Discografia comentada: Darryl Way’s Wolf

19 de fevereiro, 2017 | por Christiano Almeida
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Por Christiano Almeida

Não é exagero dizer que a década de 70 foi um dos períodos em que a criatividade musical pôde se manifestar com grande liberdade e ousadia. Ao mesmo tempo em que o Black Sabbath solidificava as bases do que viria a ser conhecido como Heavy Metal, nomes como Emerson Lake & Palmer e Jean-Luc Ponty traziam influências diretas de música erudita e jazz para o rock, um estilo que se fortalecia em função dessas fusões muitas vezes inusitadas. O núcleo tradicional de uma banda, expresso pela santíssima trindade Guitarra, Baixo e Bateria, não era nem um pouco conservador, abrindo-se às mais diversas experimentações. Por conta desse espírito aglutinador, o Jethro Tull inseria solos de flauta em suas músicas, o ELP substituía as guitarras distorcidas por teclados e uma banda como o Curved Air atribuía um papel de grande destaque ao violino, empunhado por Darryl Way.

Foi no Curved Air que Darryl fez sua estréia em uma grande banda. Músico prodígio, aos 16 anos já se destacava como um ótimo violinista, o que lhe rendeu a oportunidade de estudar no Royal College of Music. Foi nessa época que conheceu Francis Monkman, um tecladista/pianista que tinha estudado naquela mesma instituição. Monknan convidou Darryl para integrar sua banda, Sysiphus, que viria a se tornar o Curved Air, onde os dois gravaram 3 discos: Airconditioning [1970]; Second Album [1971] e Phantasmagoria [1972]. Mesmo com o reconhecimento tanto do público quanto da crítica, o grupo passou por uma crise interna que culminou na saída de Darryl e Monkman, que resolveram seguir com novos projetos. É nesse contexto que surge o Darryl Way’s Wolf, uma espécie de caminho solo de Darryl Way que acabou se transformando em sua nova banda.  Mesmo tendo registrado somente 3 discos, essa nova empreitada deixou um respeitável legado.


Canis Lupus [1973]

Quando abandonou o Curved Air, Way decidiu formar um grupo que fosse um pouco mais pesado que sua antiga banda. Para isso, uniu-se a músicos que, embora não fossem renomados, possuíam grande habilidade em suas funções. Dek Messecar, o baixista, foi o primeiro a ser recrutado. Para as guitarras, ele chamou John Etheridge. A formação seria completada pelo baterista Ian Mosley, que tinha participado do musical Hair.

Com uma banda estabelecida, partiram em busca de uma gravadora. Assinaram com o selo progressivo DERAM, um braço da DECCA Records. Já no estúdio, contaram com a ajuda do produtor Ian McDonald, flautista e saxofonista do King Crimson. Embora a intenção inicial de Way fosse investir em uma sonoridade um pouco mais “rock” que o Curved Air, seu primeiro registro com o Wolf não parece tão distante do que ele fazia em seu antigo grupo, pelo menos em relação ao peso ou mesmo à concisão das composições. Pelo contrário, as influências de jazz rock aqui são bastante latentes, com arranjos elaborados e destaque para as seções instrumentais. É interessante notar que as músicas que contam com os ótimos vocais de Dek Messecar, o baixista, foram agrupadas do lado A do vinil, enquanto o lado B foi totalmente dedicado às faixas instrumentais. “Void” abre o “lado cantado” do disco, e logo fica claro que além de ser um ótimo baixista, Messecar tinha também uma bela voz. A pegada mais pesada de Ian Mosley costura os vários arranjos de guitarra, teclado e violino. Aliás, logo nessa primeira faixa, fica evidente o talento do guitarrista John Etheridge, com suas inserções pontuais e inesperadas. “Isolation Waltz” chama a atenção pela dobradinha entre Way e Etheridge, que estão em perfeita sintonia. “Go Down” é uma balada com um ótimo solo de violão meio inspirado em música flamenca. “Wolf”, a última do lado A, traz um bom riff de teclado e Ian Mosley criando uma levada próxima ao um arranjo de jazz fusion.

O lado instrumental inicia com “Cadenza”, uma clara demonstração da virtuose de Darryl Way, que sola durante toda a faixa. “Chanson Sans Paroles” flutua entre partes leves e algumas explosões, num perfeito alinhamento entre o jazz e o rock. “McDonald’s Lament” encerra o álbum, com a banda fazendo a cama para as viagens do violino de Way.

Já nesse primeiro disco, fica evidente que estamos diante de um grupo de músicos inquestionavelmente competentes, além de grandes arranjadores.

No relançamento feito pela Esoteric Records, são oferecidas duas faixas bônus, sendo que uma é a versão editada de “Wolf” e a outra é “Spring Fever”, até então lançada somente como single, e uma das melhores do disco.


