Discografias Comentadas: David Coverdale

9 de dezembro, 2012 | por Diogo Bizotto
Discografias Comentadas
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Por Diogo Bizotto

Pouquíssimos artistas tiveram importância tão grande em minha vida quanto David Coverdale. Seja em sua breve, porém intensa e produtiva fase no Deep Purple, ou com seu bem sucedido Whitesnake, o vocalista e compositor escreveu uma parte essencial da trilha sonora de minha vida, oferecendo, através de seu talento, uma voz amiga frente a adversidades, alegria contagiante nos momentos de confraternização e até uma mãozinha na vida amorosa.

Rica em qualidades, mas bem menos lembrada que esses dois verdadeiros gigantes do rock, é sua curta carreira como artista solo, que se revelou em dois momentos: entre 1976 e 1978, imediatamente após ter sido decretado, pela primeira vez, o fim das atividades do Deep Purple e logo antes da formação do Whitesnake; e de 1999 a 2001, em uma das pausas ocorridas na carreira da Cobra Branca.

Nesta discografia comentada não incluirei o álbum Coverdale – Page (1993), por entender não se tratar de um disco solo, mas de um trabalho dividido igualmente com o guitarrista, multi-instrumentista e produtor Jimmy Page (Led Zeppelin). Para complementar a leitura, não deixe de conferir as discografias comentadas de Deep Purple (parte 1 e parte 2) e Whitesnake, já publicadas no blog.


[1977] White Snake

A entrada de David Coverdale e do baixista e vocalista Glenn Hughes no Deep Purple deu sinais, desde Burn (1974), que a dupla tinha personalidade musical marcante, ajudando a moldar a nova sonoridade do grupo, algo que se sobressaiu com força ainda maior em Stormbringer (1974) e Come Taste the Band (1975).

Mais do que se revelar um excelente vocalista de rock, Coverdale mostrou ter influências mais diversas do que a turma de Ritchie Blackmore e cia, bebendo especialmente na fonte da música negra norte-americana, mais especificamente no blues, no soul e no rhythm ‘n’ blues. Para quem percebeu esse fato, o lançamento de White Snake, o álbum, não soou estranho.

Pesadas doses de música negra, além de muita malandragem, sopros e backing vocals dão a tônica do disco, que abre com o divertido boogie “Lady”, trazendo o guitarrista Micky Moody (que depois integraria o Whitesnake por muitos anos) ao lado do “patrão”, inclusive compondo quatro das nove músicas presentes junto a Coverdale. A segunda canção segue um caminho que o vocalista começou a traçar no Deep Purple e que se intensificaria ainda mais no futuro: a criação de marcantes baladas.

E não se trata de qualquer uma: a melancólica “Blindman” é, com facilidade, uma das melhores composições de sua carreira e, não à toa, seria regravada em Ready an’ Willing (1980), do Whitesnake, soando ainda melhor, apesar dos belíssimos e chorosos solos de Moody e do bem postado órgão, tocado por Tim Hinkley. “Goldies Place” traz o baixo em destaque, enquanto a canção que daria nome à principal empreitada da carreira de Coverdale manifesta seu humor sacana através de um rock carregado de sopros. “Time on My Side” é dona de um andamento quadrado e dançante que lembra um tanto “Sail On” (presente em Burn) e é uma boa adição ao track list.

No ramo das baladas, David ainda apresenta “Peace Lovin’ Man” – soul como o vocalista nunca mais faria –, levada por um belo coro feminino e pontuada por um solo de saxofone tocado por Ron Aspery; e a ótima “Hole in the Sky”, que segue a mesma linha melancólica e carregada de blues encontrada em “Blindman”, também constituindo um destaque óbvio. A menos inspirada – porém boa – “Sunny Days” e a festeira “Celebration Day” fecham a conta, destacando a levada de bateria executada pelo exímio Simon Phillips (Toto, Judas Priest, MSG, Jeff Beck e vários outros) na última.

Além dos citados, o line-up é completo pelo baixista De Lisle Harper, e conta com o também ex-Deep Purple Roger Glover na produção. White Snake pode passar longe de ser um dos melhores registros da carreira de Coverdale, e sua variedade indica que ele estava tentando encontrar seu próprio estilo em meio aos desafios que o fim do Deep Purple trazia ao jovem vocalista na busca por consolidar seu nome em meio à frutífera cena setentista. No entanto, seu resultado é positivo o suficiente para merecer muita atenção, especialmente graças a suas belas baladas, melhores do que algumas que fariam muito mais sucesso em sua época à frente do Whitesnake.


[1978] Northwinds
 
A sensação mais evidente que se percebe ao ouvir Northwinds é o amadurecimento de Coverdale em dois pontos essenciais: sua capacidade como compositor, dessa vez polindo alguns excessos soul e excluindo boogies mais inocentes, investindo em canções rock carregadas de blues, algo que se tornaria sua especialidade dali em diante; e sua habilidade como vocalista, oferecendo algumas de suas melhores performances.
 
O início um tanto tímido com a funkeada “Keep on Giving Me Love” é bom, apesar de um pouco deslocado, e engana aqueles que imaginavam um álbum seguindo a mesma linha de White Snake. A faixa que dá nome ao disco mostra a que veio logo em seguida e apresenta um Coverdale com habilidades renovadas. “Northwinds” é, mais do que uma fantástica balada, uma das melhores canções já criadas pelo vocalista, nivelando por cima composição, performance e letra.
 
