Consultoria Recomenda: Sadness Will Prevail

22 de abril, 2017 | por Fernando Bueno
Consultoria Recomenda
60

David Tibet do Current 93

Editado por Fernando Bueno
Tema escolhido por Alisson Caetano
Com Christiano Almeida, Davi Pascale, Diego, Camargo, Diogo Bizotto, Fernando Bueno, Mairon Machado, Ronaldo Rodrigues e Ulisses Macedo


Current 93 – All the Pretty Little Horses (1996)
Recomendado por Alisson Caetano

David Tibet construiu uma trilogia conceitual sobre a perca da inocência em todas as suas interpretações possíveis. Thunder Perfect Mind (1992) e Of Ruine of Some Blazing Starre (1994) completam essa jornada, mas não necessariamente precisam ser apreciados em sequência, já que ambos os três discos funcionam de maneira isolada. A jornada por esse tema é guiada por uma sonoridade folk medieval entoada por uma produção estranhamente hermética, com uma riqueza de detalhes louvável. Efeitos como drones e elementos industriais causam certo senso de desorientação na audiência, enquanto as letras vão tomando caminhos apocalípticos de uma forma profundamente poética. O complemento entre letras ambíguas, que se equilibram entre cantigas infantis e passagens profundas, interpretação emocional e instrumental detalhista dão luz a um disco que merece ser analisado pelo que ele causa em termos de sensações do que por seus atributos musicais (que ainda assim são grandes).

Christiano: O disco até começa bem, com “All the Pretty Little Horses” e seu clima meio lúgubre acompanhado por um vocal sussurrado. “Calling for Vanished Faces I” mantém o nível com uma flautinha folk. Daí pra frente, a coisa fica feia. “The Inmost Night” tem uma narração chata, brincadeiras com barulhos atonais e variações de rotação. Uma coisa que deve ser mencionada é a chatice aguda do tal David Tibet, que tem uma voz irritante, capaz de estragar qualquer música que venha a cantar. Pra não dizer que o disco é todo ruim, Nick Cave faz uma bela participação em “All the Pretty Little Horses (traditional)”, talvez a melhor faixa do disco. Ele ainda soletra algumas palavras em “Patripassian”, que é totalmente esquecível.

Davi: Não gostei. O disco soa mais como se o cara estivesse narrando um conto infantil do que um álbum musical. Os violões oras soam como se estivesse em um acampamento com os amigos (“This Carnival Is Dead and Gone”), oras soam como se estivesse em sua cama arranhando o violão após levar um pé no toba (“All The Pretty Little Horsies”). A tentativa de soar sombrio em “The Inmost Night” soa patético. Soa mais como se a vovó estivesse nervosa com os netinhos por não terem aparecido no almoço do último domingo do que qualquer outra coisa (da próxima vez, contatem King Diamond). “The Frolic” soa como se estivessem narrando “As Aventuras de Popeye”. Agora entendo as lágrimas da garotinha. Calma, menininha, existem outros discos por aí…

Diego: Já de cara não faço a mínima ideia do que se trata, então antes mesmo de ouvir o disco vou ao Rate Your Music checar os itens básicos do grupo: quantos discos tem, de onde é, quando começou, se ainda está na ativa, por que selo lançam os discos –  e o mais importante – qual é o estilo! Ai acesso a página do disco e me deparo com Estilos: Neofolk, Drone, Poetry, Lullabies e Spoken Word… não podia ter tido um começo pior… ai, continuando vejo as descrições que deram para o disco: melancholic, apocalyptic, mysterious, poetic, occult, sombre, cryptic, concept album, male vocals, passionate, nature, alienation, romantic, spiritual, Christian, dark, nihilistic… Eu mesmo não deveria nem ter tentado ouvir o disco, mas quando participo dessas listas não gosto de simplesmente fazer comentários sobre algo que eu nem ouvi, então fiz uma força e fui até a página do Bandcamp do grupo pra ouvir o disco. O que eu posso dizer? Honestamente, não sei, o tema era sobre discos depressivos e discos tristes em geral. All The Pretty Little Horses é triste? É! All The Pretty Little Horses é bom? Não! O disco é chato, arrastado e tem aquele sentimento ‘hipster’ atrelado a ele, a tal tristeza e melancolia soa forçada. Existe uma coisa nesse estilo que força o desespero e as ‘más vibrações’, simplesmente porque ser miserável é algo ‘que deve ser feito’. Pretensioso. Ouvindo All The Pretty Little Horses é o que eu sinto, algo falso que força uma tristeza inexistente e muito superficial.

Diogo: Não fazia ideia da existência deste grupo e gostei do que ouvi. É folk, é drone, é místico, é experimental, é uma audição fora do comum. O Current 93 faz uso de estruturas musicais atípicas e insere sobre elas uma instrumentação inteligente, hábil na construção de atmosferas tétricas. Ouça “The Inmost Night” e entenda o que estou tentando explicar. Em alguns momentos, o grupo soa mais convencional, mas é naqueles menos previsíveis que reside o melhor de All the Pretty Little Horses. Não foi surpresa alguma ouvir a participação de Nick Cave em algumas faixas, inclusive na repetição da faixa-título, boa em suas duas versões.

Fernando: A coisa começa sinistra já pela capa. Quando era criança ouvi diversas histórias sobres esses quadros de crianças chorando. O curioso é que mesmo todo mundo falando que era relacionado com o demo, todas as casas tinham um. As histórias falavam que o pintor tinha feito um pacto com o diabo e por isso todas casas tinham um desses. Eu, em minha inocência infantil, até encontrava um sentido nisso. Coisa do demo ou não é bem provável que a criança esteja chorando mesmo por ter sido obrigada a ouvir o Current 93 por horas. A faixa título, por exemplo se resume a um dedilhado e sussurros. Muito pouco para prender a atenção do ouvinte. A interminável “Twilight Twilight Nihil Nihil” só me serviu para lembrar de quando trabalhei no escritório de contabilidade de meu tio e ele me ensinou o significado de Nihil. A última faixa, sem contar os bônus, com participação de Nick Cave (tá explicado?), que não ouvi por ser faixas bônus e achei muito ouvir o álbum todo E faixas extras, é uma sucessão de gritaria provavelmente de uma dúzia de crianças representadas na capa. Difícil. Pior é que esse é o primeiro da lista que estou ouvindo e fiquei com medo do que vem por aí.

Mairon: Para dias sombrios, é uma espécie de tratamento mental adquirir a musicalidade de peças como “The Frolic”. O que é aquela flautinha na dolorida “Calling for Vanished Faces I”? O disco inteiro ainda ganha muito mais tristeza com a inclusão dos vocais de Nick Cave na faixa-título. Estão realmente chorando em “The Bloodbells Chime”??? Existe algo descartável, como as viajantes “The Inmost Night” e “The Inmost Light”, versões curtas de “The Inmost Light Itself”, essa bem desnecessária, ao mesmo tempo que a enigmática “Twilight Twilight, Nihil Nihil for Thomas Ligotti, who has seen the bloodbells shine” é indescritível, e fiquei chapado só em ouvir seus quase nove minutos, mas não sabia afirmar se era um barato legal ou não. Daí ouvi de novo e fiquei mais chapado ainda. Ou seja, é porrada da boa! Audição no geral satisfatória. Obrigado para quem o recomendou, mas não sei quando irei me animar ouvir novamente o disco inteiro (“Twilight Twilight …” sim, essa merece).

Ronaldo: Belos timbres de violões e uma interpretação vocal instigante (com vozes sussuradas, quase declamadas, alternando-se com passagens delicadamente melódicas) rememora bons momentos do folk britânico de Pentangle e Steeleye Span. As músicas são curtas e bem temperadas com alguns elementos experimentais. As canções são todas marcadas por sua frieza, mas a inspiração do disco é trabalhada sobre diferentes prismas, o que torna o trabalho bastante interessante. Basicamente, trata do mesmo assunto de maneiras distintas, e todas inteligentes.

Ulisses: A vibe que o álbum planta imediatamente no ouvinte é a de canções de ninar hipnóticas, pintando cenas de memórias infantis, pesadelos e algumas reflexões sobre o divino. A ressalva fica por conta do vocalista: enquanto se contém, entrega a performance soturna que precisa; quando não, soa comicamente ruim.


Elomar – Fantasia Leiga para Um Rio Seco (1981)
Recomendado por Mairon Machado

Elomar é o maior gênio da música nacional, e ponto final. Dito isso, passo a comentar sobre Fantasia Leiga Para um Rio Seco. Escolhi esse álbum por que o tema era tristeza, e quer algo mais triste que o drama do povo do sertão nordestino que não tem água para poder plantar, alimentar seus animais e sobreviver com o mínimo de dignidade? A obra conceitual, criada pelo genial Elomar (tudo, desde a orquestra até a letra saiu da cabeça do Mestre dos Bodes do Sertão Baiano) narra a violenta seca que atingiu o nordeste em 1890, através da história de um retirante que tenta fugir dessa seca, abandonando o lar – onde família e tudo o que tinha morreu por conta da seca – para tentar buscar a sorte em outro local. Ao longo de sua viagem pelo deserto sertanejo, o catingueiro encontra problemas em cima de problemas, vindo a morrer próximo ao vilarejo de Mato-Cipó, onde foi buscar refúgio. A saga narrada por Elomar é uma comparação a peregrinação do povo judeu, que passou pela Diáspora, ambos à custa dos piores sofrimentos, mas em busca da terra prometida. Feita a apresentação da história, vamos à música. Logo de cara, “Abertura” já nos mostra as notas emotivas e doloridas da orquestra Sinfônica da Bahia, comandada pelo Maestro Lindenbergue Cardoso, e quando o bode velho solta a voz em “Incelença Pra Terra Que O Sol Matou”, dedilhando seu violão, até a Casa dos Carneiros geme quando ouve a triste história do retirante catingueiro que perdeu toda a família por causa da seca do Rio Gavião. Em “Tirana” Elomar mostra seus dotes ao violão clássico, e a letra mostra a dor do catingueiro ao abandonar sua terra, mas para isso terá que encarar a jornada através do sertão nordestino, onde “todos qui si fôro num voltaro, tão nos céus”. As lágrimas surgem com naturalidade durante o solo de oboé e fagote da introdução de “Parcela” (só de lembrar dos dois solando junto ao violão clássico de Elomar me arrepio), e o que Elomar e a orquestra fazem na instrumental “Contra-dança” é algo indescritível, em uma solução musical de pergunta-resposta, representando o encontro espiritual do catingueiro com os anjos da seca, da fome e da morte, cada um representado por um instrumento musical. Porém, isso é só o lado A do LP. No lado B, a suíte “Amarração”, 23 minutos de diversas variações musicais sobre o mesmo tema, e uma das mais lindas peças criadas no solo brasileiro, que só ouvindo para entender o que sai das caixas de som nos confrontos de violão e orquestra, através da dor do catingueiro que visualiza a nova terra, mas não tem forças para alcançá-la. A épica obra aqui apresentada ainda trazia em sua versão original um encarte detalhado sobre a mesma, que auxilia muito na compreensão do contexto musical, algo que é comum em quase todos os discos de Elomar. Quem não conhece a obra desse monstro da música nacional irá estranhar a forma como ele canta, na linguagem nativa do povo da caatinga, mas superada essa estranheza, o ouvinte ou entrega-se para obras atemporais e que deveriam ser levadas e entoadas pelo mundo – não à toa os europeus amam Elomar – ou criticam sem dó nem piedade. Nem preciso dizer onde me classifico entre esses dois.

