1995]

É aqui que o negócio começa a ficar bom de verdade. A banda investe em composições com um toque a mais de dramaticidade, de letras introspectivas e arranjos que exalam maturidade e criam uma atmosfera misteriosa e evocativa. De grande interesse, também, são alguns de seus ritmos ligeiramente exóticos, quase tribais, facilmente notados em “Under a Mourning Star” e “Carnal Comprehension“, logo não é por acaso que Heimdal e Amlien realizam ótimas performances e se destacam mais do que nos CDs anteriores; o baixista, aliás, se faz bem notado na mixagem, com linhas pulsantes e hipnóticas, que somente seriam superadas em Flow. Roy Khan se destaca no refrão da cadenciada “Some Wounds” e exibe seu alcance vocal na ótima “Solar Serpent“, que também conta com as melhores linhas de baixo. “Retrospect” e “Guilt” são mais lentas e versam sobre os arrependimentos do passado, mas a primeira destaca as excelentes linhas vocais, pois Khan parece saborear cada sílaba (de forma similar a que faria no Kamelot), enquanto esta última tem uma sonoridade que remete ao Alice in Chains. O lado mais sublime do álbum é representado pelos dedilhados melancólicos da simples – e bela – “Sanctuary”, que antecede a melhor faixa do disco: “A Million Gods“. Nela, a bateria precisa de Heimdal dita os ritmos para que a banda brinque de forma exótica e intensa. Após uma breve ponte feita por um fraseado simples de teclados, o quarteto começa a arregaçar a partir dos 4:35 minutos, mandando solos um atrás do outro, marcando também o retorno da influência flamenca de Tore, tão discreta no disco anterior. Para fechar com chave de ouro vem a expressiva faixa-título e seu solo de guitarra cheio de feeling. In Your Multitude representou mais um grande passo para a banda, que tocou na Noruega com Faith No More e Slash’s Snakepit naquele mesmo ano, dando início a um breve hiato antes de retornar no ano seguinte com uma bem-sucedida turnê no Japão.


Flow [1997]Flow

Marcando a maior guinada sonora na curta carreira do quarteto, o experimental Flow surpreende ao apresentar teclados e sintetizadores em profusão (aqui, a cargo de Trond Nagell-Dahl) e com um papel fundamental nas composições, figurando-se como o registro mais variado da discografia, mas que ainda desapontou uma boa parcela de fãs devido a seus elementos eletrônicos. Eu sou da opinião de que a atmosfera que a banda criou em Flow é incrível, e que o quarteto conseguiu  renovar seu som sem abandonar o peso e a criatividade. A abertura com a fantástica “Gethsemane” é cativante, mas ainda tradicional, encontrando paralelo na melódica faixa-título (e seu ótimo refrão). “Angel (Come Walk With Me)” e “Tell Me When I’m Gone” vêm naquele estilo denso e arrastado, mas “A Virtual Lovestory” faz isso bem melhor, tendo elementos industriais na seção instrumental e efeitos na voz de Khan que dão à faixa o aspecto futurista que ela requer. O CD também contém as duas melhores baladas que o Conception já compôs: “Hold On” tem um aspecto orquestral singelo proporcionado por um clavecino e um quarteto de cordas, dando total suporte à ótima interpretação de Khan. Já “Cry” vai crescendo e dá mais espaço ao baixo, finalizando com uma linda guitarra floydiana de dar orgulho a David Gilmour. “Reach Out” e sua ótima bateria poderiam estar no disco antecessor, In Your Multitude, mas recebeu um “banho de loja” com a produção de Flow e agora se encaixa perfeitamente aqui. No estilo tradicional dos dois primeiros discos vem “Cardinal Sin”, em que o metal oitentista se encontra com camadas encorpadas de teclados. O álbum fecha com “Would It Be the Same“, onde os elementos de Flow se encontram de forma tão precisa que ela talvez seja a que melhor represente a sonoridade do registro.


Ingar, Arve e Tore no ProgPower IX (foto por: dslartoo)

Ingar, Arve e Tore no ProgPower VI (foto por: dslartoo)

Infelizmente, Flow foi o último registro do Conception. Diz a lenda que o quarteto se separou após a falta de suporte da Noise Records para uma turnê, onde esta, por motivos financeiros, tirou o Conception e favoreceu o Stratovarius, que ascendia na cena metálica com Visions. Tore Østby decidiu, então, focar-se no projeto Ark, enquanto que Roy Khan não demorou a entrar para o Kamelot. Ingar Amlien formou o Crest of Darkness, banda do estilo death metal onde segue firme até hoje, tendo tocado com o parceiro Heimdal no segundo disco de estúdio, The Ogress (1999; Roy Khan aparece em duas faixas), antes que o baterista se aposentasse da música. O quarteto se reuniu novamente apenas duas vezes: em 2005, na sexta edição do festival americano ProgPower, e na Noruega, no mesmo ano, para a celebração do 15º aniversário da revista Scream Magazine.



6 Comentarios

  1. Eudes Baima disse:

    Aprendendo com os jovens. Nunca ouvi falar. Lendo aqui, Ulisses.

  2. Marco Gaspari disse:

    Hehe… ler uma briga de dois fãs sobre o final da banda nos comentários à música Gethsemane não tem preço. Muito bom esse disco Flow e a banda também, mas que fique bem claro: Among the gods, do primeiro disco, é a melhor coisa que a banda gravou. Essa música é maravilhosa. Veleu, Ulisses.

  3. André Kaminski disse:

    A banda tinha um bom potencial, contava com boas composições embora faltasse aquela tida como “clássica” que a fizesse reconhecida por quem curtisse o estilo. Dos 4 álbuns, só não escutei o segundo. Não é aquela banda que vai te fazer suspirar e mesmo Khan ainda não era o “Khan do Kamelot” mas é uma banda que rola fácil aqui no meu som volta e meia.

  4. Marlos disse:

    Banda muito foda que nunca teve o devido reconhecimento, infelizmente.

  5. Christiano disse:

    Ótima banda. Uma pena o Roy Khan ter detonado sua carreira com o Kamelot.

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