War Room: Nick Cave & The Bad Seeds – Skeleton Tree [2016]

10 de outubro, 2016 | por Alisson Caetano
War Room
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Por Bernardo Brum [BB]

Participação de Alisson Caetano [AC] e Mairon Melo Machado [MM].

O último álbum dos Bad Seeds, Push The Sky Away, manteve em alta o nome de Nick Cave entre público e crítica, apostando em um rock alternativo com mais texturas que certamente diferiu do rock de garagem que ele vinha apostando em lançamentos como Dig, Lazarus, Dig!!! e os álbuns com o Grinderman. Porém, um fato que marcou a produção desse álbum foi o trágico falecimento de Arthur Cave, filho do frontman, aos 15 anos em um infeliz acidente. Muitas das letras então escritas foram alteradas, incorporando temas como perda, luto e morte. Não é a primeira vez que Nick escreve sob extrema influência de sua vida pessoal – Let Love In e The Boatman’s Call, escritos depois do término de relacionamentos são testemunhas disso – mas esse aqui tem algo de diferente e singular, incorporando influências eletrônicas, ambient e avant-garde, como estruturas musicais pouco habituais, elementos dissonantes, sintetizadores, bateria eletrônica e loops.


01. Jesus Alone

AC: Quando começaram os primeiros segundos dessa faixa eu já fui tomado por um arrepio na espinha. Sabia que a coisa aqui seria completamente o oposto da elegância do Push the Sky Away.

BB: Sim, enquanto Push the Sky Away tem um extremo cuidado, esse aqui é minimalista, visceral, muitas vezes com letras improvisadas. Esse assobio dissonante com as texturas eletrônicas são de dar um nó no estômago.

AC: O uso de spoken word pelo Nick Cave já não é novidade, mas aqui isso parece tomar proporções mais adequadas.

MM: Como não conheço muito bem a obra de Nick Cavem e o pouco que ouvi não gostei, comentarei apenas o que estou sentindo. Faixa sombria, agonizante, que parece ser uma introdução para algo muito mais tenso

BB: Me lembrou muito, em certo sentido, “Avalanche”, do Leonard Cohen, faixa que abre o clássico Songs of Love and Hate.

AC:You believe in God, but you get no special dispensation for this belief now“. Isso já é pra deixar qualquer um tenso.

BB: Apesar de parecer que a música vai explodir a qualquer momento, o que temos é o piano sendo introduzido de maneira quase imperceptível e deixando o que era sombrio bem melancólico.

MM: Pois é, não explode nunca. Sofrência total!

AC: Sabia decisão em deixar que o clima fosse mantido ao invez de ir para o caminho óbvio.


02. Ring of Saturn

MM: Clima continua para baixo, mas pelo menos, agora temos uma música. Diogo Bizzotto irá gostar dessa.

BB: Deu uma amenizada no clima rasgado da outra, com uma sugestão melódica servindo de cama para a spoken word acompanhada de backing vocals algo fantasmagóricos.

AC: Os vocais por hora viajam pela faixa, surgem deixando escapar trechos da letra para dar um tom cada vez mais sofrido.

MM: Esse estilo de vocal falado é próprio de grandes músicos, como Bob Dylan ou Bruce Spingsteen, e ficou bem para o clima pesado dessa faixa

AC: As programações são menos abrasivas, então o resultado é uma música que tem certo poder de abraçar o ouvinte.

BB: Warren Ellis é bem menos esquisito do que o Blixa Bargeld, mas é um parceiro ideal para essa fase contemporânea de Nick Cave, sabendo o caminho certo entre experimentalismo e barulho e melodia e sofisticação.


03. Girl in Amber

MM: Segue o clima sombrio. Nick Cave decide cantar agora, mas de forma amena e com muita dramaticidade. Ele devia estar em um momento de profunda dor nas gravações. A perda do filho se faz presente

BB: Agora ele começou de fato a cantar, para alegria (ou não) do Mairon hahaha.

AC: Essa interpretação e a cama de teclados e sintetizadores é talvez um dos momentos mais fortes do registro todo. “And if you want to leave, don’t breathe“, o refrão é fantástico…

BB: Sim. O cara tá escolado já em como dar um tapa fortíssimo na nossa cara com uma leveza impressionante. A voz grave dele é um grande contraponto aos teclados e cordas mais suaves.

