David Bowie – ★ (Blackstar) [2016]

3 de dezembro, 2016 | por maironmachado
Resenha de Álbum
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Por Mairon Machado

Quando ouvi ★(Blackstar) pela primeira vez, tive um choque muito grande. O disco me impactou pela sua profunda depressão, seus tons soturnos, para baixo, de muita depressão, e mais curioso ainda, ouvi exatamente no mesmo dia em que Bowie encerrava seu ciclo na Terra, em um domingo chuvoso, durante uma viagem de carro entre Foz do Iguaçu e São Borja. Naquele domingo do dia 10 de janeiro de 2016, depois que ouvi as sete faixas do álbum, decidi que ia dar um tempo ao mesmo, e quando acordei no dia seguinte, e soube da morte de Bowie, definitivamente não quis mais ouvir ★ .

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A “Árvore da Vida Cabalística”, influencia direta na carreira de Bowie

Lançado três dias antes da morte de Bowie, ★ torna-se uma caça de referências para a vida e obra do artista, em um som que em nenhum momento nos lembra o lado acessível de The Next Day (2013), e como disse o produtor Tony Visconti em entrevista à Rolling Stone: “O objetivo era evitar o rock and roll”, sendo uma experiência que vai do jazz ao rap, permeando diversos estilos conflitantes entre si. Quem é fã de Bowie e conhece bem sua obra, certamente irá perceber que as canções trazem enigmas sutilmente, envolvendo praticamente toda a carreira de Bowie.

O camaleão sempre foi um seguidor do ocultismo, tendo declarado, em 1976, que era interessado na Cabala, na egiptologia, no misticismo e na obra de Aleister Crowley.

Muito de sua obra e personagens está ligada a isso, desde a criação de Major Tom (1969), o astronauta lançado ao espaço e cujo destino ficou incerto por mais de trinta e cinco anos, sendo revelado apenas em ★, passando por Ziggy Stardust, totalmente repleto de misticismo por trás de sua história, encerrada como Ziggy sendo um salvador enviado de um nível superior (no sentido contrário ao de Major Tom, que saiu da Terra e foi pro espaço), que acaba sacrificando sua própria vida, e chegando em Thin White Duck, o mais pesado dos níveis ocultos de Bowie, com a faixa-título sendo uma representação da viagem que o cantor poderia fazer pela chamada Árvore da Vida Cabalística.

Bowie desenhando a árvore cabalística

Bowie desenhando a árvore cabalística

Segundo o próprio Bowie, em uma entrevista para a Q Magazine em 1997, “‘Station to Station’ é relacionada com as estações da cruz e todas as referências dentro da peça têm a ver com a Cabala. É o álbum mais próximo de um tratado de magia que eu escrevi“.

A simbologia é tamanha que uma das imagens clássicas de divulgação do álbum é Bowie desenhando a Árvore da Vida Cabalística.

E o que isso importa para ★? Bom, o artista reuniu essas e outras informações em uma única faixa, a própria faixa-título, em uma tentativa de oferecer/simbolizar uma palavra final de um Deus na Terra para os seus súditos/fãs. O vídeo da canção, lançado em novembro de 2015, deu sinais claros sobre a morte de Bowie, mas acredito que nenhum fã – e me incluo nisso – percebeu o mesmo assim tão explicitamente. A faixa-título é responsável por abrir os trabalhos do disco, tendo como centro de tudo: um ser humano se tornando um Deus. A palavra “Blackstar” refere-se a um conceito oculto importante: o Sol da Meia-Noite.

Capa do CD

Capa do CD (a que ilustra o post é a capa do LP)

Antes, vale lembrar que além de Bowie, temos Donny McCaslin (flauta, saxofone, instrumentos de sopro), Ben Monder (guitarra), Jason Lindner (piano, órgão, teclados), Tim Lefebvre (baixo), Mark Guiliana (bateria), James Murphy (percussão) e os arranjos de Tony Visconti. Passando para “★(Blackstar)” a música, ela surge soturnamente, com notas de piano, a voz repleta de efeitos, bateria eletrônica e um ambiente muito soturno, que impacta de cara para quem saiu de um disco tão para cima quanto fora The Next Day. Aos poucos, os eletrônicos vão tomando conta da canção, e Bowie canta de forma fantasmagórica, até que surge o brilhante saxofone de McCaslin, solando de forma desgovernada, sendo esse mesmo saxofone a principal marca do disco em si, já que ele está presente em todas as canções.