“Give Me Kindness” remete às músicas carregadas de sopro presentes no disco anterior, mas tem sua qualidade um degrau acima. Como curiosidade, é possível citar a presença do vocalista Ronnie James Dio (Dio, Rainbow, Black Sabbath, Elf) e de Roger Glover – novamente produzindo o disco – nos backing vocals, assim como suas esposas, Wendy e Judi, e a mulher do também ex-Deep Purple Jon Lord, Judy.
 
A triste “Time and Again” traz apenas a voz de Coverdale acompanhada por teclado e suaves cordas e indica, em alguns momentos, que sua capacidade vocal, mesmo tendo sido aprimorada, cresceria ainda mais nos anos por vir. Apesar da condução pelo piano, a guitarra também intervém em “Queen of Hearts”, mais uma a engrossar o rol de ótimas músicas presentes em Northwinds, um disco que, infelizmente, há décadas é negligenciado nas apresentações ao vivo do Whitesnake.
 
A única exceção é a balada – sim, mais uma – “Only My Soul”, que esporadicamente tem seu refrão executado a capella por Coverdale ou acompanhado apenas de um violão. É uma pena que esses momentos sejam tão raros e breves, pois trata-se de mais uma composição de altíssimo nível, apresentando uma banda – acrescida do baixista Alan Spenner e do baterista Tony Newman – afiada e uma interpretação magistral. O álbum ainda reserva mais uma balada na forma de “Say You Love Me”, seguindo a linha de “Hole in the Sky” e novamente com um solo de saxofone de Ron Aspery, seguido por outro belo solo, mas de Micky Moody.
 
Destoando do clima mais tranquilo do resto do disco, “Breakdown” encerra Northwinds apresentando-se como um hard rock mais próximo daquilo que Coverdale viria a fazer no Whitesnake dali em diante. Além disso, sua letra, inspirada na derrocada do Deep Purple, exorciza o que havia ficado para trás e abre caminho para uma nova fase na vida do artista, que logo formaria aquele que, além de ter se transformado em seu projeto mais bem sucedido, fez com que sua carreira fosse, de longe, a mais bem sucedida entre os membros do Deep Purple após o primeiro encerramento das atividades do grupo, superando, inclusive, seu próprio retorno, em 1984.


[2000] Into the Light

Foram necessários 22 anos e três pausas na carreira do Whitesnake para que Coverdale retomasse sua história como artista solo. Into the Light é um disco variado, mas não porque o vocalista estava indeciso, em busca de direcionamento, e sim pois suas quase três décadas de rock o credenciavam para apresentar o trabalho que bem entendesse, com os músicos que quisesse.

Não à toa, o line-up em cada canção é variável, destacando a presença de instrumentistas de elevado gabarito, como o guitarrista Earl Slick (David Bowie, John Lennon, Leo Sayer) – que compôs grande parte do material com o vocalista –, os baixistas Marco Mendoza (Thin Lizzy, Whitesnake, Ted Nugent) e Tony Franklin (The Firm, Blue Murder, Roy Harper), além do baterista Denny Carmassi (Montrose, Heart, Whitesnake, Coverdale-Page).

A maioria das músicas remete a alguma fase da jornada do artista e inclusive poderia se encaixar em álbuns lançados no passado. Uma das exceções é a dupla que abre o disco: “The River Song”, introduzida pela breve e instrumental faixa-título, é uma das mais ambiciosas canções registradas por Coverdale, evidenciando sua veia zeppeliana mas soando mais épica do que qualquer outra música gravada antes pelo músico.

Logo ao dar o play no álbum fica evidente a qualidade elevada de sua produção – executada pelo próprio vocalista e alguns associados – e de sua mixagem, equilibrando guitarras e teclados em bom volume sem se sobrepor ao restante dos instrumentos. Por outro lado, também é perceptível o fato de que sua voz já dava sinais de desgaste, soando um pouco cansada em alguns momentos, algo que já podia ser percebido em Restless Heart (1997) e especialmente no acústico Starkers in Tokyo (1998), lançamentos anteriores do Whitesnake.

É preciso ter em mente, porém, que esse desgaste é percebido em comparação com o bombástico desempenho apresentado em discos como 1987 e Slip of the Tongue (1989), também do Whitesnake. Basta ouvir uma música como a quase heavy metal “Don’t Lie to Me” para perceber que a capacidade vocal de Coverdale continuava mais do que satisfatória, enquanto a faixa soa como se tivesse sido extraída de um desses registros.

Outras canções, como a suingada “Cry For Love”, a boa balada “Don’t You Cry”, “Living on Love” e “Midnight Blue” soam como progressões naturais do material apresentado em Restless Heart, resgatando, em parte, a sonoridade do Whitesnake da primeira metade dos anos 80, porém atualizadas e até melhor finalizadas do que no disco lançado em 1997. A sacolejante “She Give Me”, por sua vez, lembra o álbum Coverdale-Page, assim como “Slave”, que remete às letras mais sacanas de Coverdale. Completam o track list o single “Love Is Blind”, uma balada estilo meia-idade, porém de qualidade, a acústica e etérea “Wherever You May Go” e a regravação semiacústica de “Too Many Tears” (Restless Heart), menos interessante que a original. Em se tratando da carreira solo de Coverdale, Into the Light carece um pouco da consistência de Northwinds, mas ainda assim é um belo disco, que se revela melhor a cada audição.



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