Alisson: Elomar cresceu envolvido por influências das tradições colonizadoras no sertão da Bahia, especialmente a Ibérica. Juntando essa tradição de contos históricos em formatação quase trágica, estão as influências propriamente brasileiras, no palavreado e na história que o músico explana. Resumidamente é a história do povo sertanejo e as constantes mazelas por eles sofridas, como a seca, a fome e a pobreza extrema, todas novamente críveis e intensamente verdadeiras. A musicalidade é de uma riqueza que salta aos ouvidos. Ao mesmo tempo que Elomar possui seu sotaque baiano característico, a forma com que ele versa as letras tem muito da música clássica renascentista, tanto em ritmo quanto em melodia. É uma confluência muito interessante de cultura dita “erudita” com o tradicionalismo sertanejo, uma mistura que rendeu um dos discos mais singulares da cultura nacional.

Christiano: A “Orquestra Sinfônica da Bahia” contribuiu muito para sonorizar o “poema épico” criado por Elomar, que estraga tudo quando resolve cantar. Como pretenso poema, pode até ser interessante. Enquanto música, achei pretensioso e chato.

Davi: Achei bem chato. A história é bonita. Os arranjos de violões são lindíssimos, a orquestração é belíssima, mas não gosto de sua voz e achei as composições chatas. Disco bem feito e bem pensado, inegável, mas não gosto do estilo.

Diogo: Este talvez seja o disco mais surpreendente da lista. Gostar ou não dele, aí já é outra história. Com seu violão e acompanhado de uma orquestra, Elomar mistura referências sertanejas e europeias (de séculos atrás) sob um manto trançado entre o erudito e o popular. Quem não está acostumado com sotaques nordestinos vai ter dificuldade em apreciar aquilo que mais qualifica este álbum a fazer parte desta edição, que são as letras. Não é o tipo de obra que costumo escutar, mas tem tanto ou mais valor do que tantas outras tidas como grandes clássicos da música brasileira e muito mais reconhecidas pelo público.

Diego: Elomar é uma lenda na música brasileira. Lembro da primeira vez que ouvi o disco Na Quadrada Das Águas Perdidas e de como fiquei absurdamente encantado e ao mesmo perplexo. Como um músico completamente desconhecido foi capaz de gravar mini-óperas como essa? Ao entrar mais fundo em sua história a perplexidade só aumentaria ao saber que ele sempre fez tudo ele mesmo, lançando os discos em seu próprio selo com pacotes luxuosos, compondo e arregimentado tudo, contando histórias belíssimas do povo pobre do sertão mas ainda sim de uma riqueza sonora absurda, sem paralelo na música Brasileira. Tudo isso sendo feito nos confins sertânicos da Bahia… Lembro que meu pensamento ao ver esse disco na lista foi: “Elomar na lista de discos deprês? Quem escolheu só pode estar bem louco!” Mas na verdade quem estava louco era eu! Não ouvia Fantasia Leiga Para Um Rio Seco há anos e a história contada pelo músico é extremamente triste, especialmente porque é baseada na verdade. O disco traz um poema de proporções épicas, no estilo grego, que conta a história da seca no Nordeste de 1890 e de como tudo morre, de como o povo sofre e de como muitos deixam sua terra atrás de algo melhor. Em especial conta a história de um retirante que deixa sua terra natal em busca de uma vida melhor e deixa pra trás a mulher e os filhos que morreram em decorrência da seca. No entanto o retirante passa por tantos problemas em sua jornada que acaba morto também. Tudo isso acompanhado pelo fabuloso violão de Elomar e da Orquestra Sinfônica da Bahia. Elomar é cultuado pelos mais ‘conhecidos’ musicalmente falando, mas ele deveria estar impresso na mente dos Brasileiros como Chico Buarque ou Caetano Veloso são. Na verdade, em seus 8 discos de estúdio ele tem mais qualidade e mais profundidade do que na discografia inteira de metade dos nossos ‘grandes artistas’ com mais de 40 discos nas costas.Em tempo, descubra Elomar e sua obra se você ainda não o conhece!

Fernando: O início orquestrado me lembrou alguma trilha sonora de filme de época, mas no segundo em que a voz entra parece que saí da Europa modernista e caí no sertão do Brasil. Perdi muito sobre o teor lírico pois ouvi no trabalho fazendo planilhas, assim não prestei a atenção necessária para comentar. Percebi que contra as agruras do homem do sertão (seca, fome e miséria), pontuadas por doses cavalares de fé católica. Exceto o violão, a viola e o acordeão em alguns momentos a parte musical dificilmente seria classificada como música brasileira, pois os instrumentos, as melodias são muito mais calcada na música erudita do que na tupiniquim. “Contradança” por exemplo intercala belamente música nordestina com música erudita. A longa faixa final tem clima de teatro para alunos de cursinho pré-vestibular (lembram quando assistiram Morte e Vida Severina para o vestibular?). Não sei se é algo que eu voltarei a ouvir, mas não desgostei.

Ronaldo: Compositor e instrumentista acima da média, Elomar é um daqueles personagens míticos de nossa música que não se sabe lá porquê não é reverenciado como deveria. A temática escolhida, por si só, já carrega um drama de verossimilhança assustadora. As composições e arranjos do disco traduzem fielmente as alegorias do semi-árido de nosso país. Não é um disco fácil de se ouvir, pois tem uma estrutura de peça erudita para orquestra e violão, bem como as pretensões literárias e a forma como as letras do disco são apresentados. Um belo disco, de alcance restrito e que demanda uma audição devidamente preparada.

Ulisses: Surpreendente indicação. Trata-se de uma mistura de cancioneiro nordestino com orquestra, intercalando a bela melancolia da sinfonia com o relato da luta contra a seca. A voz de Elomar dá o tom certo à narrativa, o que me deixa até desapontado que hajam longas – mas não dispensáveis – passagens sem ela.


George Michael – Older (1996)
Recomendado por Davi Pascale

Fiquei pensado muito sobre qual disco indicaria. Não queria enviar um disco que fosse óbvio e nem um que não curtisse. E eis que, aos 45 do segundo tempo, me recordo desse álbum do George Michael. Sempre gostei de seu trabalho. O rapaz fazia um pop classudo, além de ser um cantor extremamente afinado, tanto nos discos, quanto nos shows. Older foi criado em um período negro de sua vida. Seu namorado havia morrido de AIDS há poucos anos, o cantor havia brigado com a gravadora porque não havia gostado de como haviam trabalhado seu álbum anterior e também se sentia incomodado com o fato de ter que ficar escondendo sua sexualidade. Queria revelar para o público, mas não tinha coragem de assumir. Foi no meio desse cenário que nasceram as letras de Older. As letras e a maior parte dos arranjos carregam um tom de tristeza, melancolia e desilusão. os arranjos bebiam bastante na fonte do jazz e também da bossa nova. Segundo o cantor, Tom Jobim havia sido responsável para que ouvisse música de uma forma diferente. Vale reouvir o disco com a devida atenção. Faixas preferidas: “Jesus To A Child”, “Fastlove”, “Older”, “Star People” e ” have You Been Loved”.

Alisson: Na época, George Michael já estava em plena queda por conta de vários escândalos em sua vida pessoal e pelo uso constante de qualquer coisa que pudesse ser injetada, cheirada ou fumada. Daquele cantor de voz sedutora e letras provocativas, não restou absolutamente nada. Older, um nome bem apropriado para o disco, soa velho e careta em muitos sentidos. Começando com a sonoridade piegas à abordagem lírica introspectiva mal desenvolvida. Apesar de ter gerado singles de sucesso pelos Estados Unidos, pouco acabou sobrevivendo na memória coletiva como ocorreu com o seu primeiro e primoroso disco.

Christiano: Após o ótimo Listen Without Prejudice Vol. 1 [1990] e uma batalha contra sua antiga gravadora, Older apresentou um George Michael mais sério, apostando em climas mais intimistas e se arriscando em arranjos jazzísticos em algumas faixas. O resultado disso tudo foi um disco muito agradável. As duas primeiras faixas, “Jesus to a Child” e “Fastlove” foram os grandes “hits” do álbum, que é ótimo de ponta a ponta. No entanto, não posso deixar de citar “The Strangest Thing”, com seu clima denso, e “Move On”, talvez a mais abertamente “jazzy” de todo o disco. Bela escolha.

Diego: O nome do segundo disco solo de George Michael é ‘Ouça Sem Preconceito’. Confesso, ouvir música pop sem preconceito é difícil. A verdade é a seguinte, não há nada de errado com música pop, ela tem um propósito (afinal, ouvir “Thick As A Brick” numa festa não faz muito sentido, certo?). Mas existe música pop boa e ruim (assim como todo tipo de música), e a pergunta que fica é: em que lado a música de George Michael se enquadra? Eu nunca tinha ouvido um disco inteiro do cantor, conhecia os singles e muitos deles são ótimos. Ao começar a audição de Older a coisa começa mal, o som que vem do disco é o típico pop do meio dos anos 90. Eu posso até sentir o cheiro de 1996 ao ouvir as primeiras faixas de Older, isso é bom ou ruim? Seria bom, os anos 90 me trazem sempre boas memórias, mas infelizmente Older é chato, demais. George Michael tenta ser sério e adulto (vide o nome do disco), mas a verdade é que a profundidade do disco é mínima e no final temos um bando de coisas intragáveis como ‘Jesus To A Child’, ‘Older’, ‘Spinning The Wheel’, ‘The Strangest Thing’ e ‘You Have Been Loved’. Sem contar que as músicas são demasiadamente longas, fato sem absolutamente nenhum sentido. Quando ele tenta ser dançante e descolado ele acerta mais, infelizmente ele abandonou esse lado no disco ficando só com ‘Fastlove’ que é boazinha. Fica a pergunta no final, quantos artistas pop tentaram soar maduros e sérios e realmente conseguiram? Poucos, e George Michael com certeza não foi um deles! Mas no final, a pergunta que fica, de verdade, é: Quem foi o desgramido que indicou esse disco como triste? Não tem absolutamente nada a ver com o tema da lista.