O ritmo eletrônico continua, enquanto Bowie repete as mesmas estrofes, dando ainda mais espaço para o saxofone fazer improvisos que agradariam com certeza ao gênio John Coltrane, mas repentinamente, tudo se transforma, a canção muda de direção, os teclados ganham espaço e Bowie, com sua voz aguda, dos tempos da era glam, passa a referir-se a própria morte, referindo-se ao seu corpo sem espírito sendo tomado por uma “estrela negra”, em uma alusão a ser “tomado” por um ser misterioso, a Estrela Negra, analogia com a Bíblia hebraica, quando Deus responde “Eu sou o Grande Eu Sou”, no momento que Moisés perguntou seu nome.

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O pregador

O ritmo dançante da faixa contrasta com o clima de apreensão que se ouve nos primeiros quatro minutos, e aos poucos, saxofone, guitarra, sopros e vocalizações tomam conta da canção, em uma genial combinação sonora que nos leva a um espaço paralelo onde sobrenaturalmente somos carregados para o início da canção, em um andamento ainda mais soturno, unindo elementos orientais, clássicos, flautas e uma guitarra singular aos vocais agonizantes de Bowie que encerra os dez minutos mais fantasmagóricos (e surpreendentes) de toda a carreira do Camaleão.

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A caveira de Major Tom

Concentrando-se no clipe de “★”, ele é um assombro para os fãs, principalmente pela quantidade de imagens surreais relacionadas com sua carreira. Logo de cara, temos um astronauta morto, ou seja, descobrimos o final de Major Tom. Uma moça abre o capacete do astronauta e encontra um crânio ornamentado, que é reverenciado como uma espécie de artefato dos deuses, transmitindo uma energia que coloca as pessoas do planeta onde o astronauta caiu em transe, sacudindo o corpo e executando uma espécie de ritual sexual.

No decorrer do clipe, três espantalhos crucificados movem os quadris sugestivamente, e a combinação de magia sexual com a distorção da crucificação de Cristo dá ao vídeo uma forte direção “Crowleyiana”. O número três aparece também no número de personagens interpretados por Bowie, os quais são o “seguidor cego” com botões ao invés de olhos, representando o homem simples, o pregador propagando o “Livro de Blackstar”, e o “malandro flamboyant”, que toma conta do corpo envelhecido de Bowie, responsável por cantar e dançar ao longo do vídeo a canção que estamos tratando.

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O seguidor cego

Por isso, o vídeo retrata as várias fases associadas com o conhecimento oculto. Há aqueles que estão em contato direto com a sua “verdadeira fonte” enquanto as massas cegas são fascinadas por uma versão bastarda da mesma, vendida por figuras carismáticas. David Bowie indica que ele é, simultaneamente, um homem simples, cego e um iniciado oculto – um “Blackstar”.

Chegamos em ”Tis a Pity She Was a Whore”, uma das melhores faixas de ★, com um ritmo acelerado do baixo e da bateria, em um pique contagiante, onde o saxofone é o principal instrumento a solar de modo efusivo, repleto de improvisos, enquanto Bowie conta a horrenda história dos irmãos que se relacionam sexualmente, mas a mulher acaba sendo assassinada por ele. A faixa saiu como lado B de “Sue (Or In a Season of Crime)”, no final de 2014, e ambas são inspiradas pela peça “Sue (Or In a Season of Crime)”, de John Ford.

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Bowie resgatando a roupa de Station to Station. Simbolismo importante no clipe de “Lazarus”

O segundo clipe do álbum é “Lazarus”, uma sequência para “Blackstar”, que parece saída de algum disco do U2 no início dos anos 80, por conta do riffzão de baixo de sua introdução. Porém, a entrada da bateria, do saxofone e das intervenções de guitarra nos traz uma faixa sensacional, na qual Bowie se autorretrata como Lázaro, aquele personagem bíblico que morre e é ressuscitado por Jesus, dizendo que está no paraíso, lá em cima, com cicatrizes que não podem ser vistas, e ao final, que estará livre no céu como um pássaro azul.

