And Then She Came – And Then She Came [2016]

14 de julho, 2016 | por Ulisses Macedo
Resenha de Álbum
8

And Then She Came

por Ulisses Macedo

Leitor, com que frequência você decide ouvir um disco após ser atraído por sua capa? O pessoal mais velho diz que era comum, há algumas décadas, ir à loja e comprar um disco só por causa da capa e, chegando em casa, torcer para que a qualidade da música correspondesse à das imagens. Entretanto, mesmo na era digital elas mantêm seu aspecto chamativo: a imagem aí de cima é simples, limpa, e tão inquietante quanto convidativa, o que logo me levou à banda que os apresento agora. Não demorei a topar com o clipe da faixa de trabalho, “Hellfire Halo“, que me puxou pelo braço com seu rock industrial de vocal feminino.

A banda é formada por Ji-In Cho (voz), Frank Stumvoll (baixo), S.C. Kuschnerus (bateria) e Olli Singer (guitarra). Conhece esses nomes? Os três primeiros vêm do Krypteria, grupo alemão de symphonic metal da década passada que entrou em hiato por tempo indefinido em 2012, devido à gravidez de Cho. O trio se reuniu novamente para conferir o trabalho de Frank na trilha sonora do filme Bad Trip (2015). As coisas fluíram e eles decidiram aproveitar o momento, mas sem se limitar a retornar ao Krypteria, preferindo começar do zero sonoramente. Olli, que já tocou com a antiga banda, completou o time. Em seu álbum de estréia, o quarteto contrasta a voz de Cho com guitarras pesadas e inserções de música eletrônica, soando próxima de grupos como Evanescence, Linkin Park e até um pouco do Disturbed de Asylum (2010).

And Then She Came

Frank Stumvoll, S.C. Kuschnerus, Ji-In Cho e Olli Singer

Para a minha surpresa, a banda até que consegue ser inventiva dentro desse manjadíssimo patamar. “Five Billion Lies” é uma ótima faixa de abertura, com riffs grooveados que brincam com versos sintetizados e até vocais guturais, proporcionados por ninguém menos que Alissa White-Gluz, amiga dos tempos de Krypteria. “Public Enemy #1” completa o ‘one-two punch‘ inicial surpreendendo novamente não só pela ótima pegada industrial, mas principalmente por intercalar estrofes em Alemão, Inglês, Espanhol e Francês com a maior naturalidade do mundo.

Na pesada “Spit It Out”, quem dá as caras é Jen Majura, atual guitarrista do Evanescence. A faixa é empolgante e bem desenvolvida, aproveitando os espaços criados pela atmosfera eletrônica gótica e pelas boas mudanças de andamento para inserir um breve solo de baixo e até uma críptica canção de ninar coreana – cortesia dos pais de Cho – após o solo de guitarra. Em seguida, já na metade do CD, vem a minha favorita: “Who’s Gonna Save You?”. Ela vai de um desenvolvimento eletropop a uma ponte com levada levemente reggae (!!!) e um refrão roqueiro, unidos com desenvoltura e harmonia assombrosas.

Ji-In ChoApós a direta “Like a Hurricane”, a banda nos dá um tempo para respirar com a única balada do registro, “I Carry On“, que tenta encaixar um piano e uma boa interpretação vocal em discretas batidas eletrônicas. O resultado é apenas agradável, e não impressiona em nenhum momento, mas pelo menos não exagera. “Find Another Way” (esta sim com MUITA cara de Evanescence) e a grudenta “Where Do We Go From Here?”, com o solo de guitarra mais melódico do CD, encerram um álbum sólido.

Em sua estréia com o novo projeto, o quarteto demonstra versatilidade na hora de compôr, o que os permitiu criar canções variadas e bem arranjadas como “Public Enemy #1” e “Who’s Gonna Save You?”. Por outro lado, a banda tenta emplacar algumas canções que não têm nem agressividade empolgante e nem arranjos criativos, apostando, ao invés, numa acessibilidade barata; é justamente o caso de “Why So Serious?” (que tem apenas um bom refrão) e “Find Another Way”. A edição de luxo vem com três faixas bônus, mas só as boas guitarras de “Would You Die Tonight?” valem a audição. A banda vai tocar com o Arch Enemy em festivais na Alemanha, Áustria e França, e tem até planos de lançar um DVD. Enquanto isso, irei aproveitar a deixa e conhecer melhor o Krypteria.


Tracklist:

 01. Five Billion Lies (feat. Alissa White-Gluz)Ji-In Cho
02. Public Enemy #1
03. Why So Serious?
04. Spit It Out (feat. Jen Majura)
05. Who’s Gonna Save You?
06. Like a Hurricane
07. Hellfire Halo
08. I Carry On
09. Find Another Way
10. Where Do We Go From Here?

Deluxe Edition:

11. If You Hate Me That’s Okay, But…
12. I Just Killed a Man
13. Would You Die Tonight?



8 Comentarios

  1. André Kaminski disse:

    Gosto do Krypteria e não conhecia este projeto. Gostei da faixa linkada. A voz da Cho tem o timbre típico daquelas cantoras orientais chinesas/japonesas (por que será, né?)que dá uma diferenciada legal nesse típico rock industrial.

  2. Alisson Caetano disse:

    “Leitor, com que frequência você decide ouvir um disco após ser atraído por sua capa?”

    Com muita frequência. Estou fugindo deste exclusivamente por conta da capa 🙂

  3. Marco Gaspari disse:

    Peço aos universitários que me ajudem: gostei da banda e da japonesinha (embora quanto mais eu ouço a Cho, mais eu gosto da Ono), mas não entendi essa classificação de rock industrial. Acho que é a idade, pois fico tentando comparar com o que eu ouvia (e só vou citar os mais audíveis) Ministry, Nine Inch Nails e Young Gods e picas, a distância é coisa pra sonda da NASA. Alguém pode esclarecer, por favor?

    • André Kaminski disse:

      Bem Marco, talvez porque eles também dão uma misturada com o metal gótico e industrial que faz com o que eles soem bem diferentes das bandas que citaste. Há também um termo novo que estão usando chamado “Modern Rock”, mas eu confesso que o evito porque eu mesmo não sei defini-lo com exatidão sobre a sonoridade desse estilo.

    • Alisson Caetano disse:

      Efeitos de estúdio, o ritmo intenso e cíclico da bateria (ritmo “bate estaca”, como alguns se referem), a produção digitalizada, efeitos nas vozes da moça e inclusão de teclados e sintetizadores para criação de ambientação nas faixas.

      Algumas bandas, como Nine Inch Nails e Young Gods, são mais incisivas no experimentalismo e vão pro lado avant-garde da coisa. O Ministry pira o cabeção mesmo. No caso dessa banda aqui, o termo industrial é completamente correto, mas o fazem de forma a complementar outros gêneros, como o hard rock e o gótico.

      Espero ter ajudado, Marco.

    • Eudes Baima disse:

      Acho esquisito é a denominação “rock industrial”…significa o que que os músicos são capitalistas ou operários?

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