Diogo: Apesar da persona aparentemente expansiva, George Michael sempre me pareceu ser um artista eternamente atormentado, seja pela dificuldade em lidar com sua sexualidade, seja por outros problemas, como a depressão, o uso de drogas ou quaisquer outros motivos que eu, um ouvinte eventual, desconheço. Dito isso, ouvir Older não é surpreendente. Pena que, em geral, suas canções não fazem jus àquilo que George criou na década de 1980. O álbum até começa bem; “Jesus to a Child” e “Older” inserem o cantor na contemporaneidade adulta e fazem jus ao título do disco. São duas boas faixas, assim como “Fastlove”, mais antenada com a juventude (ouvi e pensei imediatamente em Spice Girls e Take That). O restante do álbum soa insípido demais para alguém que já se rasgou dizendo que nunca mais vai dançar do jeito que dançava antes. “To Be Forgiven” e “You Have Been Loved” até são legaizinhas, mas é só.

Fernando: Nunca cheguei a ouvir George Michael, nem mesmo acompanhei esse fenômeno meio mórbido que costuma ocorrer depois da morte de vários músicos. Porém, do pouco que conheço achei as músicas de Older diferentes da maioria e entendi o motivo de ter sido indicado para esse tema, apesar de não gostar do tom que ao meu ver é mais de choradeira do que de tristeza e há uma diferença sutil nisso. Lendo depois descobri que o álbum foi gravado em uma época de vários conflitos pessoais e tinha sido inspirado pelo brasileiro Tom Jobim.

Mairon: O melhor disco de George Michael veio após uma conturbada briga judicial entre ele e sua antiga gravadora, a Epic. O resultado é um disco introvertido, muito diferente do clássico Faith (1987), que apresenta um Michael mais maduro, como atesta a linda “Jesus to a Child”, o saxofone profundo da instrumental “Free” (com sua levada pseudo hip-hop) e a baladaça “You Have Been Loved”, mas principalmente, a mais sensacional das faixas do álbum, a própria faixa-título, onde George entrega-se ao fato de perceber que não é mais um menino sexy que encantava as mulheres (e por que não, homens) ao redor do mundo, e que não tem mais por que discutir e brigar por coisas bestas. Porém, há músicas dançantes, através de “Fastlove”, “Move On” e “Star People”, claro, sem uma potência borboleteante como “Faith”, mas mesmo assim, boas para uma pista de dança. Vale lembrar que Older foi dedicado para Tom Jobim, a maior inspiração de Michael naquele momento, e talvez por isso o disco seja tão belo, e quer duvidar? Ouça “To Be Forgiven” e sinta-se diante de Michael apresentando-se no tradicional Belmonte de Copacabana enquanto degusta bolinhos de bacalhau acompanhados de um chopp garotinho sem colarinho. Apesar de achar que ele não encaixa-se para o tema (diria que é um álbum suave, mas não triste), é uma excelente indicação.

Ronaldo: Música de elevador e que pouquíssimo tem a ver com o tema aqui proposto.

Ulisses: George Michael não é o tipo de artista que eu relacionaria à tristeza ou melancolia, pois construiu a carreira em cima do pop – algo que ele não dispensa totalmente em Older, vide “Fastlove”, “Spinning the Wheel” e “Star People”. Entretanto, o melhor do disco é o misto de vocal jazz, soul e toques de bossa nova, versando sobre perdas, solidão e amores do passado de forma madura e sombria. Nessa atmosfera seu canto é mesmérico e sedutor, e consegue tragar com facilidade o ouvinte, trazendo faixas arrasadoras como “Jesus to a Child”, “It Doesn’t Really Matter” e “You Have Been Loved”.


Legião Urbana – A Tempestade ou o Livro dos Dias (1996)
Recomendado por Diego Camargo

Legião Urbana é importante na minha formação musical, é uma das primeiras memórias musicais que tenho e na época do lançamento desse disco, eu tinha 11 anos de idade e estava começando a fazer da música algo mais importante do que o meu Super Nintendo! Comprei essa disco em fita K7 na época da morte do Renato Russo, o disco havia sido lançado em setembro daquele ano e em outubro o vocalista morreria. Tendo o vocalista morrido em decorrência da AIDS, todo o processo foi gradual, o que fez com que todo o disco fosse composto em um clima pesado (o disco futuro, Uma Outra Estação, também). A Tempestade é triste? Eu diria que sim, mas o disco é mais do que triste, o disco é pesado! Essa é a palavra correta pra descrevê-lo. Poderia dizer que em diversos momentos você encontra a alma torturada de Renato, sabendo que iria morrer. O disco falha, em diversos momentos, musicalmente falando, e é unânime que não é o melhor disco do grupo, para os iniciados na música da Legião esse disco vai ser odiado (numa comparação meio trivial seria algo como o ódio dos fãs por The Final Cut do Pink Floyd), para quem não gosta da banda, nada muda. Pra mim o disco é pesado, melancólico e cheio de solidão e houveram incontáveis momentos em que ele foi o meu disco de cabeceira. Não é uma unanimidade, e pode até nem ser um trabalho de qualidade, mas existe algo no disco que me faz pensar nele com carinho e que me faz ouvir sempre que a tristeza bate.

Alisson: O último disco da Legião lançado com Renato ainda vivo é claramente o seu mais sincero e pessoal. Em letras passadas, filosofia, literatura clássica estrangeira e frases de efeito foram usadas de maneira certeiramente métrica, mesmo que não refletindo exatamente o pensamento exato de seu autor. Aqui a coisa é diferente. Abatido pelo avanço da AIDS, Renato escreveu um apanhado de canções mais diretas sobre suas incertezas, seu pessimismo e sobre a própria descrença quanto à própria vida. O melhor resumo do disco é a própria faixa de abertura, uma canção áspera onde Renato expõe sua doença, fala sobre a ingenuidade em acreditar que algo bom virá e finalmente aceita que o fim é melhor que o que está passando. Pode até não ser o disco mais nivelado musicalmente (exageros melodramáticos e muitas bases de sintetizadores hoje datadas acabam baixando muito a qualidade do trabalho), mas ainda é o momento mais sincero de uma banda constantemente atacada por ser “uma versão brasileira de alguma banda gringa”, justamente, diga-se de passagem.

Christiano: É sempre muito difícil falar sobre Legião Urbana. Pessoalmente, tenho birra com a banda. Por outro lado, sei de sua importância para o rock nacional. Reconheço o talento de Renato Russo enquanto letrista. Gosto de uma ou outra música. Cai bem quando toca no rádio, talvez por nostalgia. A Tempestade é um disco quase póstumo, gravado enquanto Renato já se mostrava bastante debilitado por conta de sua doença. Algumas faixas parecem versões demo, bastante cruas. As letras são tristes, às vezes deprimentes, quase uma despedida. Tudo isso tem valor, e até uma beleza peculiar. Na verdade, isso é o máximo que posso dizer.

Davi: Esse disco é melancólico e triste, a razão não poderia ser outra. Renato Russo estava morrendo. Inclusive, por estar extremamente debilitado optou por não fazer vários takes. Com exceção de “Via Láctea”, todas as linhas vocais foram gravadas em único take. Muitos malham o trabalho vocal de Renato nesse disco. Sendo bem honesto, acho que ele fez um ótimo trabalho. Gosto muito da voz dele em faixas como o rock “Dezesseis”, por exemplo. Mas com exceção de uma ou outra musica, como “Natalia” ou “Música de Trabalho”, não é um álbum pesado (em termos de sonoridade, as letras têm algumas pesadinhas). Minhas favoritas, além da já citada “Dezesseis”, ficam por conta de “L´Avventura” e “Mil Pedaços”. Não é meu favorito da Legião, mas certamente o rapaz se despediu em grande estilo.

Diogo: Em se tratando de cumprir a premissa desta edição, A Tempestade certamente é uma das indicações mais bem sucedidas. Não importando o estilo da canção, sentimentos de tristeza, melancolia e depressão ficam muito evidentes, casando bem letras e músicas. Gostar do que se ouve, ah, aí já é uma história bem diferente. Cheguei a ter discos do Legião Urbana em mãos, convivi com grandes fãs, experimentei sua música. Fui adolescente na época logo após a morte de Renato, que gerou uma explosão de interesse em seu trabalho. Em pouquíssimo tempo, fiquei cheio disso tudo. A maior parte da obra me parecia uma expressão do que há de pior na adolescência, e pouco mudou desde então. A Tempestade soa mais maduro, mas, musicalmente, está abaixo da maior parte daquilo que ouvi do grupo. Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos sempre foram músicos enfadonhos, mas de vez em quando até acertavam a mão (vide canções como “Tempo Perdido” e “Vento no Litoral”); desta vez, porém, a única faixa que me desperta algum interesse é o sucesso “A Via Láctea”. Renato também soa cansado, mas isso é perdoável, vide a deterioração de seu estado de saúde. Uma curiosidade: uma colega da oitava série usou a letra de “Dezesseis” na íntegra em uma redação e a professora não percebeu a malandragem. Acho que até tirou uma boa nota.

Fernando: Eu tenho muita preguiça de ouvir Legião Urbana. Ainda mais um disco do fim da carreira em que Renato Russo, incentivado pelos fãs, acreditava ser um grande poeta. Acredito que as letras da banda foi piorando com o tempo. “O sol é um só e quem sabe duas manhãs”?? Ou eu sou uma besta ou isso não tem sentido algum. “Longe do Meu Lado” é uma junção de frases clichês sobre uma constrangedora cama de teclados, que faria Brian Eno corar. Os timbres dos instrumentos é outro ponto que deixa tudo pior. A bateria e os acompanhamentos parecem ter sidos feitos por aqueles teclados de churrascarias em que você carrega um mid e pronto, tem uma “banda completa”. Para não falarem que só critiquei, “Dezesseis” é o melhor momento do disco. Acredito que a Legião era melhor quando era apenas uma versão brasileira dos Smiths. Quando o sucesso e a adoração subiram à cabeça o caldo entornou. Porém, por conta do que estava passando na vida de Renato na época o disco é perfeito para o tema escolhido.