A instrumentação é magnífica, em outra faixa que encanta de cara, com o crescendo feito ao longo da magistral interpretação de Bowie, até atingir o clímax com o fantástico solo de saxofone, sendo candidato a uma das melhores criações musicais dessa década. O encerramento lento, agonizante, com um tímido solo de baixo, é para levar às lágrimas facilmente.

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O seguidor cego, presente novamente no clipe de “Lazarus”

O doloroso clipe de “Lazarus” apresenta Bowie deitado em uma cama de hospital, e ao longo dele, são interpretados os mesmos personagens que os de “★”, com o “seguidor cego”, representando um velho fisicamente fraco, em seu leito de morte e com medo do que está por vir. O jovem Bowie surge com um traje que refere-se a uma relíquia específica de seu passado, e no caso, Bowie usa a mesma roupa da época de Station to Station, no qual ele está desenhando a Árvore da Vida Cabalística. O flamboyant escreve desesperadamente, como possuído por uma força superior, que simboliza o fato de Bowie ter afirmado que Station to Station foi escrito por uma pessoa totalmente diferente.

O crânio cravejado de “★” surge em um canto, implicando em algo que podemos associar com o fim do corpo físico perante a doença física, mas que suas memórias, sua inteligência, irá preservar-se sempre. Por fim, o vídeo termina com Bowie entrando em um armário e fechando a porta, uma despedida do mundo físico, e transmitindo uma mensagem importante: Bowie era um vaso para algo maior, algo mais profundo, algo mais escuro, e algo mais profundo do que a maioria já percebeu. Alegando ser o “Eu sou o Grande Eu Sou”, esse Ser deu a Bowie inspiração para se tornar um ícone imortal e levar seus fãs a apoiarem a declaração de que “Bowie é Deus”.

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O compacto de “Sue”

“Sue (or In a Season of Crime)” foi a faixa principal do single de 2014, e é mais uma inspiração eletrônica, similar a faixas de Earthling e Heaten, onde a melodia repetitiva e circular, sem nenhum refrão e com a voz fantasmagórica de Bowie, renega qualquer acessibilidade que pudesse ser ouvida em The Next Day, parecendo uma trilha de um filme frenético de algum alucinado trancado em um quarto branco. Uma viagem que poucos conseguem criar, onde as intervenções de guitarra e saxofone são de arrepiar.

Vale lembrar que a versão que está aqui não é a mesma do compacto, assim como “Tis A Pity She Was A Whore”.

Para quem curte um pouco de esquisitice Bowiana, “Girl Loves Me” é uma pepita de ouro. Aqui, Bowie utiliza-se do dialeto ficcional Nadsat, aquela icônica mistura de inglês e russo imortalizada no livro (e filme) Laranja Mecânica, para cantar algumas frases sobre um ritmo eletrônico e cadenciado, que martela sua mente por um bom tempo.

★ segue com a baladaça “Dollar Days”, através de uma linda melodia ao piano, lembrando canções da fase soul de Bowie, com destaque novamente para a belíssima interpretação do saxofone em solos embasbacantes. É uma faixa simples perto das demais, com a força de uma letra onde Bowie grita: “Estou tentando, Eu estou morrendo também …”, “Engravate os pescoços, eu estou caindo”, e ainda “Está tudo indo de mal a pior”. Uma letra sofrida encaixada com maestreza em uma linda faixa, que nos conduz ao final com a emocionante “I can’t Give Everything Away”.

Donnie McClasin, um dos principais nomes instrumentais em Blackstar

Donnie McClasin, um dos principais nomes instrumentais em ★

Quando ouvi essa faixa pela primeira vez, dentro do meu carro na viagem citada no início do texto, tive um arrepio em toda a espinha, que só podia ser um aviso do que iria acontecer no dia seguinte. O início com o breve trecho de “A New Career in a New Town” (Low – 1977) através da harmônica, e todas as indiretas que o disco vinha me dando até então, me fez ver com olhos vívidos que Bowie sim estava se despedindo, para seguir uma nova carreira em uma nova cidade. Na medida que Bowie surge comentando sobre “caveira sob os sapatos”, “Corações enegrecidos e flores”, e “eu não posso dar tudo sempre”, vamos ouvindo a despedida do maior artista popular do século XX, e um dos maiores da história, acompanhado de um sensacional instrumental onde a guitarra é a bola da vez.