MM: Agradável faixa, com um bom clima de sintetizadores.

AC: É uma faixa extremamente triste e sofrida, mas daquelas que adoramos ouvir pra sofrer com qualidade.

BB: A primeira vez que ouvi o disco os backing vocals nem sempre pareceram casar, mas acho que era meio a ideia. No clima mais moderno, tem alguns elementos mais tradicionais que parecem ecoar de dentro de uma gruta ou igreja antiga.

AC: Como algo a parte do próprio disco, talvez.

BB: Exato.


04. Magneto

AC: Essa traz de volta um clima mais abrasivo. Notem os loops e o baixo nessa faixa.

MM: Cara, que viagem. Se esse disco é executado na casa de um possível suicida, a possibilidade irá se tornar real logo em seguida. Disco muito triste – não do sentido de ruim, que isso fique claro.

BB: Parece casar com a “Jesus Alone”. O avant-garde e o post-rock assentaram o pé de vez na sonoridade de Cave. O agudo corta, o grave ruge… E o piano faz uma terceira coisa , alheio, triste, lamurioso. Muito louco esse casamento.

AC: Algo que fica na minha cabeça é que em alguns momentos do disco, instrumentos tentam encaixar algo de mais comum e tradicional, mas sempre ficam encobertos em segundo plano pelas programações pesadas. Notem que há um piano e um violão ao fundo, mas que nunca tomam a dianteira no conceito do disco. O show aqui é do avant-garde nas programações.

BB: Curioso notar que hoje os discos dele não tem meio termo, ou é uma barulheira desgraçada ou é música mais solta, experimental e confessional tipo essa.

MM: Estou percebendo isso Alisson. É uma presença muito sútil de piano e violão, quase imperceptível, já que a voz sombria do Nick e as camadas de sintetizadores toma conta.


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05. Anthrocene

AC: Ainda seguindo o que disse lá atrás, a bateria jazzística solta batidas pela música, mas ela vai e volta, sempre mantendo-se na tangente.

MM: Apesar da bateria tentar criar um ritmo para a canção, a tristeza e agonia toma conta. Gente, ainda bem que hoje estou tranquilo, por que se pega esse disco em um dia de tristeza, puta merda, estaria banhado em lágrimas. Que letras doloridas, barbaridade.

BB: O título é uma variante do termo científico “Anthropocene”, que significa “a era do homem”. A letra fala além da dor pessoal, também sobre o homem e seus efeitos sobre a terra. Acho que é um dos momentos mais apocalípticos de Cave.

MM: A letra é pesada demais cara. De cortar os pulsos.

BB: A bateria “briga” para compartilhar espaço com o piano e a eletrônica. Junto com a letra, se ele quis criar uma letra incômoda e reflexiva, conseguiu. O resultado é perturbador. Uma letra incômoda = uma música incômoda *

MM:All the things we love, we love, we love, we lose; It’s our bodies that fall when they try to rise“. Arrepios demais.

BB:Well, I heard you been out looking for something to love
Close your eyes, little world
And brace yourself“. Que puta letrista.


6. I Need You

AC: Nick claramente está abalado nessa faixa. A letra dispensa comentários, a meu ver.

MM: Vou permitir-me apenas sentir essa faixa. Muito linda a interpretação do Nick.

BB:Nada mais importa quando aquele que você ama foi embora“. Essa, junto com a abertura, é a que mais toca no tema morte e perda.

AC: A coisa que mais se ouve na faixa: “Nothing Really Matters”. Isso só já diz muito a respeito do momento que o Nick Cave passou.

BB: Essa é talvez a minha favorita do álbum. Nem ligo se é a mais careta, mais quadrada. É uma balada sombria inspiradíssima que rasga a alma.

AC: e talvez seja o momento mais “comum” de todo o disco. Girl in Amber ainda tá num pedestal pra mim.

MM: É o melhor momento do álbum, com certeza. Adoro quando o artista se entrega para a música, e se o resultado for bom, é perfeito.

BB: Não sei se tô viajando, mas ele nitidamente parece chorar quando chega lá pro final… “Just breathe, just breathe, I need you, I need you“.

AC: Acredito que sim…. Nossa…

MM: Linda!