Mairon: Essa foi a minha primeira opção, mas fui sumariamente ameaçado de demissão quando sugeri o último álbum de Renato em vida, ao lado da Legião. Aqui, ele expressa toda sua decepção com relacionamentos, sejam amorosos ou com pessoas do convívio social, entrega-se à morte com letras fortes, doloridas, que ficaram marcadas para sempre no coração dos fãs, já que muitos sequer imaginavam que Renato estava em seus últimos dias quando gravou este álbum. Apesar de letras de sofrimento, musicalmente A Tempestade ou o Livro dos Dias possui bons rocks pesados em “Natália”, com a emblemática frase “A escuridão ainda é pior que essa luz cinza, mas estamos vivos ainda”, e “Dezesseis”, uma das melhores do disco, com um bom riff e trazendo a tragédia da morte de Johnny em um racha, por conta do amor. O predomínio de teclados em “L’avventura” nos lembra “Angra dos Reis”, em uma letra muito pessoal: “E o que eu era eu não sou mais …”, assim como em “Longe do Meu Lado”, a mais dramática das canções do disco (“Quando acreditei que tudo era um fato consumado veio a foice e jogou-te longe …”), e torna tudo bem mais melancólico perto das canções pesadas citadas antes. “Música Ambiente” é uma boa faixa, apesar da letra de dor de cotovelo da mesma, e musicalmente poderia estar em O Descobrimento do Brasil, ao lado da também dolorida “Esperando por Mim”, que me lembra bastante “”Vamos Fazer Um Filme”. Outra faixa com letra bastante descornada, mas que é interessante de se ouvir, é “Quando Você Voltar”, uma letra forte que com certeza, quem já se separou de alguém que amava irá se identificar. Há ainda músicas reflexivas, através de “Música de Trabalho” (“Nossa vida não é boa e nem podemos reclamar”), marcada por muita distorção e uma bateria pesada para os padrões da Legião, a dramática “A Via Láctea”, o grande sucesso do disco, ao lado de “1° de Julho”, que Cássia Eller havia gravado pouco antes, essa bem melhor que a anterior, principalmente pela levada dos violões, presentes também na acústica “Mil Pedaços” (e dê-lhe dor de cotovelo) e faixas que não contribuem tanto para o álbum, no caso “Aloha”, “Soul Parsifal”, “Leila” (puta merda, aquilo de pavor de “baratas voadoras” e “ah, eu preciso de um homem, e eu digo, a Leila eu também”, é dose), todas elas menosprezadas a uma mera ameba perto da grandiosidade daquela que considero a melhor faixa do disco, a sensacional “O Livro dos Dias”, o adeus de um poeta em seus últimos instantes de vida, que só ouvindo e sendo fã de Legião para entender o que está saindo das caixas de som. No geral é um ótimo disco. Liberte-se do preconceito e aprecie um momento de despedida raro na música nacional.

Ronaldo: Um dos piores casamentos de letra e música surgidos no pop-rock brasileiro. Composições pouco inspiradas tentando se encaixar em letras cuja métrica e sentido eram maiores (inclusive em tempo de duração) do que caberia naquele tipo de som. Além disso, os timbres são tediosos e fazem todas as músicas (a maioria deles são baladas mid-tempo) soarem quase que iguais, apesar de que “Via Láctea” tem um bom gancho e é uma das poucas que não passa despercebida ao longo de todo disco.

Ulisses: Já muito debilitado pela AIDS, Renato Russo entrega sua última performance destilando ironias, desesperanças e reflexões. Sua voz um pouco enfraquecida dá uma vibe diferente do usual – ainda que propícia – às composições, mergulhando fundo na produção densa do álbum. É um disco que oscila entre o cativante e o desinteressante, até pelo grande volume de material, mas que vale a pena conferir.


Nick Drake – Pink Moon (1972)
Recomendado por Ronaldo Rodrigues

Escolha óbvia para a lista, de um desconhecido folk singer que alçou as raias de cult, quer seja pela insistência em se representar musicalmente e/ou por sua trágica trajetória pessoal. O conteúdo musical é de um lirismo muito apreciável e representam o desconforto de seu autor frente ao mundo. Hábil violonista e vocalista dono de uma voz frágil, a junção destes elementos (só há violão e voz no disco, sem nada a mais) trabalhou a favor da conexão de seus sentimentos e de entregá-los na mais bela embalagem acústica aos ouvintes.

Alisson: Em um antagonismo à riqueza instrumental de seu disco anterior – Bryter Layter -, Pink Moon, sua obra prima e clássico atemporal, é um disco arrebatador e rústico guiado por um violão grave e pela voz frágil de Drake, entrecortado por algumas poucas notas no piano. As 11 faixas, divididas em pouco mais de 28 minutos, refletem muito a depressão profunda pela qual Nick Drake passava. O senso de isolamento e sofrimento que a doença acometia o músico passam pelas letras quase invasivas em um nível muito palpável, crível para qualquer um. Se outrora sua música era desprezada, atualmente ela já figura no alto escalão do folk mundial, dando inspiração direta para outros artistas ilustres, caso de Robert Smith, que deu nome a sua banda em homenagem a uma das músicas de Drake.

Davi: Esse eu já conhecia e confesso que, apesar de ser um trabalho extremamente cultuado, nunca me encantou. O trabalho de violão é bom, mas só. Nunca consegui me encantar com o trabalho vocal daqui, nem tem nenhuma música que me chamasse a atenção. Considero um disco ok. Sem nenhum destaque, de minha parte.

Christiano: Nas listas dos discos mais tristes da história da música pop, Pink Moon tem presença garantida, o que é muito justo. É um típico caso daqueles álbuns que podem não agradar logo de cara, mas que crescem com o tempo. Isso pode acontecer por conta do formato enxuto das músicas, constituídas apenas por voz e violão. Mas é justamente essa estrutura mínima que contribui para a construção de uma atmosfera de solidão e tristeza. No fim das contas, talvez a melhor maneira de descrever Pink Moon seja por meio de uma alusão à sua beleza melancólica. Um bom exemplo disso é “Things Behind the Sun”, com sua delicadeza e clima tristonho. Ótima dica.

Diego: Esse era o disco que eu iria indicar inicialmente, mas tinha certeza de que estaria nessa lista! E com razão. Pink Moon é alma, e honestamente isso resumiria o disco. Só que entenda, a alma de Nick Drake estava em um lugar muito sombrio quando ele gravou esse disco. De natureza tímida e introvertida Nick Drake começou sua carreira com esperanças, tanto dele quanto da gravadora Island. Mas a carreira dele não decolou, parte por culpa dele mesmo, que insistia em não fazer shows e não dar entrevistas. Os discos de Nick eram produzidor pelo famoso produtor Joe Boyd que apostava que em seu segundo disco, Bryter Layter, ele seria um sucesso se tornasse sua música mais palatável, Nick concordou e viu seu segundo disco vender 3 mil cópias… Na mesma época Joe se mudou para os EUA e Nick ficou perdido e se isolou ainda mais do mundo. Por volta de 1971 Nick estava sofrendo de depressão e começou a tomar antidepressivos, no entanto ele também fazia uso regular de maconha e tudo isso se tornou uma bola de neve que fez com que a depressão se tornasse perigosa e suicida. Após a gravação de Pink Moon, e seu fracasso comercial, Nick voltou a viver com sua mãe, desistiu da música pois acreditava que não conseguia mais compor e vivia com 20 libras por semana, houve um tempo em que ele não tinha nem dinheiro para comprar um par de sapato. Com comportamento errático e confuso e sem nenhum dinheiro o músico vivia num outro mundo. Em 1974 ele começou as gravações do que seria seu quarto disco, mas elas nunca terminaram já que Nick Drake morreu em 25 de Novembro de uma overdose de antidepressivos. Ele tinha só 26 anos de idade. Pink Moon é uma pérola torta, curto (com pouco mais de 28 minutos) e direto ao ponto. Se na época de seu lançamento não vendeu nem 3 mil cópia, hoje carrega o status de cult e clássico o que ele na verdade é!

Diogo: Conheci os três álbuns de Nick Drake preparando minhas listas para a série “Melhores de Todos os Tempos”. Todos são bons discos, de um lirismo muito particular e cândidas interpretações de um jovem introspectivo e muito talentoso. Não me tocou tão profundamente quanto outros contemporâneos que conheci na mesma situação, como o próprio indicado por mim, mas deixou uma ótima impressão. Em Pink Moon, Nick despiu-se dos arranjos mais cheios de Bryter Later (1971) e gravou sozinho, acompanhado apenas de violão, um raro piano e sua evidente melancolia. É evidente que muitas formações surgidas uma ou duas décadas depois dariam um braço para compor algo com esse nível de desolação e ainda assim soarem verdadeiros. Em canções breves, Nick manifesta sua aura misantrópica com sua voz trêmula e violões econômicos, que certas horas até parecem estar desafinados (corrijam-me se eu estiver errado, mas prestem atenção em “Know”). Entre os citados, é o único que já conhecia na íntegra. Digníssima menção.

Fernando: Uma das coisas que eu pensei quando soube do tema foi que a parte lírica faria muita diferença para avaliar os trabalhos recomendados. Dificilmente dá para prestar atenção nas letras das músicas em uma primeira ouvida e aqui foi o caso. Até porque na parte musical não tem nada de diferente de outros cantores/compositores dessa linha folk. Claro que algumas passagens não precisam nem de letra para sacar o clima do disco, como é o caso da pequena faixa instrumental “Horn” em que cada nota mais parece uma lágrima caindo dos olhos.

Mairon: Esse disco realmente, é muito triste, mas é maravilhoso ouvi-lo. A despedida de um dos mais importantes e desconhecidos autores do início da década de 70 traz Drake apenas com seu mágico violão e o seu vozeirão cantando canções emotivas, fortes, que fica difícil destacar apenas uma, mas as que mais gosto são “Place to Be”, “Known” e “Free Ride”. Tentando resumir a musicalidade de Pink Moon, para entender as habilidades de Drake ao violão, ouçam o dedilhado de “Road”, “Parasite”, e principalmente a segurança de solar como único ser presente no mundo durante a instrumental “Horn” (pena que não colocaram barulhos de natureza nessa faixa, ia ficar sensacional). Quer ouvir o que é sentimento vocal, coloque o volume no talo para “Which Will”, “Harvest Breed”, “Things Behind the Sun” e “From the Morning”, de onde Nick tirou a última frase que escreveu em vida, supostamente direcionada para sua amiga/namorada Sophya Ride.  Fora isso, “Pink Moon”, a faixa, é um clássico de rodas de luau. Baita disco, de chorar do início ao fim, a perda de um grande nome da música.