Saturation Point [1973]

Ainda que Dek Messecar fosse um grande vocalista, esse segundo álbum é predominantemente instrumental, com apenas duas faixas cantadas. Essa aposta, encabeçada por Darry Way, não rendeu bons resultados comerciais para a banda, o que não diminui o êxito artístico alcançado nesse trabalho. Definitivamente, Saturation Point não é um disco de fácil assimilação, pois exige tempo para ser compreendido. Logo na primeira faixa, “The Ache” fica claro que estamos diante de um trabalho um pouco diferente do que foi desenvolvido no primeiro disco. Os músicos estão mais integrados e os arranjos esbanjam um virtuosismo que não chega a cansar. As referências ao jazz fusion são claras. “Two Sisters”, uma das únicas a apresentar os vocais de Messecar, destoa do restante do disco, visto que é construída sobre uma melodia um pouco mais simples, com suas vocalizações que lembram grupos Pop/Rock da década anterior. “Slow Rag” é um dos melhores momentos de todo o álbum, sendo que John Etheridge rouba a cena. É impressionante a sofisticação do guitarrista. Isto fica ainda mais descarado em “Market Overture”, que encheria de orgulho (ou inveja) o Jeff Beck da fase Blow By Blow [1975]. “Game of X” é a segunda e última faixa a contar com a voz de Messecar, que aqui faz somente esparsas vocalizações. “Saturation Point”, que dá nome ao álbum, é uma das melhores do disco, abertamente inspirada em arranjos jazzísticos. O encerramento fica por conta de “Toy Symphony”, mais pesada que as demais e também a mais longa de todo o álbum.

A perícia instrumental e a ousadia de gravar um trabalho praticamente sem vocais não foram suficientes para alcançar boas vendas. Tendo isso em vista, Darryl Way e CIA resolveram tentar algo diferente em seu próximo disco.


Night Music [1974]

Visando reverter os resultados alcançados com Saturation Point, a banda recrutou um vocalista que fosse capaz de contribuir com uma sonoridade agora voltada para algo próximo de um Hard Rock mais direto. O escolhido para a vaga foi John Hodkinson, que até então vinha atuando com o grupo de jazz rock “If”. A chegada de Hodkinson deu uma nova cara ao Wolf, sendo figura chave na gravação daquele que é tido por muitos como o melhor disco do grupo.

As longas viagens instrumentais deram lugar a arranjos igualmente refinados, só que agora mais diretos, com o predomínio da bela voz de Hodkinson e claras pretensões de aproximação com o Hard Rock.  Ao dar o play em “The Envoy”, que abre o disco, um riff executado pelo baixo de Messecar é rapidamente sucedido pela entrada do poderoso vocal de Hodkinson, que se encaixa perfeitamente nessa nova fase do grupo. Um outro elemento que ganha destaque é a pegada mais suja do baterista Ian Mosley, o que ajuda a dar mais peso para a faixa. “Black September” inicia como uma balada que vai ganhando corpo até culminar em um belo solo de guitarra. “Flat 2-55” é a única faixa instrumental do disco, mas mesmo ela soa mais enxuta e direta, com uso de pedal duplo pelo baterista. Uma das melhores desse álbum é “Anteros”, que agrada em cheio fãs de Uriah Heep. “We’re Watching You” inicia com um teclado meio espacial, mas se desenvolve como uma balada “jazzy”, com uma grande performance de John Hodkinson. A mais pesada de todo o álbum é “Steal The World”, novamente com Ian Mosley usando pedal duplo em um arranjo enxuto. Por último, “Comrade Of The Nine” tem uma introdução que lembra os arranjos pomposos do Pell Mell, só que desemboca em um Hard Rock atravessado por intervenções de violino e guitarras meio jazzísticas.

Infelizmente, Night Music não deu o retorno esperado pela gravadora, o que contribuiu para que fosse o último disco a ser gravado pelo Darryl Way’s Wolf.


Com o fim da banda, Way voltou a tocar com o Curved Air. Dek Messecar juntou-se ao Caravan, onde gravou discos injustamente menosprezados como Better By Far [1977] e The Album [1980]. John Etheridge, por sua vez, ingressou no Soft Machine. Ian Mosley passou pelo Trace e tocou com vários artistas, mas ficou conhecido como baterista do Marillion, onde permanece até os dias atuais. John Hodkinson criou uma banda chamada Rogue, uma espécie de America voltado para o AOR, onde gravou 3 discos até o final da década de 70.



7 Comentarios

  1. maironmachado disse:

    Mas que baita surpresa para um domingo de manhã. Irei ler com atenção essa discografia bem obscura para os fãs de prog. Darryl Way, O CARA do Curved Air. Valeu Christiano

  2. maironmachado disse:

    Muito bom. Para mim, o primeiro é o melhor, por conta das canções instrumentais, mas o Night Music também tem ótimos momentos

    • Christiano disse:

      São os dois melhores. Cara, quando conheci essa banda era muito difícil conseguir material. Só quando a Esoteric fez o relançamento que consegui adquirir os 3 originais. Grande banda!

  3. carlos eduardo disse:

    grande Christiano! excelente resenha de obras primas e quase desconhecidas da música contemporânea. vou terminar meu domingo ouvindo Darryl Way’s Wolf, se sobrar tempo ouço também Cuverd Air… show de bola!

  4. Ronaldo disse:

    Até hoje eu não sei dizer qual o meu favorito dentre essa trinca de ferro de discos! todos tem o seu charme, sua característica…vale mencionar que Darryl Way tb era um bom tecladista. Ótimo texto, ótima pauta.
    Abraços

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