BB: Rapaz, só ouço esse CD de novo depois de ver um episódio de Chaves, ouvir piadas do Ary Toledo…


07. Distant Sky

AC: Faixa que ele divide os vocais com a Else Torp.

MM: Poxa, o Bernardo hoje está querendo me levar às lágrimas né.

AC: O que essa mulher interpreta também é impossível descrever em palavras. “Let us go now, my darling companion / Set out for the distant skies“.

BB: Sim, soprano dinamarquesa que participa do Theatre of Voices que canta de música barroca a contemporânea, de Schutz a Stockhausen.

AC: Como não chorar com a mulher cantando esses versos nessa voz maravilhosa?

BB: Aí vocês me permitem o exagero, natural ela cantar com o Nick Cave, um dos grandes músicas e compositores vivos, hehe.

AC: Sem exagero algum, Nick Cave já deve ter na discografia pelo menos uns 8 clássicos incontestáveis.

BB: Não sei nem o que interpretar da letra, pra te falar a verdade, mas é tão doída quanto bonita. O contraponto que as vozes dos dois armam parece desenhar uma história sonora, atmosférica…

AC: Provavelmente seja a faixa onde ele fale diretamente sobre o filho q ele perdeu

BB: Essa poderia estar no Push The Sky Away, pela delicadeza e sofisticação nos arranjos. Esses tem uma sonoridade meio “celestial”.

AC: o último trecho dela é o q me deixa essa impressão.

MM: Daí já é exagero, com certeza. O pouco que conheço do Nick Cave não gostei. Esse álbum me faz sentir muitas emoções tristes, e gostei disso

BB: Sim… E talvez uma conotação mais religiosa, espiritual… Contrapõe com o clima quase ou completamente niilista de muitas das primeiras faixas.

AC: Sobre se encaixar no Push the Sky Away, acho difícil, pois mesmo mais sofisticado, aquele disco tinha um “calor” diferente.


8. Skeleton Tree

MM: Outra faixa com ritmo leve, mas ainda assim triste. Pronto Bernardo, você conseguiu que uma lágrima brotasse do meu olho esquerdo …

AC: E a faixa também encerra de maneira certeira o disco. Não dá pra imaginar alguma outra faixa finalizando o registro a não ser essa. Mesmo deprê e coisa do tipo, ela finaliza o disco com algo de esperança, em uma nota mais alta.

MM: Sim, é perceptível isso. O encerramento traz a sensação de que apesar de muita dor, deve ser superado esse momento e bola pra frente.

AC: Ele se lamentou em “I Need You”, encarou as perdas em “Distant Sky” e parece aceitar tudo e seguir a diante com a vida.

BB: Pra mim “I Need You” leva o disco para outra direção: antes, ele estava niilista, visceral, rasgado e improvisado, com loops, eletrônica, bateria e spoken word comendo solto. Agora que chegamos na faixa-título e encerramento do álbum, as composições ficaram mais tradicionais, mas ainda magistralmente executadas. De uma sensibilidade ímpar. A melodia do piano é algo a se destacar também: infunde esperança na canção, e sinto até os vocais mais leves, menos soturnos.

AC: Isso tudo eu to deduzindo apenas pela forma como os instrumentos parecem mais vívidos.

MM: Bela faixa de encerramento

BB: Sim, e mais alinhados, conversando entre si… Agora parece algo ensaiado, e não um “falatório” desgovernado. Cave provando que sabe nos atingir dos dois jeitos.


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Considerações Finais

MM: Conforme disse anteriormente, não sou um grande apreciador da obra de Nick Cave. Esse álbum em especial não me tornou fã do homem, mas confesso que pelo menos ganhou um espaço de respeito na minha lista de músicos que não comprarei discos, mas respeito ele. A profundidade das letras e o peso climático do instrumental é de arrepiar, e facilmente irá levar depressivos às lágrimas. Um dos grandes lançamentos de 2016 que ouvi até o momento, e agradeço ao Bernardo pela oportunidade.

AC: Que David Bowie me perdoe, mas o topo do ano é do Nick Cave. Provavelmente este seja um dos discos mais sentimentais sobre perda e encarar os desafios e revés da vida. Me lembro facilmente que no começo do ano eu proferi que desejava que surgisse algum disco tão forte, impactante e com alguma mensagem a me dizer, quanto Blackstar. Pois aí está ele. Obrigado, Nick Cave.