Ulisses: Tem todo um clima morno e intimista, com um eu-lírico que mais remete a um melancólico e distante observador. É só Nick e seus dotes no violão, o que, em conjunto com a breve duração do álbum, faz a coisa funcionar bem. Um disco que cumpre o que promete, mas continuo achando superestimado.


Soulsavers – The Light the Dead See (2012)
Recomendado por Christiano Almeida

Eu conhecia o Soulsavers por conta dos trabalhos que gravaram com Mark Lanegan. Em 2012, quando lançaram The Light the Dead See, fiquei muito surpreso. O motivo disso foi a escolha de Dave Grahan, do Depeche Mode, para vocalista. Era a união perfeita: uma das bandas mais interessantes da atualidade com um ícone do Synthpop e líder de uma das melhores bandas da década de 80. O Soulsavers sempre teve um lado bastante melancólico, primando sempre por composições muito ricas, misturando influências de gêneros musicais como rock, eletrônica e corais gospel. A chegada de Grahan catalisou todos esses elementos em uma sonoridade única, melancólica e bela, gerando um dos melhores álbuns dos últimos tempos. Por mais difícil que seja destacar os pontos altos do disco, arrisco citar “The Longest Day” e “Take Me Back Home” como destaques.

Alisson: O slowcore do Soulsavers não é uma unanimidade em termos de inovação. Apesar do fato de já ter contado com Mark Lanegan nos vocais e ter neste aqui a colaboração de Dave Gahan nos vocais e nas letras, o som resultante não é muito mais que apreciável. As letras de cunho existencialista, pendendo por vezes para solidão e melancolia, são bem diretas e as vezes acabam perdendo um pouco de sua força por conta disso. No que diz respeito ao instrumental, ele cumpre seu papel de melodias melancólicas para um público mais amplo. Orquestração suave e simples com passagens acústicas e uma cama de sintetizadores que ajudam a complementar o clima. Não é o tipo de música que me vejo ouvindo mais que uma vez, mas essa única vez não chega a incomodar tanto.

Davi: Não conhecia e gostei bastante. De todas as indicações dessa edição foi a que mais curti. Contando com a voz de Dave Gahan (Depeche Mode), esse projeto mantém a aura deprê do Depeche, só que apostando menos nos sintetizadores. Se em sua banda principal, muitas vezes, os sintetizadores dão a cara da música, aqui eles são utilizados para fazer meio que uma costura, tem mais som de banda mesmo. Durante a audição é possível pegarmos umas referências de U2, de Leonard Cohen até… O início com “In The Morning” e “Longest Day” é matador. Também gosto muito de “Take Me Back Home” e “Tonight”. Discaço!

Diego: Taí um projeto que eu não conhecia, estranho, pois ele envolve nomes grandes (e absurdamente díspares) da música mundial: Dave Gahan (Depeche Mode) e Mark Lanegan (Screaming Trees). Eu ainda preciso ouvir a discografia solo de Mark Lanegan, gosto bastante do Screaming Trees e Lanegan tem umas das vozes que mais me agrada da geração 90. Já Dave Gahan é o vocalista do Depeche Mode, pra mim não diz muito já que tentei ouvir a discografia da banda por várias vezes e nunca achei nada demais. The Light The Dead See é um disco interessante. Uma mistureba de Pop Rock acústico com elementos de música Gospel e muita melancolia deprê que faz a cabeça da galera gótica o-mundo-é-uma-droga-tudo-é-ruim-que-merda. Pra mim fica aquele gosto de bom disco mas que não vai além disso, um bom triste disco que as vezes podia ter mais variedade. Só.

Diogo: Qual foi minha surpresa ao perceber que o vocalista presente neste álbum é ninguém menos que Dave Gahan, do Depeche Mode. Não conheço os outros álbuns da dupla de produtores que integra o Soulsavers, mas posso afirmar que a parceria com Dave foi um sucesso. Sua interpretação fria combina majestosamente bem com a atmosfera que mescla elementos acústicos, sopros e cordas de The Light the Dead See. O álbum parece ter sido escrito como trilha sonora de algum filme de atmosfera desoladora, talvez um drama protagonizado por um envelhecido pescador norueguês ou um western revisionista daqueles em que ninguém alcança a tão sonhada redenção. A trinca inicial, com a instrumental “La Ribera” (cujo clima é totalmente western), “In the Morning” e “Longest Day”, é especialmente formidável. Tirando as duas indicações mais clássicas (Townes Van Zandt e Nick Drake), foi a audição mais agradável desta edição.

Fernando: A faixa de introdução do disco me sugeriu a música de abertura de algum filme western. Talvez, por ter procurado o nome da banda antes de começar a ouvir e ver que a classificam dentro do estilo de rock alternativo, eu tenha ido com uma predisposição de não gostar. Entretanto, pelo menos nesse álbum, o que se ouve do Soulsavers é bem diferente do que se imagina, fui me surpreendendo ao longo do álbum e acabei gostando bastante. Detalhe: que capa legal!!!

Mairon: Confesso que nunca tinha parado para escutar o Soulsavers, apesar de já terem me falado muito dele, em especial deste disco, que conta com a participação de Dave Gaham (vocal do Depeche Mode), e cara, gostei muito dele. Admirei as faixas instrumentais (“La Ribera” e “Point Sur Pt. 1”), peças curtinhas mas bastante marcantes, e os vocais de Dave, junto aos teclados e uma orquestração primorosa, amaciam os ouvidos em “In the Morning” e “Take Me Back Home”. É difícil não se arrepiar com o vozeirão de Dave acompanhado pelo piano em “Take” (com uma gaitinha surpresa no final), ou na companhia do violão dedilhado + orquestras em “Presence of God” e “Gone Too Far”. Para complementar, todo o disco tem um climão de Pink Floyd pós-Waters, principalmente na levada de “Bitterman” e “Tonight”, na linda “Longest Day” e no violão e vocalizações femininas de “Just Try”. “I Can’t Stay” é com certeza a faixa mais floydiana, triste e bonita de todo esse belo disco, o qual foi muito gratificante ouvi-lo.

Ulisses: Um disco bastante introspectivo e diverso em instrumentos. Uso intenso e cordas, violão, orgão e vocais de apoio, com uma voz lamuriosa que acerta no ponto certo para a temática deste Recomenda. As letras parecem lidar quase sempre com a questão da vida e da morte, mas as composições, embora bem produzidas, são meramente razoáveis e até um pouco repetitivas. “Just Try” é a única coisa aqui que eu chamaria de ‘ponto alto’.


Syd Barret – Opel (1988)
Recomendado por Fernando Bueno

Sei que alguns vão discordar dessa indicação. Alguns vão dizer que não é um álbum e sim uma coletânea de sobras, outros falarão que ele não se encaixaria no tema. Escolhi o lançamento de 1988 e não um dos dois álbuns lançados em 1970, porque quando soube do tema a primeira música que lembrei foi “Wouldn’t You Miss Me”. É de cortar o coração o teor dessa música que trata da compreensão do músico que, mesmo sem estar em seu perfeito estado mental, entende que sua saída do Pink Floyd pode relegá-lo ao ostracismo. Assim suplica ao ouvinte a não o esquecer. O que não é um pedido muito fácil de ser atendido, já que o material que ele gravou depois do Pink Floyd é de difícil digestão para o público em geral e muita gente sequer chega à esses discos. Essa faixa não consta nos discos anteriores e é nome até de uma coletânea sua, preferi porém indicar o Opel.

Alisson: As obras solo de Syd Barrett são uma viagem intensa por sua mente, triturada por ácidos e doenças psicológicas ao longo dos anos. Suas letras completamente piradas sobre histórias fantásticas e devaneios lisérgicos dão uma pista do estado deplorável pelo qual o música passava, e passaria até o fim de sua vida, em completo anonimato. Não é exatamente a música que inspira pensamentos tristes no ouvinte, e sim ter conhecimento prévio de sua vida e pensar que a alienação e loucura completa que inspiraram a criação destas obras.

Christiano: Opel é um disco de sobras de estúdio e takes alternativos. É um registro delicado, pois mostra Syd oscilando entre momentos de grande sensibilidade musical e alguma coisa próxima de um surto. Por transitar entre esses dois pólos, tem um ar meio enigmático, quase mítico. A figura e a história de Barret contribuem para tudo isso. Mas é sempre uma experiência fantástica poder escutar Syd praticamente criando sua música em estúdio. Essa crueza talvez seja o elemento mais instigante de Opel. Boa indicação.

Davi: A historia de Syd Barret realmente é muito triste e sua influência é inegável, porém esse trabalho somente é recomendado para aqueles que são muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito fãs do rapaz. Afinal, esse é um disco de material inacabado. A maioria das faixas registradas com violão e voz. Ou guitarra e voz. E, em alguns casos, como a da faixa-título, quase tão mal tocado quanto o disco das Shaggs. Se você é muuuuuuuuito fã de Syd, tem ele como um de seus maiores ídolos, vale para completar a coleção. Se você não se liga tanto no cara, abra o Spotify, escute a psicodélica “Clowns and Jugglers”, feche o aplicativo e vá ser feliz.

Diego: Opel é o ‘disco’ final de Barrett. Digo isso com certa reserva porque trata-se de uma compilação de Lados B e faixas não lançadas e até gravadas antes de seus dois discos solo The Madcap Laughs e Barrett, os dois lançados em 1970. A história de Syd todos conhecem, o início com o Pink Floyd, o abuso das drogas, ele se tornando um vegetal por conta disso e a banda o chutando pra bem longe pra mais tarde se transformar no gigante que todos conhecem. Muito se fala de como Syd Barret era brilhante, muito se fala de como ele era um gênio, de como ele tinha tanto pra mostrar… a única coisa que eu vejo em Opel (supostamente a melhor maneira de ver o tal gênio em ação sem nenhuma máscara) é uma pessoa perdida que faz uma música absurdamente simplista. Quando ouço uma música como ‘Opel’ me lembro de ‘Bike’, do primeiro disco do Pink Floyd, uma música de 3 acordes que se não fosse pelo restante da banda seria a coisa mais sem graça da face da Terra, bom, é isso que acontece aqui. Não me interessa o fato de que essas gravações não são as mais refinadas que se poderia ter, é até melhor assim, vemos como Syd não tem nada, o encanto veio por culpa do que aconteceu com ele, não pelo talento em si. Músicas cantadas completamente fora de tempo, faixas tão bobas e irrisórias que até as letras do Mamonas Assassinas parecem poemas profundos quando comparadas. Nunca mais vou conseguir de volta os 3 minutos da minha vida que eu perdi ouvindo uma coisa ridículas como ‘Rats’, por exemplo. Em suma, se você é uma daquelas pessoas que acredita que Syd Barrett era um gênio e que idolatra cada nota que ele gravou: esse disco vai te fazer gozar de emoção. Mas, se você é como eu que acredita que ele fez (bem) sua parte para a história de uma das maiores bandas da história mas que solo não passa de uma bobeira esquecível: fuja! PS 1: Muitos comparam Arnaldo Baptista ao Syd Barret pela história similar… Não me façam rir, Arnaldo está a anos luz de distância em todos os quesitos. PS 2: Mais uma vez, o que diabos esse disco tem de triste pra estar aqui? A melancolia encontrada nesse disco não tem nada de triste, trata-se única e exclusivamente de uma pessoa com um ‘parafuso a menos’.