Depois que o disco encerra-se, não sabemos o que fazer. O álbum parece ser meticulosamente planejado para transformar sua morte em uma obra de arte, unindo momentos ímpares da carreira do Camaleão em um tom de despedida dolorido e enigmático. Se você não é um fã aficcionado de Bowie, não irá perceber de cara essas indiretas e diretas que ★ tem, e talvez ache o disco apenas regular, ou mais do mesmo. Mas quando se tem o choque de perceber que seu ídolo está se despedindo através de uma música, enquanto você criava esperanças de vê-lo ao vivo em breve, e no dia seguinte, acorda com a notícia de que ele realmente morreu, o mundo desaba.

Bowie no encarte de ★

Bowie no encarte de ★

Lembro que chorei bastante no dia 11 de janeiro de 2016, por ter perdido um ídolo que nunca vi pessoalmente, pelo sentimento triste de saber que ele estava doente e desejou parar de sofrer as dores de um câncer que não tinha cura, mas principalmente, por ter ouvido sua despedida um dia antes, e não ter acreditado que aquilo era real. Por isso abandonei ★por algum tempo, para poder assimilar suas letras, sua criação, e poder hoje agradecer à Bowie por ter se despedido de forma tão ímpar e bela.

O tempo curou as feridas da perda desse gênio da arte, e através desse disco fantástico, fica a sensação para os fãs não se lembrarem de Bowie como apenas um cantor, mas para explorar toda sua arte e grandeza eternamente.

Contra-capa do LP

Contra-capa do LP

Track list

1. ★
2. ‘Tis a Pity She Was a Whore
3. Lazarus
4. Sue (Or In a Season of a Crime)
5. Girl Loves Me
6. Dollar Days
7. I Can’t Give Everything Away



12 Comentarios

  1. Mairon matando a pau novamente.
    “…transformar sua morte em obra de arte”. Acho que isso define perfeitamente Blackstar.
    O que mais me dá curiosidade é saber qual era o clima dessas gravações. Fico imaginando o sentimento da banda que o acompanhou nesses últimos momentos. Afinal pela composições e o teor da letras deveria estar claro que ele não resistiria muito tempo. Isso deve ter impactado demais esses músicos.

    • maironmachado disse:

      Valeu Fernando. Eu li poucas declarações dos músicos – até por que poucos quiseram falar – mas do que li, muitos falavam que quase não tiveram contato com Bowie nos estúdios, sendo que boa parte do material já chegava pronto. Talvez imaginasse o que viesse pela frente, mas não de forma tão direta. Prometo que vou dar uma pesquisada mais, até por que hoje, já se passou quase um ano da morte de Bowie, e novos fatos podem ter surgidos, mas não me foquei nessa pesquisa

  2. Marco disse:

    Muito legal, Mairon. Só gostaria de saber se essas interpretações foram frutos de pesquisas ou se você incorporou algum exu e mandou bala, hehe…

    • maironmachado disse:

      Marco, eu tive essa interpretação na primeira audição. Depois, pesquisei bastante para conseguir montar um texto. Existem vários artigos que tratam sobre essa simbologia do Blackstar. Um bom (em português) é esse aqui, no qual baseei-me um pouco

      http://danizudo.blogspot.com.br/2016/01/o-universo-oculto-de-david-bowie-e-o.html

      • Marco disse:

        Pois é, eu já tinha visto esse link uma vez, mas não me chamou muito a atenção. Achei meio sensacionalista em um primeiro momento e desinteressei. Parece que não é, afinal. Mas o que me chamou a atenção é que nem você nem o pessoal do link gastaram uma única linha sobre o mais óbvio dos simbolismos do vídeo: o eclipse. Ele significa para a maioria dos povos antigos (que é de onde, afinal, vem todo esse misticismo) um sinal de mau agouro para acontecimentos funestos. É o desaparecimento da luz ou “a morte do astro”. Na música pop, o desaparecimento da luz de David Bowie significou sua morte, a morte do astro. M.E.D.A!

  3. Marcel disse:

    Excelente texto Mairon, parabéns! Demorou quase um ano pra eu ler uma resenha digna do disco.

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