MM: Bah, David Bowie não irá perdoá-lo e discordo de ti. O primeiro lugar é dele, pois em termos de o mais sentimental sobre perda e encarar os desafios e revés da vida, o Bowie teve que fazer sobre ele mesmo. É difícil narrar a perda de um filho, mas narrar sobre a própria morte é muito mais difícil. E isso, Bowie fez com superação e toda a magia que ele tinha.

AC: Isso eu falo por mim, claro. Ambos me tocaram de maneira absurda, mas o Skeleton Tree falou comigo de uma maneira mais… intensa. Não sei explicar, só sentir.

BB: Te falar que pra mim, não chega a figurar como um “clássico” BadSeediano – o último talvez na minha opinião seja a dupla Abbattoir Blues/The Lyre of Orpheus de 2004. Mas, ainda assim, se tornou um disco especial a ser ouvido, tão impactante quanto o Blackstar de David Bowie. Se em um ouvimos o Camaleão se despedindo de nós, aqui ouvimos Nick Cave se despedindo de um ente querido, em busca de fazer as pazes com seus demônios. Ainda que não venha fazendo trabalhos com a atmosfera grandiosa de antigamente, ele continua surpreendendo e provando o compositor, experimentador e intérprete de mão cheia que é, sabendo aliar barulho e harmonia para compôr um disco sobre sentimentos sombrios que ninguém quer encarar. Resta a gente desejar nossos pêsames e agradecer por fazer algo tão íntimo, que tanto dissesse sobre a alma de um artista e de um indivíduo. Belo e sombrio ao mesmo tempo, o que o configura como um dos melhores discos do ano – e da década, talvez?

MM: Gostei do álbum mais do que o The Boatman’s Call, e bem mais que o terrível Murder Ballads. Quem sabe quando eu ficar velhinho eu passe a correr atrás da obra do homem.

BB: Recomendo ouvir o início da carreira, Mairon: Tender Prey, Let Love In, The Good Son, Your Funeral… My Trial, Henry’s Dream, From Here To Eternity… Tudo de muito bom a obra-prima.

AC: Your Funeral… My Trial é legal se você gosta de post-punk. A primeira fase dele toda, na verdade.

BB: E o disco de covers Kicking Against The Pricks, onde ele canta desde blues antigo e Johnny Cash, passando por Velvet Underground e chegando em Gene Pitney.



13 Comentarios

  1. Marco disse:

    Sempre três participantes. Sugiro mudar o nome da seção para Ménage a Trois.

  2. Eudes Baima disse:

    Ainda não ouvi…gosto muito de Nick e dos Bad Seeds.

  3. Igor Maxwel disse:

    Pensei que o War Room desse mês iria trazer “Powerslave” do Iron Maiden, que eu sempre venho comentando…

    • Alisson Caetano disse:

      Vai pedindo, cara. UM DIA, quem sabe, a gente resolve fazer… Mas não espere muito não 🙂

    • maironmachado disse:

      O IRon já teve um War Room. Dificilmente terá outro

      • Igor Maxwel disse:

        Sim chefão, eu sei disso. O War Room de The Number of the Beast ficou meia-boca pela ausência de “Total Eclipse”, e a minha sugestão para um War Room com Powerslave será para compensar esta falha.

    • Igor
      A intenção do War Room é apresentar um disco que as pessoas ou não conhecem ou ouviram muito pouco. Tenta reviver aquela sensação que tínhamos quando pegávamos um disco pela primeira vez, colocávamos para tocar e ounvíamos junto dos amigos. A medida que o disco iria rolando nós fazíamos nossos comentários sobre essas primeiras impressões. Um disco como Powerslave, que todos já ouviram diversas e diversas vezes não fariam muito sentido nessa coluna. Entende?

  4. José Leonardo G. Aronna disse:

    Nick Cave = Gênio! Comprei esse disco, mas ainda não o recebi. Sou fã desse cara. Tenho todos os seus discos, incluindo alguns singles e videos! Mestre!!

    Infelizmente seus discos pararam de ser lançados em edição nacional já faz algum tempo.
    Lembro-me bem que ele tocou de graça, aqui em Porto Alegre, em 1993, na Usina do Gasometro.

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