Diogo: Não sei como são os álbuns de Barrett em carreira solo. Conhecendo, porém, seu trabalho em The Piper at the Gates of Dawn (Pink Floyd, 1967), notório pelo experimentalismo (e seu uso inteligente), surpreende um pouco dar play neste disco e me deparar com canções bem mais “peladas”. Seu vocal, que nunca achei grande coisa, acaba recebendo evidência em função disso e soa enfadonho em muitos momentos, como em “Rats”, “Golden Hair” e “Birdie Hop”. No geral, o álbum não passa tanta tristeza, mas evidencia a tormenta mental que Syd atravessava e acabaria fazendo com que ele se afastasse da música. O responsável pela indicação vai ter que me perdoar, mas não consegui apreciar muito daquilo que ouvi em Opel. Talvez “Clowns and Jugglers (Octopus)” e mais alguma coisa se salve, mas o álbum mal havia passado da metade e eu já não queria mais continuar ouvindo-o. Acho que a maior tristeza mesmo é ver o principal responsável por um dos discos mais desafiadores de sua época decair dessa maneira.

Mairon: Esse álbum é uma coletânea de faixas gravadas por Syd entre 1968 e 1970, e de tristeza, tem a voz danificada e agonizante de um Syd em seus piores dias, desafinado, destruído pelo LSD, tocando uma guitarra sem distorções e emulando acordes sem se quer executar um único solo. É um disco difícil de se ouvir, principalmente por que não é uma banda que está tocando, mas um músico que tenta com suas últimas forças exercer com dignidade sua profissão, o que surte efeito em poucas faixas, no caso “Rats”, “Swan Lee”, e a percussiva “Lanky (Part I)”, que lembra as viagens do primeiro disco do Floyd através do duelo de guitarra e xilofone (não creditado quem toca esse instrumento). A única faixa com banda é “Clowns & Jugglers”, onde Barrett está acompanhado de Mike Ratledge (órgão), Robert Wyatt (bateria) e Hugh Hopper (baixo), e que é uma boa faixa. As demais canções acabam sendo momentos de agonia para quem é fã de Barrett, por ouvir um grande músico perdido em um mar viajante que só ele consegue sobreviver, junto do seu violão. Assim como Disco Voador (Arnaldo Baptista), Opel merece ser guardado com carinho nas coleções dos fãs de Floyd e Barrett, mas com certeza, não é uma audição prazerosa no dia a dia.

Ronaldo: Sem entrar no mérito da insanidade das letras, o disco não soa triste na maior parte de sua duração. Soa sim, como aquela loucura que sempre foi fiel escudeira da carreira de Syd Barret; há melodias introspectivas, desafinos e dissonâncias propositais, mas as batidas do violão de Barret são frequentemente vibrantes. Em suma, nada que soe tão cinzento quanto a capa sugere.

Ulisses: Acredito que o colega que quem indicou este disco queira exibir o ~triste~ estado em que se encontra uma pessoa cuja mente foi devastada pelo uso excessivo de alucinógenos. Apesar de trazer apenas Syd e seu violão, não escapa de soar irrestrito e errático, como se espera de alguém com a saúde mental de Barrett. Traz algumas coisas interessantes, como a distante faixa-título e a explosiva instrumental “Lanky (Part One)”, mas nada essencial a quem não é fanático pelo cara.


Townes Van Zandt – Our Mother the Mountain (1969)
Recomendado por Diogo Bizotto

Foi fácil pensar em Townes Van Zandt quando a temática se apresentou. Sua obra é permeada por melancolia, abandono e desespero, refletindo sua própria trajetória. Nascido em uma família rica, Townes foi diagnosticado com transtorno bipolar e submetido a tratamentos que deixaram graves sequelas, descambando em depressão, alcoolismo e abuso de drogas. Sua obra, por mais genial que seja, não se viu traduzida em sucesso, ao menos por suas próprias mãos, e a vida na estrada passou longe dos grandes palcos. Difícil mesmo foi escolher qual o álbum mais adequado a esta edição. Optei por Our Mother the Mountain, que, além de provavelmente ser meu favorito, exala uma grande dose de desalento em suas faixas. Mesmo naquelas de temática mais leve, como “Be Here to Love Me” e “She Came and She Touched Me”, o ouvinte é envolvido por uma atmosfera que não tem nada de ameno. Quando o clima pesa de verdade, Townes mostra-se um intérprete de primeira linha, colocando para fora uma estirpe de música country com assinatura própria, contando grandes histórias, entra as quais a melhor é “Tecumseh Valley”, sobre uma moça que vê seus sonhos se despedaçarem e começa a se prostituir. Da saudade das montanhas do Colorado (“My Proud Mountains”) aos insucessos amorosos (“Snake Mountain Blues”), Townes sempre entrega seu coração às canções e emociona o ouvinte. Outros momentos imperdíveis residem na faixa-título e em “Kathleen”, de arranjos mais cheios. Conhecer seu trabalho até 1972 é obrigação moral.

Alisson: Our Mother the Mountain: A obra de Townes Van Zandt pode até ter tido um reconhecimento bem tardio (passou a integridade de sua carreira tocando em botecos, vindo a morrer na miséria), mas sua influência e importância são eternas. Ainda que passando por cima das letras em primeiro momento, sua música exala a conturbada vida do artista, sempre deixando transparecer a melancolia das melodias e o sofrimento em sua interpretação vocal doída. Em uma declaração curiosa de Scott Wino (Saint Vitus e mais um monte de outros projetos), um dos muitos que beberam da fonte do compositor, o mesmo se referiu ao artista como “o primeiro músico de doom metal da história”, e vendo a música de Townes em sua essência, não é algo tão absurdo de se pensar. Essencial é pouco.

Christiano: Eu não conhecia nada de Townes Van Zandt. Após escutar Our Mother the Mountain, tive aquela agradável sensação de que ainda existem muitas coisas boas para serem desbravadas por aí. É um disco muito bom. Em alguns momentos (a faixa título e “St. John The Gambler”, por exemplo), me lembrou algumas coisas do Gene Clark, o que é uma ótima referência. Dizer que é um disco com raízes na música country e no folk é reduzir demais as qualidades desse belo álbum, que é, acima de qualquer coisa, muito agradável e, também, melancólico.

Davi: Esse foi um dos que mais gostei dessa lista. Disco muito bem feito. Arranjos deliciosos, trabalho vocal de acordo. Não sou especialista em sua obra, portanto, não sei dizer o impacto desse disco, mas pelo que andei pesquisando parece que foi grande. Muitos fãs de country consideram esse disco um clássico do gênero. “Be Here to Love Me” é genial, “She Came and She Touched Me” é fantástica. Também gosto muito de “Tecumseh Valley” e “My Proud Mountains”. Vou procurar mais coisa desse cara.

Diego: Geralmente quando se fala em country a pessoa tem uma imagem definida do estilo: música de rodeio com muito violino e com um andamento rápido. Agora, se você é brasileiro provavelmente virão na sua cabeça uma outra coisa: Chitãozinho & Xororó cantando “Na Aba Do Chapéu’. Se você conhece pelo menos alguns nomes mas não ouve o gênero, provavelmente você vai lembrar de Garth Brooks e Alan Jackson, talvez Willie Nelson. Se você é como eu, você ouvir falar de todos esses nomes, nunca ouviu um disco de nenhum e nunca ouviu falar de Twones Van Zandt.  O country pode ser complicado com suas letras de ‘dor de corno’, ‘festa do interior’ e ‘eu sou o melhor vaqueiro desses pagos’ (se você é do sul isso também pode ser aplicado na música gaúcha). Mas a verdade é que alguns artistas como John Denver, Jim Croce e, acabo de descubrir’ Townes Van Zandt podem ser absolutamente interessantes e fora desse foco, com muito mais profundidade e qualidade. Em Our Mother The Mountain a dor do cara sofrido que não dá sorte na vida (e nem no amor) está por toda a parte, acompanhada, geralmente por violão e harmônica, mas nesse caso também acompanhado em alguns momentos por espertas orquestrações que fazem com que o disco ‘quase’ pareça baroque pop por alguns momentos (eu disse quase). Discaço! De fato quem escolheu o disco acertou em cheio (valeu pela indicação) já que a dor e a tristeza permeiam todas as 11 faixas e fazem parecer que Townes não tem absolutamente nada na vida que valha a pena. Vou ter que ouvir os outros discos do músico pra saber se toda a discografia dele é permeada por essa dor toda. Se for, que vida sofrida!

Fernando: Não esperava termos um artista country na lista. Sei que o tema é bastante abrangente, mas eu esperava um monte de chorões indie e temos bem mais que isso nessa lista. Esse tipo de country deve ser o mais próximo ao que estamos acostumados a chamar de sertanejo raiz aqui no Brasil (esqueça as outras definições do estilo que temos por aí). O amor e a vida no campo e longe da civilização é o tema, mas a melancolia é palpável. Entretanto, não é meu estilo.

Mairon: Country leve que nos coloca no interior dos Estados Unidos, com uma palha sendo mascada no canto da boca e uma sensação do calor emanado dos pântanos da Flórida enquanto o pica-pau luta contra Zé Jacaré. Essa foi a visão que me veio ao ouvir esse álbum, que desperdiçou 40 minutos da minha vida. Vocal choroso, instrumental pobre, com exceção do arranjo orquestral de “Second Lovers Song” – lembrou um pouco Moody Blues – e que foi um dos poucos momentos que admirei, ao lado da bela faixa-título e de “Snake Mountain Blues”. Enfim, não tenho nada mais o que falar disso, já que country desse estilo não me agrada (aturar “Why She’s Acting This Way” foi complicado), mas talvez não seja culpa do artista, e sim minha. Apenas complementando, chuto que foi o Diogo quem indicou essa dolorida audição. Acertei??

Ronaldo: “Kathleen”, a segunda faixa desse trabalho, é um bom exemplo de música triste. Profunda em tons menores, com base minimalista e com um arranjo certeiro na dramaticidade. Ao longo do disco, canções country nostálgicas e lentas tem uma beleza singela, capitaneadas pela voz grave de Townes Van Zandt. O disco não tem bateria (apenas leves percussões) ou guitarras elétricas, peculiaridades que jogam a favor do disco. Talvez o vocalista tenha aprendido algum equivalente em inglês para a palavra “saudade” e pintou suas composições com essas tintas.

Ulisses: Esse cara escreve bem pra cacete. É muito legal acompanhar as letras e ver a forma vívida e imaginativa com que detalha as histórias. “Our Mother the Mountain” é perturbadora; já “Kathleen” parece ser uma canção de suicídio. Os arranjos típicos do country/folk melancólico tornam essa lírica inquietante. Já a parte musical não me convenceu – em momento algum vi algum tipo de arranjo ou melodia de tirar o folêgo, e o uso de cordas e instrumentos de sopros para acompanhar é utilizado em moderação, mas não salva Our Mother de ser apenas um álbum que varia entre razoável e bom.


Virgin Black – Requiem – Mezzo Forte (2007)
Recomendado por Ulisses Macedo

Eu não sei quantas bandas existem que praticaram o cruzamento entre o metal e a música clássica, mas certamente os australianos do Virgin Black devem figurar em destaque dentro dessa rodinha. Se a banda – liderada por Rowan London (voz, teclados) e Samantha Escarbe (guitarra) – já chamava atenção desde suas primeiras aparições na segunda metade dos anos 90, foi com a ambiciosa trilogia Requiem que atingiram altos patamares na música gótica. Mezzo Forte, álbum que procura balancear delicadamente o peso angustiante do doom metal gótico com a erudição da música clássica, mergulha o ouvinte numa melancolia sempre trágica e fúnebre, através de um intenso casamento alquímico com a Orquestra Sinfônica de Adelaide, algo que não retirou o aspecto metálico da banda: a guitarra de Samanatha continua pesadíssima, e Rowan apenas não usa seu gutural tanto quanto antes, pontuando-o somente em momentos necessários, caso da intimidadora “Domine”. O evocativo tenor de Rowan recebe a visita de um coral e da soprano Susan Johnson, dando vida a uma trilha sonora de lamúria banhada no imaginário católico e no Romantismo gótico, que desperta sensações ímpares naquele que a ouve com atenção – algo que os oito minutos de “In Death” comprovam com facilidade. A banda seguiu esse registro com o pesado Fortissimo (2008) mas, infelizmente, Pianissimo, a parte explicitamente clássica e sinfônica da trilogia, nunca foi lançada.

Alisson: Com letras lecionadas diretamente de discos como First and Last and Always (The Sisters of Mercy) e Seventeen Seconds (The Cure), o Virgin Black guia sua lírica gótica, com altas doses de sofrimento sofisticado e romances tortuosos por uma sonoridade bem polida e amarrada, mas com apelo zero comigo. Funciona, mas em doses homeopáticas.

Christiano: Essa coisa de misturar vocais líricos com gothic metal cheio de orquestrações não me agrada. Por isso, acho melhor não me estender nos comentários. Para quem gosta do estilo, pode ser uma boa pedida. Não é o meu caso.

Davi: Muito bem gravado, o CD apresenta características diversas. Guitarras sujas, orquestrações, vocal lírico, vocal limpo, coros quase como cantos gregorianos. Mas apresenta um defeito. Todos os arranjos são arrastados e quase todas as faixas são longas (a maioria variando entre oito e dez minutos). Ainda que seja um trabalho bem construído, sua audição torna-se cansativa. Foi interessante conhecer, mas não compraria. Sem destaques.

Diego: Gothic metal australiano… Somente isso deveria bastar para sabermos deveríamos passar longe da tal banda Virgin Black (que nome mais fantástico, não!?)! Gothic metal é a atrocidade mais insuportável que a música, e o metal, já inventou. O cara que decidiu que era uma boa ideia unir o heavy metal com música clássica, cantores ‘eruditos’ (leia erudito com muita ironia) e toda a ‘goticidade’ do mundo deveria queimar na fogueira (HA!). Confesso que Requiem: Mezzo Forte não é o pior disco que já ouvi nesse estilo (o título vai pra qualquer coisa que o Leaves’ Eyes já gravou), sendo muito bem produzido e cheio de momentos interessantes. Tudo bem que o disco tem pouco metal gótico, mais lembrando o Therion e o symphonic metal com pitadas de doom metal. Mas não tem jeito, pra mim vai tudo no mesmo balaio! Mas a verdade é que pra mim esse som não desce, o que os fãs do estilo tomam por beleza eu vejo como uma chatice sem fim. Mas reconheço o esforço dos australianos.

Diogo: Tenho um certo probleminha para apreciar formações que praticam essa fusão de gothic/doom metal com erudito. Na realidade, o Virgin Black até que é competente em sua ambiciosa proposta e deve ser um deleite para quem gosta disso, que é o caso do nosso colega (alagoano?) que indicou esta obra. Para mim, no entanto, os 52 minutos do disco passaram de forma mais arrastada que as suas longas faixas. Em determinados momentos, fica bem claro que o resultado poderia ser melhor se a banda explorasse caminhos mais extremos. Umas pitadas de My Dying Bride, por exemplo, cairiam bem.

Fernando: Em um primeiro momento eu fiquei com uma disposição de gostar do disco por curtir bastante esse metal sinfônico feito por bandas como o Therion. Porém fiquei incomodado logo na primeira faixa pois fiquei esperando a música “começar” e me pareceu que o freio estava sempre puxado. Aquele clima, que me parecia só introdução, se manteve até o fim e apesar das boas melodias não agradou. Pegue um disco de 45 rpm e toque-o em 33.1/3 rpm, as músicas ficarão longas, os instrumentos arrastados, a bateria vai bater a cada segundo. Essa é a experiência que você terá. O doom metal ficou potencializado com as orquestrações. O clima ficou ainda mais carregado, pesado, não musicalmente, e realmente traz tudo aquilo que o tema do Alisson pedia.

Mairon: Cara, esses sons pesados com orquestras e corais não é para mim. Aguentar quase uma hora dessa pomposidade que não me disse nada … só pela Consultoria do Rock mesmo. Ok, o trabalho é bem feito, deve ter relevância para o gênero, as vezes a orquestra aparece com destaque, mas bah, que demorou para passar, demorou.

Ronaldo: Uma das escolhas que mais se ateve ao tema proposto, o disco de fato é forte e densamente carregado em uma sonoridade sombria e triste. Nisso reside também suas limitações; o ouvinte acabaria perguntando-se, de forma pertinente, se a banda é capaz de algo diferente disso. O fato das músicas serem longas e pouco variadas corrobora com a hipótese. A interpretação vocal transmite integralmente o clima do disco, com guitarras bastante seguras e instrumental competente perpassando todo o disco, que frequentemente assume também um tom dramático e épico.

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60 Comentarios

  1. Nathan disse:

    Me surpreendi com a escolha do Elomar… Que ótima lembrança. Jamais teria pensado nesse álbum.

    Um dos álbuns mais densos e tristes que já ouvi foi o Death is Just a Feeling, do Amadeus Awad. Nele, o cantor fala sobre sua tentativa de suicídio.

    Outro bem barra pesada é o At the Expense of Humanity, do Judicator. O power metal pode até enganar e parecer que se tratará de mais um álbum sobre batalhas épicas e elfos saltitantes. Mas na verdade o tema é o câncer. Bem pesado.

    • maironmachado disse:

      Obrigado Nathan. Elomar é uma joia a ser buscada por todos os apreciadores de música. Abraços!!

  2. Diogo Bizotto disse:

    Estou PERPLECTO! Deve ter sido a edição na qual minha indicação foi mais bem recebida. Cinco comentários positivos e apenas um realmente negativo, deve ser um novo recorde.

  3. Diogo Bizotto disse:

    Em alguns momentos (a faixa título e “St. John The Gambler”, por exemplo), me lembrou algumas coisas do Gene Clark, o que é uma ótima referência.

    Concordo, Christiano, também acho que há alguma intersecção entre o trabalho de Townes e o de Gene. Inclusive, Gene também passou pela minha cabeça quando precisei escolher minha indicação. No entanto, achei que não se encaixaria tão bem na temática. Além disso, ainda tenho planos para Gene aqui na Consultoria.

    • Christiano disse:

      Eu estou em uma onda de escutar muito o “No Other”. Quando ouvi o Townes, fiz a ligação na hora. Foi um dos discos de que mais gostei da lista.

      • Diogo Bizotto disse:

        Eu também tenho escutado esse disco diretaço e inclusive ele está rolando agora mesmo. É quase perfeito, um dos melhores da década. “Strenght of Strings” é coisa de outro mundo. Já viu o documentário “The Byrd Who Flew Alone”, sobre a carreira dele? É maravilhoso.

        • Christiano disse:

          Não conhecia esse documentário. Vou colocar na fila pra eu assistir.
          Valeu por mais essa dica!

  4. Diogo Bizotto disse:

    …mas nesse caso também acompanhado em alguns momentos por espertas orquestrações que fazem com que o disco ‘quase’ pareça baroque pop por alguns momentos (eu disse quase).

    Faz bastante sentido, especialmente em relação a “Kathleen”, “Second Lovers Song”, “St. John the Gambler” e a faixa-título. Considerando que alguns overdubs foram gravados em Nashville (as faixas básicas foram em Los Angeles), isso faz mais sentido ainda, já que esse “lustro” é algo mais típico do country de lá (mas não exclusivo).

  5. Diogo Bizotto disse:

    Vou ter que ouvir os outros discos do músico pra saber se toda a discografia dele é permeada por essa dor toda. Se for, que vida sofrida!

    Vai na fé, Diego. Em outros álbuns há material ainda mais forte nesse sentido. Há uma música chamada “Nothin’”, do álbum “Delta Momma Blues”, que certamente é uma das coisas mais tristes já gravadas. “Waiting Around to Die”, do álbum que leva o nome do artista, é outra. Sente o teor de um trecho da letra:

    Now I’m out of prison, I got me a friend at last
    He don’t steal or cheat or drink or lie
    His name’s codeine, he’s the nicest thing I’ve seen
    Together we’re gonna wait around and die

    Não é difícil encontrar no YouTube um vídeo de Townes tocando essa música, extraído de uma documentário. Há um senhor ao lado dele e o cara chega até a chorar durante a execução.

  6. Diogo Bizotto disse:

    Country leve que nos coloca no interior dos Estados Unidos, com uma palha sendo mascada no canto da boca e uma sensação do calor emanado dos pântanos da Flórida enquanto o pica-pau luta contra Zé Jacaré.

    Não poderia estar mais distante da realidade.

    • Ronaldo disse:

      Não sei o mais sensacional aqui foi o comentário original ou a resposta ao comentário. Fiquei em dúvida.

  7. Diogo Bizotto disse:

    …já “Kathleen” parece ser uma canção de suicídio.

    Boa percepção, Ulisses. Não havia pensado nisso.

  8. Diogo Bizotto disse:

    Quando era criança ouvi diversas histórias sobres esses quadros de crianças chorando. O curioso é que mesmo todo mundo falando que era relacionado com o demo, todas as casas tinham um.

    Já eu sempre achei estranhíssimos os quadros com Charles Chaplin, que também estavam por tudo. A conversa era que, não importasse de que ângulo você estivesse olhando, sempre pareceria que os olhos do personagem estavam te encarando.

    • Fernando Bueno disse:

      Pior que no local onde eu normalmente dormia quando visitava as minhas DUAS avós tinha um quadro desse (quarto de uma e sala de outra). Imagina só todo mundo falando a noite sobre o quadro, o demos e o escambau e depois ter que dormir ali….hahahahahaha

  9. Diogo Bizotto disse:

    A ressalva fica por conta do vocalista: enquanto se contém, entrega a performance soturna que precisa; quando não, soa comicamente ruim.

    Com isso eu concordo mesmo. O cara é melhor sussurrando que cantando.

  10. Diogo Bizotto disse:

    Composições pouco inspiradas tentando se encaixar em letras cuja métrica e sentido eram maiores (inclusive em tempo de duração) do que caberia naquele tipo de som.

    Perfeito. Isso é algo que me incomoda bastante, inclusive quando artistas dos quais gosto muito insistem em fazer isso. Letra é muito mais que palavras encaixadas sobre uma música. Como esse encaixe é feito e a harmonia que forma com a música também são partes integrais de uma letra.

    • Ronaldo disse:

      A desarticulação entre letra e música nesse caso é atroz! nem o Raul Seixas em seus piores momentos arranharia algo assim.
      Abraço,

      • maironmachado disse:

        HAUAHUAHUAHUAUH

        JON ANDERSON RULES!!

      • Diogo Bizotto disse:

        Pior que tem banda aí cujos fãs A-D-O-R-A-M determinadas músicas que sofrem exatamente desse mal. É uma contação de história desgraçada que acaba prejudicando a música.

        • Ronaldo disse:

          olha que indireta hein?!

          • Diogo Bizotto disse:

            Nem falo em indireta, Ronaldo, na verdade gosto muito dessa banda. Acho, porém, que algumas acepções sobre esse grupo merecem ser questionadas, e essa é uma delas.

  11. Diogo Bizotto disse:

    Conhecendo, porém, seu trabalho em The Piper at the Gates of Dawn (Pink Floyd, 1967), notório pelo experimentalismo (e seu uso inteligente), surpreende um pouco dar play neste disco e me deparar com canções bem mais “peladas”.

    Acredito que o comentário do Diego a respeito desse disco já seja uma boa resposta/complemento a esse trecho de minha autoria.

    • maironmachado disse:

      E o Diego literalmente desceu a lenha no Opel. Fiquei até corado aqui …

      • Diego Camargo disse:

        Peguei pesado? Geralmente eu tento me conter nas minhas opiniões e tentar respeitar a dos outros, mas as vezes, como nesses do Barrett, não dá! 😛

        Diogo: Incrível como as nossas opiniões sobre o disco foram bem parecidas, você só não chutou o pau da barraca como eu fiz. As opiniões são bem aprecidas, você só colocou de uma forma educada e eu mandei tomar no c* xD

  12. Diogo Bizotto disse:

    Eu tenho a forte impressão de que não apenas o ouvinte brasileiro médio, mas mesmo o ouvinte brasileiro mais especializado, atento, desconhece quase por completo a música country da América do Norte. Desconhece a dimensão que ela tem e a sua geografia, que não é restrita a alguns espaços mais associados ao gênero (Nashville, por exemplo). Da rabeira dos Apalaches ao Sul da Califórnia, passando pelas grandes planícies, pelas Rochosas e subindo Canadá adentro, há uma história muito rica, subgêneros e variações locais. A associação com a vida de rodeios e o trabalho de cowboys é apenas um dos elementos dessa história. E mesmo artistas ligados a isso vão muito além. Garth Brooks fundiu o neotradicionalismo com elementos do rock de arena e se tornou o maior de todos os tempos. Dwight Yoakam, um dos meus favoritos, saiu do Kentucky e foi tentar a sorte em Los Angeles, onde chegou a abrir shows de bandas de punk rock. Isso apenas pra citar dois que me deram na telha. A riqueza é grande. Townes Van Zandt tem a ver com Conway Twitty tanto quanto Pink Floyd tem a ver com Oasis. Compartilham a mesma nacionalidade e o mesmo gênero musical raiz, mas as diferenças são enormes. E por aí vai… Na real, sequer acho que tenho gabarito pra discutir o assunto com a propriedade que gostaria.

    • maironmachado disse:

      Mas pelo menos poderia fazer um 5 Discos Para Conhecer. Por que te confesso, tem muito nome que nunca ouvi falar do country rock, mas os mais tradicionais tem várias coisas interessantes. Esse que nos apresentasse, vamos dizer assim, achei meio a meio. Mas não é dos piores não.

      • Fernando Bueno disse:

        Boa Mairon. Juro que eu vou ouvir todos os albuns se vc fizer isso Diogo…

      • Diogo Bizotto disse:

        Como eu disse, eu não tenho gabarito pra discutir esse assunto da maneira que ele merece. Fazer uma edição da seção “cinco discos” abordando o country seria como fazer a mesma coisa relacionada ao rock. É um território amplo demais e por mim ainda pouco desbravado. Mesmo em relação ao country rock ainda tenho muita coisa a conhecer pra me julgar habilitado a fazer alguma coisa do tipo. Mas é uma ideia a se avaliar.

        • André Kaminski disse:

          Cara, de boa, acho que merece um 5 discos sim. Dentro do rock, o country rock é bem pouco conhecido e valorizado no Brasil. Acho que você consegue sim selecionar 5 discos fora do lugar comum que interessaria a todos daqui do site.

  13. Christiano disse:

    O Ronaldo não comentou o disco que eu indiquei.

  14. António Marcos disse:

    De modo geral a lista foi bem interessante. A grande ausência foi Berlin de Lou Reed. Ps.: The Shaggs é mito.

  15. maironmachado disse:

    “Tem tanto ou mais valor do que tantas outras tidas como grandes clássicos da música brasileira e muito mais reconhecidas pelo público.”

    Perfeito Diogo. E em comparação com nomes como Gilberto Gil e Caetano Veloso, conterrâneos de Elomar, acho que o Mestre dos Bodes está anos-luz à frente!!

    • maironmachado disse:

      Obrigado pelo seu comentário para o disco do Elomar, Diego. Belas e sábias palavras!

      • Diego Camargo disse:

        Nada Mairon! Valeu por me fazer lembrar desse disco. Quando eu escuto o Elomar sempre acabo voltando pro Quadradas rs

        • maironmachado disse:

          Eu acho esse o melhor, seguido do Quadradas e do Auto da Catingueira. Cartas, Árias e Na Barranca vem na sequência, isso sem incluir os ótimos ConSertão, Parcelada Malunga e os três Cantorias, além dos dois ao vivos. Aquele na Alemanha é LINDO!!

    • António Marcos disse:

      Elomar só está abaixo de Walter Franco e Ze Ramalho.

  16. maironmachado disse:

    Alguns descendo a lenha no disco do George Michael. Surpreendente …

  17. maironmachado disse:

    “uma colega da oitava série usou a letra de “Dezesseis” na íntegra em uma redação e a professora não percebeu a malandragem. Acho que até tirou uma boa nota.”

    KKKKKKKKKKKKKKKKKKK

    IMPAGÁVEL!!!!

  18. maironmachado disse:

    E pelo jeito, Pink Moon foi o mais elogiado dos citados. Discaço!!

  19. Francisco disse:

    Parece que o único álbum óbvio da lista foi o “Pink moon”, de Nick Drake. Surpreendentemente, ninguém citou “Songs of Leonard Cohen” ou “Songs of love and hate”, o que seria outra obviedade. Outras obviedades: Joy Division, Tom Waits, Radiohead, The Smiths… Townes Van Zandt foi uma boa surpresa na lista. Elomar, então… Na boa, “Incelença pro amor retirante”, especialmente na versão de Xangai, é de uma beleza inexplicável… Apesar de sua enorme tristeza.

    • Ulisses Macedo disse:

      Teoria dos jogos: “alguma pessoa já vai escolher um disco óbvio, então eu vou mandar um obscuro”. Todo mundo pensa assim e acaba não saindo quase nenhum óbvio. :p

    • maironmachado disse:

      Meu caro, vc já viu o show de adaptação da obra “Auto da Catingueira”? O que o Xangai canta e toca nesse show é algo!!

      • Francisco disse:

        Xangai é uma outra fera subestimada. Aliás, sua participação na novela “Velho Chico” fez o nome dele voltar à voga…

        • maironmachado disse:

          Não vejo o canal da Bobo há algum tempo. Não sabia que ele tinha participado dessa novela. Mas que o cara é fera, é fera!

    • Francisco disse:

      Outra obra-prima do baixo astral: “Nebraska”, do Bruce Springsteen…

      • Diogo Bizotto disse:

        Sem dúvida, Francisco, esse disco é desesperança pura. Mesmo “Reason to Believe” não chega a ser otimista, afinal de contas, as razões para acreditar não são necessariamente as melhores. Não considerei sua indicação por já saber a reação da maior parte dos participantes, uma vez que ele já apareceu citado na edição dedicada a 1982 da série “Melhores de Todos os Tempos”.

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